As tentações do populismo…

Ainda não sou capaz de apontar, com segurança, qual candidato à presidência receberá meu voto no próximo ano. Entre os nomes lançados e especulados até agora, ainda não identifiquei aquele que personifique inteiramente meus anseios de liberdade individual, valorização da meritocracia, responsabilidade fiscal, descentralização do poder, redução do peso do Estado, e isonomia de oportunidades a todo cidadão. Apesar da enorme ansiedade, sei que não devo ter pressa para me decidir. Afinal, na minha opinião, a eleição do ano que vem será, simplesmente, a mais importante da história brasileira até agora. Chegamos ao ponto de inflexão da nossa própria sobrevivência. Mudamos a curva ou perecemos, simples assim. A próxima oportunidade será também a última para um país em frangalhos. Nossa cota de erros se esgotou. Eu e todos os brasileiros teremos tempo suficiente para analisar a história, as propostas, a coerência e as intenções dos postulantes ao posto mais importante do Brasil. Entretanto, além de todas essas observações tão relevantes, creio que deveremos estar particularmente atentos à forma como cada candidato irá lidar com os riscos do populismo eleitoral.

Não me refiro, é claro, ao populismo rasgado, ostensivo, insolente, tão em voga nas últimas décadas da política brasileira. Uma candidatura com tal inclinação não poderia sequer ser considerada uma opção diante do desolador cenário em que nos encontramos. Refiro-me ao populismo velado, escondido nos pequenos detalhes, dissimulado nas mais inocentes arguições. Aquele que faz até os simpatizantes do liberalismo recorrerem a metáforas ininteligíveis sempre que questionados sobre um determinado assunto. Aquele que os levam a se justificarem demoradamente primeiro para, somente depois, emitirem, rápida e seletivamente, suas opiniões. Aquele que os fazem engolir em seco, enquanto secam suas esperanças de que respostas monossilábicas possam satisfazer seus interlocutores. Aquele que os fazem calcular quantos votos perderiam caso o ponto de vista integral, sem cortes, viesse a ser pronunciado.

Vivemos em um país que não permite que as verdades de cada um, assim como suas reais intenções, possam ser apresentadas sem um véu que as embacem. E já passou da hora de acabarmos com esse contrassenso, com essa ilusão consensual, com essa interpretação tendenciosa dos fatos. Que tipo de líder pode surgir em um ambiente tão deturpado? O que queremos ouvir dele? Embromações? Meias verdades? Realidades açucaradas para atender às expectativas de um povo que se habituou a ser enganado sistematicamente? Palavras autocensuradas pelas regras impostas por uma sociedade mimada pela farsa do politicamente correto? É momento de decidirmos qual é o perfil do líder que buscamos desta vez.

Os estudiosos da arte da oratória afirmam que o uso de metáforas e parábolas nos discursos proferidos pelos comandantes de diversas culturas sempre facilitou sua comunicação com as massas. Inúmeros líderes da história se valeram e continuam se valendo desse artifício em todo o mundo. Somente assim, dizem eles, o povo, ignorante em sua maioria, é realmente capaz de compreender suas mensagens. No Brasil, como de costume, levamos essa “linguagem popular” a outro nível. Aqui, o populismo está a serviço da desvalorização do ser humano. Cultura, preparo, competência, educação, iniciativa, capacidade de empreendedorismo, todas essas qualidades passaram a ser tratadas como valores elitistas, quase repugnantes. Através dos simbolismos e das bravatas populistas, o país conseguiu a façanha de desestimular o esforço individual, o desejo de crescer, de produzir, de gerar empregos, renda e riqueza. Os discursos repletos de metáforas, tão bem usados em épocas longínquas, só têm feito com que o sucesso individual seja tratado como crime, e não como mérito. Como motivo de escárnio, e não de admiração. É tempo de mudarmos esse triste quadro.

Por tudo isso, a primeira coisa que espero dos meus candidatos em potencial é que não tentem usar subterfúgios para divulgar suas ideias. Que não tratem as pessoas como limitadas, como idiotas. Quero propostas claras, compostas de metas claras e factíveis, origem clara dos recursos necessários, e plena viabilidade jurídica e constitucional. Quero honestidade, coerência e sinceridade diante de qualquer assunto, mesmo os mais polêmicos. Quero opiniões fortes e bem fundamentadas, ainda que muita gente discorde delas. É primordial que eles entendam que ninguém vai conseguir agradar a todo mundo o tempo todo. E aquele que insistir nisso certamente irá se perder. Quero alguém que tenha a coragem de se posicionar a favor de temas impopulares e seja capaz de explicar com clareza os motivos que o levaram a tal posição. Quero alguém que não tenha como meta a sua própria reeleição no pleito seguinte. Quero alguém comprometido com o desenvolvimento intelectual do Brasil, em todos os seus aspectos, com todas as suas complexidades. Quero, finalmente, alguém que enxergue o populismo como a anomalia que é: uma distorção patética dos fatos, um escambo obsceno em que um abre mão da dignidade em troca do voto do outro, um manto de turbidez que a democracia brasileira não pode mais se permitir usar!

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Ode à hipocrisia…

Uma pequena manifestação em frente ao Palácio das Artes, em Belo Horizonte, marcou hoje o lançamento da Frente Nacional Contra a Censura (FNCC), movimento que surgiu depois que exposições e atividades artísticas sofreram críticas e boicotes relacionadas ao seu conteúdo. Artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso declaram seu apoio ao movimento e mostram preocupação com a escalada do conservadorismo e do fascismo no país. Afinal, dizem eles, a liberdade de expressão não pode e não deve ser restringida em nenhuma hipótese.

Sete cineastas decidiram retirar suas produções de um festival de cinema em Pernambuco, alegando que dois filmes da mostra estavam alinhados a uma direita conservadora e fascista. Desde então, esses mesmos filmes têm sido alvos de críticas e boicotes e, invariavelmente, suas exibições pelo país vêm acompanhadas de protestos e ameaças aos exibidores e espectadores. Curiosamente, aqueles que buscam impedir a exibição destes filmes são os mesmos que apoiam incondicionalmente a liberdade defendida pela Frente Nacional Contra a Censura lançada hoje.

Em contrapartida, um grupo se destaca na defesa da livre exibição dos filmes contestados. Através de ações de marketing, ajudam a divulgar tanto os filmes quanto as tentativas de censura a que estão sendo submetidos. Promovem debates e procuram, assim, mostrar o outro lado de uma mesma história. Afinal, dizem eles, a liberdade de expressão não pode e não deve ser restringida em nenhuma hipótese.

Entretanto, esse mesmo grupo que, curiosamente, se autodenomina liberal, acredita que museus e galerias só podem abrigar exposições validadas, aprovadas e chanceladas por ele. Qualquer tentativa de fuga dos padrões determinados pelo grupo não deve e não pode ser considerada uma manifestação artística. Muitas pessoas discordam desse entendimento e, em defesa da liberdade de expressão, criam movimentos como a Frente Nacional Contra a Censura, lançada hoje.

E, assim, mais um triste círculo se fecha no triste atual cotidiano brasileiro. Mais triste ainda é constatar que círculos como esse se repetem aos montes a cada dia. Na teoria, todos defendem a liberdade plena e irrestrita. Na prática, querem livres apenas as vozes que os acompanham. Tudo em nome de suas malfadadas ideologias. E, assim, seguem todos ignorando o conceito de liberdade.

Brasil, um país de hipócritas!

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O último elo…

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Não falta mais a outra taça.
Não faltam mais as conversas e as risadas.
Não faltam mais os olhares condescendentes de quem sempre soube o caminho certo mas esperava que o outro o descobrisse pelos seus próprios erros.
Não faltam mais os olhos nos olhos na hora do brinde.
Não faltam mais as súplicas silentes para que aqueles momentos pudessem durar só mais um dia, mais um mês, mais um ano.
Não faltam mais as palavras que faziam surgir novos horizontes.
Não falta mais o silêncio que calava a alma.
Não falta mais ele…
Pelo menos, não nesta mesa, não nesta varanda, não nesta casa, não nesta pequena maquete do Paraíso.
Tudo passou e não poderia ser diferente.
Daqui para frente, os brindes serão feitos apenas em outras mesas, em outras casas, com outras taças.
O último elo está rompido e não poderia ser diferente.
Elos, eras, ciclos só podem existir com prazo de validade.
Postergá-los além da data de vencimento os tornam, no mínimo, difíceis de serem inteiramente compreendidos.
A vida é assim e, somente assim, ela se perpetua.
Finalmente, rompido o elo, vem a revelação: sem a taça dele, a minha não estaria aqui.
Por isso, mesmo que a foto mostre apenas uma taça, a outra sempre estará lhe fazendo companhia.
Poderia ser diferente? Sim, mas não com ele…

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E ainda ouço o canto destas águas…


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Eu me lembro como se fosse hoje do dia em que estive aqui pela primeira vez. Poucas eram as trilhas abertas, meros rascunhos das ruas que viriam a cortar, com surpreendente suavidade, a vegetação nativa. Naquele momento, praticamente só se via o verde claro das montanhas, o verde escuro das matas e o verde musgo translúcido das águas do lago. O azul do céu emoldurava a obra notável que a natureza preparara com tanto esmero. Idealizador do lago envolto pelo bosque, o homem cumpria aqui um importante papel na concepção de um verdadeiro oásis. A água, cercada pelas árvores que dançavam ao sabor dos ventos intermitentes, concebia um cenário digno das imagens forjadas nos cérebros daqueles que creem no Paraíso. Se sua superfície plácida envolvia em silêncio e serenidade todos que caminhavam pela trilha que margeia o lago, sua força e sua voz se mostravam imponentes nas belíssimas quedas das cachoeiras. E foi aqui bem perto, na cachoeira que aprendi a chamar de minha, que ouvi pela primeira vez o poderoso e indescritível canto das águas. Desde então, esse é um som que me embala e me acalenta. Viemos aqui em busca de um lugar onde construir um sonho. Saímos com a certeza de que o sonho estava próximo e que um simples mirante voltado para o nascer do sol por detrás da montanha já seria suficiente para que nossos anseios encontrassem pouso.

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Mas aquelas duas almas iluminadas queriam bem mais do que apenas um mirante. Eles queriam seu tão acalentado canto. Um canto tão generoso quanto eles próprios pois deveria ser grande o bastante para que todos ali coubessem. O canto que eles queriam deveria ser um local de encontro, de confraternização, de aconchego, de abraços. O canto que eles queriam deveria ter suas portas constantemente abertas, suas janelas voltadas para o horizonte, suas dependências integradas para que todos experimentassem a dádiva de se viver em comunhão. O canto que eles queriam deveria ser alegre, convidativo, disponível, simples e acolhedor. O canto que eles queriam deveria ser exatamente como eles.

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Coube a mim a responsabilidade de tentar colocar tudo isso no papel, na forma de desenhos e cotas, e, logo em seguida, transformá-los em concreto, tijolos, telhas, esquadrias e acabamentos. Como sempre, generosos eles foram ao conferir tarefa tão importante a alguém sem qualquer experiência, munido apenas de boa vontade e muito amor. Assim, através da bondade deles, nasceu este canto. Assim, aqui também nasceu minha carreira, minha vocação, minha empresa, minhas experiências com a construção de tantos outros sonhos que se materializaram ao longo dos anos. Assim, aqui nasceu grande parte de mim mesmo.

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A noite do Réveillon de 1993, há quase vinte e cinco anos, foi a nossa primeira neste canto recém-construído. E eu não saberia dizer quantos Réveillons aqui passamos, quantos carnavais, quantos feriados, ou quantos fins de semana. Posso afirmar, entretanto, que todos foram inesquecíveis. Todos foram repletos de sorrisos, de tolerância, de amizade, de cumplicidade. Todos foram plenos de amor. Aqui, nossos parentes, nossos amigos e nossas esposas sempre se sentiram em casa. Aqui, meus filhos e meus sobrinhos aprenderam a andar, a nadar, a brincar, a dividir. Um lugar onde nada era proibido mas que nunca conheceu excessos. Um lugar onde todos eram bem-vindos e que, mesmo com tanta gente, jamais vivenciou desarmonia. O canto deles foi, durante quase vinte e dois anos, o mais próximo que vi um lugar terreno chegar do Céu. Aqui, vai ecoar para sempre a profundidade dos conselhos e das palavras ditas por ele em diversos altares, montados no campo de futebol, na churrasqueira, na varanda, ou mesmo quando sentado ao nosso lado, jogando sinuca, fazendo churrasco, ou simplesmente fitando cada um de nós com aquele olhar repleto de doçura. Aqui, a energia dela viverá para sempre em cada árvore, em cada nova orquídea que florescer, em cada fruta que vier a ser saboreada, em cada nova cor que eclodir no seu Bosque dos Anjos. Aqui, viverá para sempre o amor mais lindo que um canto, qualquer canto nos quatro cantos da Terra, jamais testemunhou. Por isso, aqui neste canto, também viverá para sempre parte de mim, parte do que eu sou, parte do que aprendi, parte do que eu vier a me tornar. E, por isso, este canto, hoje e sempre, guardará a plenitude do meu amor e da minha gratidão. O canto deles, o canto nosso, o meu canto, será sempre uma das mais lindas canções que eu levarei na alma.

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Eles se despediram deste canto há pouco mais de três anos. Desde então, voltar aqui nunca mais foi o mesmo e, por isso, voltei tão pouco. Com a ausência deles, o Canto das Águas perdeu boa parte da sua voz, da sua força e da sua magia. Hoje, quem se despede daqui sou eu, e não saberia dizer o que sinto. Por um lado, é como se eu estivesse me despedindo deles novamente, e me despedir deles foi a coisa mais difícil que eu tive que fazer na minha vida até agora. Por outro, eu sei que eles ainda continuam juntos em um canto que é só deles. Caminhando de mãos dadas pelas trilhas de um local pleno, sem ontem e sem amanhã, sem ansiedades e sem aflições. Saber que o canto deles continua me reconforta. Também me reconforta pensar que, quando chegar a hora de reencontrá-los, provavelmente os verei em uma varanda como esta, de frente a um lago tão lindo quanto este, esperando por mim com aqueles olhos inundados de amor. Então, sei que eles me dirão, com a mesma ternura de sempre: “Filho, senta aqui, vem ouvir o som do silêncio com a gente!”

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O lago azul…

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Quando pequeno, em todo desenho que fazia ele tinha que incluir um lago azul. Mesmo que a ilustração fosse de um bairro, de um carro ou de um esporte, ele sempre dava um jeito de inserí-lo no contexto. O lago aparecia ao lado da estrada, da escola, do estádio, no parque municipal da cidade, ou até entre as colinas geométricas de um planeta imaginário. Se era a sua família que ele queria representar, eles sempre apareciam sorrindo e se divertindo às margens do mesmo lago azul.

À medida em que crescia, entretanto, os desenhos com lagos azuis ficaram mais escassos. As exigências feitas pelos professores permitiam cada vez menos impulsos de criatividade. E, quanto mais velho ele ficava, as atividades mais técnicas e pragmáticas lhe permitiam ainda menor liberdade. Mesmo assim, ele não conseguia conter um sorriso sempre que se lembrava do seu lago azul e do tempo em que suas preocupações se dissipavam apenas com a proximidade de sua família. Dessa forma, percebendo que família e lago azul estavam tão conectados, ele passou a associar um ao outro.

E assim ele cresceu, buscou seus próprios caminhos, errou, acertou, sorriu, sofreu, mas nunca se esqueceu do seu lago azul e da familia que este representava. Quando encontrou o amor da sua vida, fez questão de mostrar também a ela o seu lago. Fez questão de dizer que, a partir daquele momento, ela também fazia parte da família e era, naturalmente, legítima participante daquela magia. O encontro entre eles foi repleto de uma emoção acima das expectativas. Ela e o lago se mostraram tão íntimos que ele chegou a pensar que se conheciam desde sempre. “Bom sinal”, ele imaginou. E, desde então, o lago passou a fazer parte da vida de ambos. Durante vinte anos, eles caminharam e cresceram juntos, tendo sempre o lago como companhia e referência.

Hoje, finalmente, eles foram mostrar o lago azul a todos os membros da família que formaram. Afinal, lago e família sempre foram um só, não era possível deixá-los de lado. Como esperado, os novos membros se emocionaram ao serem apresentados ao famoso lago pela primeira vez. Mas reconheceram nele bem mais do que apenas a família da qual faziam parte. Reconheceram também o amor que unia a todos, a cumplicidade de interesses e objetivos, a liberdade de pensamentos e motivações, e o respeito às diferenças e individualidades. E assim, através da clarividência daqueles que imaginava estar apenas ensinando, ele finalmente conseguiu perceber que o lago nunca tinha sido, para ele, uma mera representação da família. O lago sempre fora, simplesmente, sinônimo de felicidade.

E hoje, junto aos quatro, o lago se tornou mais azul do que nunca!

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Vinte anos de um sonho…

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Já era hora de voltar. Já era de contar o que fizemos desde então. Já era hora de dizer que nossos erros, nossas dificuldades e nossas perdas nos fizeram mais fortes. Que aquelas nossas dúvidas se dissiparam e muitas outras surgiram. Já era hora de mostrar o quanto muitos dos nossos sonhos se realizaram e o quanto nossos sorrisos e nossas conquistas nos tornaram ainda mais gratos à Vida. Já era hora de rever os lugares que nos conheceram quando começamos a escrever a nossa história, que nos abençoaram quando decidimos caminhar definitivamente juntos. Já era hora de ver o quanto os últimos vinte anos nos transformaram.

Afinal, aqui iniciamos nossa vida em comum. E se essa nossa vida, oficialmente, começou há exatos vinte anos, a verdade é que já caminhávamos juntos há muito mais tempo. Meu caminho se uniu ao dela quando conheci seu olhar, seu sorriso, sua força e sua ternura. Foi no encontro com ela que, finalmente, consegui me encontrar. E hoje, mesmo depois de tanto tempo, seu olhar continua sedutor, seu sorriso continua cativante, seus sonhos e objetivos ainda coincidem com os meus, e sua ternura continua sendo o meu combustível de todos os dias. Sua luz continua iluminando os meus caminhos e ampliando meus horizontes. Seu amor continua me fazendo feliz.

Aqui, neste lugar, tudo em volta tem a ver com ela. As cachoeiras são tão imponentes quanto a sua força. O azul dos lagos é tão profundo quanto o seu olhar. As cidades são tão vibrantes quanto a sua alegria. As montanhas são tão generosas quanto o seu afago. A mansidão dos vales é tão impactante quanto o seu silêncio. A simpatia do povo é tão contagiante quanto o seu sorriso. Por isso, para mim e para ela, estar aqui novamente é como voltar para casa. É voltar a ser, por alguns dias, aquele casal que, há vinte anos, se admirava a cada novo cenário descortinado.

Mas hoje, o jovem casal que se extasiava diante daquelas cachoeiras, que saboreava cada prato daquele restaurante e que se impressionava com a vista daquela torre não é mais o mesmo e não está mais sozinho. Hoje, o acompanha aqueles que, então, não passavam de sonhos. Grandes sonhos repletos de ansiedade, incertezas e expectativas. Expectativas que a realidade tratou logo de superar, pois os sonhos do casal jamais foram tão longe. Eles nunca sonharam com olhares tão doces, personalidades tão fortes, índoles tão bem formadas. Por isso, juntos, o casal e seus sonhos vieram aqui para agradecer por todas as alegrias e tristezas, lágrimas e sorrisos que os têm acompanhado e ensinado. E hoje, eles vêm pedir novamente a bênção deste lugar, para que os próximos vinte anos sejam tão plenos, tão especiais, tão completos e tão felizes quanto os vividos até agora!

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Um entardecer em Ottawa…

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Dois músicos no teclado e no trompete tocam jazz.
As mesas, ao ar livre, começam a receber a brisa mais fria do outono.
Ao entardecer, o sol se põe e tinge de dourado o rio que divide duas metades de uma mesma cidade, duas partes de um mesmo país.
Rio que divide até as duas línguas que convivem em harmonia, assim como os cidadãos de um lugar absolutamente diferenciado.
A comida não tem nenhuma sofisticação, versões gourmets do clássico hot dog criado na América e aperfeiçoado aqui, onde a América certamente é mais convidativa, mais atraente, mais acolhedora.
O vinho é nacional, frutado, suave, agradável, e combina perfeitamente com tudo.
Combina com os hot dogs, com o por do sol, com o rio dourado, com as diversas línguas oriundas das mesas vizinhas, com o jazz.
Combina com os sentimentos que me arrebatam. Quais sentimentos? São tantos, difícil dizer.
Mas a palavra felicidade certamente resume bem todos eles…
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Os gregos, os troianos e sua arte pobre…

O pintor não usou subterfúgios, não criou disfarces, não buscou velar ações nem esconder partes dos corpos com suas pinceladas. A pintura retrata, de forma clara, uma cena de sexo praticada entre três homens.

Outro artista, por sua vez, preferiu representar a luta de dois homens nús em uma escultura. O bloco de mármore captura o momento exato em que o primeiro ergue com as mãos o segundo e este segura avidamente os órgãos genitais de seu adversário.

Em outra tela, os protagonistas são um ser humano e um animal. Mesmo seu autor tendo sido um pouco mais discreto, a ação retratada não permite interpretações divergentes. Trata-se de mais uma evidente cena de sexo.

A escultura em pedra amontoa os corpos nús de homens e mulheres. Uns sobre os outros, e em quase todas as posições possiveis, eles acabam por moldar um enorme falo.

A grande polêmica da semana no Brasil vem de Porto Alegre. Depois de um mês em cartaz, a exposição Queermuseu, promovida pelo Santander Cultural, foi alvo de uma enxurrada de críticas e acusações de apologia à pedofilia e à zoofilia, além de desrespeito às religiões. Como acontece cada vez com maior frequência no Brasil, os extremos puxaram para si o protagonismo do debate. Bom, debate, neste caso, não passa de uma mera figura de linguagem, uma vez que, como já virou rotina, ninguém procurou ouvir nenhum argumento contrário à sua própria limitada e malfadada ideologia. Enquanto um lado ameaçava a instituição financeira com uma debandada de clientes caso a exposição não fosse suspensa, o outro chamava os críticos de fascistas, censores, retrógrados, filhotes da ditadura e diversos outros “elogiosos” adjetivos.

Pois bem, aqui vou eu, mais uma vez, tentar encontrar alguma luz no meio dessa confusão. Mais especificamente naquele meio, pequeno espaço que se localiza entre os dois grandes extremos. Meio que, pelo menos assim acredito, sempre guarda o que resta de bom senso neste mundo dicotomizado. E, assim sendo, tenho plena consciência que irei desagradar a gregos e troianos. Paciência…

Começo dizendo que, para que pudesse emitir minha opinião, tive o cuidado de assistir a um pequeno documentário sobre a exposição, feito antes de toda esta polêmica ter início, e onde várias das obras foram mostradas e contextualizadas, inclusive as mais controversas. Pelo que pude ver, gostei de muitas obras, várias outras não me agradaram e realmente detestei outras tantas. Nada muito diferente do que costumo vivenciar na maioria das exposições a que compareço.

Na minha visão, o grande erro da organização foi não ter estipulado uma idade mínima para os visitantes da mostra. Considero o tema abordado e a maioria das obras absolutamente inadequados para crianças e, portanto, elas não deveriam ter tido acesso à exposição. Foi um erro crasso e quase primário, tamanha sua obviedade. Mas daí a dizer que há apologia à pedofilia, à zoofilia, à sodomia, vai uma distância muito grande. Apologia, por definição, é a defesa ou o apoio a alguma ideia ou crença. O fato de se exporem obras retratando práticas que muitos consideram inaceitáveis, não significa que essas práticas estejam sendo defendidas ou estimuladas pelo expositor. Se assim fosse, obras de arte que retratam guerras, mortes e violências também deveriam ser proibidas em todos os museus do mundo. As obras já existiam anteriormente e não foram encomendadas para “afrontar a sociedade”. Foram apenas selecionadas para a mostra. E várias delas são, na minha opinião, realmente ofensivas, de péssimo gosto e sem nenhuma relevância artística. Mas essa é apenas a minha opinião. E não creio que a minha opinião seja motivo suficiente para que qualquer exposição seja interrompida.

Já do outro extremo, como eu disse, vieram os gritos exaltados de “censores”, “fascistas” e “homofóbicos”. Gritos indignados vindos exatamente daqueles que, há poucas semanas, deliraram quando um grupo de cineastas retirou seus filmes de um festival apenas porque havia, entre as dezenas de filmes participantes, dois que “afrontavam” a ideologia reinante no meio. Acusações vindas daqueles mesmos que impediram que uma peça teatral em Belo Horizonte tivesse sequência simplesmente porque o protagonista do espetáculo cometera o “crime” de considerar o então governo incompetente e corrupto. Recriminações vindas daqueles que aplaudiram quando Chico Buarque retirou a permissão para que sua música “Roda Viva” continuasse abrindo o programa homônimo da TV Cultura, depois de uma “inaceitável” entrevista com Michel Temer. Críticas, enfim, vindas de um grupo cuja pseudotolerância não é capaz de esconder o pobre e podre mundo de hipocrisia em que habitam.

Ambos os lados se juntam na condenação do banco promotor da mostra pelas suas atitudes. Um lado por ter organizado a exposição e ter usado dinheiro da Lei Rouanet para tal. O outro por ter cedido à pressão criada e fechado a exposição antes do previsto. Eu, como já adiantei, penso que o verdadeiro erro foi o de não haver limitação para a entrada de menores, vários levados inocentemente pelos próprios pais. Erro, aliás, que seria de fácil correção.

Muito bem, opiniões emitidas, gregos e troianos devidamente desagradados, me despeço com um último e importante esclarecimento: as obras de arte que citei no início deste texto não faziam parte da mostra do Santander. A primeira é uma pintura feita em um vaso grego datado do século V a.C., e que está exposta no Museu de Oxford. A segunda é uma obra do escultor italiano Vincenzo di Rossi, feita em 1560, e exposta no Palazzo Vecchio, em Florença. A terceira é um quadro feito em 1600 pelo pintor alemão Peter Paul Rubens. E a quarta é uma obra do escultor norueguês Gustav Vigeland e está localizada, ao ar livre, no fantástico parque que leva seu nome, na cidade de Oslo.

Sorte desses artistas não terem nascido no Brasil atual. Provavelmente estariam condenados a pintar naturezas-mortas e esculpir imagens abstratas pelo resto de suas vidas. Nada contra, muito pelo contrário, mas é que contrariar, de vez em quando, sempre fez um bem danado ao mundo!

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Independência, ainda que tardia…

Um policial rodoviário conta suas dez notas de cinquenta reais, recebidas depois de liberar um motorista que dirigia sem carteira em uma estrada vicinal do interior do país. Quinhentos reais que, somados às demais propinas dos últimos meses, irão ajudá-lo a quitar as dívidas que vêm se arrastando há tanto tempo. “A Polícia não consegue me pagar um salário decente”, pensa ele, “tenho que me virar para sobreviver. Sou um batalhador”.

Um poderoso político brasileiro manda seu assessor de confiança buscar a propina da semana. O servo obediente não consegue carregar a mala de dinheiro sem deixar transparecer todo o seu medo de ser pego e identificado. Dentro da mala, os quinhentos mil reais em espécie fazem os reles quinhentos reais do policial rodoviário parecerem quase justos. “O que recebo no executivo é uma miséria”, pensa o político, “faço muito pelo país e mereço bem mais. Sou um batalhador”.

Um ex-ministro, ex-diretor de banco público, ex-anão do orçamento e ex-queridinho de todos os partidos teve seu apartamento invadido pela Polícia Federal. Lá dentro, foram apreendidos mais de cinquenta e um milhões de reais, também em espécie. Dinheiro que faz o valor da mala do político poderoso parecer quase insignificante. “Alguém tem que arrecadar os recursos para bancar as campanhas do meu partido e dos nossos aliados”, pensa o ex-venerado, “faço o que posso para continuar influente. Sou um batalhador”.

O partido político e seus líderes, que governaram o país por mais de treze anos, são acusados de receberem, a título de propina, quase um bilhão e meio de reais. Valor que faz com que os cinquenta e um milhões encontrados no apartamento do ex-amiguinho de todos pareçam trocados para a feira da semana. “Nunca antes na história deste país se produziu tanta riqueza”, pensa o chefe da gangue, “tenho que fazer de tudo para que o nosso projeto se mantenha sempre vivo. Sou um batalhador”.

O presidente de um importante comitê brasileiro compra os votos dos delegados internacionais e consegue trazer para o país o maior evento esportivo mundial. Para organizar o evento, gastamos mais de quarenta bilhões de reais em um momento de crise. Dinheiro que faz a propina da gangue quase parecer uma quantia tangível. “Jamais um evento desta magnitude foi realizado em solo brasileiro”, pensa o eterno comandante do esporte nacional, “é justo que eu seja bem remunerado por isso. Sou um batalhador”.

Unida, a classe política brasileira conseguiu, através da corrupção, da incompetência, da mentalidade tacanha, do populismo, e da ideologia retrógrada, a façanha de transformar, em poucos anos, um país próspero e invejado pelo mundo no palco do rombo de quase um trilhão de reais. Montante que faz os gastos com o evento esportivo parecerem quase irrisórios. “Os interesses do país são as nossas preocupações prioritárias”, pensam os nossos ilustres representantes, “desde que nos atendam primeiro. Somos uns batalhadores”.

Nosso Brasil, terra de gente batalhadora, hoje comemora sua independência. Há 195 anos, D. Pedro I gritou o famoso “Independência ou Morte” às margens plácidas do Ipiranga. Desde então, a morte, bem mais que a independência, tem sido companhia constante do plácido povo brasileiro. Não apenas as inúmeras mortes causadas pelo completo descaso do poder público, mas, principalmente, a morte dos valores, a morte dos princípios, a morte da esperança de que, um dia, os brasileiros batalhadores de verdade, aqueles que sabem que um único real obtido imoralmente é o bastante para envergonhá-los diante do espelho, possam se ver independentes dos canalhas filhos da puta que ainda comandam este país. Hoje, neste sete de setembro, espero apenas que consigamos fazer com que a verdadeira independência brasileira aconteça antes que a nossa esperança, definitivamente, à terra desça!

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Deus e o diabo na terra dos tolos…

No último sábado, a cidade americana de Charlottesville foi palco de um episódio deplorável. Episódio que foi condenado com veemência pelo mundo inteiro. Embora eu saiba que existam, não conheço pessoas que tenham aplaudido ou defendido as bandeiras da intolerância, do ódio, do ultranacionalismo, do segregacionismo e da xenofobia levantadas por um grupo de neonazistas que marchou pelas ruas levando violência e morte aos moradores de uma das mais pacatas cidades da América, e mostrando ao mundo, mais uma vez, que estamos a anos luz de nos tornarmos sequer um rascunho do que entendo ser, verdadeiramente, uma sociedade, uma coletividade, uma comunidade.

Embora o mundo tenha se aproximado da unanimidade na desaprovação do fato, as interpretações dadas a este continuam desnudando a pequenez das divisões ideológicas que marcam nosso tempo. Hoje, a grande preocupação da maior parte das pessoas não é entender o que tem levado tanta gente ao extremismo. O que importa para estes é encontrar os culpados na ideologia oposta. A esquerda afirma que o nazismo é um movimento de direita. A direita, por sua vez, argumenta o oposto. Cada lado se satisfaz acusando o outro e se esquece, convenientemente, que ambos vivenciaram (e ainda vivenciam) inegáveis experiências nem um pouco democráticas. E, enquanto perdemos nosso tempo com uma dicotomia pobre, limitada e mesquinha, não conseguimos perceber que o verdadeiro problema continua intocado. Ao invés de falarmos sobre direita e esquerda, deveríamos estar buscando entender porque o autoritarismo vem ganhando terreno em um universo no qual a democracia deveria estar consolidada. É essa a discussão que deveria estar ocorrendo. É a liberdade que está em perigo. O extremismo não escolhe lados, a autocracia não é exclusividade de uma única ideologia, Deus não está de um lado e o diabo do outro. Aliás, na minha opinião, as duas extremidades levam, inevitavelmente, às portas do mesmo inferno.

Não consigo deixar de perceber uma imensa hipocrisia naqueles que condenam os ataques na Virginia enquanto defendem o regime ditatorial em curso na Venezuela, ou enquanto idolatram Fidel e Che, ou enquanto encontram justificativas para os massacres de Stalin, Mao e tantos outros. Da mesma forma, não posso compreender como alguém pode se mostrar realmente indignado com as atitudes racistas dos manifestantes, enquanto incentiva uma segregação baseada na desigualdade social, enquanto encontra justificativas para as práticas de tortura, enquanto aplaude as chacinas recorrentes. Todos exemplos clássicos de uma autocracia cada vez mais presente no dia a dia do mundo.

Se uma parte da sociedade tolera se submeter a uma ditadura, apenas porque esta atende às suas doutrinas ideológicas, fica claro que, para estes, o conceito de liberdade jamais foi compreendido. Se parte de um povo acredita que apenas os seus iguais são dignos de compor a sociedade que almejam, fica claro que, para estes, a liberdade não passa de um conceito próprio, vago e abstrato. E, enquanto a maior parte da população não souber realmente do que se trata e o quão importante é a liberdade, conflitos infernais como os de sábado continuarão a ocorrer e, infelizmente, continuaremos discutindo apenas qual era a cor da roupa que o diabo usava enquanto a barbárie acontecia. E que Deus não se meta!

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