Conteúdo e forma…

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Existem momentos na vida em que eu daria tudo para não ter dúvidas sobre qual é a frase certa a ser dita, sobre quais palavras podem tocar mais profundamente um pequeno e ansioso coração, sobre qual tom de voz é capaz de exprimir melhor a firmeza e o amor primordiais para que a compreensão seja realmente plena.

Mesmo imerso em incertezas, procuro repetir muitas das palavras que me nortearam e apaziguaram um dia. Ao repeti-las, busco empostar a voz para que, tão somente no meu afã, o tom adotado consiga convocar a doçura que transformava cada frase bem construída em profundo e melodioso aprendizado. Que bobagem! Palavras e maneira de dizê-las continuam únicas e inimitáveis. E apenas ecoam na minha memória como um dialeto para o qual não há tradução ou, pelo menos, como uma língua de dublagem limitada em que o som do amor, tão evidente na versão original, jamais se reproduz.

Queria tanto que ele pudesse estar aqui para demonstrar, mais uma vez, conteúdo e forma. Queria tanto que ele fosse capaz de novamente transmitir tolerância, força e confiança ao pequenino coração. Queria tanto que o toque de suas mãos voltasse a findar o desamparo dos ombros. Queria tanto que sua simples e breve presença transformasse outra vez dúvidas em certezas, questionamentos em afirmações, ríspidos monólogos em suaves duetos de amor.

Existem momentos na vida em que eu daria tudo para que ele estivesse aqui novamente…

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Lula e seus reflexos…

O autoproclamado homem mais honesto do país pode até não ficar muito tempo na cadeia mas, em menos de uma semana, sua prisão já foi suficiente para confirmar expectativas e desmistificar previsões.

Desde a última sexta-feira, como se esperava, o Brasil vem testemunhando demonstrações de fanatismo explícito protagonizadas pelos seguidores do deus Lula. As vigílias em São Bernardo e em Curitiba, as lágrimas derramadas, os choros convulsivos, os escudos humanos que tentaram impedir sua entrega ao cárcere, os discursos inflamados de servos e adoradores, as ofertas de companhia e amparo nas frias masmorras do sul, os mantras repetidos palavra por palavra pelos seguidores de olhos vidrados e, hoje, a inclusão da alcunha “Lula” nos nomes de parlamentares e militantes. Os seis primeiros dias até aqui mostraram ao país que o conhecido estupor dos integrantes da seita realmente não conhece limites.

Por outro lado, onde está a convulsão social vaticinada pelos defensores do preso? Onde estão os corpos dos bravos oponentes abatidos previstos por Gleisi? Onde estão as cinzas de um Brasil incendiado profetizado por Lindberg? Onde está o povo que iria tomar as ruas de Curitiba para retirar seu mártir das garras golpistas da polícia? Onde estão os órgãos internacionais, os países irmãos, os exércitos bolivarianos que não permitiriam que tal atentado à democracia viesse a ocorrer?

A verdade é que o país, com todas as suas mazelas e dificuldades, segue seu rumo, independente da prisão de Lula. O adorado deus de muitos, o demônio personificado de outros tantos, na verdade não passa de mais um para a maioria. A cegueira imposta aos membros da seita é tão restritiva que eles não conseguem perceber o quão desamparados estão. Gritam, exigem, ameaçam, interrompem vias, invadem propriedades, tudo na desesperada tentativa de parecerem mais numerosos e bem mais corajosos. Pagam e transportam manifestantes a cada novo protesto, inflam balões vermelhos que ocupam espaços vazios, incendeiam pneus para que suas altas chamas disfarcem o pequeno número de responsáveis pelos atos. Não permitem, de forma alguma, que o nefasto templo de adoração que construíram seja implodido. Templo que já viu suas fileiras apinhadas de admiradores e hoje sofre com alas inteiramente vazias.

Por tudo isso, não me importa que a vigília lulista continue junto à sede da Polícia Federal em Curitiba, que se preservem os rituais lulitúrgicos em que o rebanho de lulacéfalos repete as palavras desconexas do grão-lulamestre de plantão, que os polulíticos mantenham seu ataque diário ao sistema judiciário do próprio país que pretendem governar, que os jornalulistas multipliquem suas mensagens de Whatsapp e os textos de seus lulogs antifascistas, que os lulartistas continuem compondo canções ou performando novas e inclusivas apresentações lulabstratas, que os pelulegos descarreguem seu estoque de pneus nas vias públicas e, principalmente, que o nome “Lula” passe mesmo a identificar cada um dos membros da seita. Aliás, quem sabe assim, nomes dados aos parcos bois – ou lulas – eles possam finalmente mensurar o número cada vez menor de companheiros ainda dispostos a restringirem voluntariamente a capacidade de seus cérebros!

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A proporção de Lula…

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O seguinte comentário foi postado por um amigo petista: “Vocês nos acusam de idolatrar o Lula mas os obcecados por ele são vocês. Dizem que querem todo corrupto na cadeia mas é só dele que falam. Ouçam o foguetório e o buzinaço pela sua prisão. Isso jamais aconteceria em uma condenação do Aécio, do Temer, do FHC. Lula protagonizou o grande espetáculo desta noite de sábado em todas as mídias. Vocês jamais agiriam assim se o político fosse outro. Tudo isso é prova do quanto Lula está sendo perseguido e injustiçado”.

Aproveito, portanto, essa boa oportunidade para responder ao meu amigo e tentar discorrer sobre essas questões de uma forma mais abrangente.

Sim, caro amigo, somos obcecados pelo Lula. Não soltaríamos mesmo tantos foguetes e nem sairíamos tanto às ruas se o personagem fosse diferente, mesmo que igualmente corrupto. Não faríamos tantos textos no Facebook, nem tão contundentes. Também não ficaríamos tantas horas frente à TV esperando o simples cumprimento de um mandato judicial. Nossas atitudes definitivamente seriam diferentes se os envolvidos fossem outros.

Entretanto, você ainda não entendeu que a razão do nosso comportamento confessamente parcial não é o Lula. A razão, caro amigo, é você. Sim, você e todos os seus companheiros de seita que veneram uma pessoa como se um deus ela fosse. Que não admitem, nem por um milésimo de segundo, a mera possibilidade de que o tal deus tenha praticado qualquer ilícito ao longo de sua vida. Mesmo com seu governo envolvido em esquemas de corrupção bilionários, vocês afirmam categoricamente que ele não tinha conhecimento de nada. Não adiantam as delações, fotografias, documentos, provas, nada. Nada é capaz de mudar sua visão. Como podem seguir alguém tão cegamente, sem pensar, sem raciocinar, quase como zumbis? E quem dera vocês fossem poucos. Não haveriam motivos para preocupações. Mas vocês compõem uma parcela considerável da sociedade. Estão muito longe da maioria que propagam ser mas, ainda assim, são barulhentos e numerosos. E sabe o que é pior? Vocês votam. Não, não se trata de preconceito. É um fato. Vocês certamente votariam no Lula novamente se pudessem. Esse é o grande risco, entende?

Apenas para tentar ser o mais claro possível, tomemos como exemplo o Aécio, que considero um corrupto, delinquente, marginal, um bandido profissional. Sei que você concorda comigo. E aqui poderia ser o Temer, o Cunha, o Jucá, qualquer um. Você sabe qual é a chance do Aécio ser eleito presidente? Zero. Você sabe quantas pessoas se colocariam na frente da polícia para tentar impedir uma eventual prisão dele? Zero. Você sabe quantos eleitores o chamariam de injustiçado, de perseguido, de guerreiro do povo brasileiro? Zero. Por isso, meu amigo, torço demais para que o Aécio e todos os demais façam companhia ao Lula o mais rapidamente possível, mas a verdade é que Aécio, por mais mau caráter que seja, não representa um perigo iminente para o país. Você sabe que, quando um grande perigo é afastado, é normal que as pessoas comemorem mais efusivamente do que quando um risco insignificante deixa de existir. É isso que está acontecendo agora. Lula é um grande perigo. E Lula é um grande perigo, caro amigo, simplesmente porque você existe para defendê-lo!

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O Supremo, Victor Hugo e seus homens da lei…

Não é a primeira vez que escrevo sobre o assunto, mas existem personagens literários tão bem descritos, tão bem construídos, que suas atitudes e seus princípios, por mais que pareçam equivocados ou absurdos para o leitor, são absolutamente coerentes com a história, com o desenvolvimento psíquico e humano, com as experiências vividas por tal personagem. Por isso mesmo, sempre valorizei a coerência como um dos aspectos mais virtuosos da personalidade de qualquer pessoa. A contínua busca – afinal, não se trata de algo inerente que não se possa deixar de buscar – pela integridade e conformidade dos ideais e das convicções de um ser humano o transformam, aos meus olhos, em alvo de profunda admiração, mesmo que discorde inteiramente dos seus caros valores intrínsecos. Hoje quero falar sobre um desses personagens. Hoje quero falar sobre uma dessas pessoas.

Um homem da lei obcecado pelo fiel cumprimento da justiça. Para ele, um criminoso deve pagar pelos seus delitos rigorosamente de acordo com as leis vigentes. Não lhe importa se a punição imposta é justa ou injusta. Não cabe a ele determinar penas ou condenar transgressores. Seu papel é fazer com que eles cumpram as restrições que lhe forem determinadas. E o homem da lei o faz com tal abnegação, com tal tenacidade, com tal convicção na retidão e na importância de seu trabalho, que seria intolerável permitir que um mísero dia de uma injusta pena de duas décadas deixasse de ser cumprido. A consciência do homem da lei jamais permitiria tamanha transgressão. Na obra-prima “Os Miseráveis”, Victor Hugo fez de Javert o mais obstinado de todos os homens da lei. Diferentemente do que é retratado em filmes e musicais, o Javert de Victor Hugo é fiel a apenas um deus. Seu deus é a lei. Assim, não importa que o condenado que ele tanto persegue tenha se tornado o melhor e o mais bondoso entre todos os seres humanos. Sua pena ainda não foi inteiramente cumprida. E bondade não pode ser motivo de remissão. Não é o que diz a lei. Por isso, ainda mais intolerável é se sentir devedor de alguém que não a tenha cumprido. Até a morte se torna opção mais plausível.

Um homem da lei obcecado pelo fiel cumprimento da justiça. Para ele, um criminoso só poderá ser condenado após esgotados todos os princípios previstos na legislação vigente. Em uma sessão do Supremo Tribunal Federal, do qual faz parte há quase trinta anos, ele profere um voto absolutamente brilhante, uma verdadeira aula de direito constitucional. E não poderia ser diferente, afinal, seu deus é a própria Constituição. Não há uma vírgula de sua explanação que possa ser contestada. Sua interpretação é clara e definitiva. Alguns de seus colegas levantam argumentos até convincentes, na tentativa de interpretar o que a Constituição determina de forma cristalina. Entretanto, os argumentos do homem da lei são irrefutáveis. Sua interpretação é literal. Celso de Mello é o decano do Supremo de uma nação sem rumo e sem líderes. Ao proferir seu voto, ele tem plena consciência de que o fiel cumprimento do que determina a Constituição provocaria uma verdadeira hecatombe no país. Na prática, nenhum político corrupto, nenhum empresário rico e inescrupuloso, nenhum autor de crimes do colarinho branco viria a cumprir qualquer pena. A lei foi feita por criminosos poderosos exatamente para que criminosos poderosos jamais fossem punidos. O decano sabe disso. Mas não cabe a ele elaborar leis. Seu papel é fazer com que elas sejam cumpridas à risca, custe o que custar. Nem sempre seus entendimentos prevalecem em um colegiado heterogêneo composto de antagonistas e aliados hábeis, inteligentes, ineptos, despreparados e, alguns deles, extremamente mal intencionados. Celso parece não se importar e continua seguindo seus inabalados princípios.

Celso e Javert são grandes exemplos de personagens. São exemplos também de grandes seres humanos. Celso e Javert são casos raros na literatura e na vida. Uma pena. A maior pena, na verdade, é que o mundo não seja povoado majoritariamente por Celsos e Javerts, com todas as suas convicções, retidões e coerências. Em um mundo assim, seria bem mais fácil para que os outros pudessem também iniciar a contínua e nobre busca de agir como eles. Eu mesmo, embora os admire imensamente, não sou capaz de fazer tal escolha. Sendo sincero, me recuso sequer a tentar fazê-la. Porque, infelizmente, acredito que pessoas e personagens tão virtuosos, mesmo tendo a justiça como preceito básico, podem vir a causar enormes injustiças no pobre e podre mundo real. Pelo menos enquanto não forem capazes de avaliar o contexto geral em que estão inseridos. Enquanto não forem capazes de medir o quanto uma decisão baseada em uma lei injusta pode vir a permitir que novas leis injustas sejam promulgadas. Enquanto não forem capazes de antever como o livro que está sendo escrito irá terminar!

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A festa que Rosa impediu…

O senador anfitrião foi o primeiro a chegar. Inquieto, excitado e com uma fome quase incontrolável, dirigiu-se à mesa de comida mineira que aguardava os convidados da noite. Ele passara os últimos dias alternando reuniões exaustivas com sessões de meditação auto-induzida, feitas na companhia de alguns de seus amigos mais próximos. Agora ele desejava apenas relaxar e celebrar com companheiros de longa data, boa música, bebidas caras e, claro, várias outras sessões de meditação. Tinha trabalhado arduamente para ver o dia de hoje finalmente materializado e, depois de muito tempo, voltava a sentir orgulho de si mesmo. Há pelo menos dois anos ninguém o via sorrir daquela forma. Finalizado o segundo prato de feijão tropeiro com lombo suíno, virou-se para o maître:

- Alguém deu alguma notícia?

- Estão todos chegando, senador. O senhor já quer que eu providencie a champagne?

- Sim, imediatamente.

Logo depois, a porta principal se abriu e um enorme alarido de vozes e gargalhadas ecoou pelo salão. Evidentemente radiantes com o desenrolar dos acontecimentos do dia, os convidados iniciaram a noite com um brinde regado a Don Perignon safra 2014. Geraldo, Gleisi, Farias, Serra, Renan e Fernando se confraternizavam como se fossem amigos que se reencontravam depois de anos.

Michel, evidentemente, foi o último a chegar. Aplaudido de pé, agradeceu a todos indistintamente, mas piscou discretamente para Romero que acabou por perder o terno momento de cumplicidade, pois já deixara a champagne de lado e iniciava uma nova incursão pelos sabores de um Chivas 18 anos.

Em um canto da sala, o grupo de Marcelo, Leo, Joesley e outros grandes empresários voltava a se reunir. Mais importante ainda, falavam em voz alta, adotavam um tom altivo, deixavam de lado os ultrajantes sussurros que se tornaram regra nos últimos quatro ou cinco anos. Regalias de quem não tinha mais nada a esconder.

Naquele momento, o anfitrião chamou a atenção de todos para um anúncio importante:

- Senhores, por favor. Acabo de falar por telefone com Sérgio, Eduardo e Antônio. Eles estão emocionados pelo fato da justiça, finalmente, ter sido feita e prometem que estarão pessoalmente conosco na próxima celebração.

A turba rompeu em calorosos aplausos, entremeados pelos elogios à resistência que os três demonstraram diante das calúnias e humilhações sofridas nos últimos anos. Que dia memorável!

Antes das oito da noite as luzes foram reduzidas e um grande telão desceu em local visível a todos. Começava o esperado discurso comandado pelos dois membros do grupo que não puderam estar presentes naquela celebração. Ambos apareceram diante de uma multidão eufórica. Milhares de pessoas portando camisas e bandeiras vermelhas choravam compulsivamente assistindo ao emocionado discurso de um Luís leve e solto, sempre ao lado de sua inseparável companheira. Sua voz estava mais grave do que nunca e, em seu carismático discurso, os nomes de muitos daqueles que acompanhavam pelo telão foram mencionados, sempre seguidos dos adjetivos “golpista”, “fascista” e “coxinha”. Nesses momentos, o barulho das gargalhadas no salão repleto conseguia abafar inclusive o som dos gritos estridentes vindos dos milhares presentes ao comício.

O orgulhoso anfitrião não conseguia se conter de tanta felicidade. Pouco depois, virou-se ele para o maître:

- A minha encomenda especial já chegou?

- Sim, senhor. As duas toneladas de mortadela italiana fatiada estão no caminhão frigorífico.

- Excelente. Quero que ela seja distribuída agora aos manifestantes presentes ao comício dos nossos companheiros. Não preciso dizer que ninguém pode saber quem a estará oferecendo, não é?

- Certamente que não, senhor. Mais alguma coisa?

- Sim. Mande meu motorista me apanhar na saída em dez minutos.

- O senhor não vai ficar até o final da festa?

- Não posso. Tenho um jantar marcado com um velho e querido amigo na primeira classe do próximo vôo para Lisboa.

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O mecanismo…

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Aécio Neves é um cafajeste corrupto que iria enterrar a Lava Jato caso tivesse vencido as eleições de 2014. Foi a reeleição de Dilma Rousseff que permitiu que a operação tivesse sequência e continuasse prendendo tanta gente importante. O impeachment de Dilma foi um golpe arquitetado pelo Aécio, em conjunto com o Temer e que contou com a parcialidade da grande mídia brasileira. Seu objetivo principal sempre foi o fim da Lava Jato. Fernando Henrique Cardoso foi eleito com recursos oriundos de propina das empreiteiras que superfaturavam obras públicas. E Sérgio Moro é um juiz cuja característica mais marcante é a sua indisfarçável vaidade.

As impressões e afirmações acima foram feitas na série da Netflix “O Mecanismo”, cujos oito episódios da primeira temporada acabei de assistir nesta madrugada, em uma maratona de quase sete horas. Na verdade, os nomes dos personagens são outros na série, até para nos lembrar que, embora baseada em fatos reais, trata-se de uma produção fictícia. Aliás, quase todos os nomes foram alterados, inclusive os das instituições. Os únicos nomes mantidos foram o da operação, que continua sendo chamada de Lava Jato, e o do país, que continua sendo chamado de Brasil, numa clara indicação do que realmente importa para os produtores.

Mas o que mais me impressiona é que, mesmo com tantas afirmações e conclusões alinhadas ao pensamento de petistas e simpatizantes, a maior parte deles continua trabalhando para a proibição de veiculação da série, em mais um hipócrita arroubo de censura seletiva. Dilma, Lula, senadores, deputados, artistas e militantes do partido já se manifestaram com ameaças e convocações de boicote. E os manifestantes ainda têm a audácia de admitir que só assistiram a trechos da produção. Como fantoches treinados, concentram suas críticas na frase do Jucá que sai da boca do Lula. Pois tenho uma novidade para vocês, meus queridos: não é o Lula quem diz isso na série. É um personagem fictício chamado Higino.

Evidentemente, petistas e afins se revoltaram ao reconhecerem seu imaculado partido e seus sacrossantos membros envolvidos em um mecanismo que domina o país em todos os seus níveis. Como se o mecanismo pudesse funcionar sem a participação deles. Como se toda a engrenagem que superfatura preços, arrecada recursos, alimenta campanhas e elege governantes pudesse acontecer se os deuses do partido não tivessem a menor ideia de sua existência. Quem acredita nisso tem mesmo que criticar uma série fictícia que se aproxima da realidade. Afinal, já vivem em um mundo de ficção construído por outros diretores e roteiristas, bem mais criativos e melhor remunerados.

Portanto, tenho um conselho para vocês, caros petistas e simpatizantes: antes de continuarem a se comportar como fantoches, assistam à série. É ótima, é bem feita, tem excelentes atores, tem personagens muito bem construídos apesar dos comentários dos críticos “imparciais” que recomendaram aos seus leitores o cancelamento de suas assinaturas da Netflix. Além disso, tem um ótimo roteiro que MISTURA verdade e ficção. Por isso, antes de criticarem, assistam, avaliem, concordem, discordem, mas, acima de tudo, pensem por si próprios. Bem, perdoem-me pelo exagero, sei que agora estou pedindo demais!

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As dúvidas de Rosângela…

A diretora da escola entra na sala e pede licença para falar com uma das alunas.
– Rosângela, você pode vir à minha sala por um instante?
Assustada, a aluna de 14 anos de idade acompanha a diretora até o quinto andar da instituição. Assim que entram na sala, e antes mesmo de se sentarem, a diretora faz a primeira pergunta com evidente ansiedade:
– Então, querida, já se decidiu?
Na semana anterior, Rosângela havia sido nomeada pelos seus colegas como a representante da escola em um debate muito importante. A Prefeitura havia solicitado que os alunos, através de seus representantes, definissem se as diretorias das escolas municipais deveriam passar a ser eleitas pelos próprios alunos, ou se continuariam a ser indicadas pelo poder público, como era de praxe. Mas os representantes deveriam respeitar todas a Lei Orgânica do Município, cujas cláusulas não poderiam, de forma alguma, ser descumpridas. O município era pequeno, com apenas onze escolas municipais em funcionamento. A diretora sabia, àquela altura, que os outros dez representantes já tinham decidido seus votos. E eram cinco votos a favor da eleição direta e cinco contrários. O voto de Rosângela iria selar o destino de muitas pessoas. A própria diretora, que sempre fora amiga dos políticos da região, nunca se importara com a qualidade do ensino na sua escola, ou com a lisura de seus atos administrativos. Saía prefeito e entrava prefeito, seu cargo de diretora estava sempre garantido. E, por isso, a pressão sobre Rosângela aumentava a cada instante.
– Ainda não, D. Luíza – Rosângela sussurrou baixinho – tenho muitas dúvidas ainda.
– Vou ajudá-la a esclarecer todas elas, querida. Primeiro, você sabe que a Lei Orgânica não permite esse tipo de eleição, não é? Há uma cláusula que diz claramente que a indicação deve vir do prefeito.
– Sim, senhora, eu sei. Mas essa cláusula não é tão clara assim. Ela diz que a indicação deve vir da autoridade máxima do município. Quase todo mundo interpreta que essa autoridade é o prefeito, mas eu não estou totalmente convencida. Será que a autoridade máxima do município não é o povo? Afinal, foi o povo que elegeu o prefeito.
– Que bobagem, querida! Isso não tem cabimento. A eleição já passou. A maior autoridade só pode ser o prefeito.
– Pois é, já olhei por esse lado também. Por isso é que estou com tantas dúvidas. Acho que uma eleição direta, de pessoas que a gente conhece de perto, que a gente sabe que vai dirigir a escola com critério e cuidado, seria muito boa para a nossa escola e para todos os alunos.
– Não interessa o que poderia ser. A lei não pode ser modificada. Além do mais, você está dizendo que eu não sou uma boa diretora, menina?
– Não, não disse isso de forma alguma, D. Luiza – respondeu Rosângela, mais assustada do que nunca.
Neste momento, o coordenador do ensino fundamental que ouvia a conversa da sala ao lado, decide entrar na sala da diretora.
– Com licença, D. Luíza. Acho que seria adequado que eu também acompanhasse a reunião, a senhora não acha?
A diretora abaixa a cabeça e não responde.
– Boa tarde, Rosângela. Tudo bem por aí?
– Acho que sim – balbucia a garota, aliviada pela presença de alguém em quem confiava.
– Eu estava ouvindo a conversa e queria lhe dizer uma coisa muito importante.
– O que?
– A decisão, seja ela qual for, tem que ser sua, tem que ser baseada exclusivamente na sua consciência.
– Obrigada, sr. Sérgio.
– Pelo que ouvi, para você não há dúvida alguma sobre o que é o mais justo, não é?
– Exato. Se não houvesse a questão da Lei Orgânica não teria dúvidas de que a eleição direta seria muito mais benéfica para o município.
– E você também diz que a cláusula da Lei poderia ser interpretada de formas diferentes, não é?
– Sim, mas não tenho certeza disso.
– Mas essa é uma decisão que você vai ter que tomar. Ela é sua e de mais ninguém. Neste momento, você tem que decidir o que é mais importante para você, Rosa.
Ela gostava quando ele a chamava de Rosa.
– Rosa, o destino da nossa escola e do nosso município está em suas mãos! Qual será o seu voto, Rosa?

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O dia da felicidade…

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Vinte de março! O que ainda falta ser descoberto sobre o dia de hoje? A cada ano, novos simbolismos são adicionados a uma data que sempre foi a mais especial da minha vida. Afinal, este dia marca o nascimento da luz que viria, um dia, iluminar os meus caminhos. Que viria adicionar cores a um mundo dominado pelos tons pastel. Que viria acrescentar temperos a uma existência carente de emoções arrebatadoras. Que viria dar confiança e vigor aos passos costumeiramente hesitantes do início da caminhada. Que viria repartir sonhos, sorrisos, lágrimas e objetivos, transformando-os em berços de novos significados. Que viria dividir comigo a dádiva da formação de novas vidas, novas trilhas, novos passos. Que viria dar sentido, estabelecer rotas, indicar direções. Que viria fundar polos de alegria, união e amizade à sua volta. Que viria brilhar incondicionalmente e, assim, também fazer brilhar quem com ela estivesse.

Em anos passados, já tive a oportunidade de mostrar o quanto o dia de hoje é especial até para o sol, que neste momento ilumina a todos com o mesmo brilho e com a mesma intensidade. Já dissertei sobre como o dia de hoje marca o início da minha estação favorita, reconhecida pelas temperaturas mais amenas, pela elegância das posturas e dos olhares, pelos vinhos mais encorpados. Já agradeci à Vida pelo meu sonho de mulher ter se tornado realidade nesta data.

Pois não é que acabo de descobrir que, desde 2013, hoje é celebrado o Dia Internacional da Felicidade? Segundo a ONU, a comemoração tem o objetivo de promover a felicidade entre os povos do mundo, evitando os conflitos sociais, étnicos ou qualquer outro tipo de comportamento que ponha em risco a paz e o bem-estar das sociedades. A escolha da data não poderia ter sido mais apropriada mas, ONU, convenhamos, vocês só descobriram isso em 2013? Eu sempre soube…

Fiquei pensando sobre os muitos outros valores que também poderiam ser comemorados no dia de hoje. O Dia da Alegria seria perfeito, mas momentos alegres são efêmeros, mesmo que frequentes, e a força dela é perene. O Dia da Justiça seria outro muito adequado, mas, paradoxalmente, seria cometida a injustiça de se deixar de fora a disponibilidade, a lealdade, a ternura. O Dia da Inteligência cairia como uma luva, mas, muito restritivo ao brilhantismo do cérebro, acabaria por relegar a segundo plano os valores do coração, a bondade, a generosidade, a grandeza do caráter. Não, o valor símbolo do dia de hoje teria mesmo que ser amplo, imensurável, completo em si, assim como a felicidade. Assim como a felicidade plena que só ela é capaz de irradiar.

A verdade é que, não fosse hoje o Dia da Felicidade, este só poderia ser chamado de Dia do Amor. E é. Sempre foi. E eu também sempre soube. A ONU apenas ainda não descobriu…

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Sonhos de B a Y…

Quase instantaneamente após a ocorrência de mais um crime bárbaro no triste cotidiano do país, as primeiras sentenças já foram proferidas no tribunal do abecedário. Enquanto a maioria das turmas apenas lamenta e aguarda as investigações, turmas A e Z apontam, sem nenhum constrangimento, os autores da execução.

Os membros da primeira colocam a culpa na própria vítima e nos bandidos que, segundo eles, ela defendia. Mulher de traficante, eleita com campanha patrocinada por gangues, apenas colheu o que plantou. Quem trabalha com criminosos, não poderia ter mesmo outro fim. Foi morta pelos mesmos marginais que, por tantas vezes, ela chamou de vítimas da sociedade, de merecedores de uma segunda chance, de gente explorada por um sistema capitalista injusto e cruel. No final, a maior vítima acabou sendo ela mesma. Nada mais justo.

Os membros da turma Z, ao contrário, já decidiram que ela foi morta pela polícia opressora que só mata mulheres, negros, pobres e homossexuais. Foi morta inclusive com a conivência do exército que chegou há pouco e já mostrou a que veio. Gente que mata com prazer, no intuito de manter a sociedade oligarca vigente no país nos últimos 500 anos. Foi morta porque sempre denunciou a perseguição que uma classe apartada da sociedade sempre sofreu. Sua morte demonstra de maneira cristalina o quanto é necessário o fim da polícia racista que impede a existência de um estado de direito verdadeiramente justo. E sua figura agora alcançou a alcunha de mártir de uma revolução que não pode mais ser postergada.

Sentenças proferidas, turmas A e Z aguardam com ansiedade as investigações e alardeiam quaisquer pequenos indícios que indiquem uma direção ou outra. Indícios que podem ser absolutamente falsos, afinal, para elas, justeza e coerência não têm a menor importância neste caso. Aliás, têm em algum?

Como sempre acontece, caso as investigações oficiais caminhem para uma teoria ou outra, mesmo que moderadamente, o arsenal de comemorações já está preparado. Quem “vencer” esta batalha já tem sua estratégia preparada. Um arsenal de links, memes, textos e dados celebrando a “vitória” já está sendo montado. Ao “perdedor”, caberá também a preparação de outro arsenal, que irá envolver denúncias da parcialidade das apurações, ataques às reputações dos investigadores ou, em última instância, esquecimento voluntário de uma vítima que não mais se presta à causa. A verdade, aqui, é o que menos importa.

E, enquanto isso, no abecedário, as turmas de todas as demais letras sonham com o dia em que todas as palavras poderão ser escritas sem as letras A e Z. Será que é sonhar demais?

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Trans formação…

Na fila do caixa do supermercado, pai e filha aguardam sua vez…

- Papai, olha só que moça alta e forte ali de costas no outro caixa.

- Já lhe disse que é feio ficar falando dos outros.

- Mas, pai, ela é muito grande.

- Filha, com certeza aquela moça é, na verdade, um rapaz.

- Um rapaz? Ele está fantasiado de mulher?

- Não é fantasia. É que ele não quer mais ser um rapaz. Ele quer ser uma mulher.

Neste momento, uma jovem que ouvia a conversa não se contém e diz:

- O senhor não tem vergonha de dar uma explicação machista e misógina como essa para sua própria filha?

- Machista e misógina? Que bobagem é essa?

- O que é misógina, papai?

- Depois, filhinha.

- Ela não é um rapaz. Ela nunca foi um rapaz. E também não “quer” ser uma mulher. Ela sempre foi uma mulher guerreira e empoderada que nasceu no corpo errado.

- Pois, que eu saiba, esse corpo errado é masculino, não?

- O que é empoderada, papai?

- Mais tarde, filha.

- Eu tenho nojo de homens como você. Aliás, eu tenho nojo dos homens.

- Olha aqui seu projeto de dirigente da UNE, eu acho que todo mundo deve buscar ser feliz da forma que quiser. Não me interessa se ela é trans, cis ou o escambau. Só respondi a pergunta da minha filha.

- O que é trans, cis e escambau, papai?

- Agora não, querida.

- Nada disso, seu retrógrado filhote da ditadura. Você está tentando implantar no cérebro desta pobre menina conceitos deturpados oriundos de uma sociedade branca, ultrapassada, conservadora, oligarca e patriarcal.

- Pai, o que é oligarca e patr…

- Agora não, já disse!

- Muito pelo contrário, ô cruzamento de Márcia Tiburi com Gleisi Hoffmann. Estou dando à minha filha o direito de pensar por si própria, e não se ater a conceitos ditados pela cartilha do politicamente correto insuportável que tira a liberdade individual de cada um e a coloca nas mãos de um grupinho que dita regras com a mesma facilidade com que defeca em praça pública.

- Discurso de bolsominion, como sempre. Eu sabia. Sei reconhecer um fascista a quilômetros de distância.

- O que é fascista, papai?

- Filha, quantas vezes tenho que diz…

- Rubens? – interrompe a moça grande e forte aproximando-se do incrédulo trio – há quantos anos. Você está ótimo. Que bom te rever. Até a próxima.

A discussão termina e todos se entreolham estupefatos.

- Você conhece o rapaz, papai?

- Verônica – balbucia o pálido pai – minha primeira namorada na adolescência. Ela cresceu, né?

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