Juntos…

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Juntos!

Assim encerramos mais um ano e iniciamos o seguinte.

Juntos como não estivemos durante alguns meses de 2019.

Juntos como não estaremos na maior parte de 2020.

Mas isso não importa.

2019 nos mostrou que estarmos juntos não tem nada a ver com a proximidade física.

Na verdade, neste ano aprendemos que a distância pode até nos aproximar.

E ela nos aproximou.

Nossos olhares nunca guardaram tanto significado nem foram tão duradouros.

Mesmo quando nossas palavras se tornaram desnecessárias, jamais nos falamos tanto.

Nossa admiração mútua, sempre presente, jamais havia alcançado tamanho grau de intensidade e de devoção.

Sentimentos corriqueiros e pequenas atitudes adquiriram um inédito senso de importância e passaram a ser compartilhados com uma frequência muito maior.

Aprendemos a nos ouvir com mais atenção e a valorizar ainda mais os nossos sorrisos.

Nossas dúvidas e incertezas não mais se camuflaram e se dissiparam mais facilmente.

Assim, próximos ou distantes, estivemos juntos como nunca no ano que hoje se encerra.

Assim, próximos ou distantes, estaremos ainda mais juntos no ano que se inicia.

Porque nem mesmo o tempo e a distância são capazes de afastar o que, em essência, só pode existir em comunhão.

Por tudo isso, sou especialmente grato ao ano de 2019.

O ano que me mostrou, na prática, que não há nada mais importante e mais poderoso do que o amor.

O ano que me relembrou das pontes que continuam interligando continentes.

O ano em que meu filho se tornou meu ídolo.

Que 2020 venha repleto de paz, de harmonia, de crescimento, de sucesso, de amizade, de encontros, de sorrisos e especialmente de gratidão.

Gratidão por estarmos juntos.

Gratidão por sermos cada vez mais próximos.

Gratidão pela consciência da importância de cada abraço, de cada beijo, de cada afago.

Gratidão pela plena compreensão de que só o aqui e o agora realmente importam.

Gratidão pela Vida.

Um 2020 abençoado a todos!!

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As pontes de amor e seus legados…

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Os tempos eram outros. As formas de comunicação praticamente se restringiam às cartas e aos telefones fixos e seus custos astronômicos. Não havia ligação gratuita e imediata para qualquer parte do planeta. Também não havia tecnologia que permitisse às pessoas ficarem “on line” e as redes de televisão pagavam verdadeiras fortunas para que suas transmissões pudessem ostentar a tarja “ao vivo” na parte inferior da tela. Assim, o mundo acabara de testemunhar a queda de um muro em Berlim. Assim, a última seleção alemã acrescida de um ponto cardeal fora vista erguendo a Copa de 1990. Assim, acompanhávamos a poderosa União Soviética se desintegrando diante dos nossos olhos. Tempos em que meros mortais não podiam ser rastreados. Tempos, portanto, bem mais propícios para que uma viagem surpresa pudesse ser feita com a devida discrição.

Dirigindo meu carro em direção a Ouro Preto, custava-me acreditar que partira de Londres apenas algumas horas antes. Minha volta ao Brasil só deveria acontecer dali a dois meses e ninguém poderia imaginar que o desejo de passar o ano novo em família seria capaz de me fazer cruzar o oceano duas vezes em um intervalo de quatro dias. Aquela com quem me casaria sete anos depois foi a primeira “vítima” da minha aparição, tão improvável que a deixara em dúvida se o autor da surpresa era alguém de carne e osso ou uma alma penada que dela se despedia ao som da trilha sonora de “Ghost”.

O hotel em Ouro Preto possuía chalés espalhados pelo terreno e, poucos minutos após a minha chegada, já me encontrava escondido no andar superior de um deles. Lembro-me perfeitamente do meu coração palpitar ao ouvir as vozes dos meus pais se aproximando da porta de entrada. Com meus pais e meus irmãos no andar térreo – entre eles, o que fora meu cúmplice em toda a história – meu plano começava a ser colocado em prática.

Minha futura esposa os chamara com o argumento de que leria uma carta minha, recebida naquele dia, com instruções expressas para que fosse entregue a eles antes do ano novo. A carta era breve e falava basicamente do amor que nos unia e do quanto sempre foi importante estarmos juntos nas festas de fim de ano. Falava também de um sonho. O sonho de que uma ponte de amor entre Londres e o Brasil iria me permitir estar com eles na noite daquele Réveillon.

Desta vez, entretanto, minha aparição não deveria ser tão dramática. Eu não poderia correr o risco de ser confundido com um fantasma por alguém cujo coração já inspirava cuidados. Por isso, encerrei a carta com uma dica que me pareceu definitiva. Ao ouvi-la, meus pais certamente entenderiam que eu estava por perto. E assim aguardei, ansioso, que as últimas frases escritas naquele papel fossem pronunciadas: “…mas foi só um sonho… ou será que não foi? Só há uma maneira de vocês descobrirem: me chamem! Quem sabe eu não estou aí? Quem sabe eu não estou no andar de cima?”

Praticamente não houve intervalo de tempo até que eu ouvisse a voz da minha mãe, embargada pela emoção, gritar a plenos pulmões:
– Fernaandooo!
Ela sabe – pensei eu – todos eles sabem. Então gritei de volta:
– Ooiêêê – e desci rapidamente aqueles degraus.

As expressões que encontrei ali embaixo, entretanto, foram muito diferentes das que imaginara. Estavam todos estupefatos. Não, eles não tinham a menor ideia de que eu voltara. Minha dica infalível não valera de nada. Meu pai se aproximou de mim e parou por um momento, como se certificasse de que aquela pessoa era realmente eu, antes de mergulhar nos meus braços. Minha mãe, quase em choque, repetia frases desconexas e me abraçava em prantos. Meus irmãos se juntaram a eles naquele abraço e aquele Réveillon se tornou o mais especial que trago na lembrança. Mais tarde, quis saber da minha mãe o porquê do seu grito, mesmo estando certa de que eu me encontrava a milhares de quilômetros dali. Sua resposta, desde então, faz parte da minha alma:
– Ora, filho, porque você me pediu!

Como filho, aqueles foram alguns dos momentos mais marcantes e mais gratificantes de toda a minha vida. E hoje, como pai, percebo o quanto a minha surpresa deixou marcas profundas nos corações daqueles que passaram suas vidas ensinando ao mundo a arte de construir pontes de amor. Queria apenas que eles fossem capazes de construir mais uma agora…

Hoje, é a minha vez de fazer o papel de cúmplice, para que meu filho possa vivenciar a emoção indescritível que experimentei há quase vinte e nove anos. Hoje, é a vez da minha esposa gritar o nome dele e chorar de alegria pela sua volta inesperada. E hoje, em algum lugar deste universo, sei que dois dos maiores construtores de pontes de amor que por aqui passaram estão sorrindo, felizes com o legado que deixaram!

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Vagas natalinas…

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- Bom dia, vim para o Natal deste ano.

- O nome do senhor, por favor?

- Jesus Cristo.

- Sim, mas qual deles?

- Não entendi.

- Estou me referindo às suas experiências como Jesus, seu currículo, onde o senhor nasceu…

- Nasci em Nazaré, é claro.

- O senhor poderia aguardar naquela sala junto com os outros candidatos?

- Outros candidatos? Candidatos a que?

- À vaga de Jesus Cristo, naturalmente.

- Mas eu sou Jesus Cristo.

- Querido, todos ali também são.

- Deus do céu!

- Perdão, as vagas para Deus do céu ainda não foram abertas.

- É só força de expressão. Mas deve estar havendo algum engano. Eu sou único.

- Que veio de Nazaré, pelo menos até agora, o senhor é o único mesmo. Ainda assim a concorrência está muito acirrada.

- Tem quantos candidatos?

- Deixe-me ver. Até agora tem dez, incluindo o senhor.

- Dez? Virgem santa!

- As vagas pra virgem santa já foram preenchidas. Se bem que a virgindade não foi usada nem como critério de desempate.

- Deixa pra lá. É que eu nunca tive que passar por uma seleção deste tipo antes.

- Os Natais estão acompanhando a diversidade do mundo moderno. Todos querem se sentir representados.

- Diversidade? Não estou entendendo mais nada.

- Vieram candidatos de todas as épocas e de todas as manifestações artísticas. Está vendo aquele baixinho de cabelo curto e sem barba?

- Sim.

- É o mais velho que apareceu por aqui. Veio do século IV depois de… bom, do senhor. Essas representações foram banidas a partir do século VI, quando o cristianismo adotou a imagem de Cristo com barba e cabelos compridos.

- E ele quer ser Jesus neste Natal, dezessete séculos depois?

- Tem gente que acha que aquela é a verdadeira imagem de Cristo.

- E aquele ali todo coberto com um pano preto?

- Aquele é do carnaval de 1989. Criação de Joãosinho Trinta. Foi censurado pela igreja do Rio de Janeiro.

- Censurado? Por quê?

- Porque mostrava Cristo vestido como mendigo.

- E o que há de mal nisso?

- Não sei lhe dizer, senhor. Mas outros ali também enfrentaram problemas do tipo.

- Quais?

- Bom, os dois Cristos americanos são de filmes condenados pelo Vaticano, aquele com vários braços estava em uma exposição que foi fechada no ano passado, os representados por pessoas negras e homossexuais foram perseguidos e aquele do fundo foi proibido por ser considerado “humano demais”.

- Não acredito.

- O último a chegar antes do senhor foi o Cristo que estava no filme de um grupo de humoristas. Muita gente está tentando tirar o filme do ar porque aquele Jesus foi seduzido por um Lúcifer gay.

- Todas essas versões minhas foram censuradas de alguma forma?

- Parece que sim.

- Mas nenhuma delas sou eu de verdade. As pessoas não entendem isso?

- Elas dizem que estão zelando pela sua imagem.

- Elas deveriam se preocupar mais com a minha palavra.

- Elas alegam que a sua palavra também está sendo deturpada.

- Sempre transmiti uma mensagem de paz e tolerância. E é bom que o meu nome esteja sendo usado para reflexões e questionamentos, para que uma pessoa possa sorrir ou simplesmente para que alguém se sinta representado. Muito melhor do que usá-lo para justificar conflitos e guerras.

- Muitos consideram algumas manifestações ofensivas à fé das pessoas.

- A verdadeira fé não deveria se importar com manifestações artísticas e opiniões alheias. Nunca exigi que todos cressem em mim.

- Bom, vou acompanhar o senhor até a sala.

- Não é necessário. Estou de saída.

- Por quê? Não vai mais participar da seleção? Acho que o senhor iria ganhar de lavada.

- Não preciso mais, filha. Já vi que estou muito bem representado.

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Conceitos deturpados…

O português é reconhecidamente uma língua complexa por suas variações verbais, temporais e de gênero quanto a substantivos, adjetivos e pronomes. É também uma língua, assim como tantas outras, repleta de palavras formais e sofisticadas. Por isso, em um país com escolaridade tão baixa quanto o Brasil, não é de se espantar que a maioria das pessoas ignore o significado de grande parte delas.

Existem muitas palavras, entretanto, sobre as quais não paira – ou, pelo menos, não deveria pairar – nenhuma dúvida. Ninguém deveria, por exemplo, se autoproclamar democrata num dia e defender ditaduras no outro. Ou condenar a censura numa situação para, minutos depois, aplaudir a apreensão de livros. Ou ainda exigir respeito no trato com seus interlocutores enquanto se permite sorrir quando alguém é xingado de égua sarnenta e desdentada. Atitudes como essas são tomadas apenas quando seus autores desconhecem o verdadeiro significado de palavras tais como democracia, liberdade e compostura.

Hoje, existe outra palavra ainda mais corriqueira que tem sido frequentemente usada de forma leviana: oposto. Sim, o mesmo que contrário, inverso, contraditório. Para os dois grupos mais barulhentos da atual sociedade brasileira, basta-lhes a alcunha de “opostos”. Como se um comportamento contrário a A fizesse de Z a opção correta, e vice-versa. Não faz! E o pior é que ambos não percebem que estão longe de serem realmente antagônicos. Na verdade, o entendimento que esses grupos têm de muitas das palavras da língua portuguesa é deturpado e assustadoramente semelhante.

Para A e Z, por exemplo, o oposto de ditadura é a “autocracia do bem”, não a democracia. O oposto de mentira é a visão ideológica do fato, não a verdade. O oposto de injustiça é a idolatria cega, não a lisura. O oposto de preconceito é a seletividade, nunca a igualdade. O oposto de cerceamento de opinião é a liberdade de elogios, não de críticas. O oposto de submissão é a libertinagem, não a inconformidade. O oposto de incompetência é a contemporização, não a eficiência. O oposto do politicamente correto é a truculência, não a ponderação. O oposto de erro pontual é a generalização, nunca a correção de rota. O oposto de estupidez é a própria estupidez duplicada, jamais a sabedoria.

Vivemos tempos em que a ignorância é tão comum que passou a ser tratada com desdém. Tempos em que ofensas passaram a ser usadas como argumentos, com direito a réplicas, tréplicas, memes, aplausos e troféus em forma de óculos escuros. Tempos em que o populismo justificou e banalizou até as agressões físicas de parte a parte. Tempos em que grosseria e ausência de bom senso se tornaram qualidades a serem destacadas nos currículos. Resultado de duas décadas de exemplos vindos de criminosos portadores de complexos de superioridade, pessoas com severas e irreversíveis deficiências cognitivas e fundamentalistas lunáticos com manias de perseguição. Todos glorificados, ungidos e santificados por aqueles que também desconhecem o conceito de civismo.

Enquanto isso, a maioria silenciosa da população brasileira continua torcendo para que A e Z consigam adquirir um conhecimento um pouco mais amplo da língua portuguesa. Mesmo que isso não seja capaz de alterar seus já viciados comportamentos, poderá servir para que, pelo menos, estes passem a ser chamados daquilo que realmente são, sem atenuantes ou disfarces. Quem sabe assim, com um mínimo de autenticidade, adoradores de A e de Z possam perceber que, durante muito tempo, estiveram simplesmente se mirando no espelho!

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Critérios técnicos…

- Bom dia, presidente. Aqui estão os currículos que o senhor me pediu que avaliasse. Também fiz a primeira entrevista com muitos dos candidatos.
– Vê lá se você não selecionou alguém despreparado, talquei? Faço questão que meus subordinados sejam todos técnicos e competentes.
– Procurei fazer o meu melhor, senhor. Analisei suas qualificações, suas formações acadêmicas, suas experiências na área e em cargos de liderança, suas…
– Talquei, talquei. Tudo muito bonitinho mas o que eu quero saber é se você pesquisou a vida pessoal, as publicações nas redes sociais, os comentários feitos nos perfis dos outros, essas coisas realmente importantes.
– Claro, como o senhor me pediu. Na verdade, muitos candidatos foram descartados de cara quando perguntei se assinavam algum jornal. Os que assinavam a Folha e o Globo eu mandei que fossem conduzidos coercitivamente pelos nossos seguranças.
– Excelente! Mas tem muito currículo aqui. Não tenho paciência pra ler tudo isso. Quais você recomenda?
– Eu gostei muito de alguns deles, senhor. Este aqui por exemplo, chamou uma atriz famosa de “sórdida” e “mentirosa”.
– Atriz de direita ou comunista?
– Bom, de direita ela não é…
– Então é comunista. Já gostei do cara. Separa o currículo dele aí pra mim. Quem mais?
– Tem um outro aqui que só tem foto com a camisa da seleção brasileira, participou de todas as manifestações contra o PT e só chama o Lula de molusco ladrão.
– Tem que analisar mais a fundo esse daí. Tem um monte de gente que era assim no passado e agora virou comunista igual aqueles babacas do MBL e do Antagonista.
– Mas este continua tirando foto fazendo arminha com as mãos e só faz compras na Havan.
– Então é de confiança. Separa o currículo dele também.
– A foto de perfil deste outro aqui é o número 17 desde o ano passado.
– E ele não alterou nas últimas semanas?
– Não, senhor.
– Tá fora. Pode rasgar o currículo desse daí. Não, melhor queimar mesmo.
– Sim, senhor. Já este outro aqui é excelente. Briga com todo mundo que reclama do senhor, a citação inicial do perfil dele é “bandido bom é bandido morto”, parou de seguir o Frota e a Joice Hasselmann e já declarou que o Ustra é a inspiração da vida dele.
– Muito bom!
– Mas tem um pequeno problema, senhor.
– O que foi?
– Quando perguntei se tinha algum hobby, ele me disse que era fã das músicas – e só das músicas – do Chico Buarque.
– COMUNISTA! Tira esse currículo daí e manda desinfetar a minha mesa. Umas coisas absurdas dessas você nem precisa trazer pra mim.
– Desculpe-me, senhor.
– Mais algum?
– Bom, tem um aqui que eu não entrevistei e estou com medo de ter um perfil falso.
– Por quê?
– Ele é negro e diz que a escravidão foi benéfica para os descendentes dos escravos, que o racismo no Brasil é nutella e que a negrada daqui reclama porque é imbecil e desinformada pela esquerda. Também chamou uma ativista americana de nojenta, baranga e mocreia e disse que torce para que um branco prenda um preto militante por racismo.
– Não é possível. Esse aí parece bom demais pra ser verdade.
– Foi exatamente o que eu pensei, senhor.
– Confirma lá se esse gênio existe. Se existir, merece até um ministério. É bom o Weintraub ficar esperto. Não é fácil mas tô quase encontrando gente mais qualificada do que ele…

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Silogismos e sofismas…

Ainda restavam mais de três séculos para que Jesus Cristo viesse ao mundo quando o filósofo grego Aristóteles desenvolveu um modelo de raciocínio baseado na ideia da dedução. O modelo, que ficou conhecido por silogismo, é composto em sua forma mais simples de duas premissas que, interligadas, geram uma conclusão lógica. “Os homens são mortais. João é homem. Logo, João é mortal” é o mais básico dos exemplos.

Desde os tempos de Aristóteles, o silogismo tem sido usado com cada vez maior frequência. Entretanto, nos conturbados dias atuais, o modelo aristotélico tem perdido justamente o seu componente mais importante: a lógica. Como não poderia deixar de ser, alijado de lógica, não cabe mais no modelo o conceito de raciocínio e suas deduções variam livremente de acordo com a ideologia de quem o propuser. Entretanto, quando a ausência de lógica é proposital e visa apenas atender aos interesses e narrativas de seus porta-vozes, o silogismo se transforma definitivamente em sofisma.

O exemplo mais recente vem do Chile. De repente, o país mais desenvolvido da América Latina, o que detém o maior PIB per capita, o maior IDH, o maior índice de liberdade econômica, inflação controlada, dívida pública na faixa de 25% do PIB (enquanto a nossa está em 80%), crescimento anual na casa dos 4% e muitos outros índices de primeiro mundo passou a ser tratado pelos atuais sofistas brasileiros como amostra do que não se deve almejar. Segundo eles, as manifestações populares estão desnudando a “verdadeira face” do Chile e os números ruins que o país ainda apresenta – principalmente relacionados à desigualdade social e aos baixos valores de aposentadoria – passaram a ser os únicos repetidamente alardeados, sempre com indisfarçável cinismo.

É evidente que o Chile tem problemas. Qual país não os tem? É também evidente que esses problemas devem ser analisados para que não se repitam os mesmos erros. Mas condenar uma trajetória construída ao longo de décadas com a ajuda de muitos governos de centro, de direita e de esquerda é, no mínimo, tratar um assunto complexo com uma superficialidade digna de juntos e shallow now.

Muitos fatores têm provocado as grandes e legítimas manifestações populares: baixos valores de aposentadoria (decorrentes muito mais das alíquotas inferiores às mínimas necessárias do que da forma de capitalização em si), altos valores cobrados por serviços que, na minha visão, deveriam ser providos pelo Estado (dar condições para se gerar riquezas é apenas o primeiro passo do processo), manutenção de privilégios em diversas classes e corporações, inabilidade e truculência do governo para lidar com as reivindicações da população, além de muitos outros.

Para os nossos sofistas de plantão, entretanto, o culpado é apenas um: o liberalismo. O Chile está caminhando para o precipício graças à mesma filosofia que o atual governo brasileiro quer implantar por aqui. Cuidado! O Chile é o Brasil de amanhã. Meu Deus, só posso torcer para que estejam certos. Afinal, foi o liberalismo que permitiu ao Chile alcançar os invejáveis índices atuais mesmo inserido em um continente dominado pela irresponsabilidade fiscal, pelo populismo, pelo corporativismo, pelo assistencialismo e pela corrupção.

Assim, nossos sofistas de ocasião seguem repetindo suas teorias vazias de lógica e cheias de intenções espúrias:

“O povo chileno está revoltado. O Chile é um país liberal. Logo, não há nada pior do que o liberalismo na face da Terra.”

ou

“Protestos são formas de se demonstrar insatisfações. O povo chileno está protestando. Logo, quero ver alguém reclamar da Venezuela agora.”

Quanta honestidade intelectual. O Chile é a bola da vez mas quem dera os nossos sofistas se limitassem a filosofar sobre os problemas chilenos. Infelizmente somos um país muito rico em conclusões desconexas. Temos sofistas ministros, por exemplo, que acham lógico vir a público insinuar que o navio de uma organização que defende causas ambientais não passa de um petroleiro disfarçado cuja missão é despejar milhares de toneladas de óleo nos mares e praias de seus adversários políticos.

Outros dos nossos sofistas ministros conseguem passar horas apresentando razões para justificar posições contrárias às defendidas por eles mesmos em recentes casos absolutamente idênticos.

Temos sofistas governantes que consideram razoável e coerente a desmoralização, o isolamento e o linchamento público de todos aqueles que têm visões, mesmo que pontuais, diferentes das deles.

Temos, enfim, sofistas pais e sofistas filhos, sofistas presos e sofistas soltos, sofistas de imprensa e sofistas de Twitter, sofistas de direita e sofistas de esquerda. Temos, acima de tudo, sofistas que usam seu limitado poder de persuasão para recrutarem suas claques de seguidores e, pelo menos por algum tempo, verem seus silogismos sofísticos reverberados nos cérebros daqueles que, insofismavelmente, não conseguem filosofar por conta própria.

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Dois patinhos na lagoa…

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Já gostei de jogar bingo. Não me refiro aos bingos eletrônicos que, por um breve período, emergiram da clandestinidade. Legais ou ilegais, esses nunca me atraíram. O bingo do qual sinto saudades era o que jogávamos em casa, eu, meus pais e meus irmãos. Não valia nada, a não ser um tempo juntos recheado de sorrisos e gargalhadas. Por isso mesmo sempre valeu tudo. Tenho saudades das narrações feitas a cada número sorteado: o 33 era a idade de Cristo, o 11 era o um atrás do outro, o 10 era a nota máxima e o 69 e o 24 eram discretamente destacados em virtude da presença de crianças e da ausência do politicamente correto. Bons tempos! É incrível como a vida sempre deixa marcas profundas prestes a serem despertadas por detalhes que, muitas vezes, nos passam despercebidos. Essas lembranças tão gostosas, por exemplo, me vieram à mente devido aos dois patinhos na lagoa. Hoje é o dia deles.

Há 22 anos, minha vida mudou pra melhor. Há 22 anos, todos os meus sonhos passaram a ser diariamente compartilhados e multiplicados. Há 22 anos, começamos a construir juntos uma vida repleta de expectativas, de metas e de objetivos que, por mais individuais que fossem, passaram a se reconhecer comuns. Talvez não seja mero acaso que o número 22 tenha o significado de trabalho, de construção e de otimismo para a numerologia. Mas assim não foram todos os demais até aqui?

Hoje, 22 anos depois, não consigo imaginar meus caminhos percorridos sem a companhia dela. Não consigo reconhecer um só sorriso meu que o dela não tivesse provocado. Foi através da doçura dela que conheci o amor mais pleno que pode existir entre seres humanos: o amor de alma. Foi ela quem transformou meus dias em oportunidades, motivações e objetivos. Foi ela quem me fez mais inteiro, mais maduro e muito mais feliz.

Há 22 anos, somos dois patinhos que nadam felizes em uma lagoa cristalina. Claro, de vez em quando surgem ventos fortes e ondas que deixam turbulentas as nossas plácidas águas. Quando isso acontece, um segura na mão do outro até que o sol volte a brilhar. E assim, até a nossa lagoa se expande. Ao longo desses 22 anos suas margens foram se distanciando. E quanto mais ela cresce, maior é a nossa capacidade de receber e de aumentar nosso bando de amigos. Amigos que também nos ajudam e nos ensinam a nadar felizes e em paz.

Que venham os nossos próximos 22 anos de trabalho, de construção, de otimismo, de conquistas, de felicidade e de muito amor. E que a nossa lagoa continue não conhecendo limites. Sei que a gente ainda tem muito a nadar…

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Precisamos falar sobre Greta…

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Não há como negar, a adolescente sueca Greta Thunberg foi a personalidade da semana. Principalmente depois de seu controverso discurso na ONU, a ativista se transformou no assunto mais comentado na mídia e nas redes sociais do mundo inteiro. Como já se tornou praxe em qualquer matéria contemporânea, opiniões equilibradas não passaram de gotas em um oceano de polarização e radicalismo cada vez mais extenso. Para um dos extremos, Greta representa a nossa salvação, certamente merecedora do posto de líder mundial e, se possível fosse, eleita a nova responsável pelo destino da humanidade daqui por diante. Para o extremo oposto, entretanto, Greta não passa da encarnação do mal, uma espécie de marionete a serviço de poderosos que só pretendem lucrar com a pobreza, a fome e a desigualdade planetárias.

Antes de emitir minha opinião, assisti a vários dos discursos e entrevistas coletivas feitas pela adolescente. E começo afirmando que a sua postura quase caricata vista no discurso da ONU é exceção e não regra. Em todas as demais aparições que acompanhei, suas expressões faciais e seu tom de voz se mantiveram serenos e controlados. Não vou aqui especular sobre os motivos do seu comportamento em Nova York no início desta semana, mesmo porque não tenho conhecimento algum sobre a síndrome de asperger que pode ter contribuído de alguma forma.

Entretanto, o tom pessimista e duro visto na ONU estão presentes em todas as manifestações de Greta. Ela é sempre taxativa quanto ao tempo que o planeta não dispõe e quanto à insuficiência das medidas tomadas até agora, inclusive as aprovadas pelo Acordo de Paris. Greta quer ver as emissões de carbono reduzidas em 80% até o ano 2030, quer energias renováveis preponderando em menos de cinco anos, quer o fim da utilização de combustíveis fósseis, inclusive nos transportes aéreos e marítimos. Segundo a ativista, se essas e outras inúmeras ações não forem tomadas, o planeta alcançará o “ponto de não retorno” em menos de uma década. A partir daí, também segundo ela, será iniciada uma reação em cadeia que irá extinguir toda a nossa civilização. E não haverá nada que possamos fazer para evitá-la.

Bom, vou começar pelo lado positivo. Acho realmente auspicioso que milhares de jovens tenham encontrado em outra jovem uma inspiração para suas vidas. Acho revigorante que essa jovem tenha se cansado de esperar respostas dos seus líderes e buscado ela mesma agir de acordo com as suas crenças e objetivos. Nada mais justo e legítimo. Mais do que de palavras e de cobranças, o mundo precisa de ações. Por isso, não sou daqueles que considera Greta uma menina mimada que deveria voltar à sua insignificante posição de estudante e esperar a sua vez de abrir a boca. Pessoas idealistas e visionárias dispostas a questionar, a nos fazer pensar e a nos tirar de nossa zona de conforto são mais do que necessárias. Afinal, sempre foram os questionamentos que fizeram a humanidade crescer e evoluir.

Por outro lado, acho que a visão de Greta, além de alarmista, é deturpada e carente de evidências. Sim, existem cientistas que corroboram seus vaticínios. Assim como existem cientistas que negam inteiramente a participação do homem no aquecimento global. Ambas visões são minoritárias e aí vem a grande questão: por que a porta voz de uma delas é aplaudida e venerada enquanto a outra é completamente ridicularizada? Além do mais, me incomoda imensamente a assertividade com que datas, números e cenários catastróficos são apresentados quando todos sabemos que os estudos científicos nesta área se baseiam em projeções. Ninguém é capaz de afirmar nada categoricamente, muito menos uma estudante do ensino médio. Uma coisa é enaltecer sua disposição e sua iniciativa, outra bem diferente é endossar suas palavras.

Independente de qualquer opinião, o fato é que as propostas de Greta não são viáveis e, se ainda assim fossem implementadas, provocariam desastres quase tão terríveis quanto aqueles por ela profetizados. O mundo, infelizmente, não é uma grande Suécia. Mais de três bilhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, dois bilhões não têm acesso a saneamento básico e mais de setecentos milhões ainda passam fome. Esses números tão alarmantes já foram bem piores. Na verdade, a pobreza mundial tem caído sistematicamente à medida em que a economia de mercado se expande. Há 30 anos, mais de 35% da população mundial vivia na pobreza extrema. Hoje, esse número é de aproximadamente 10%. Curioso é que a economia de mercado é tratada como a grande vilã nos pronunciamentos de Greta. Não poderia haver incoerência maior. Só através da consistente geração de riquezas será possível o desenvolvimento de novas tecnologias capazes de mudar a matriz energética dos países, reduzir a emissão de gases poluentes e melhorar a produtividade agrícola preservando, em consequência, matas e florestas nativas.

Por tudo isso, acredito que Greta Thunberg não deveria ser vista como deusa ou demônio. Eu particularmente a vejo como um impulso. Um impulso capaz de mobilizar milhões de pessoas, de fazer com que líderes mundiais se atentem a questões cruciais, de conscientizar a população sobre a importância da preservação da natureza. Um impulso cuja força não está nos argumentos. Em suma, aprovo a forma, discordo do conteúdo. Mesmo assim, até pela visibilidade que lançou sobre o tema, acho que Greta já tenha feito mais pelo planeta do que a grande maioria de nós jamais será capaz de fazer.

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Romance estelar…

Atenção, petista solteiro, solteira ou solteirx, vem aí o PTinder, o aplicativo de relacionamentos feito especialmente pra você. A ideia partiu de uma advogada que, para ajudar um amigo que levara um fora, publicou sua foto nas redes sociais dizendo que ele era de esquerda. Segundo a advogada, foi isso que mais atraiu a atenção das mulheres.

O aplicativo possui algumas diferenças em relação ao Tinder tradicional. Quando um pretendente encontrar um par não será um match, mas sim um marx. Também ali ninguém vai encontrar a metade da sua laranja (por ser coisa do Queiroz). O que se busca é a metade da sua estrela. Fofo, não é? É muito fácil participar. Basta se cadastrar e preencher um pequeno questionário para que a pesquisa possa ser feita da forma mais acurada possível.

Não perca essa oportunidade única de começar um romance com alguém que grite Lula Livre tão alto quanto você. Deixe essa coisa de pluralidade de pensamento para ser lembrada só nos comícios, passeatas e paralisações. Ah, e não se preocupe, o PTinder garante que todos os seus dados são confidenciais e invioláveis, inclusive – e principalmente – o seu teste de QI.

Boa sorte!

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Num estalar de dedos…

Os dois capítulos finais da saga “Os Vingadores” quebraram recordes de bilheteria e levaram os fãs do Homem de Ferro e companhia às lágrimas por diversas vezes, principalmente no momento em que o vilão Thanos alcança seu maior objetivo: exterminar aleatoriamente metade da população da Terra.

As ações de Thanos, entretanto, não são motivadas pela fome de poder ou pela enfadonha busca do controle mundial. Thanos quer que metade da população deixe de existir para que a Terra se torne um planeta viável. De fato, após concretizar seu acalentado sonho, Thanos destrói as pedras que lhe proporcionaram poder absoluto – prova de que suas intenções sempre foram as mais nobres possíveis – e se refugia nas montanhas, de onde pode vislumbrar um novo mundo sem miséria, sem fome, com oportunidades iguais para todos, sem problemas de saúde, transporte e moradia. Um mundo de oceanos mais limpos, florestas nativas preservadas, nascentes e cursos d’água sem quaisquer riscos de contaminação.

Thanos é, sem dúvida, o mais ecológico dos vilões da história do cinema. Com um simples estalar de dedos conseguiu transformar áreas desmatadas em novas florestas, reduzir pela metade as emissões de gás carbono na atmosfera, recompor a camada de ozônio e findar os riscos do aquecimento global. Entretanto, no final da saga os super-heróis conseguem reverter as ações de Thanos e o planeta Terra volta a ser o mesmo lugar desastroso de sempre. Nem mesmo os fictícios filmes da Marvel foram capazes de fazer com que a fome, a pobreza, a falta de saneamento básico, as endemias, as guerras e todas as catástrofes do mundo moderno desaparecessem por mágica.

O fato é que a única forma de se alcançar algum progresso nessa área é através do trabalho, do empreendedorismo, da inovação, do cuidado com os mais necessitados, dos investimentos maciços em saúde e educação. E nada disso poderá ser conquistado se não houver geração e distribuição de riquezas. No mundo real, não existem fórmulas mágicas nem almoços grátis. O crescimento econômico global também é fundamental para o desenvolvimento e a aplicação de novas tecnologias capazes de viabilizar fontes de energia renováveis, redução efetiva das emissões de gases poluentes e preservação das florestas e matas nativas. Em resumo: sem grana, nada feito.

Por tudo isso, me parece muito pouco inteligente – para dizer o mínimo – a aplaudida aversão ao dinheiro gerado por um modelo econômico que, mesmo com todas as suas limitações, tem feito com que mais e mais pessoas deixem de viver abaixo da linha da pobreza no mundo a cada ano. Claro, pelo menos até que o Thanos apareça para, de uma forma ou de outra, resolver nossos problemas definitivamente.

Por falar nisso, após alguns dos inflamados discursos proferidos nos dois últimos dias na ONU, sou capaz até de imaginar uma nova cena final para o último filme da saga: diante de um tribunal composto exclusivamente por jovens em idade escolar, os Vingadores – típicos representantes do capitalismo imperialista – são julgados e condenados por terem acabado com o sonho de um mundo melhor, mais justo, mais limpo e mais sustentável. A juíza, em sua condenação final, vira-se para cada um deles e afirma, quase sussurrando: “Como vocês se atrevem? Nós jamais iremos perdoá-los.” A câmera fecha em close no rosto da juíza enquanto aplausos efusivos são ouvidos ao fundo. Épico!

Na cena pós créditos, novos personagens são apresentados ao público, com destaque para o Orange Man e seu topete cortante, o super detetive 000 James Boris, o Messieur Macaron e o Capitão Fuinha com sua irritante mania de sabotar seus próprios planos. É a Marvel renovando seu arsenal de heróis depois da derrocada dos Vingadores. Que fase!

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