Pizzas em Nova York…

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Nova York, 20 de setembro de 2021. Os últimos raios de sol iluminavam a fachada do Trump Memorial Hostel. A noite se aproximava, mas o pequeno grupo de pessoas ainda debatia sobre o que seria dito no discurso que um deles faria no dia seguinte. Embalagens de pizza se amontoavam pelos cantos do amplo quarto com vista para o Cattle’s Hole Burgers da 46th Street. O restaurante era velho conhecido de um dos membros da comitiva. Foi lá que, em um passado distante, ele aprendera a fritar hamburguer feito com carne de segunda, a colocar água no ketchup, a rachar o pão e deixar só a casca para os clientes. Lições inesquecíveis que ele levaria para a vida.

A conversa parecia longe de um consenso. Mesmo assim, a confraria decidiu fazer uma pequena pausa. Um sujeito magro, de óculos, dos menos participativos até então, pediu licença para tocar uma música na sanfona que trouxera de casa. Os acordes de “Ave Maria” ressoaram pelo ambiente. Não tardou muito, e a voz melodiosa do músico foi interrompida pelos gritos vindos dos quartos vizinhos. Indignado diante daquela clara tentativa de censura às liberdades de expressão e religiosa, o ex-funcionário da hamburgueria levantou-se, abriu a porta do quarto e, em um inglês fluente, bradou:

- You suns of a beach, I send a cable and a soldier to you now.

Fez-se silêncio, mas o momento de paz e contemplação fora quebrado. Com o tempo se esgotando, decidiram deixar a música de lado e voltar suas atenções para os temas a serem abordados no tal discurso. Um deles, experiente em algum trabalho ligado a caixas, descera para buscar mais embalagens de pizza. O jantar tinha que ser garantido antes que os balcões voltados para as calçadas estivessem fechados. Por alguma razão, restaurante algum permitia a entrada deles. E tem gente que acha que não existe mais preconceito na América…

No quarto, a discussão recomeçava:

- Eu disse que vinha pra cá pra falar verdades. Não é verdade que eu tô sendo perseguido e impedido de trabalhar, porra? – perguntou o homem de chinelo Rider e camisa do Palmeiras.

- Concordo pai. Você tem que mostrar pra todos que, enquanto o mundo fica de olho nas nuvens que passam pela janela, os jacarés e as outras criaturas do pântano passeiam soltas pelas ruas, becos e avenidas, vagando por entre a marcha triunfante e a fumaça que cega. Se os predadores naturais não amedrontam a matilha, temos que cuidar da nossa própria preservação.

Estupefatos, os demais presentes entreolharam-se, à espera de que alguém arriscasse uma resposta.

- Olha só, filho, no tocante ao que você disse aí, acho que tá tudo certo. Mas, por via das dúvidas, deixa que eu fico por conta do twitter hoje, talquei?

- Tá aqui, pai, mas cuidado com as nuvens carregadas – alertou mais uma vez o devoto e sábio filho, antes de sair com o camareiro, de quem ficara amigo na noite anterior.

- Quer saber? Acho que vou falar de improviso mesmo. Essa coisa de ler não é comigo. Todo mundo vibra quando eu sou autêntico e falo o que me dá na telha. Eles vão me aplaudir e me autorizar a fazer o que eu quiser.

- Se o senhor me permite uma opinião – interrompeu um terceiro – eu acho que o público daqui não tá disposto a autorizar nada não. Da última vez, o senhor tinha companhia daquele cara de topete, lembra? Amanhã, o senhor estará sozinho.

- Sozinho? Eu nunca tô sozinho. Todo mundo me adora. Tá decidido, vai no improviso mesmo.

- Desculpe interromper, querido – disse uma mulher, abrindo a porta – telefone pra você.

- Alô?… ah, não, você de novo?… tá bom, tá bom… pode mandar… prometo que vou ler, fazer o quê?… mas, olha só, se você escrever outra mesóclise eu juro que nunca mais te deixo brincar com aquela faixa, talquei?

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Papéis especiais…

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Dizem que papel tudo aceita. Projetos que não funcionam, frases mal formuladas, pinceladas carentes de significado. Às folhas, não são indagados juízos ou predileções. Resta-lhes a conformidade. Indefesas, parecem incapazes de renunciar a inverdades, impossibilidades ou meros exageros estéticos. Depois de impressos, traços, rabiscos e palavras assumem o protagonismo. Ao papel, resta apenas torcer para que seus ocupantes lhe tragam alguma relevância ou, pelo menos, motivações que posterguem o momento do descarte. A posteridade é para poucos.

Nem as mais afortunadas obras, entretanto, conseguem captar as agruras do processo. Ali se encontra o fruto de uma jornada, colhido depois de sabe-se lá quantas noites mal dormidas. Para a maioria dos observadores, não há vestígios das incertezas que, muitas vezes, deixaram inquieto o autor do feito. Não há sinais da solidão, tão insistente na reverberação dos ecos. As lágrimas porventura derramadas estão secas. As sombras do medo e da saudade não resultaram em manchas. O ritmo das palpitações – agora serenado – não deixou marcas no papel.

Mas eu as vejo, meu filho.

Olho para cada palavra impressa nesta folha e penso nas muitas que aprendemos a trocar à distância. Seu nome em destaque me remete àquele ainda escrito na porta de um quarto que não mais o reconhece. Afinal, o garoto que partiu há mais de 2 anos fez-se homem longe dele. O idioma das frases me serve de alerta para os muitos quilômetros que nos separam. Papel e moldura unidos me lembram das vésperas das despedidas, em que dormimos de mãos dadas. A descrição do grau alcançado traz o som de sua voz a me dizer que você sempre soube onde queria chegar. Era sua vocação falando alto. Era sua vocação conclamando para que voasse mais alto ainda. E você foi bravo o bastante para segui-la.

Dizem que papel tudo aceita. Alguns, entretanto, são especiais. Alguns inspiram. Alguns nos dão um orgulho danado. Alguns nos fazem acreditar que há muitos novos caminhos a serem percorridos. Alguns nos mostram que, em algum momento, devemos ter feito alguma coisa boa para merecer tamanha alegria.

Parabéns, Arthur. Sua coragem, sua determinação e sua competência estão impregnados neste diploma. Nosso amor, meu querido, não cabe em papel algum.

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Agradecimento ao presidente…

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Alguns fãs de Bolsonaro vieram me cobrar uma análise mais imparcial do governo. “Não é possível que você feche os olhos pra tantos pontos positivos” – disseram eles. Pediram-me que discorresse sobre a ausência de escândalos de corrupção, as reformas, as privatizações, os avanços na economia.

Não poderia me furtar a atender uma solicitação vinda de gente tão especial. Sim, dou o braço a torcer, realmente há pontos positivos a serem ressaltados. Descrevê-los-ei adiante (o uso das mesóclises voltou mesmo à moda, não é?).

Permitam-me, entretanto, fazer alguns ajustes na lista de qualidades. Não escreverei a respeito da ausência de escândalos de corrupção, mesmo porque há controvérsias – também conhecidas como rachadinhas e propinas – sobre o assunto. Também pularei os tópicos “reformas” (houve alguma além da previdenciária?) e “privatizações” (falar dos jabutis tomaria linhas demais). Já o item “avanços na economia” é autoexplicativo – os avanços da inflação, dos juros, do desemprego e do dólar falam por si.

Mas há outros pontos – desta vez verdadeiros – a serem destacados. Pontos pelos quais muito tenho a agradecer ao nosso presidente.

Obrigado, Bolsonaro.

Não fosse pela sua grosseria, jamais teria observado quantos brasileiros dão pouca – ou nenhuma – importância ao diálogo.

Não fosse pela sua insistência em desestimular a vacinação, não teria notado o quanto nossa população confia nas vacinas. Mesmo entre seus seguidores, só uma pequena parte tem sido estúpida o bastante para recusá-las. E olha que você tem se empenhado na tarefa de convencê-los a ficar só com a cloroquina.

Não fosse pelos seus preconceitos, talvez não tivesse reparado no número de pessoas que aguardavam, ansiosas, o momento em que não mais precisariam reprimir suas noções toscas de sociedade.

Não fosse pelo seu populismo pobre, rasteiro, escancarado, jamais teria observado o quanto tantas pessoas são hipócritas. Afinal, o que elas dizem admirar em você é o comportamento que mais criticam no líder da seita contrária.

Não fosse pelas suas mentiras, provavelmente não teria notado como muitas pessoas não se importam com a verdade, principalmente quando são justamente as inverdades que lhes convêm.

Não fosse pelo seu autoritarismo e desapreço às instituições, jamais teria dado a devida atenção aos amigos e conhecidos dispostos a apoiar uma intervenção militar, com o fechamento do STF e do Congresso.

Ao se recusar a usar máscaras, Bolsonaro, você ajudou a desmascarar a índole e o caráter de muita gente que sempre tentou disfarçar seus reais conceitos de democracia, justiça e liberdade.

Muito obrigado, presidente. Por sua causa, hoje conhecemos melhor os nossos compatriotas. Será mais fácil, daqui por diante, reconhecer quais deles buscam realmente um país melhor para todos – mesmo que discordemos inteiramente de como esse objetivo deva ser alcançado -, daqueles que nos sorriem enquanto nos imaginam, finalmente, pendurados em um pau de arara.

Suas boas ações já foram feitas, Bolsonaro. Mas a maior delas ainda está por vir: o dia em que você deixará essa cadeira para nunca mais voltar.

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Gritos de dependência…

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E o 7 de setembro mais badalado dos últimos tempos finalmente chegou. Iniciamos hoje a contagem regressiva para os 200 anos da independência do Brasil. Há quase dois séculos, tornávamo-nos uma nação livre. Ao longo desses 199 anos, entretanto, nem sempre pudemos usufruir de nossa ansiada soberania. Vivemos muitas décadas de restrições, perseguições, cerceamentos e censuras nas mãos dos vários governos autocráticos que nos foram impostos. Mesmo assim, parte da sociedade brasileira insiste em deturpar e minimizar as ações dos líderes que calaram nossa voz. Os abusos cometidos por Getúlio Vargas (reverenciado há poucos dias por Lula, Ciro e outros setores da esquerda) e pelo regime militar (idolatrado incessantemente pelos adoradores de Bolsonaro), não foram suficientes para ensinar a esses brasileiros o conceito de liberdade. Infelizmente, nem todos aprendem com a história…

Hoje, parte desses brasileiros acha que vai conquistar uma independência para chamar de sua. Prometem sair às ruas vestidos de verde e amarelo, repetindo gritos de guerra patrióticos em defesa da liberdade e da democracia. Julgam-se defensores da família, da pátria, de Deus e da verdade. Acreditam ter sido ungidos pela luz divina e pela sabedoria humana. Assim, reivindicam para si a alcunha de “pessoas de bem”. Consideram-se os únicos e legítimos representantes do povo brasileiro e, como tal, pensam possuir procuração para “autorizar” o presidente a tomar as medidas necessárias – sejam elas quais forem – para aniquilar definitivamente quaisquer ameaças de comunismo, em especial aquelas em forma de pandemia, urnas eletrônicas, órgãos de imprensa, livros de educação sexual, movimentos sociais, partidos de oposição e membros do judiciário e do legislativo.

Hipócritas!

Vão, “brasileiros de bem”, invadam Brasília, tomem a Avenida Paulista, lotem a Praça da Liberdade. Disfarcem o quanto puderem a bolha em que vivem. Marchem, gritem, buzinem, mas saibam que o barulho de seus berros não produz eco. A “autorização” de vocês de nada vale. Na prática, seus esforços são tão inofensivos quanto as bravatas inconsequentes que seu ídolo costuma repetir todos os dias. Nenhuma ruptura ocorrerá.

O STF continuará praticando arbitrariedades, porque – ao contrário do que vocês pensam – não basta um cabo e um soldado para intimidá-lo. As duas únicas oportunidades viáveis e democráticas de renovação foram desperdiçadas pelo seu mito, que nomeou gente da mesma estirpe de muitos dos que lá estavam.

O congresso continuará a aprovar medidas irresponsáveis, sem se importar com a situação atual do país. E terão, como de costume, a bênção de um presidente fraco, populista, corporativista, e refém da distribuição de verbas, cargos e benesses. Sim, ele é parte do sistema. Sempre foi. Só vocês, nessa veneração cega e tonta, recusam-se a perceber.

As urnas eletrônicas serão utilizadas, como sempre, na eleição do ano que vem. Sim, haverá eleições, e qualquer ameaça de insurgência quanto ao resultado do pleito será rechaçado prontamente, não só pela polícia como pela sociedade. Acostumem-se à ideia.

O exército brasileiro não irá apoiar qualquer tentativa de ruptura institucional, mesmo porque – ao contrário de vocês – a imensa maioria da população brasileira repudia golpismos, principalmente quando o golpista é inepto, obtuso, incompetente, corrupto e sem nenhuma capacidade de liderança.

Governadores e prefeitos continuarão fazendo valer seu direito constitucional de determinar medidas de isolamento, e a CPI da Covid continuará apontando desvios de recursos, de conduta e de caráter, apesar de algumas figuras nefastas que a compõem.

Portanto, “brasileiros de bem”, fiquem à vontade para protestar. Gritem por uma democracia sem congresso, sem STF, com o executivo comandado indefinidamente por um incapaz. Peçam por uma liberdade que, no fundo, só quer calar a voz de muitos. Nada vai mudar, mas não desanimem. As manifestações de hoje irão mesmo entrar para a história. Afinal, sem elas, talvez jamais tivéssemos condições de identificar com exatidão quais de vocês apoiariam abertamente a implantação de uma nova ditadura militar no Brasil. Esse tipo de pensamento me dá nojo. Desse tipo de “patriotismo”, eu quero distância.

Feliz dia aos milhões de brasileiros que têm a mínima noção do significado da palavra independência!

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Planos para o feriado…

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Sete horas da manhã. Pressa, correria, afobação. Minha reunião iria começar em meia hora, e tudo levava a crer que – assim como eu – o trânsito acordara sem muita paciência. O elevador se abriu:

- Bom dia – saudou um dos meus vizinhos.

- Bom dia. Tudo bem?

- Tudo. Vamos pra batalha, né?

- É o jeito…

A conversa tinha tudo para terminar ali. Eu não estava com essa sorte toda.

- Mas batalha mesmo será no dia 7 – ele continuou.

Fingi-me de ascensorista de prédio comercial, e verifiquei quantos andares ainda restavam. Ele insistiu:

- Você vai na manifestação, não é?

Mordi os lábios. Graças às restrições da pandemia, apenas meus olhos revirados ficaram à mostra. Ele pareceu ter notado. Sua expressão de decepção foi tão evidente que nem sua máscara conseguiu esconder. Voltou-se para o mostrador na esperança de se livrar o mais rapidamente possível daquele discípulo de Marx, Che e Fidel. E nada do andar térreo chegar. Seu olhar de desprezo me irritou. De repente, minha urgência deu lugar à ânsia do debate. A pergunta feita ainda ecoava no ambiente. Eu tinha que respondê-la.

Pensei em lhe dizer que eu iria. Sim, eu iria, mas sob algumas condições.

Eu iria, mas o repúdio às arbitrariedades do STF deveria se repetir diante dos conchavos entre o presidente e o Ministro Dias Toffoli, que resultou no fim da “Lava Toga” e na paralisação das investigações das rachadinhas de Flávio Bolsonaro.

Eu iria, mas a revolta com a parcialidade do judiciário teria que se estender a um procurador geral nomeado (e agora, reconduzido) com o objetivo de desmontar a Operação Lava Jato, e blindar sistematicamente qualquer ameaça ao presidente.

Eu iria, mas as críticas a Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes, Lewandowski e tantos outros não poderiam poupar Nunes Marques, escolhido por Bolsonaro por possuir currículo e diretrizes semelhantes às de Augusto Aras.

Eu iria, se os gritos a favor da liberdade de expressão defendessem também os professores universitários amordaçados pela Controladoria-Geral da União, após terem cometido o “crime” de criticar o governo federal.

Eu iria, se a democracia exaltada pelos manifestantes repudiasse, com a mesma veemência, qualquer tentativa de golpe institucional, qualquer ameaça de cancelamento de eleições, qualquer insinuação de utilização do exército como força aliada na implantação de um governo autocrático.

Eu iria, se a aversão às ditaduras comunistas, tão enaltecidas por vários setores da esquerda, se estendesse a qualquer regime totalitário de direita.

Eu iria, se o asco provocado pela corrupção endêmica do PT se repetisse diante de uma família que desvia recursos públicos há décadas, que movimenta milhões em dinheiro vivo, e que usa a política como fonte de enriquecimento ilícito.

Eu iria, se a revolta contra o declarado controle da imprensa por parte de Lula se manifestasse também diante do financiamento público a órgãos de imprensa, blogueiros e jornalistas que se dispuseram a jogar por terra suas carreiras e reputações, em busca de dinheiro e do posto de ídolos de uma seita.

Eu iria, se a repulsa em relação aos bandidos que fazem parte da CPI da Covid não excluísse a revolta contra os desvios e omissões evidentes, contra o comportamento criminoso de um presidente que desestimula diariamente a vacinação de seu povo e boicota todas as medidas sanitárias preconizadas por seu próprio ministério da saúde.

Eu iria, se meus companheiros manifestantes se lembrassem do tempo em que marchávamos juntos por decência, ética, honestidade e competência. Quando entoávamos gritos contra o corporativismo, o presidencialismo de compadrio, a desinformação, a irresponsabilidade fiscal, a compra de votos disfarçada de bolsas e auxílios. Quando os gritos de “eu autorizo” – proferidos por outras vozes – eram sempre repudiados.

Acabei optando por não mencionar nada disso ao meu vizinho. Não tinha tempo, nem disposição e, principalmente, esperança de que alguns dos argumentos pudessem fazê-lo ter uma visão diferente sobre a atual situação do país. A porta do elevador se abriu e, antes de sair, eu lhe disse:

- Não vou nem a pau!

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Uma fábula tupiniquim…

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Brasilino acostumou-se às mudanças desde cedo. Avessos às raízes, seus pais estavam sempre dispostos a colocar o pé na estrada, na busca incessante do lugar ideal para se viver. Brasilino sabia que, por mais que estivessem felizes, e por melhor que fossem suas condições de vida, o desejo de morar em uma cidade ainda mais próspera e acolhedora os motivaria eternamente.

Nascido na segunda metade da década de 80, em um pacato vilarejo chamado Sarnéya, Brasilino não sabia o que era carestia. Os preços congelados dos produtos e os sorrisos estampados nos rostos das donas de casa – finalmente livres de uma inflação galopante – faziam parte de sua rotina. Sarnéya era um exemplo de engajamento comunitário, de espírito cívico, de união da população contra os malignos empresários que só pensavam em aumentar preços, numa afronta à harmonia vigente. Apesar de tudo, preços e harmonia se mantiveram, com bravura. As prateleiras ficaram vazias, é verdade, mas o povo – feliz – fez valer sua vontade.

Depois de rápidas passagens pelas vilas de Elba Collorida (lugar bem à frente de seu tempo, onde não existiam mais carroças e as pessoas não usavam mais dinheiro), e Topete Franco (em que o uso das roupas de baixo era facultativo), Brasilino e sua família viveram longos anos em duas cidades próximas. Em Formoso Horizonte do Cerrado, os pais de Brasilino começaram a empreender, animados com a estabilidade das moedas estrangeiras frente à local. Abriram uma pequena loja de equipamentos importados, mas não deram atenção aos alertas do prefeito sobre o iminente aumento do dólar. Os lucros cessaram. Mudaram-se, então, para o município vizinho: Cefalópolis. Arrojados, montaram ali uma empresa de limpezas residenciais. O negócio ia de vento em popa até que uma terrível escassez de mão de obra os desestabilizou. De um dia para o outro, as empregadas desapareceram. Soube-se depois que todas estavam de férias na Disney, mas, a essa altura, Brasilino já havia largado os estudos para socorrer seus pais. Em pouco tempo, deixaram tudo para trás e partiram, antes mesmo de verem concretizadas as melhorias prometidas pela companhia petrolífera da cidade, administrada como nunca antes na história daquela região.

Sem dúvida, o momento mais auspicioso de toda a família foi vivido em Sant’anta do Mandiocal. O lugarejo fervilhava com as inúmeras oportunidades, pleno emprego, inflação quase inexistente. Não faltava comida na mesa de ninguém, e as cooperativas regionais eram geridas com seriedade e competência. Àquela altura, Brasilino se virava sozinho e – apesar de ter herdado de seus pais a sede por novos desafios – chegou a pensar que viveria ali para sempre. Mas a região tornou-se destino de trilheiros de bicicross e, logo depois, apelidada de Meca das Pedaladas. A paz deu lugar à confusão. Entristecido, Brasilino partiu novamente. Sem rumo, ficou hospedado por um tempo na casa de parentes distantes, todos imigrantes da Transilvânia.

Há quase três anos, finalmente, Brasilino encontrou o que tanto procurava. Mora hoje na próspera e feliz cidadezinha de Mito do Ipiranga. Um local tão privilegiado, que passou incólume por uma epidemia devastadora. Talvez reflexo das medicações precoces só ali ministradas, que praticamente dispensaram o uso das onerosas vacinas que por pouco não comprometeram o orçamento municipal. Um lugar que cresce a olhos vistos, com inflação controlada, oportunidades de novos empregos a cada esquina, e cesta básica tão barata quanto qualquer fuzil na barraca da quermesse. Resultado da administração séria de um prefeito brilhante, democrático, conciliador, aberto ao diálogo e que pensa, única e exclusivamente, na liberdade de seu povo. De um secretário de economia que privatizou quase todas as empresas municipais, cortou verbas, acabou com os subsídios e encerrou o tempo das compras de voto disfarçadas de auxílios. Brasilino não poderia estar mais contente. Nada poderá abalar o progresso de Mito do Ipiranga.

Talvez seja só trauma, mas Brasilino parece preocupado com o número cada vez maior de trilheiros que andam circulando pela cidade…

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Atributos superfaturados…

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- Senhoras e senhores, atenção. A entrevista coletiva já vai começar e, desta vez, será organizada por temas. O presidente vai respond…

- Ex-presidente…

- Como?

- Ele não é mais presidente.

- Meu caro, pra quem foi o melhor da história – e vai voltar a ser -, o título sempre vale, entendeu?

- Entendi. Então posso chamá-lo de presidiário?

- Seguranças, por favor. Um a menos pra fazer perguntas por aqui. Mais alguém aí metido a engraçadinho?

- …

- Ótimo. Vamos começar. O primeiro tema será inflação.

- Bom dia, presidente. Estão dizendo por aí que a Dilma foi condenada mas quem pedalava era o senhor. Alguma dica pro fortalecimento das pernas?

- Meu filho, a pergunta era sobre inflação.

- E ele não anda inflacionando o mercado com aquelas coxas?

- Ele não é personal trainer, e é claro que não vai responder a uma pergunta idiota dessas. Próximo.

- Presidente, o que o senhor acha da tese que associa o crescimento do seu diâmetro femoral com o aumento da ferrugem nos pedalinhos de Atibaia?

- Que palhaçada é essa? Quem veio aqui pra fazer perguntas sérias? Você aí.

- Posso perguntar sobre eleições?

- Claro. Finalmente. Prossiga.

- Presidente, o senhor é a favor do uso das urnas eletrônicas no concurso das pernas mais bonitas da terceira idade?

- Ah, minha paciência acabou. Se ninguém for perguntar algo relevante, vou acabar com essa entrevista antes que ela comece. Maldita hora em que essa foto foi divulgada. Próximo.

- Presidente, como o senhor pretende fazer o eleitorado se esquecer dos roubos bilionários, do apoio às ditaduras, das propostas de controle da imprensa, das evidências de favorecimento ilícito, das conden…

- Pessoal, o presidente também tem muito a dizer sobre as vantagens das próteses penianas sobre o Viagra. Fiquem à vontade pra perguntar…

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Tem quem acredite…

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- Bom dia, sejam bem vindos ao “Mundo Repaginado”, o programa que entrevista os grandes líderes mundiais. Nosso convidado de hoje é o novo líder do Afeganistão, o mulá Habituallah Torthurah. Bom dia, mulá.

- Bom dia a você e a todos os afegãos, finalmente livres da opressão imperialista.

- Mulá, muito tem se falado sobre um novo Talibã. O povo afegão verá isso na prática?

- Já está vendo. Antigamente, jamais permitiríamos que cidadãos insatisfeitos embarcassem livremente nos trens de pouso ou nas asas dos aviões imperialistas.

- Isso é verdade. E quanto aos direitos das mulheres? Elas poderão continuar trabalhando?

- É evidente que sim. Agora sob a luz da lei islâmica.

- Que ótima notícia. E o que diz essa lei?

- Que mulheres não podem trabalhar.

- Nas duas últimas décadas, as mulheres também puderam frequentar escolas e universidades. Vocês vão mudar isso?

- Claro que não. Elas serão muito bem recebidas quando forem deixar e buscar seus filhos homens.

- Mas sempre usando burca, não é?

- Não estamos mais no século passado. As mulheres podem usar o que quiserem.

- Que bom.

- Claro que, se algum homem casado tiver pensamentos impuros ao vê-las, teremos que matá-las. A família está acima de tudo.

- Entendo. Falando de violência, vocês costumavam cortar as mãos de quem roubava. Essa prática será mantida?

- De forma alguma. Quem cometer crimes terá direito a um julgamento imparcial e a uma punição justa.

- Então será criado um novo departamento de justiça?

- Sim. Será presidido por mim, tendo eu como juíz e eu como examinador de quaisquer recursos. Um sistema moderno que vem sendo adotado até por alguns países ocidentais.

- O futuro do Afeganistão parece bem promissor.

- A felicidade do nosso povo é a nossa maior preocupação.

- Bom saber que essa é a sua grande meta.

- É… tá mais pra preocupação mesmo.

- Bom, chegamos ao final de mais uma entrevista. Na próxima semana, receberemos dois dos grandes líderes brasileiros. Lula paz e amor falará sobre como a roubalheira do PT é coisa do passado. Em seguida, será a vez de Bolsonaro discorrer todo o seu conhecimento sobre democracia, bons modos e a importância da ciência. Não percam.

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Amizades desvirtuadas…

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- Adélia, que cara é essa?

- Marlene, tô muito preocupada com você.

- Gente, por quê?

- Você não para de falar sozinha.

- O quê? Eu não falo sozinha.

- Fala sim, e muito.

- Você bebeu, só pode.

- Ah, é? Você começou falando sozinha no corredor dos cereais, depois ficou tagarelando um tempão em frente às carnes e agora na fila do caixa voltou a falar com o além. Não vem tentar me enganar.

- Amiga, agora quem tá preocupada sou eu. Eu só parei pra conversar com outras pessoas.

- Eu tava te vendo aqui de fora, Marlene. Não tinha ninguém do seu lado.

- Olha só, Adélia, primeiro eu cumprimentei a Ana Tainá, mas foi rapidinho.

- Nossa, aquela falsa? Vê se eu ia deixar de enxergar aquele entojo.

- Você não deve ter reconhecido. Depois fiquei conversando com a Rihana, que era nossa colega de academia.

- Nunca mais vi.

- Pois é, e agora no caixa tava falando com a Graça, lembra dela?

- Claro. A maior maria-vai-com-as-outras que eu conheço.

- Ela mesma.

- Só tem um probleminha, Marlene. Eu tava aqui fora o tempo todo. Nenhuma delas passou por aqui e eu vi que você tava falando sozinha.

- Adélia, rápido, abre seu Facebook.

- Por quê?

- Entra nas páginas das três.

- Calma…

- …

- Meu Deus, todas elas me bloquearam.

- Sabia. É por isso que elas não aparecem pra você.

- Mesmo aqui fora?

- Sim, lembra do Marquinhos, aquele babaca do meu vizinho de porta?

- Lembro.

- Bloqueei o sujeito. Nunca mais vi a cara dele.

- Menina, tô passada.

- Amiga, encare como um livramento.

- Será que mais alguém me bloqueou?

- Qualquer hora você acaba descobrindo.

- Marlene, não olha agora mas tem um cara ali atrás que não tira os olhos de você.

- Ah, é o Clóvis, um rolo que eu tive no mês passado.

- Ué, se vocês se conhecem, por que ele não vem falar com você?

- É que eu coloquei ele como restrito…

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As Olimpíadas nossas do dia-a-dia…

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As Olimpíadas mal terminaram e já tem muita gente sofrendo com síndrome de abstinência. Tolinhos. Nossas madrugadas têm tudo para continuar insones, graças às performances de nossos representantes nas mais diversas modalidades cotidianas. Preparem-se para vibrar com nossos ginastas, que prometem não poupar emendas e conchavos na busca das ansiadas medalhas de ouro, dólar e bitcoin.

As saudades do ciclismo ficarão para trás quando nosso ministro da economia (outrora conhecido como posto Ipiranga) começar a pedalar precatórios com uma energia de fazer inveja à antiga recordista mundial da prova, aposentada em 2016. Afinal, o turbinado bolsa-família (um dia chamado de bolsa-farelo) tem que dar as caras em ano eleitoral. Quem será páreo para o populismo?

Nossos bravos atletas da economia também prometem vir com tudo em busca do ouro no salto sobre o teto de gastos. O teto, na verdade, nem existe mais, mas vai virar pó mesmo no ano que vem, quando as verbas já empenhadas voarão bem mais alto do que as manobras do surf e do skate.

As competições do tiro serão tratadas com a seriedade que merecem. Depois de uma participação pouco inspirada em Tóquio, nossos representantes vêm com força total na prova do disparo de fakenews. Novas lives bombásticas garantem deixar até os adversários – muitas vezes campeões – parecendo iniciantes na modalidade.

A ginástica artística, novo xodó de todo brasileiro, manterá sua alta performance. Os contorcionismos prometem alcançar notas inéditas, e o lugar mais alto do pódio certamente será disputado entre aqueles que reclamam do autoritarismo enquanto apoiam suas ditaduras “do bem”, e aqueles que se dizem favoráveis à liberdade mas vão para a frente dos quartéis gritar: “eu autorizo”.

As patacoadas do VAR japonês também prometem continuar. Outros bandidos serão inocentados, provas contundentes e inquestionáveis serão anuladas, tréguas, acordos e almoços serão realizados, tudo para garantir mais um ciclo olímpico de muita impunidade e roubalheira.

O espírito olímpico de união e fraternidade parece não ter futuro em nossa competição nacional. Haverá gente capaz de torcer escancaradamente contra o sucesso de uma vacina, apenas para que seu possível adversário político não se beneficie; gente que finge se indignar com qualquer indício de corrupção, depois de minimizar as falcatruas bilionárias de seus ídolos; gente que se gaba de lutar por um país honesto, mas faz de conta que não existem provas de rachadinha e enriquecimento ilícito por parte daqueles a quem juraram adoração eterna.

A medalha de ouro na prova de fanatismo sincronizado é a única que já tem donos garantidos: irão para as claques que batem palmas da mesma forma, reclamam da imprensa com a mesma intensidade, passam pano para qualquer absurdo com a mesma cara de pau, e – pasmem – acham que são antagonistas. Nem irmãs siamesas seriam tão idênticas.

Portanto, amantes do esporte, não sofram com a falta da pira olímpica (tem muita gente por aqui com vocação para incendiário), com saudades dos desfiles das delegações (amanhã mesmo teremos uma parada de tanques que promete deixar pasmo até o democrático presidente da Coréia do Norte), com a ausência de grandes disputas que exigem o máximo do ser humano (lembrem-se do que nós, brasileiros, enfrentamos a cada dia).

Que as equipes entrem em campo. Mas, convenhamos, o duro será mantê-las dentro daquelas famosas quatro linhas…

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