Conceitos deturpados…

O português é reconhecidamente uma língua complexa por suas variações verbais, temporais e de gênero quanto a substantivos, adjetivos e pronomes. É também uma língua, assim como tantas outras, repleta de palavras formais e sofisticadas. Por isso, em um país com escolaridade tão baixa quanto o Brasil, não é de se espantar que a maioria das pessoas ignore o significado de grande parte delas.

Existem muitas palavras, entretanto, sobre as quais não paira – ou, pelo menos, não deveria pairar – nenhuma dúvida. Ninguém deveria, por exemplo, se autoproclamar democrata num dia e defender ditaduras no outro. Ou condenar a censura numa situação para, minutos depois, aplaudir a apreensão de livros. Ou ainda exigir respeito no trato com seus interlocutores enquanto se permite sorrir quando alguém é xingado de égua sarnenta e desdentada. Atitudes como essas são tomadas apenas quando seus autores desconhecem o verdadeiro significado de palavras tais como democracia, liberdade e compostura.

Hoje, existe outra palavra ainda mais corriqueira que tem sido frequentemente usada de forma leviana: oposto. Sim, o mesmo que contrário, inverso, contraditório. Para os dois grupos mais barulhentos da atual sociedade brasileira, basta-lhes a alcunha de “opostos”. Como se um comportamento contrário a A fizesse de Z a opção correta, e vice-versa. Não faz! E o pior é que ambos não percebem que estão longe de serem realmente antagônicos. Na verdade, o entendimento que esses grupos têm de muitas das palavras da língua portuguesa é deturpado e assustadoramente semelhante.

Para A e Z, por exemplo, o oposto de ditadura é a “autocracia do bem”, não a democracia. O oposto de mentira é a visão ideológica do fato, não a verdade. O oposto de injustiça é a idolatria cega, não a lisura. O oposto de preconceito é a seletividade, nunca a igualdade. O oposto de cerceamento de opinião é a liberdade de elogios, não de críticas. O oposto de submissão é a libertinagem, não a inconformidade. O oposto de incompetência é a contemporização, não a eficiência. O oposto do politicamente correto é a truculência, não a ponderação. O oposto de erro pontual é a generalização, nunca a correção de rota. O oposto de estupidez é a própria estupidez duplicada, jamais a sabedoria.

Vivemos tempos em que a ignorância é tão comum que passou a ser tratada com desdém. Tempos em que ofensas passaram a ser usadas como argumentos, com direito a réplicas, tréplicas, memes, aplausos e troféus em forma de óculos escuros. Tempos em que o populismo justificou e banalizou até as agressões físicas de parte a parte. Tempos em que grosseria e ausência de bom senso se tornaram qualidades a serem destacadas nos currículos. Resultado de duas décadas de exemplos vindos de criminosos portadores de complexos de superioridade, pessoas com severas e irreversíveis deficiências cognitivas e fundamentalistas lunáticos com manias de perseguição. Todos glorificados, ungidos e santificados por aqueles que também desconhecem o conceito de civismo.

Enquanto isso, a maioria silenciosa da população brasileira continua torcendo para que A e Z consigam adquirir um conhecimento um pouco mais amplo da língua portuguesa. Mesmo que isso não seja capaz de alterar seus já viciados comportamentos, poderá servir para que, pelo menos, estes passem a ser chamados daquilo que realmente são, sem atenuantes ou disfarces. Quem sabe assim, com um mínimo de autenticidade, adoradores de A e de Z possam perceber que, durante muito tempo, estiveram simplesmente se mirando no espelho!

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Critérios técnicos…

- Bom dia, presidente. Aqui estão os currículos que o senhor me pediu que avaliasse. Também fiz a primeira entrevista com muitos dos candidatos.
– Vê lá se você não selecionou alguém despreparado, talquei? Faço questão que meus subordinados sejam todos técnicos e competentes.
– Procurei fazer o meu melhor, senhor. Analisei suas qualificações, suas formações acadêmicas, suas experiências na área e em cargos de liderança, suas…
– Talquei, talquei. Tudo muito bonitinho mas o que eu quero saber é se você pesquisou a vida pessoal, as publicações nas redes sociais, os comentários feitos nos perfis dos outros, essas coisas realmente importantes.
– Claro, como o senhor me pediu. Na verdade, muitos candidatos foram descartados de cara quando perguntei se assinavam algum jornal. Os que assinavam a Folha e o Globo eu mandei que fossem conduzidos coercitivamente pelos nossos seguranças.
– Excelente! Mas tem muito currículo aqui. Não tenho paciência pra ler tudo isso. Quais você recomenda?
– Eu gostei muito de alguns deles, senhor. Este aqui por exemplo, chamou uma atriz famosa de “sórdida” e “mentirosa”.
– Atriz de direita ou comunista?
– Bom, de direita ela não é…
– Então é comunista. Já gostei do cara. Separa o currículo dele aí pra mim. Quem mais?
– Tem um outro aqui que só tem foto com a camisa da seleção brasileira, participou de todas as manifestações contra o PT e só chama o Lula de molusco ladrão.
– Tem que analisar mais a fundo esse daí. Tem um monte de gente que era assim no passado e agora virou comunista igual aqueles babacas do MBL e do Antagonista.
– Mas este continua tirando foto fazendo arminha com as mãos e só faz compras na Havan.
– Então é de confiança. Separa o currículo dele também.
– A foto de perfil deste outro aqui é o número 17 desde o ano passado.
– E ele não alterou nas últimas semanas?
– Não, senhor.
– Tá fora. Pode rasgar o currículo desse daí. Não, melhor queimar mesmo.
– Sim, senhor. Já este outro aqui é excelente. Briga com todo mundo que reclama do senhor, a citação inicial do perfil dele é “bandido bom é bandido morto”, parou de seguir o Frota e a Joice Hasselmann e já declarou que o Ustra é a inspiração da vida dele.
– Muito bom!
– Mas tem um pequeno problema, senhor.
– O que foi?
– Quando perguntei se tinha algum hobby, ele me disse que era fã das músicas – e só das músicas – do Chico Buarque.
– COMUNISTA! Tira esse currículo daí e manda desinfetar a minha mesa. Umas coisas absurdas dessas você nem precisa trazer pra mim.
– Desculpe-me, senhor.
– Mais algum?
– Bom, tem um aqui que eu não entrevistei e estou com medo de ter um perfil falso.
– Por quê?
– Ele é negro e diz que a escravidão foi benéfica para os descendentes dos escravos, que o racismo no Brasil é nutella e que a negrada daqui reclama porque é imbecil e desinformada pela esquerda. Também chamou uma ativista americana de nojenta, baranga e mocreia e disse que torce para que um branco prenda um preto militante por racismo.
– Não é possível. Esse aí parece bom demais pra ser verdade.
– Foi exatamente o que eu pensei, senhor.
– Confirma lá se esse gênio existe. Se existir, merece até um ministério. É bom o Weintraub ficar esperto. Não é fácil mas tô quase encontrando gente mais qualificada do que ele…

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Silogismos e sofismas…

Ainda restavam mais de três séculos para que Jesus Cristo viesse ao mundo quando o filósofo grego Aristóteles desenvolveu um modelo de raciocínio baseado na ideia da dedução. O modelo, que ficou conhecido por silogismo, é composto em sua forma mais simples de duas premissas que, interligadas, geram uma conclusão lógica. “Os homens são mortais. João é homem. Logo, João é mortal” é o mais básico dos exemplos.

Desde os tempos de Aristóteles, o silogismo tem sido usado com cada vez maior frequência. Entretanto, nos conturbados dias atuais, o modelo aristotélico tem perdido justamente o seu componente mais importante: a lógica. Como não poderia deixar de ser, alijado de lógica, não cabe mais no modelo o conceito de raciocínio e suas deduções variam livremente de acordo com a ideologia de quem o propuser. Entretanto, quando a ausência de lógica é proposital e visa apenas atender aos interesses e narrativas de seus porta-vozes, o silogismo se transforma definitivamente em sofisma.

O exemplo mais recente vem do Chile. De repente, o país mais desenvolvido da América Latina, o que detém o maior PIB per capita, o maior IDH, o maior índice de liberdade econômica, inflação controlada, dívida pública na faixa de 25% do PIB (enquanto a nossa está em 80%), crescimento anual na casa dos 4% e muitos outros índices de primeiro mundo passou a ser tratado pelos atuais sofistas brasileiros como amostra do que não se deve almejar. Segundo eles, as manifestações populares estão desnudando a “verdadeira face” do Chile e os números ruins que o país ainda apresenta – principalmente relacionados à desigualdade social e aos baixos valores de aposentadoria – passaram a ser os únicos repetidamente alardeados, sempre com indisfarçável cinismo.

É evidente que o Chile tem problemas. Qual país não os tem? É também evidente que esses problemas devem ser analisados para que não se repitam os mesmos erros. Mas condenar uma trajetória construída ao longo de décadas com a ajuda de muitos governos de centro, de direita e de esquerda é, no mínimo, tratar um assunto complexo com uma superficialidade digna de juntos e shallow now.

Muitos fatores têm provocado as grandes e legítimas manifestações populares: baixos valores de aposentadoria (decorrentes muito mais das alíquotas inferiores às mínimas necessárias do que da forma de capitalização em si), altos valores cobrados por serviços que, na minha visão, deveriam ser providos pelo Estado (dar condições para se gerar riquezas é apenas o primeiro passo do processo), manutenção de privilégios em diversas classes e corporações, inabilidade e truculência do governo para lidar com as reivindicações da população, além de muitos outros.

Para os nossos sofistas de plantão, entretanto, o culpado é apenas um: o liberalismo. O Chile está caminhando para o precipício graças à mesma filosofia que o atual governo brasileiro quer implantar por aqui. Cuidado! O Chile é o Brasil de amanhã. Meu Deus, só posso torcer para que estejam certos. Afinal, foi o liberalismo que permitiu ao Chile alcançar os invejáveis índices atuais mesmo inserido em um continente dominado pela irresponsabilidade fiscal, pelo populismo, pelo corporativismo, pelo assistencialismo e pela corrupção.

Assim, nossos sofistas de ocasião seguem repetindo suas teorias vazias de lógica e cheias de intenções espúrias:

“O povo chileno está revoltado. O Chile é um país liberal. Logo, não há nada pior do que o liberalismo na face da Terra.”

ou

“Protestos são formas de se demonstrar insatisfações. O povo chileno está protestando. Logo, quero ver alguém reclamar da Venezuela agora.”

Quanta honestidade intelectual. O Chile é a bola da vez mas quem dera os nossos sofistas se limitassem a filosofar sobre os problemas chilenos. Infelizmente somos um país muito rico em conclusões desconexas. Temos sofistas ministros, por exemplo, que acham lógico vir a público insinuar que o navio de uma organização que defende causas ambientais não passa de um petroleiro disfarçado cuja missão é despejar milhares de toneladas de óleo nos mares e praias de seus adversários políticos.

Outros dos nossos sofistas ministros conseguem passar horas apresentando razões para justificar posições contrárias às defendidas por eles mesmos em recentes casos absolutamente idênticos.

Temos sofistas governantes que consideram razoável e coerente a desmoralização, o isolamento e o linchamento público de todos aqueles que têm visões, mesmo que pontuais, diferentes das deles.

Temos, enfim, sofistas pais e sofistas filhos, sofistas presos e sofistas soltos, sofistas de imprensa e sofistas de Twitter, sofistas de direita e sofistas de esquerda. Temos, acima de tudo, sofistas que usam seu limitado poder de persuasão para recrutarem suas claques de seguidores e, pelo menos por algum tempo, verem seus silogismos sofísticos reverberados nos cérebros daqueles que, insofismavelmente, não conseguem filosofar por conta própria.

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Dois patinhos na lagoa…

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Já gostei de jogar bingo. Não me refiro aos bingos eletrônicos que, por um breve período, emergiram da clandestinidade. Legais ou ilegais, esses nunca me atraíram. O bingo do qual sinto saudades era o que jogávamos em casa, eu, meus pais e meus irmãos. Não valia nada, a não ser um tempo juntos recheado de sorrisos e gargalhadas. Por isso mesmo sempre valeu tudo. Tenho saudades das narrações feitas a cada número sorteado: o 33 era a idade de Cristo, o 11 era o um atrás do outro, o 10 era a nota máxima e o 69 e o 24 eram discretamente destacados em virtude da presença de crianças e da ausência do politicamente correto. Bons tempos! É incrível como a vida sempre deixa marcas profundas prestes a serem despertadas por detalhes que, muitas vezes, nos passam despercebidos. Essas lembranças tão gostosas, por exemplo, me vieram à mente devido aos dois patinhos na lagoa. Hoje é o dia deles.

Há 22 anos, minha vida mudou pra melhor. Há 22 anos, todos os meus sonhos passaram a ser diariamente compartilhados e multiplicados. Há 22 anos, começamos a construir juntos uma vida repleta de expectativas, de metas e de objetivos que, por mais individuais que fossem, passaram a se reconhecer comuns. Talvez não seja mero acaso que o número 22 tenha o significado de trabalho, de construção e de otimismo para a numerologia. Mas assim não foram todos os demais até aqui?

Hoje, 22 anos depois, não consigo imaginar meus caminhos percorridos sem a companhia dela. Não consigo reconhecer um só sorriso meu que o dela não tivesse provocado. Foi através da doçura dela que conheci o amor mais pleno que pode existir entre seres humanos: o amor de alma. Foi ela quem transformou meus dias em oportunidades, motivações e objetivos. Foi ela quem me fez mais inteiro, mais maduro e muito mais feliz.

Há 22 anos, somos dois patinhos que nadam felizes em uma lagoa cristalina. Claro, de vez em quando surgem ventos fortes e ondas que deixam turbulentas as nossas plácidas águas. Quando isso acontece, um segura na mão do outro até que o sol volte a brilhar. E assim, até a nossa lagoa se expande. Ao longo desses 22 anos suas margens foram se distanciando. E quanto mais ela cresce, maior é a nossa capacidade de receber e de aumentar nosso bando de amigos. Amigos que também nos ajudam e nos ensinam a nadar felizes e em paz.

Que venham os nossos próximos 22 anos de trabalho, de construção, de otimismo, de conquistas, de felicidade e de muito amor. E que a nossa lagoa continue não conhecendo limites. Sei que a gente ainda tem muito a nadar…

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Precisamos falar sobre Greta…

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Não há como negar, a adolescente sueca Greta Thunberg foi a personalidade da semana. Principalmente depois de seu controverso discurso na ONU, a ativista se transformou no assunto mais comentado na mídia e nas redes sociais do mundo inteiro. Como já se tornou praxe em qualquer matéria contemporânea, opiniões equilibradas não passaram de gotas em um oceano de polarização e radicalismo cada vez mais extenso. Para um dos extremos, Greta representa a nossa salvação, certamente merecedora do posto de líder mundial e, se possível fosse, eleita a nova responsável pelo destino da humanidade daqui por diante. Para o extremo oposto, entretanto, Greta não passa da encarnação do mal, uma espécie de marionete a serviço de poderosos que só pretendem lucrar com a pobreza, a fome e a desigualdade planetárias.

Antes de emitir minha opinião, assisti a vários dos discursos e entrevistas coletivas feitas pela adolescente. E começo afirmando que a sua postura quase caricata vista no discurso da ONU é exceção e não regra. Em todas as demais aparições que acompanhei, suas expressões faciais e seu tom de voz se mantiveram serenos e controlados. Não vou aqui especular sobre os motivos do seu comportamento em Nova York no início desta semana, mesmo porque não tenho conhecimento algum sobre a síndrome de asperger que pode ter contribuído de alguma forma.

Entretanto, o tom pessimista e duro visto na ONU estão presentes em todas as manifestações de Greta. Ela é sempre taxativa quanto ao tempo que o planeta não dispõe e quanto à insuficiência das medidas tomadas até agora, inclusive as aprovadas pelo Acordo de Paris. Greta quer ver as emissões de carbono reduzidas em 80% até o ano 2030, quer energias renováveis preponderando em menos de cinco anos, quer o fim da utilização de combustíveis fósseis, inclusive nos transportes aéreos e marítimos. Segundo a ativista, se essas e outras inúmeras ações não forem tomadas, o planeta alcançará o “ponto de não retorno” em menos de uma década. A partir daí, também segundo ela, será iniciada uma reação em cadeia que irá extinguir toda a nossa civilização. E não haverá nada que possamos fazer para evitá-la.

Bom, vou começar pelo lado positivo. Acho realmente auspicioso que milhares de jovens tenham encontrado em outra jovem uma inspiração para suas vidas. Acho revigorante que essa jovem tenha se cansado de esperar respostas dos seus líderes e buscado ela mesma agir de acordo com as suas crenças e objetivos. Nada mais justo e legítimo. Mais do que de palavras e de cobranças, o mundo precisa de ações. Por isso, não sou daqueles que considera Greta uma menina mimada que deveria voltar à sua insignificante posição de estudante e esperar a sua vez de abrir a boca. Pessoas idealistas e visionárias dispostas a questionar, a nos fazer pensar e a nos tirar de nossa zona de conforto são mais do que necessárias. Afinal, sempre foram os questionamentos que fizeram a humanidade crescer e evoluir.

Por outro lado, acho que a visão de Greta, além de alarmista, é deturpada e carente de evidências. Sim, existem cientistas que corroboram seus vaticínios. Assim como existem cientistas que negam inteiramente a participação do homem no aquecimento global. Ambas visões são minoritárias e aí vem a grande questão: por que a porta voz de uma delas é aplaudida e venerada enquanto a outra é completamente ridicularizada? Além do mais, me incomoda imensamente a assertividade com que datas, números e cenários catastróficos são apresentados quando todos sabemos que os estudos científicos nesta área se baseiam em projeções. Ninguém é capaz de afirmar nada categoricamente, muito menos uma estudante do ensino médio. Uma coisa é enaltecer sua disposição e sua iniciativa, outra bem diferente é endossar suas palavras.

Independente de qualquer opinião, o fato é que as propostas de Greta não são viáveis e, se ainda assim fossem implementadas, provocariam desastres quase tão terríveis quanto aqueles por ela profetizados. O mundo, infelizmente, não é uma grande Suécia. Mais de três bilhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, dois bilhões não têm acesso a saneamento básico e mais de setecentos milhões ainda passam fome. Esses números tão alarmantes já foram bem piores. Na verdade, a pobreza mundial tem caído sistematicamente à medida em que a economia de mercado se expande. Há 30 anos, mais de 35% da população mundial vivia na pobreza extrema. Hoje, esse número é de aproximadamente 10%. Curioso é que a economia de mercado é tratada como a grande vilã nos pronunciamentos de Greta. Não poderia haver incoerência maior. Só através da consistente geração de riquezas será possível o desenvolvimento de novas tecnologias capazes de mudar a matriz energética dos países, reduzir a emissão de gases poluentes e melhorar a produtividade agrícola preservando, em consequência, matas e florestas nativas.

Por tudo isso, acredito que Greta Thunberg não deveria ser vista como deusa ou demônio. Eu particularmente a vejo como um impulso. Um impulso capaz de mobilizar milhões de pessoas, de fazer com que líderes mundiais se atentem a questões cruciais, de conscientizar a população sobre a importância da preservação da natureza. Um impulso cuja força não está nos argumentos. Em suma, aprovo a forma, discordo do conteúdo. Mesmo assim, até pela visibilidade que lançou sobre o tema, acho que Greta já tenha feito mais pelo planeta do que a grande maioria de nós jamais será capaz de fazer.

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Romance estelar…

Atenção, petista solteiro, solteira ou solteirx, vem aí o PTinder, o aplicativo de relacionamentos feito especialmente pra você. A ideia partiu de uma advogada que, para ajudar um amigo que levara um fora, publicou sua foto nas redes sociais dizendo que ele era de esquerda. Segundo a advogada, foi isso que mais atraiu a atenção das mulheres.

O aplicativo possui algumas diferenças em relação ao Tinder tradicional. Quando um pretendente encontrar um par não será um match, mas sim um marx. Também ali ninguém vai encontrar a metade da sua laranja (por ser coisa do Queiroz). O que se busca é a metade da sua estrela. Fofo, não é? É muito fácil participar. Basta se cadastrar e preencher um pequeno questionário para que a pesquisa possa ser feita da forma mais acurada possível.

Não perca essa oportunidade única de começar um romance com alguém que grite Lula Livre tão alto quanto você. Deixe essa coisa de pluralidade de pensamento para ser lembrada só nos comícios, passeatas e paralisações. Ah, e não se preocupe, o PTinder garante que todos os seus dados são confidenciais e invioláveis, inclusive – e principalmente – o seu teste de QI.

Boa sorte!

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Num estalar de dedos…

Os dois capítulos finais da saga “Os Vingadores” quebraram recordes de bilheteria e levaram os fãs do Homem de Ferro e companhia às lágrimas por diversas vezes, principalmente no momento em que o vilão Thanos alcança seu maior objetivo: exterminar aleatoriamente metade da população da Terra.

As ações de Thanos, entretanto, não são motivadas pela fome de poder ou pela enfadonha busca do controle mundial. Thanos quer que metade da população deixe de existir para que a Terra se torne um planeta viável. De fato, após concretizar seu acalentado sonho, Thanos destrói as pedras que lhe proporcionaram poder absoluto – prova de que suas intenções sempre foram as mais nobres possíveis – e se refugia nas montanhas, de onde pode vislumbrar um novo mundo sem miséria, sem fome, com oportunidades iguais para todos, sem problemas de saúde, transporte e moradia. Um mundo de oceanos mais limpos, florestas nativas preservadas, nascentes e cursos d’água sem quaisquer riscos de contaminação.

Thanos é, sem dúvida, o mais ecológico dos vilões da história do cinema. Com um simples estalar de dedos conseguiu transformar áreas desmatadas em novas florestas, reduzir pela metade as emissões de gás carbono na atmosfera, recompor a camada de ozônio e findar os riscos do aquecimento global. Entretanto, no final da saga os super-heróis conseguem reverter as ações de Thanos e o planeta Terra volta a ser o mesmo lugar desastroso de sempre. Nem mesmo os fictícios filmes da Marvel foram capazes de fazer com que a fome, a pobreza, a falta de saneamento básico, as endemias, as guerras e todas as catástrofes do mundo moderno desaparecessem por mágica.

O fato é que a única forma de se alcançar algum progresso nessa área é através do trabalho, do empreendedorismo, da inovação, do cuidado com os mais necessitados, dos investimentos maciços em saúde e educação. E nada disso poderá ser conquistado se não houver geração e distribuição de riquezas. No mundo real, não existem fórmulas mágicas nem almoços grátis. O crescimento econômico global também é fundamental para o desenvolvimento e a aplicação de novas tecnologias capazes de viabilizar fontes de energia renováveis, redução efetiva das emissões de gases poluentes e preservação das florestas e matas nativas. Em resumo: sem grana, nada feito.

Por tudo isso, me parece muito pouco inteligente – para dizer o mínimo – a aplaudida aversão ao dinheiro gerado por um modelo econômico que, mesmo com todas as suas limitações, tem feito com que mais e mais pessoas deixem de viver abaixo da linha da pobreza no mundo a cada ano. Claro, pelo menos até que o Thanos apareça para, de uma forma ou de outra, resolver nossos problemas definitivamente.

Por falar nisso, após alguns dos inflamados discursos proferidos nos dois últimos dias na ONU, sou capaz até de imaginar uma nova cena final para o último filme da saga: diante de um tribunal composto exclusivamente por jovens em idade escolar, os Vingadores – típicos representantes do capitalismo imperialista – são julgados e condenados por terem acabado com o sonho de um mundo melhor, mais justo, mais limpo e mais sustentável. A juíza, em sua condenação final, vira-se para cada um deles e afirma, quase sussurrando: “Como vocês se atrevem? Nós jamais iremos perdoá-los.” A câmera fecha em close no rosto da juíza enquanto aplausos efusivos são ouvidos ao fundo. Épico!

Na cena pós créditos, novos personagens são apresentados ao público, com destaque para o Orange Man e seu topete cortante, o super detetive 000 James Boris, o Messieur Macaron e o Capitão Fuinha com sua irritante mania de sabotar seus próprios planos. É a Marvel renovando seu arsenal de heróis depois da derrocada dos Vingadores. Que fase!

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Canalhices diárias…

Sexta-feira, 20 de setembro, nove e meia da noite…
Dentro de uma Kombi, uma menina de oito anos voltava de um passeio ao lado de sua mãe. Um tiro de fuzil, entretanto, impediu que Ágatha chegasse em casa. Ela morreu na madrugada do dia seguinte, poucas horas após ter dado entrada no hospital.

Sábado, 21 de setembro, dez da manhã…
Marcelo Freixo, Jandira Feghali e Guilherme Boulos vão ao Twitter protestar contra a política de segurança pública do governo do Rio, acusam o governador de assassinato e lançam a hashtag #ACulpaEDoWitzel, que rapidamente alcança os trending topics do dia.

Sábado, 21 de setembro, três e quarenta da tarde…
Na zona norte do Rio, uma dupla de policiais aborda dois suspeitos em uma moto. Durante a abordagem, um dos suspeitos saca sua arma e atira na cabeça do cabo Leandro de Oliveira. O policial morre na hora. Foi o quarto policial carioca assassinado em apenas uma semana.

Segunda-feira, 23 de setembro, duas da tarde…
Em entrevista coletiva, o governador Wilson Witzel lamenta a morte de Ágatha mas reafirma sua confiança na polícia. Ao contrário da agilidade demonstrada logo após a bem sucedida e midiática ação policial que acabou na morte de um sequestrador, desta vez o governador fluminense demorou mais de sessenta horas para se manifestar sobre o ocorrido.

Canalhas!

Canalhas, todos eles! E não só os citados. Canalhas todos que transformam cadáveres em plataformas políticas. Canalhas todos que fingem se importar com a dor das famílias mas, no fundo, torcem para que novos crimes possam continuar endossando suas malditas e malfadadas ideologias. Canalhas todos que se julgam no direito de colocar em perspectiva o fim de uma vida, seja ela qual for. Canalhas todos que são capazes de tratar uma mesma vítima como baixa inexpressiva de uma guerra ou mártir iluminado, dependendo apenas de quais sejam seus asquerosos interesses.

Pessoas inocentes estão sendo aniquiladas todos os dias no Brasil e muita gente só pensa em como lucrar com isso. Mortes são efusivamente comemoradas ou hipocritamente lamentadas em função do número de votos que tal comportamento é capaz de gerar. A vida pouco importa. Pra essa gente, a vida jamais importou.

Uma menina de oito anos foi assassinada. Policiais que cumpriam seu dever foram assassinados. E o que fazem de um modo geral os políticos e a sociedade? Abrem um debate amplo em busca dos melhores caminhos? Buscam opiniões de especialistas das mais diversas áreas e com diferentes pontos de vista? Longe disso. Fazem dos crimes que lhes interessam novas armas para atacar seus adversários. Rotulam as mortes como “ossos do ofício”, “acidentes de trabalho”, “escudos humanos plantados”, “mal necessário” e outras denominações rasas e simplistas que não passam de formas de se desvalorizar ainda mais as vidas que se perderam. Condenam apenas os criminosos que atendam à suas narrativas na mais sórdida das maneiras de se deturpar a verdade. Quase ninguém se coloca verdadeiramente no lugar das esposas ou dos filhos dos policiais, do avô ou da mãe da menina. Muito menos no lugar das vítimas. Se assim o fizessem, jamais admitiriam que qualquer vida perdida fosse relativizada.

Terça-feira, 24 de setembro, cinco para as seis da manhã…
Um novo dia de primavera amanhece no Brasil. Por certo, um novo dia repleto de acontecimentos que serão explorados, distorcidos e moldados para atender aos diferentes discursos dos que pretendem continuar ditando as regras de um povo mais afeito a ruminar do que a raciocinar. Um novo dia em que, infelizmente, mesmo para os não ruminantes, ânsias de vômito precisarão ser controladas…

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Páreo duro…

E chegamos à grande final do concurso “Vergonha Alheia Brasil 2019″. A partir de hoje você vai nos ajudar a eleger a declaração mais infeliz do ano até agora. A disputa está mais acirrada do que nunca. Poucas vezes conseguimos reunir tanta gente competente e criativa capaz de se destacar nos quesitos “isso é sério?”, “não é possível que ele disse isso”, “claro que é piada”, “meu Deus do céu” e o cobiçado “puta que pariu!”.

Ao longo das últimas semanas, nossos jurados trabalharam incessantemente na seleção dos finalistas, tamanha a profusão de asneiras repetidas diariamente por celebridades, jornalistas e pelos nossos representantes de todas as esferas. Exatamente em função dessa enorme quantidade de mer…, quero dizer, de material a ser analisado, excepcionalmente nesta edição foram escolhidos dez competidores que serão submetidos agora a voto popular.

E aqui estão os escolhidos:

1) Olavo de Carvalho – a declaração que garantiu a presença do filósofo na final foi proferida ontem: “Vou investigar, mas me parece verdadeiro pelo contexto: os Beatles eram semi-analfabetos em música. Não sabiam nem tocar violão. Quem compôs as canções foi o Theodor Adorno (fundador da Escola de Frankfurt)”. E acrescentou: “Você tem ideia da porcaria que os Beatles fizeram com o mundo? Os Beatles e outros conjuntos. Todos eles têm ao menos uma canção de celebração do satanás. É satanismo explícito”. Pelo visto o gurú da família Bolsonaro vem com fome de vitória. Entretanto, fosse esta uma competição de palavrões e o troféu já seria dele.

2) Anitta – a funkeira mais famosa do país entra na disputa com a divulgação de um vídeo em que afirma, entre outras preciosidades, que a “agropecuária é um câncer da natureza”. A opinião de Anitta repercutiu tanto que ela até já anunciou que, em breve, irá lançar seu primeiro livro de receitas somente com variações de água de chuva e sopa de pedras.

3) Gleisi Hoffmann – a nossa eterna Narizinho, vencedora do ano passado com sua declaração “Lula livre”, emplacou mais uma pérola histórica ao afirmar que “volta PT é o desejo dos brasileiros para colocar o país no rumo e melhorar a vida da nossa gente”. O tempo passa e ela continua sendo uma candidata fortíssima.

4) Abraham Weintraub – o atual ministro da educação chega forte à disputa com o tuíte: “Os franceses elegeram esse Macrón, porém, nós já elegemos Le Ladrón, que hoje está enjauladón…Ferro no cretino do Macrón, não nos franceses”. O país ficou paraliZado diante de um comentário tão elegante e espirituoso.

5) Dilma Rousseff – a hexacampeã do torneio não poderia ficar de fora. Este ano ela entra no páreo com sua tentativa de criticar a provável privatização dos correios e afirmar que “o governo quer transformá-los em uma grande Amazon”. Quem dera, não é, querida?

6) Marcelo Crivella – foi difícil escolher apenas uma declaração do prefeito do Rio de Janeiro diante de tão vasto repertório. A frustrada tentativa de censura na Bienal, entretanto, conseguiu superar todas as demais. A frase símbolo do ocorrido foi dita pelo chefe da fiscalização da prefeitura encarregada de procurar e recolher qualquer “material impróprio”. Perguntado sobre o que tinha encontrado na Bienal, ele respondeu: “muitos livros”.

7) Glenn Greenwald – o jornalista preferido de onze entre cada dez condenados pela Lava Jato concorre com a seguinte afirmação: “O julgamento de Lula foi produto de um processo cheio de impropriedades e não podemos admitir que ele permaneça em pé. Pelo menos, que Lula tenha um novo julgamento e saia da prisão enquanto esse julgamento transcorre”. Parece que aqui ele terá mais chances de vitória do que no próximo Prêmio Pulitzer.

8) Carlos Bolsonaro – o vereador carioca protagonizou inúmeros momentos de constrangimento ao longo do ano. Sua participação na final foi conquistada graças à sua peculiar forma de escrita que só ele mesmo consegue entender e ao tuíte feito há pouco: “Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos… e se isso acontecer. Só vejo todo dia a roda girando em torno do próprio eixo e os que sempre nos dominaram continuam nos dominando de jeitos diferentes”. O Tonho da Lua reencarnado é um verdadeiro democrata.

9) Eduardo Bolsonaro – o candidato a embaixador concorre com a já histórica frase proferida quando tentava justificar sua indicação: “Já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos EUA, no frio do Maine, estado que faz divisa com o Canadá”. Se não conseguir a vaga na embaixada americana, zero três promete não perder o posto de funcionário do mês.

10) Jair Bolsonaro – após proferir, em menos de nove meses de governo, centenas de ofensas gratuitas, afirmações constrangedoras, dados incorretos e teorias da conspiração, por pouco nosso presidente não entra na categoria “hors concours”. Entretanto, por decisão unânime de nossos jurados, Jair Bolsonaro chega à final pelo conjunto da obra. Assim cada um fica livre para escolher a frase que mais o tenha feito ansiar por uma afonia crônica, um tratamento de canal ou uma cirurgia de hérnia acompanhados de restrições de fala extremamente duradouras.

Bom voto!

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Notas e letras…

Violão

A imponente porta se abriu com um esforço muito menor do que eu imaginara. Tinha quase três metros de altura e sua largura era o dobro das demais portas daquele casarão. Ainda não sabia o que esperar daquele cômodo prestes a ser desvendado, mas um frio na espinha me dizia que aquela experiência poderia mudar meus parâmetros.

Era um salão enorme e a bruma que escondia boa parte da fachada externa do palacete parecia ter adentrado o cômodo longilíneo. Oito janelas simetricamente posicionadas em ambos os lados emprestavam ao local a solenidade de uma nave. A luz que conseguia vencer a densa neblina, embora difusa, era suficiente para que todo o ambiente se desnudasse. Dois largos degraus ao fundo levavam a uma espécie de altar desprovido de imagens sacras. No centro do patamar elevado, um grande candelabro pendia de um teto ornado com pinturas de instrumentos e notas musicais. Mas o que havia de mais sagrado naquela sala se localizava em cada uma de suas paredes. Estantes com pelo menos quatro metros de altura repletas de novos e antigos livros compunham uma visão quase cinematográfica, como se um filme de época estivesse para ser rodado a qualquer momento naquele cenário. Sob o candelabro, cercada por outras estantes nas laterais e ao fundo, uma mesa de Pinho de Riga fazia as vezes de parlatório. A sobriedade daquele ambiente se contrapunha a uma inequívoca sensação de aconchego.

Atravessei todo o salão vagarosamente, na tentativa de identificar alguns dos títulos e autores das centenas de obras ao longo do caminho. Não consegui, entretanto, vencer a cerimoniosa distância que se espera de todo primeiro encontro. Subi os degraus rumo ao piso elevado e o ranger do assoalho de madeira ecoou pelo ambiente como o badalar dos sinos de uma silenciosa catedral. Dei a volta na mesa, afastei a generosa poltrona revestida com um surrado veludo vermelho e ali me sentei. A visão do lado oposto do cômodo era ainda mais impactante e cheguei a me questionar se era a bruma que entrava pelas frestas das janelas ou se esta nascia naquele ambiente para só então transportar sua misteriosa aura ao exterior. Havia alguma coisa mágica naquele lugar e eu não queria mais sair dali.

Sobre a mesa, repousavam uma pequena caixa de música e um violão. Não ousei tocar no instrumento mas instintivamente abri a caixinha de música. Ouvi as primeiras notas de uma deliciosa valsa quebrarem o silêncio absoluto. De repente, os singelos sons passaram a reverberar em cada estante daquele salão e retornaram à mesa na forma de uma verdadeira orquestra, completa e harmoniosa. Eu não conseguia acreditar no que ouvia. Aquele concerto quase etéreo não poderia ser fruto de meras questões acústicas. Levantei-me da poltrona e me dirigi às estantes. A harmonia do concerto não se perdeu e vi que, oriundos de muitos livros, os sons dos mais diversos instrumentos podiam ser identificados. Violinos, trompetes, oboés, flautas, violões, contrabaixos e até um piano executavam um arranjo primorosamente concebido que completava com maestria o tema melódico performado pela pequena caixa de música sobre a mesa. Tomado pela emoção, tirei diversas obras das prateleiras e percebi que as páginas cantantes eram parte de calhamaços de partituras musicais. Atordoado, coloquei os livros de volta nas estantes e me sentei novamente na poltrona em frente à mesa. Então mantive meus olhos fechados até que a última nota daquela sinfonia foi tocada. E o silêncio voltou a reinar naquela sala.

Não tardou muito e um outro som me retirou do estupor em que mergulhara. Abri os olhos e me deixei ser guiado por um sussurro que parecia vir de uma estante próxima à entrada. Não se tratava mais de música. Eram palavras. Palavras recitadas por uma voz pausada e suave que, à medida em que me aproximava da sua origem, ficavam cada vez mais nítidas. Foi quando ouvi com clareza: “Nenhum homem sábio deixará de se espantar com a cegueira do espírito humano. Ninguém permite que sua propriedade seja invadida, e, havendo discórdia quanto aos limites, por menor que seja, os homens pegam em pedras e armas. No entanto, permitem que outros invadam suas vidas de tal modo que eles próprios conduzem seus invasores a isso. Não se encontra ninguém que queira dividir sua riqueza, mas a vida é distribuída entre muitos. São econômicos na preservação de seu patrimônio, mas desperdiçam o tempo, a única coisa que justificaria a avareza”.

Não hesitei. Tomei o livro de Sêneca nas mãos e o levei comigo. Poucos dias depois voltei para devolvê-lo à sua prateleira e ficar atento ao que a voz pausada e suave me reservava. E assim conheci Goethe, Kant, Sartre, Carlos, Cecília. Assim ouvi Ludwig, Wolfgan, Peter, Heitor, Fabio. Assim ainda os revisito, ouço e sou apresentado a tantos outros. Todos naquela sala. Todos naquele altar…

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