Acho que já me acostumei…

IMG_8015 (2)

Acho que já me acostumei com a sua ausência. Há muito não tenho mais ímpetos de lhe contar as novidades, de lhe mostrar os novos desenhos do Guilherme, de comentar detalhes do roteiro fabuloso que o Arthur está escrevendo. Há muito não preciso mais reprimir minhas lágrimas ao falar de você, ao vê-la nos inúmeros vídeos felizes que tenho em casa, ao ouvir o som da sua risada contagiante. Há muito perdi o hábito de dividir com você minhas preocupações, minhas aflições, minhas dificuldades. O mesmo vale para as minhas alegrias, minhas viagens, minhas conquistas. Há muito não me vejo mais deitado no seu colo, não reconheço mais minha mão entrelaçada à sua, não espero mais pelo seu beijo a cada vez que me preparo para sair. Acho que já me acostumei com a sua ausência…

O Guilherme está cada vez mais criativo, mãe. Está mais independente, mais espontâneo e ainda mais perspicaz. Temos tido trabalho em controlar sua agressividade mas é uma delícia acompanhar o desenvolvimento de sua índole extraordinariamente honesta e verdadeira. Ele fala muito de você quase todas as noites. Mas acho que já se acostumou com a sua ausência…

Já o Arthur está naquele momento difícil de escolha dos seus caminhos. Ele não tem dúvidas de que quer mesmo cursar cinema mas são tantas decisões a serem tomadas, tantas novas posturas que ele deverá adotar se quiser ver sua vocação materializada. Ele sempre ressalta o seu exemplo de mãe que apoiou incondicionalmente os sonhos dos seus filhos. Mas acho que também já se acostumou com a sua ausência…

Eu e a Dani estamos muito bem, embora já tenhamos percebido que a nossa linda juventude faz parte do passado. Ela está fazendo exames para uma cirurgia de vesícula e eu entrei pela primeira vez em um equipamento de ressonância para avaliação de um persistente incômodo no quadril. Nada sério, não se preocupe. É inevitável lembrarmos do quanto você fazia questão de nos acompanhar em cada consulta. Mas acho que já nos acostumamos com a sua ausência…

A situação do país não mudou muito, mãe. Continuamos sendo governados por bandidos e as perspectivas futuras não são muito alvissareiras. Mesmo assim continuo tentando fazer a minha parte, trabalhando, correndo atrás de novas obras e novos desafios. Não me esqueço da força da sua fé e das suas orações para que meus caminhos fossem mais suaves, para que todos os nós fossem desatados. Mas acho que já me acostumei com a sua ausência…

Voltamos a Paris há pouco mais de duas semanas. Levei a Dani naquela ponte próxima ao Petit Palais, lembra? Mostrei a ela o banco onde você ficou sentada naquela tarde linda e fria enquanto aguardávamos o por do sol. Fomos também a Giverny e a Dani não parava de me lembrar o quanto você teria enlouquecido nos jardins de Monet. Sei que você iria querer reproduzir todas aquelas cores nos canteiros do Canto. Mas acho que já me acostumei com a sua ausência…

Hoje vamos comemorar mais um Dia das Mães. Já é o quarto que passamos sem você. Incrível como o tempo realmente voa. Graças a ele acho que já me acostumei com a sua ausência. Meus olhos úmidos parecem me dizer o contrário, eu sei. Não ligue pra eles, mãe. Talvez eles não consigam se acostumar tão rapidamente quanto eu. Talvez eles não sejam tão fortes. Mas um dia ainda vou conseguir ensiná-los a se acostumar. Acho que eles não sabem que nem é tão difícil assim. Que não é tão difícil se acostumar. Não se preocupe, mãe, meus olhos vão aprender mais cedo ou mais tarde. Afinal, eu já me acostumei, não é? Sim, eu acho que já me acostumei…

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Tanto a dizer…

20170603_174243A

O que falar de alguém que inspira as pessoas a buscarem seus sonhos? Alguém tão seguro dos seus objetivos que faz com que suas escolhas pareçam fáceis, quando, na verdade, foram sempre mais difíceis. Afinal, quantos sonhos se perdem ao longo dos anos? Quantos talentos são frustrados por falta de oportunidades, de incentivo, de autoconfiança? Quantas vezes o pragmatismo prevalece sobre as vocações mais evidentes?

O que falar de alguém que ama tanto o que faz, que contagia a todos com esse amor? Não apenas o público que o assiste mas, principalmente, aqueles que partilham de sua missão de transformar música em emoções. Alguém que conseguiu compreender que a música é a arte de tocar os corações das pessoas. E é assim que cada coração se sente ao vê-lo no palco: tocado, conduzido, arrebatado.

O que falar de alguém que não se satisfaz apenas com seu imenso talento? Alguém que procura melhorar a cada dia, que estuda incessantemente, que está sempre em busca de novos e desafiadores objetivos. Alguém que sabe liderar sem perder a humildade, que valoriza, que incentiva, que cativa e que, exatamente por isso, é sempre respeitado.

O que falar de alguém que transborda generosidade? Alguém que recebeu como herança direta o sorriso franco, o abraço acolhedor, o dom de multiplicar amigos e admiradores, sem qualquer tipo de distinção. Alguém que só poderia ter vindo ao mundo em uma família formada por seres raros, iluminados, que souberam transmitir a ele toda a sabedoria que sempre possuíram.

O que falar de alguém que consegue passar aos meus filhos, desde pequenos, o conceito de arte? Não apenas a definição teórica e abstrata, mas a vivência prática, os sentimentos que, através dela, são despertados, o bálsamo que acompanha sua descoberta. Por causa dele, a arte sempre fez parte de suas vidas.

O que falar de alguém assim? O que dizer a ele hoje, no seu aniversário? Nada do que eu disser será suficiente. Nada do que eu disser será capaz de mostrar a dimensão do meu orgulho, da minha gratidão, da minha admiração e do meu amor. Por isso, excepcionalmente hoje, decidi que não vou dizer nada. Feliz aniversário, meu irmão!

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Impressões de Giverny…

20180503_190913

Deve haver alguma coisa de especial pelas bandas de Giverny. Ou será impressão minha?

Talvez algo mágico que faz com que as flores pareçam ter sido pintadas uma a uma. Não, não pode ser. Flores pintadas não exalam o impressionante perfume que se espalha pelo ar.

Quem sabe não foram as telas que fizeram das flores suas prisioneiras mais cobiçadas? Que transformaram suas rebuscadas formas em impressões tão misteriosas? Que as converteram em sensações?

Se raptadas foram as flores dos canteiros, o que dizer do lago que abriga as ninféias? Mesmo inerte em seu cárcere em forma de pintura, tenho a nítida impressão de que ali posso saciar minha sede.

Assim como os frondosos chorões, tento me debruçar sobre as águas mas a bruma densa me passa a impressão de que o tempo parou. De que o tempo, assim como as flores, é prisioneiro das telas.

Não consigo afastar a impressão de que poderia realmente me banhar naquele lago, sentir o perfume daquelas flores, subir naquela ponte e, dali, contemplar o enevoado nascer do sol.

As impressões estão por toda parte e não consigo mais dissociá-las da realidade. Mas, afinal, o que é a realidade senão uma entre tantas impressões?

Finalmente, fecho meus olhos e mergulho. Melhor ainda, mergulhamos juntos em uma impressionante sensação de paz.

Tenho a impressão de que Monet também já a experimentou um dia…

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

As cores do Danúbio…

Ele já nasceu certo de que iria ultrapassar os limites dos seus vales, das suas curvas e do seu leito. Não satisfeito em embalar quem por ele navegava, viu-se transformar em música e passou a desfilar pelos salões que permitira erguer em suas margens. Assim, desde então, faz bailar até quem ainda não o conhece. E quem o ouve de perto, quem dele se aproxima, quem contempla seus reflexos, passa também a reconhecer as notas de seus borbotões, os allegros de suas corredeiras, os adagios de seus remansos. Filho de rio que sou, me encanto com os andamentos perfeitos que seus meandros descrevem.

Desde seu nascedouro, ele teve consciência de que seu destino era seguir em frente.

Seguir, seguir…

As cores em seu percurso explodiram logo cedo, embora seja a negra floresta a guardiã de seu berço.

Nascer, brotar…

Negro também é o mar no qual descansa e onde suas águas emprestam doçura ao sal e ao fel.

Morrer, findar…

Começa sua marcha altiva pelas terras teutônicas como um exército que a várzea invade.

Avança, em paz…

Na Áustria, mais do que rio, se torna valsa. Apesar de suas verdes águas, de outra cor é chamado.

Azul, azul…

E assim também passou a se sentir: um rio azul. Embora tenha sido um vienense quem lhe deu a alcunha, a própria Viena não o acolheu devidamente. Ao contrário, é um mero canal feito pelo homem o responsável por levar suas águas para mais perto dos salões onde é tão apreciado. A música, ali, está mais presente do que o próprio rio. As notas ressoam mais alto que os mirantes. Os acordes são mais ouvidos do que o gorgeio dos pássaros à procura de alimento ao nascer do sol. A audição supera, em muito, a contemplação. Sentindo-se mero coadjuvante, o rio de verdes águas parte em busca de destinos mais acolhedores.
20180428_075308

No percurso pela Eslováquia ele começa a perceber o quanto seu caminho é importante e produtivo. Pequenas aglomerações de casas e antigos castelos se debruçam para admirá-lo. Bratislava chega bem próximo de suas margens mas, assim como Viena, não se volta para ele. Apenas o velho castelo, do alto da colina que o margeia, continua lhe prestando homenagens diárias, em um silente agradecimento que só o rio consegue ouvir. A pequena capital envolve o rio, mas não o abraça. Ainda verde, ele continua seu caminho.
IMG-20180428-WA0045

Em uma última tentativa de se encontrar, o rio se dirige ao sul e conhece os campos da Hungria. Ao adentrar Budapeste, toda a cidade se volta para reverenciá-lo. Ao entardecer, todos os castelos, palácios e edifícios se iluminam para que o rio possa visualizar seu curso mais facilmente. Toda a população da cidade também se dirige às suas margens e o rio consegue perceber o quanto a sua presença é capaz de modificar a vida de toda uma comunidade, de todo um país. Os parques de ambos as lados se tornam mais verdes, os bondes repetem as curvas de suas bordas, as bicicletas apostam corrida com sua correnteza, as pontes se unem e se enfeitam para assistir ao seu desfile. O rio, finalmente, recebe o abraço que tanto aguardara. E assim, envolto em uma felicidade nunca antes experimentada, ele percebe, pela primeira vez, que suas águas mudaram de cor. São agora de um azul intenso, quase mágico. Um azul ainda mais belo do que a célebre valsa que, a partir dali, o Danúbio também começa a cantarolar…
20180428_075556

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Conteúdo e forma…

20180413_061121

Existem momentos na vida em que eu daria tudo para não ter dúvidas sobre qual é a frase certa a ser dita, sobre quais palavras podem tocar mais profundamente um pequeno e ansioso coração, sobre qual tom de voz é capaz de exprimir melhor a firmeza e o amor primordiais para que a compreensão seja realmente plena.

Mesmo imerso em incertezas, procuro repetir muitas das palavras que me nortearam e apaziguaram um dia. Ao repeti-las, busco empostar a voz para que, tão somente no meu afã, o tom adotado consiga convocar a doçura que transformava cada frase bem construída em profundo e melodioso aprendizado. Que bobagem! Palavras e maneira de dizê-las continuam únicas e inimitáveis. E apenas ecoam na minha memória como um dialeto para o qual não há tradução ou, pelo menos, como uma língua de dublagem limitada em que o som do amor, tão evidente na versão original, jamais se reproduz.

Queria tanto que ele pudesse estar aqui para demonstrar, mais uma vez, conteúdo e forma. Queria tanto que ele fosse capaz de novamente transmitir tolerância, força e confiança ao pequenino coração. Queria tanto que o toque de suas mãos voltasse a findar o desamparo dos ombros. Queria tanto que sua simples e breve presença transformasse outra vez dúvidas em certezas, questionamentos em afirmações, ríspidos monólogos em suaves duetos de amor.

Existem momentos na vida em que eu daria tudo para que ele estivesse aqui novamente…

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Lula e seus reflexos…

O autoproclamado homem mais honesto do país pode até não ficar muito tempo na cadeia mas, em menos de uma semana, sua prisão já foi suficiente para confirmar expectativas e desmistificar previsões.

Desde a última sexta-feira, como se esperava, o Brasil vem testemunhando demonstrações de fanatismo explícito protagonizadas pelos seguidores do deus Lula. As vigílias em São Bernardo e em Curitiba, as lágrimas derramadas, os choros convulsivos, os escudos humanos que tentaram impedir sua entrega ao cárcere, os discursos inflamados de servos e adoradores, as ofertas de companhia e amparo nas frias masmorras do sul, os mantras repetidos palavra por palavra pelos seguidores de olhos vidrados e, hoje, a inclusão da alcunha “Lula” nos nomes de parlamentares e militantes. Os seis primeiros dias até aqui mostraram ao país que o conhecido estupor dos integrantes da seita realmente não conhece limites.

Por outro lado, onde está a convulsão social vaticinada pelos defensores do preso? Onde estão os corpos dos bravos oponentes abatidos previstos por Gleisi? Onde estão as cinzas de um Brasil incendiado profetizado por Lindberg? Onde está o povo que iria tomar as ruas de Curitiba para retirar seu mártir das garras golpistas da polícia? Onde estão os órgãos internacionais, os países irmãos, os exércitos bolivarianos que não permitiriam que tal atentado à democracia viesse a ocorrer?

A verdade é que o país, com todas as suas mazelas e dificuldades, segue seu rumo, independente da prisão de Lula. O adorado deus de muitos, o demônio personificado de outros tantos, na verdade não passa de mais um para a maioria. A cegueira imposta aos membros da seita é tão restritiva que eles não conseguem perceber o quão desamparados estão. Gritam, exigem, ameaçam, interrompem vias, invadem propriedades, tudo na desesperada tentativa de parecerem mais numerosos e bem mais corajosos. Pagam e transportam manifestantes a cada novo protesto, inflam balões vermelhos que ocupam espaços vazios, incendeiam pneus para que suas altas chamas disfarcem o pequeno número de responsáveis pelos atos. Não permitem, de forma alguma, que o nefasto templo de adoração que construíram seja implodido. Templo que já viu suas fileiras apinhadas de admiradores e hoje sofre com alas inteiramente vazias.

Por tudo isso, não me importa que a vigília lulista continue junto à sede da Polícia Federal em Curitiba, que se preservem os rituais lulitúrgicos em que o rebanho de lulacéfalos repete as palavras desconexas do grão-lulamestre de plantão, que os polulíticos mantenham seu ataque diário ao sistema judiciário do próprio país que pretendem governar, que os jornalulistas multipliquem suas mensagens de Whatsapp e os textos de seus lulogs antifascistas, que os lulartistas continuem compondo canções ou performando novas e inclusivas apresentações lulabstratas, que os pelulegos descarreguem seu estoque de pneus nas vias públicas e, principalmente, que o nome “Lula” passe mesmo a identificar cada um dos membros da seita. Aliás, quem sabe assim, nomes dados aos parcos bois – ou lulas – eles possam finalmente mensurar o número cada vez menor de companheiros ainda dispostos a restringirem voluntariamente a capacidade de seus cérebros!

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

A proporção de Lula…

20180408_002324

O seguinte comentário foi postado por um amigo petista: “Vocês nos acusam de idolatrar o Lula mas os obcecados por ele são vocês. Dizem que querem todo corrupto na cadeia mas é só dele que falam. Ouçam o foguetório e o buzinaço pela sua prisão. Isso jamais aconteceria em uma condenação do Aécio, do Temer, do FHC. Lula protagonizou o grande espetáculo desta noite de sábado em todas as mídias. Vocês jamais agiriam assim se o político fosse outro. Tudo isso é prova do quanto Lula está sendo perseguido e injustiçado”.

Aproveito, portanto, essa boa oportunidade para responder ao meu amigo e tentar discorrer sobre essas questões de uma forma mais abrangente.

Sim, caro amigo, somos obcecados pelo Lula. Não soltaríamos mesmo tantos foguetes e nem sairíamos tanto às ruas se o personagem fosse diferente, mesmo que igualmente corrupto. Não faríamos tantos textos no Facebook, nem tão contundentes. Também não ficaríamos tantas horas frente à TV esperando o simples cumprimento de um mandato judicial. Nossas atitudes definitivamente seriam diferentes se os envolvidos fossem outros.

Entretanto, você ainda não entendeu que a razão do nosso comportamento confessamente parcial não é o Lula. A razão, caro amigo, é você. Sim, você e todos os seus companheiros de seita que veneram uma pessoa como se um deus ela fosse. Que não admitem, nem por um milésimo de segundo, a mera possibilidade de que o tal deus tenha praticado qualquer ilícito ao longo de sua vida. Mesmo com seu governo envolvido em esquemas de corrupção bilionários, vocês afirmam categoricamente que ele não tinha conhecimento de nada. Não adiantam as delações, fotografias, documentos, provas, nada. Nada é capaz de mudar sua visão. Como podem seguir alguém tão cegamente, sem pensar, sem raciocinar, quase como zumbis? E quem dera vocês fossem poucos. Não haveriam motivos para preocupações. Mas vocês compõem uma parcela considerável da sociedade. Estão muito longe da maioria que propagam ser mas, ainda assim, são barulhentos e numerosos. E sabe o que é pior? Vocês votam. Não, não se trata de preconceito. É um fato. Vocês certamente votariam no Lula novamente se pudessem. Esse é o grande risco, entende?

Apenas para tentar ser o mais claro possível, tomemos como exemplo o Aécio, que considero um corrupto, delinquente, marginal, um bandido profissional. Sei que você concorda comigo. E aqui poderia ser o Temer, o Cunha, o Jucá, qualquer um. Você sabe qual é a chance do Aécio ser eleito presidente? Zero. Você sabe quantas pessoas se colocariam na frente da polícia para tentar impedir uma eventual prisão dele? Zero. Você sabe quantos eleitores o chamariam de injustiçado, de perseguido, de guerreiro do povo brasileiro? Zero. Por isso, meu amigo, torço demais para que o Aécio e todos os demais façam companhia ao Lula o mais rapidamente possível, mas a verdade é que Aécio, por mais mau caráter que seja, não representa um perigo iminente para o país. Você sabe que, quando um grande perigo é afastado, é normal que as pessoas comemorem mais efusivamente do que quando um risco insignificante deixa de existir. É isso que está acontecendo agora. Lula é um grande perigo. E Lula é um grande perigo, caro amigo, simplesmente porque você existe para defendê-lo!

Publicado em Sem categoria | 2 comentários

O Supremo, Victor Hugo e seus homens da lei…

Não é a primeira vez que escrevo sobre o assunto, mas existem personagens literários tão bem descritos, tão bem construídos, que suas atitudes e seus princípios, por mais que pareçam equivocados ou absurdos para o leitor, são absolutamente coerentes com a história, com o desenvolvimento psíquico e humano, com as experiências vividas por tal personagem. Por isso mesmo, sempre valorizei a coerência como um dos aspectos mais virtuosos da personalidade de qualquer pessoa. A contínua busca – afinal, não se trata de algo inerente que não se possa deixar de buscar – pela integridade e conformidade dos ideais e das convicções de um ser humano o transformam, aos meus olhos, em alvo de profunda admiração, mesmo que discorde inteiramente dos seus caros valores intrínsecos. Hoje quero falar sobre um desses personagens. Hoje quero falar sobre uma dessas pessoas.

Um homem da lei obcecado pelo fiel cumprimento da justiça. Para ele, um criminoso deve pagar pelos seus delitos rigorosamente de acordo com as leis vigentes. Não lhe importa se a punição imposta é justa ou injusta. Não cabe a ele determinar penas ou condenar transgressores. Seu papel é fazer com que eles cumpram as restrições que lhe forem determinadas. E o homem da lei o faz com tal abnegação, com tal tenacidade, com tal convicção na retidão e na importância de seu trabalho, que seria intolerável permitir que um mísero dia de uma injusta pena de duas décadas deixasse de ser cumprido. A consciência do homem da lei jamais permitiria tamanha transgressão. Na obra-prima “Os Miseráveis”, Victor Hugo fez de Javert o mais obstinado de todos os homens da lei. Diferentemente do que é retratado em filmes e musicais, o Javert de Victor Hugo é fiel a apenas um deus. Seu deus é a lei. Assim, não importa que o condenado que ele tanto persegue tenha se tornado o melhor e o mais bondoso entre todos os seres humanos. Sua pena ainda não foi inteiramente cumprida. E bondade não pode ser motivo de remissão. Não é o que diz a lei. Por isso, ainda mais intolerável é se sentir devedor de alguém que não a tenha cumprido. Até a morte se torna opção mais plausível.

Um homem da lei obcecado pelo fiel cumprimento da justiça. Para ele, um criminoso só poderá ser condenado após esgotados todos os princípios previstos na legislação vigente. Em uma sessão do Supremo Tribunal Federal, do qual faz parte há quase trinta anos, ele profere um voto absolutamente brilhante, uma verdadeira aula de direito constitucional. E não poderia ser diferente, afinal, seu deus é a própria Constituição. Não há uma vírgula de sua explanação que possa ser contestada. Sua interpretação é clara e definitiva. Alguns de seus colegas levantam argumentos até convincentes, na tentativa de interpretar o que a Constituição determina de forma cristalina. Entretanto, os argumentos do homem da lei são irrefutáveis. Sua interpretação é literal. Celso de Mello é o decano do Supremo de uma nação sem rumo e sem líderes. Ao proferir seu voto, ele tem plena consciência de que o fiel cumprimento do que determina a Constituição provocaria uma verdadeira hecatombe no país. Na prática, nenhum político corrupto, nenhum empresário rico e inescrupuloso, nenhum autor de crimes do colarinho branco viria a cumprir qualquer pena. A lei foi feita por criminosos poderosos exatamente para que criminosos poderosos jamais fossem punidos. O decano sabe disso. Mas não cabe a ele elaborar leis. Seu papel é fazer com que elas sejam cumpridas à risca, custe o que custar. Nem sempre seus entendimentos prevalecem em um colegiado heterogêneo composto de antagonistas e aliados hábeis, inteligentes, ineptos, despreparados e, alguns deles, extremamente mal intencionados. Celso parece não se importar e continua seguindo seus inabalados princípios.

Celso e Javert são grandes exemplos de personagens. São exemplos também de grandes seres humanos. Celso e Javert são casos raros na literatura e na vida. Uma pena. A maior pena, na verdade, é que o mundo não seja povoado majoritariamente por Celsos e Javerts, com todas as suas convicções, retidões e coerências. Em um mundo assim, seria bem mais fácil para que os outros pudessem também iniciar a contínua e nobre busca de agir como eles. Eu mesmo, embora os admire imensamente, não sou capaz de fazer tal escolha. Sendo sincero, me recuso sequer a tentar fazê-la. Porque, infelizmente, acredito que pessoas e personagens tão virtuosos, mesmo tendo a justiça como preceito básico, podem vir a causar enormes injustiças no pobre e podre mundo real. Pelo menos enquanto não forem capazes de avaliar o contexto geral em que estão inseridos. Enquanto não forem capazes de medir o quanto uma decisão baseada em uma lei injusta pode vir a permitir que novas leis injustas sejam promulgadas. Enquanto não forem capazes de antever como o livro que está sendo escrito irá terminar!

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

A festa que Rosa impediu…

O senador anfitrião foi o primeiro a chegar. Inquieto, excitado e com uma fome quase incontrolável, dirigiu-se à mesa de comida mineira que aguardava os convidados da noite. Ele passara os últimos dias alternando reuniões exaustivas com sessões de meditação auto-induzida, feitas na companhia de alguns de seus amigos mais próximos. Agora ele desejava apenas relaxar e celebrar com companheiros de longa data, boa música, bebidas caras e, claro, várias outras sessões de meditação. Tinha trabalhado arduamente para ver o dia de hoje finalmente materializado e, depois de muito tempo, voltava a sentir orgulho de si mesmo. Há pelo menos dois anos ninguém o via sorrir daquela forma. Finalizado o segundo prato de feijão tropeiro com lombo suíno, virou-se para o maître:

- Alguém deu alguma notícia?

- Estão todos chegando, senador. O senhor já quer que eu providencie a champagne?

- Sim, imediatamente.

Logo depois, a porta principal se abriu e um enorme alarido de vozes e gargalhadas ecoou pelo salão. Evidentemente radiantes com o desenrolar dos acontecimentos do dia, os convidados iniciaram a noite com um brinde regado a Don Perignon safra 2014. Geraldo, Gleisi, Farias, Serra, Renan e Fernando se confraternizavam como se fossem amigos que se reencontravam depois de anos.

Michel, evidentemente, foi o último a chegar. Aplaudido de pé, agradeceu a todos indistintamente, mas piscou discretamente para Romero que acabou por perder o terno momento de cumplicidade, pois já deixara a champagne de lado e iniciava uma nova incursão pelos sabores de um Chivas 18 anos.

Em um canto da sala, o grupo de Marcelo, Leo, Joesley e outros grandes empresários voltava a se reunir. Mais importante ainda, falavam em voz alta, adotavam um tom altivo, deixavam de lado os ultrajantes sussurros que se tornaram regra nos últimos quatro ou cinco anos. Regalias de quem não tinha mais nada a esconder.

Naquele momento, o anfitrião chamou a atenção de todos para um anúncio importante:

- Senhores, por favor. Acabo de falar por telefone com Sérgio, Eduardo e Antônio. Eles estão emocionados pelo fato da justiça, finalmente, ter sido feita e prometem que estarão pessoalmente conosco na próxima celebração.

A turba rompeu em calorosos aplausos, entremeados pelos elogios à resistência que os três demonstraram diante das calúnias e humilhações sofridas nos últimos anos. Que dia memorável!

Antes das oito da noite as luzes foram reduzidas e um grande telão desceu em local visível a todos. Começava o esperado discurso comandado pelos dois membros do grupo que não puderam estar presentes naquela celebração. Ambos apareceram diante de uma multidão eufórica. Milhares de pessoas portando camisas e bandeiras vermelhas choravam compulsivamente assistindo ao emocionado discurso de um Luís leve e solto, sempre ao lado de sua inseparável companheira. Sua voz estava mais grave do que nunca e, em seu carismático discurso, os nomes de muitos daqueles que acompanhavam pelo telão foram mencionados, sempre seguidos dos adjetivos “golpista”, “fascista” e “coxinha”. Nesses momentos, o barulho das gargalhadas no salão repleto conseguia abafar inclusive o som dos gritos estridentes vindos dos milhares presentes ao comício.

O orgulhoso anfitrião não conseguia se conter de tanta felicidade. Pouco depois, virou-se ele para o maître:

- A minha encomenda especial já chegou?

- Sim, senhor. As duas toneladas de mortadela italiana fatiada estão no caminhão frigorífico.

- Excelente. Quero que ela seja distribuída agora aos manifestantes presentes ao comício dos nossos companheiros. Não preciso dizer que ninguém pode saber quem a estará oferecendo, não é?

- Certamente que não, senhor. Mais alguma coisa?

- Sim. Mande meu motorista me apanhar na saída em dez minutos.

- O senhor não vai ficar até o final da festa?

- Não posso. Tenho um jantar marcado com um velho e querido amigo na primeira classe do próximo vôo para Lisboa.

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

O mecanismo…

20180331_120332

Aécio Neves é um cafajeste corrupto que iria enterrar a Lava Jato caso tivesse vencido as eleições de 2014. Foi a reeleição de Dilma Rousseff que permitiu que a operação tivesse sequência e continuasse prendendo tanta gente importante. O impeachment de Dilma foi um golpe arquitetado pelo Aécio, em conjunto com o Temer e que contou com a parcialidade da grande mídia brasileira. Seu objetivo principal sempre foi o fim da Lava Jato. Fernando Henrique Cardoso foi eleito com recursos oriundos de propina das empreiteiras que superfaturavam obras públicas. E Sérgio Moro é um juiz cuja característica mais marcante é a sua indisfarçável vaidade.

As impressões e afirmações acima foram feitas na série da Netflix “O Mecanismo”, cujos oito episódios da primeira temporada acabei de assistir nesta madrugada, em uma maratona de quase sete horas. Na verdade, os nomes dos personagens são outros na série, até para nos lembrar que, embora baseada em fatos reais, trata-se de uma produção fictícia. Aliás, quase todos os nomes foram alterados, inclusive os das instituições. Os únicos nomes mantidos foram o da operação, que continua sendo chamada de Lava Jato, e o do país, que continua sendo chamado de Brasil, numa clara indicação do que realmente importa para os produtores.

Mas o que mais me impressiona é que, mesmo com tantas afirmações e conclusões alinhadas ao pensamento de petistas e simpatizantes, a maior parte deles continua trabalhando para a proibição de veiculação da série, em mais um hipócrita arroubo de censura seletiva. Dilma, Lula, senadores, deputados, artistas e militantes do partido já se manifestaram com ameaças e convocações de boicote. E os manifestantes ainda têm a audácia de admitir que só assistiram a trechos da produção. Como fantoches treinados, concentram suas críticas na frase do Jucá que sai da boca do Lula. Pois tenho uma novidade para vocês, meus queridos: não é o Lula quem diz isso na série. É um personagem fictício chamado Higino.

Evidentemente, petistas e afins se revoltaram ao reconhecerem seu imaculado partido e seus sacrossantos membros envolvidos em um mecanismo que domina o país em todos os seus níveis. Como se o mecanismo pudesse funcionar sem a participação deles. Como se toda a engrenagem que superfatura preços, arrecada recursos, alimenta campanhas e elege governantes pudesse acontecer se os deuses do partido não tivessem a menor ideia de sua existência. Quem acredita nisso tem mesmo que criticar uma série fictícia que se aproxima da realidade. Afinal, já vivem em um mundo de ficção construído por outros diretores e roteiristas, bem mais criativos e melhor remunerados.

Portanto, tenho um conselho para vocês, caros petistas e simpatizantes: antes de continuarem a se comportar como fantoches, assistam à série. É ótima, é bem feita, tem excelentes atores, tem personagens muito bem construídos apesar dos comentários dos críticos “imparciais” que recomendaram aos seus leitores o cancelamento de suas assinaturas da Netflix. Além disso, tem um ótimo roteiro que MISTURA verdade e ficção. Por isso, antes de criticarem, assistam, avaliem, concordem, discordem, mas, acima de tudo, pensem por si próprios. Bem, perdoem-me pelo exagero, sei que agora estou pedindo demais!

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário