Vamos desenhar…

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Tentativa de desenho (a última, eu prometo):

- Não entendo tanta histeria. Existem muitas outras doenças matando muito mais do que o Covid-19.

Sim, é verdade. Mas o problema, pelo menos agora, não é esse. O problema está na velocidade do contágio. O Coronavirus se espalha com imensa facilidade. A taxa de contaminação é muito alta e nenhum sistema de saúde do mundo está preparado para atender simultaneamente milhares de doentes que precisem de atendimento e internação. O mundo precisa ganhar tempo e a única forma de se ganhar tempo é restringindo o convívio social. O grau dessa restrição pode ser debatido, analisado e até variar de país para país, mas tem que ser significativo.

- Mas essa paralisação será um desastre para a economia do Brasil.

O desastre econômico vai ocorrer de qualquer forma. Essa é a pior crise mundial desde a Segunda Guerra. As experiências de quem postergou fazer algum tipo de isolamento mais robusto estão à mostra. Aqueles que se recusaram a tomar medidas preventivas tiveram que adotar o lockdown absoluto, parar literalmente tudo, e ainda conviver com filas de doentes inviabilizando todo o sistema de saúde e com as pilhas de corpos se avolumando dia após dia.

- Estão inflando o número de casos e mortos com o intuito de se levar pânico à população.

Ao contrário. O número oficial de infectados é de oito a dez vezes menor do que o número real. A maior parte das pessoas infectadas tem sintomas leves ou é assintomática. E a imensa maioria destas não foi testada. Quanto ao número de mortos, mesmo que muitos deles tenham falecido em decorrência do agravamento de comorbidades pré-existentes, a presença da doença deve ser levada em consideração. Além do mais, como eu disse, o número de mortos é o dado estatístico menos relevante neste momento. Claro que todo esse esforço está sendo feito para que se evitem mortes. Mas as mortes só serão evitadas se o sistema de saúde tiver condições adequadas de funcionamento.

- É fácil fazer quarentena com a geladeira cheia e com gente para levar comida na sua porta.

Não, não é fácil. As pessoas não estão de férias dentro de suas casas. Muitas estão trabalhando on-line e outras buscando alternativas para sobreviver. Mas o Brasil não está vivendo um lockdown absoluto. Existem restrições de circulação e proibição do funcionamento de diversas atividades, basicamente ligadas a serviços, educação, lazer e comércio. E há uma solicitação para que as pessoas fiquem em casa o máximo que puderem. Ficar em casa é uma questão de consciência coletiva, não uma opção de gente disposta a explorar os outros. Muitas pessoas de diversas áreas continuam trabalhando e o trabalho desenvolvido por elas é extremamente importante. Quanto mais reduzirmos o nosso convívio agora, menor será a chance de nos trancarmos compulsoriamente dentro de nossas casas em um futuro bem próximo, aí sim, sem ninguém que possa executar diversas atividades hoje ainda permitidas.

- Mas ontem a OMS disse que o isolamento não precisa ser feito em países pobres.

Não é verdade. O diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, apenas demonstrou preocupação com os cidadãos mais carentes que precisam trabalhar para comer. Mas as recomendações permanecem rigorosamente as mesmas. Nada mudou.

- Ah, o diretor-geral pode, né? Quando o Bolsonaro diz a mesma coisa é taxado de imbecil.

Mais uma vez, demonstrar preocupação com a manutenção dos empregos e das condições básicas da população é legítimo e até louvável. Não é por isso que ele está sendo criticado. Bolsonaro está sendo chamado de imbecil porque está propondo acabar imediatamente com o isolamento. Por querer que apenas idosos e doentes se mantenham isolados. Por querer que todas as escolas sejam reabertas, que shoppings, estádios e demais locais de aglomeração funcionem normalmente. E por propor tudo isso sem nenhum embasamento científico, amparado apenas pelo achismo. Não existem estudos, modelos estatísticos, pesquisas, nada que corrobore tal pensamento. Mas o pior de tudo é que seus achismos vão de encontro a tudo que o Ministério da Saúde preconiza. Portanto, não há alinhamento algum entre o presidente e seu próprio governo. Ele também está sendo taxado de imbecil por chamar de “resfriadinho” uma pandemia que parou o planeta, que adiou as Olimpíadas, que colocou no chão quase que a totalidade dos aviões existentes no mundo. Ele está sendo chamado de imbecil por provocar diariamente aglomerações gratuitas, como um menino birrento que quer provocar os pais que o impediram de sair pra brincar. Ele está sendo chamado de imbecil por adotar uma postura que não seria razoável para qualquer cidadão, mas é completamente inadmissível para um chefe de estado.

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Observações na quarentena…

Quinze coisas que descobri após 10 dias de confinamento:

1) Há mais especialistas em Coronavirus no Brasil do que habitantes no planeta Terra;

2) Mostrar preocupação pública com as questões econômicas advindas da pandemia o transforma imediatamente em um bolsominion desprezível que só pensa no seu próprio umbigo;

3) Mostrar preocupação pública com a saúde da população o transforma imediatamente em um petista vagabundo que não sai de casa e só quer derrubar o governo;

4) Isolamentos horizontal e vertical são, juntamente com o português e a matemática, as matérias obrigatórias ministradas desde o ensino fundamental em nossas escolas;

5) A pandemia foi criada com o objetivo de acabar com o governo Bolsonaro. Os demais países e economias afetadas não passam de meros acidentes de percurso;

6) Exemplos de medidas adotadas em outros países só são válidos quando corroboram a ideologia de quem os divulga;

7) É proibido questionar. Quem o faz imediatamente é condenado com base nos itens 2 ou 3 acima;

8) Quanto mais veemente, dura e assertiva é a posição de uma pessoa, menos ela entende do que está falando;

9) As manchetes dos jornais só perdem para as tias do Zap como as fontes de informação mais utilizadas. As publicações científicas aparecem em último na lista;

10) Quanto mais uma pessoa repete: “precisamos pensar, gente”, menos ela pensa;

11) Os políticos de oposição torcem para que a pandemia seja controlada com a mesma sinceridade com que uma miss aplaude a vitória da colega;

12) Nunca a palavra “comorbidade” foi tão utilizada na história da língua portuguesa. E muita gente ainda não sabe o que ela significa;

13) Nem os fabricantes de vidros blindados sabiam que seu produto tinha atribuições tão diversas;

14) Oitenta por cento dos áudios e vídeos enviados nas redes sociais jamais foram abertos;

15) O vírus que transforma um cidadão comum em baba-ovo de político é muito mais letal do que o Covid-19.

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Aspirações coordenadas…

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O Coronavirus já mudou o Brasil e o brasileiro. Ainda longe de qualquer perspectiva de término, a pandemia já pode ser considerada um divisor de águas em nossa sociedade. Não que divisores de água sejam raros na nossa história mas, em uma análise antropológica mais apurada, a atual mudança merece um destaque especial.

Se analisarmos apenas os últimos vinte anos, por exemplo, a sociedade brasileira já se dividiu de diversas formas: Lula x FHC, PT x PSDB, petralha x coxinha, vermelho x verde e amarelo, golpe x impeachment, anta x pato amarelo, Haddad x Bolsonaro. Claro, ao longo de todas essas mudanças vivenciamos também pequenas divisões pontuais: vai ter Copa x não vai ter Copa, Lewandowski x Rosa Weber, Lula livre x ele tá preso, babaca, Democracia em Vertigem x O Mecanismo. Sim, caros leitores, e não vale o argumento de que vocês não se identificavam com nenhuma dessas correntes de pensamento. Talvez não tenham notado, mas nunca houve outras opções disponíveis. Ou vocês estiveram de um lado ou de outro, simples assim. Mas hoje, finalmente, atingimos um novo patamar.

Só mesmo uma pandemia em escala global seria capaz de tal façanha. A mesma pandemia que nos mostrou que há mais especialistas em Coronavirus no Brasil do que em toda a comunidade científica mundial. Que fez com que os sons de aplausos e panelas ecoassem democraticamente pelas ruas das cidades desertas. Que explodiu as consultas ao Google sobre as gripezinhas que mais mataram na história da humanidade. Que fez as pessoas perceberem o quão pouco haviam se dedicado à geografia no ensino médio. Que trouxe arrependimento àqueles que não tinham em casa um grande estoque de cerveja e um ainda maior de rivotril.

Pois bem, graças ao Coronavirus, a partir de agora a sociedade brasileira oficialmente se divide entre isolamento horizontal e isolamento vertical. Convenhamos, mais didático do que isso é impossível. Desde os longínquos e simplórios tempos de esquerda e direita, a nossa sociedade não havia encontrado conceitos tão graficamente evidentes. Mas com um inequívoco avanço: deixamos de lado a unidimensionalidade e alcançamos o plano cartesiano.

Perceberam a importância da coisa? Agora temos Descartes e podemos, finalmente, deixar Marilena Chauí e Olavo de Carvalho para trás. Imaginem todas as possibilidades abertas à nossa sociedade. Imaginem todas as composições possíveis. Pela primeira vez, aqueles que se identificam com pontos ora na horizontal e ora na vertical terão forma, serão vistos. Podem ser apenas pequenos pontos flutuando mansamente em um dos quadrantes. Mas poderão se tornar diagonais, ângulos, hipérboles, espirais, circunferências, elipses, parábolas. Ah, as parábolas. Quanto conhecimento e quanta sutileza elas são capazes de guardar. Poderemos acessá-las pela primeira vez. Um novo mundo muito mais livre acaba de se abrir diante de nós.

Quem diria que uma epidemia que nos condenou à reclusão poderia nos proporcionar tamanha liberdade. Liberdade inclusive para aqueles que quiserem se manter exclusivamente na horizontal ou na vertical. Entretanto, diante de um novo mundo tão rico e tão vasto, só não venham depois reclamar de solidão…

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Comunicações efetivas…

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Ao contrário do que se imagina, as formas de comunicação instantânea não nasceram com a internet. Muito antes da invenção do Whatsapp, a humanidade já conseguia se comunicar à distância em tempo real. E falo de meios bem mais democráticos e acessíveis do que um telégrafo, por exemplo. Afinal, para que este último funcionasse, era preciso pelo menos um segundo aparelho que recebesse e registrasse o que o primeiro informava.

Milhares de anos antes disso, homens já enviavam mensagens usando métodos de comunicação que, apesar de sua simplicidade, conseguiam compartilhar informações de forma simultânea a toda uma comunidade.

No passado, fumaça, fogo e música já serviram de alerta para tentativas de invasão, movimentação de grupos inimigos, mortes de líderes e até nascimentos, comemorações e eventos, dando origem às primeiras colunas sociais da história.

A tecnologia mudou tudo isso, naturalmente. Durante muitos anos, o telefone, os jornais, o rádio e a televisão foram os veículos mais usados na comunicação à distância. E com o advento da Internet e das redes sociais, a comunicação se democratizou de vez.

Curiosamente, mesmo com a tecnologia disponível a todos, o ser humano não se esqueceu das rudimentares formas de comunicação utilizadas há milênios.

Há cinco anos, o brasileiro voltou a utilizar a comunicação por tambores tão difundida em povos primitivos. Por questões de logística, os grandes e pesados tambores foram substituídos por panelas, bem mais leves e acessíveis.

A novidade foi objeto de reportagens e estudos antropológicos pelo mundo afora, e de veemente repúdio por parte daqueles que não concordavam com a mensagem divulgada. Segundo estes, os donos das panelas não tinham lugar de fala – ou de ritmo – para se manifestarem.

De qualquer forma, o objetivo daquela comunicação foi atingido e o som das panelas cessou por alguns anos. Mas veio a pandemia, veio a quarentena e as panelas voltaram a ser utilizadas como instrumentos de comunicação, inclusive por aqueles que tanto as criticaram.

O grande problema agora é que as mesmas panelas estão sendo usadas para mensagens contraditórias. Aí, convenhamos, vira bagunça. Não dá pra ficar marcando hora pra panela que fala mal e pra panela que fala bem. Perde-se a espontaneidade do movimento, entende? Além do mais, o som da panela está indissociavelmente ligado à crítica. Quem quiser falar bem deveria bater palmas e não panelas. Mas as palmas já estão sendo usadas como homenagem aos profissionais da saúde.

Como resolver tamanho dilema e, ao mesmo tempo, dar espaço para que todos possam se manifestar livremente?

Cheguei a pensar em trocar as panelas por copos mas isso seria perigoso demais. Nossos hospitais não estão preparados para uma avalanche de solicitações de suturas, principalmente no atual momento.

Objetos de plástico também não seriam adequados pois não emitem sons que possam fazer frente às panelas.

Caixas de som voltadas para as janelas tocando “Eu te amo, meu Brasil” serviriam bem ao propósito mas o aspecto arcaico da coisa estaria perdido (refiro-me obviamente ao uso da tecnologia, não à música).

Por fim, pensei em apitos e vuvuzelas mas imaginei que a menção a mais um fracasso brasileiro talvez não fizesse bem ao ego nacionalista dos usuários.

Pedi a opinião de diversos especialistas em sons mas ainda não encontrei algo que consiga passar a mensagem da forma única e peculiar que seus usuários merecem. Continuo aceitando sugestões.

Um especialista do interior chegou a me sugerir a utilização de berrantes. Seria uma boa ideia se não fosse justamente de um berrante o som que convoca cada manifestação…

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Um oceano de amor…

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Meu amor, pra quem está acostumada a viver cercada de amigos, o dia de hoje pode até lhe parecer solitário.

Como se você fosse a única pessoa no imenso universo azul.

Se for esse o caso, Dani, abra os braços e celebre o seu dia e a sua vida.

Sinta-se imersa em um oceano de amor.

Um oceano que você conquista, cativa e aumenta a cada instante com a sua generosidade, com a sua lucidez, com a sua doçura, com a sua coragem, com a sua força e com a sua luz.

Sinta-se cercada por esse amor que preenche todos os seus poros.

Mergulhe e permita que o amor que a envolve banhe a sua alma.

Você vai se sentir plena e essa é a plenitude que você emana. É esse seu amor que deixa o oceano mais límpido e cristalino. Tão cristalino quanto a sua alma.

Volte à superfície, meu amor, e perceba que você não está sozinha.

Nunca esteve.

Jamais estará…

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Humoristas sem graça…

Tem gente que não admite ir a um show de humor sem se acabar de rir. Nada contra, muito pelo contrário, acho que esse deve ser mesmo o espírito de quem sai de casa com o intuito de se divertir.

Mas tem gente que exagera.

Sabe aquele sujeito que já começa a gargalhar quando o humorista aparece no palco? Cá entre nós, humorista que faz graça sem abrir a boca não existe desde os tempos de Golias e Costinha.

Particularmente, sempre fui um cara que sorri com facilidade. Mas, pra me fazer gargalhar de verdade, o humorista tem que estar muito inspirado ou, pelo menos, ter dado a sorte de me encontrar saindo de uma longa – e farta – degustação de vinhos.

Não me entendam mal, a minha dificuldade em gargalhar não tem necessariamente relação com a qualidade do humorista ou do espetáculo. Pra ser sincero, prefiro muito mais um texto inteligente, temperado com boas doses de ironia fina e algumas pitadas de sarcasmo, do que aqueles quadros no estilo pastelão em que o ator sempre faz coincidir o final de uma piada com o volume máximo de decibéis que sua voz histriônica é capaz de alcançar. Ainda que o segundo possa, breve e eventualmente, me fazer gargalhar, o primeiro será sempre merecedor de um perene e eloquente sorriso de admiração.

Mas nada me deixa mais avesso às gargalhadas do que me deparar com o humorista corporativo. Aquele que é contratado pra enaltecer (ou conceber) as qualidades de uma empresa e detonar as concorrentes. Aquele que busca sempre dosar as palavras para não ofender o contratante e abre mão da característica primordial do bom humor: a contestação. Aquele que finge satirizar um personagem pois, quando o faz, seu real objetivo é fazer com que os outros se sintam ridicularizados. Aquele que, na verdade, não passa de um baba-ovo.

Humoristas desse tipo me fazem sentir ainda mais saudades dos textos ricos e provocadores que muitos gênios desfilaram ao longo de tantos anos. Talvez eles sejam apenas reflexos dos nossos dias. Talvez os personagens atuais sejam tão toscos, tão caricatos, tão grotescos, que acabam por tolhir a capacidade criativa dos nossos humoristas. Pelo jeito, isso pouco importa. O que não falta é gente pra rir de piada sem graça…

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Fantasias de carnaval…

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Nunca fui muito afeito a pular carnaval na juventude. Confesso que as imagens idealizadas de alegria, bebidas, farras e mulheres me dando bola foram logo substituídas pelas ressacas, pelos foras e pelos cheiros de urina e desodorante vencido. Acabei por me juntar ao Bloco do Sossego, me filiar aos Acadêmicos do Sono Fácil e virar frequentador assíduo do Baile da Cachoeira Gelada. Dez anos atrás, motivado pelo aniversário de uma querida amiga, abri mão da minha tradicional e silenciosa folia anual e mergulhei em um rio de cores chamado Sapucaí. Atravessei aquela avenida representando uma entidade qualquer e cantei com vontade o samba que dizia que o Brasil era o país de todos os deuses, de paz, amor e união. Foi uma experiência única e, pelo menos até agora, não recebi reclamações por parte da tal entidade por tê-la representado sem o devido lugar de fala.

Há dez anos, o Brasil estava apenas começando a descobrir o intragável mundo do politicamente correto. Ninguém ainda questionava o uso de turbantes, cocares, seios postiços, lenços amarrados na cintura, e até as cores das maquiagens tinham pouca relevância. Hoje, até as escolas de samba – que sempre tiveram procuração reconhecida em cartório para representar deuses e minorias – deixam claro a seus carnavalescos que a criatividade, assim como a paciência, tem limites. Quem não obedece é sumariamente cancelado sem direito a apelação, e a pena passa a ser cumprida ainda na primeira instância. Cabem às celebridades canceladas, na tentativa de cancelar o cancelamento, jurarem que pediram autorização prévia ao deus ou à minoria representada. “Com consentimento pode”, dizem elas. Consentimento de quem, cara-pálida? Pergunto para, logo em seguida, perceber que não tenho lugar de fala para chamar alguém de cara-pálida.

Eu ainda sou frequentador e divulgador do Bloco do Sossego. Entretanto, se me dispusesse a sair fantasiado no carnaval de hoje, certamente tentaria ser mais discreto. Afinal, as pessoas se irritam com muita facilidade ao se verem representadas em uma fantasia, mesmo que o objetivo desta tenha sido uma homenagem, uma reflexão ou – como acontece na maioria das vezes – uma simples e irreverente brincadeira. Para evitar eventuais constrangimentos, eu buscaria temas abstratos tais como personagens fictícios, plantas e animais, sem nenhuma referência a quem quer que seja.

Poderia, por exemplo, me fantasiar de Transformer. Um herói do cinema jamais poderia se sentir ofendido, não é mesmo? O meu transformer de carnaval seria uma retroescavadeira que, ao assumir a forma humana, teria o curioso hábito de chamar os outros de babaca.

Outra opção seria me fantasiar de molusco. Como é carnaval, meu molusco seria um cachaceiro com mania de grandeza idolatrado por uma horda de águas-vivas, aquelas medusas acéfalas que costumam se queimar com todos que não fazem parte da mesma turba.

A própria água-viva daria uma ótima fantasia. Mas a minha água-viva seria daquelas que cospem, humilham e chamam suas colegas de gordas e velhas. Daquelas que ninguém tolera mas que nenhuma companheira água-viva aparece para criticar ou acusar de misoginia. Uma água-viva repleta do ódio do bem.

Passando do reino animal para o vegetal, poderia me fantasiar de laranja. Mas uma laranja especial, grande e coberta de calda de chocolate pra dar mais consistência e, principalmente, tentar esconder a fruta. Daquelas laranjas difíceis de serem encontradas mas que entornam o caldo facilmente quando são apertadas.

Uma outra fantasia politicamente correta seria a de uma planta frutífera qualquer. Digamos, uma bananeira. Não seria bacana sair pelas ruas distribuindo bananas pra todo mundo? Tem muita gente que acha.

Outro personagem cuja fantasia cairia como uma luva seria o burro falante. Mas um burro palhaço, não aquele sábio dos livros de Monteiro Lobato. Um burro que pode até falar mas não consegue ler. Um burro que se acha esperto mas só sabe trocar letras, botar banca e colocar nos outros a culpa pelos seus erros. Um impreCionante burro raiz.

Outra fantasia muito inocente e apropriada seria a de cavalo. Mas não um cavalo dócil e elegante. Minha fantasia seria daquele tipo de cavalo bem limitado, que só sabe relinchar e dar coices nos outros, e que não consegue conviver com os demais animais com exceção da grande boiada que o acompanha e o aplaude dia após dia.

Por falar em boiada, outra opção também seria me fantasiar de gado e… ah, pensando bem, não. De gado já é demais!

Viu como dá pra pular carnaval sem incomodar ninguém?

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Cancelamentos…

No consultório psiquiátrico…

- Doutor, o senhor tem que me ajudar. Tem meses que não consigo dormir mais do que duas horas por noite.

- A sua dificuldade é para pegar no sono?

- Não, doutor. Durmo com facilidade. Mas tenho pesadelos horríveis e acordo logo depois.

- Que tipo de pesadelos?

- Eles variam bastante, mas o final é sempre o mesmo.

- E o que acontece no final?

- Eu sou cancelado, doutor!

- Não entendi o que é cancelado no seu sonho. Sua inscrição, sua matrícula, seu CPF?

- Não, doutor. Eu mesmo é que sou cancelado.

- É normal sonharmos com situações impossíveis.

- Mas esse é justamente o meu medo, doutor: ser cancelado na vida real.

- Meu caro, nenhuma pessoa pode ser cancelada.

- Doutor, em que mundo o senhor vive? Pessoas são canceladas a todo instante.

- Que bobagem. O que faria uma pessoa ser cancelada?

- Aí é que está, doutor. Basta ter opinião própria sobre algum assunto. E muitas vezes ela nem precisa fazer nada. Tudo é imprevisível demais. Não consigo conviver com esse medo. Por favor, eu só lhe peço que me receite um sonífero bem forte.

- Olha só, não sou do tipo que prescreve remédios para dormir logo de cara. Vamos buscar uma solução mais saudável, mudar sua rotina. Você gosta de música?

- Só MPB, doutor.

- Ótimo, antes de dormir escute meia hora de música pra relaxar. Sugiro Chico, Caetano, Gil…

- Não posso, doutor. Todos eles foram cancelados.

- Cancelados por quem?

- Pela direita.

- Bom, então ouça alguém mais antigo. Gosta de Raul Seixas?

- Também foi cancelado, doutor. Só que pela esquerda.

- Mas Raul sempre foi de esquerda.

- Pois é, para o senhor ver o risco que todo mundo está correndo.

- Esquece a música, tenta ler um livro antes de dormir. Gosto dos livros do Karnal, do Cortella e do Pondé.

- Cancelado, cancelado e cancelado.

- Não é possível. Por quem?

- Ah, esquerda e direita disputam o cancelamento desses três à tapa. Depende do dia, do que dizem e de quem tirou foto com eles.

- Tá bom. Esquece o livro. Assista a um bom filme antes de dormir. Vai te fazer pensar em outras coisas. Você assina a Netflix?

- Foi cancelada, doutor.

- Então reative a sua assinatura.

- Não foi a minha assinatura. O canal foi cancelado.

- Por quê?

- Bom, entre outras coisas por chamar o impeachment da Dilma de golpe e por chamar o PT de corrupto.

- Mas esses motivos são antagonistas.

- Bem lembrado. O Antagonista já nasceu cancelado por um lado e agora está pelos dois. Se juntou a todos os outros jornais que estão na categoria “hors concours” do cancelamento.

- Ninguém foi “descancelado” até hoje?

- Impossível, doutor. Quando um lado “descancela” alguém, o outro o cancela imediatamente.

- Olha, você está falando só de gente famosa, de grandes empresas. Nós, pessoas comuns, não corremos nenhum risco de cancelamento.

- Doutor, o senhor já ouviu falar de Lucas, Tulla, Everton, Hadson?

- Não, nunca.

- Pois é, todos cancelados. Estou lhe dizendo, não vai sobrar ninguém.

- É, meu caro, acho que só rezando mesmo.

- Doutor, eu sou católico e nesta semana até o Papa foi cancelado.

- Aqui está a sua receita. Tem três soníferos aí. Tome todos juntos. Um só não vai fazer efeito algum…

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Volta às aulas…

E o primeiro mês de 2020 chegou ao fim. Um mês repleto de ameaças de conflitos internacionais, verdadeiros – e reais – conflitos familiares, recordes de chuvas e de mortes quebrados, contaminações letais descobertas – algumas no outro lado do mundo e outras no bar da esquina – e perdas de ídolos de forma abrupta.

Como toda circunstância desafiadora, o mês de janeiro deixou também muitos ensinamentos. Descobrimos que rios não deveriam ser confinados, que um simples vírus tem o poder de abalar toda a economia mundial, que processos produtivos sempre podem ser aperfeiçoados, que a tecnologia jamais será mais forte do que a Natureza e que tradições quebradas dão sempre mais notícia.

Mas janeiro deixou também outros tipos de ensinamentos. Não bastassem os trágicos eventos ocorridos no mês, o Brasil recebeu aulas de hipocrisia, de populismo, de atraso, de preconceito, de empáfia, de grosseria e de incompetência ministradas pelos mais diversos professores. Verdadeiros especialistas, nossos mestres estiveram particularmente inspirados no início do ano.

A aula de populismo avançado foi dada pelo prefeito de Belo Horizonte. Depois de três anos deixando de investir quase 70% dos recursos destinados à prevenção das recorrentes inundações, Alexandre Kalil afirmou que a chuva que provocou tantos prejuízos aos moradores da cidade foi uma resposta aos empresários gananciosos da construção civil. “Chegou na casa deles, no bairro chique e luxuoso”, afirmou o prefeito. Sendo ele mesmo um empresário da construção civil e também morador de um dos locais destruídos pela força das águas, tenho que admitir que o prefeito talvez tenha razão.

Damares Alves foi a responsável pela aula de retorno ao século passado ao insistir na campanha pela abstinência sexual dos adolescentes no intuito de se evitar a gravidez precoce. Se a ideia surtir efeito, o próximo passo provavelmente será sugerir às pessoas que não andem de carro para que os acidentes de trânsito diminuam, e que parem de ouvir rock para que a droga, o sexo, a indústria do aborto e o satanismo deixem de existir.

Uma manifestação em especial abriu espaço para duas aulas. O militante de esquerda e ex-auto-proclamado-presidente-do-país (também ator nas horas vagas) José de Abreu, proferiu ofensas machistas, misóginas e preconceituosas contra uma colega de profissão em uma das mais torpes aulas de grosseria dos últimos tempos. Por sua vez, quase nenhuma voz da esquerda se levantou para defender a mulher ou condenar o macho escroto, ministrando assim uma das mais eloquentes aulas de hipocrisia do início do ano.

O episódio do discurso de inspiração nazista feito pelo ex-Secretário de Cultura também deixou lições de hipocrisia. De um lado por afirmar que o “coitado” foi vítima de uma armação (como se fosse possível convencer alguém inocente a proferir um discurso no modo Hannibal Lecter). E de outro por manifestar tamanha (e justa) indignação num dia, enquanto homenageia um monstro genocida no outro.

Weintraub continuou dando aulas de incompetência ao minimizar os erros na correção de milhares de provas do Enem e ao chamá-los de “inconsistências”, “probleminhas já resolvidos” e “bom era na época do PT, né?”. As várias ações judiciais que pedem a revisão das provas ainda hão de fazê-lo encontrar novas denominações.

E ontem, no último dia do mês, Tati Bernardi publicou um texto que é uma verdadeira aula de empáfia afirmando que… ah, quer saber? Tati quem, mesmo?

Seja bem-vindo, fevereiro. As aulas já começaram…

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Evolução em risco…

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E no primeiro dia de aula…

- Bom dia, aluninhos queridos.

- Bom dia, professora.

- Todos animadinhos pra começar o ano?

- Sim, professora.

- Ah, que bom. Amo ver essa carinha de felicidade nas minhas crianças. Todos se sentaram nas cadeirinhas marcadas com seus nomezinhos?

- Sim, professora.

- Assim é que eu gosto de ver. Menininhos de um lado, uma fila vazia no meio e menininhas do outro. Qualquer descuido e a nossa sagrada abstinência sexual pode ir por água abaixo, não é mesmo?

- Sim, professora.

- Só você aí na segunda fila, queridinha, é que parece estar no lugar errado.

- Mas meu nome está escrito aqui e eu sou menino, professora.

- E está usando brinquinhos, cabelinhos longos e coloridos e tem as unhas pintadas? Não, não, querido. Sente-se aqui na primeira cadeira do meio, bem pertinho de mim. Já tenho muitas abstinências com que me preocupar.

- Sim, professora.

- Turma, quem gosta de ciências?

- Nós gostamos, professora.

- Eu sabia. Senão vocês não estariam aqui, não é mesmo? Alguém por favor me diga por que escolheu estudar ciências?

- Eu gosto da ciência porque ela me ajuda a entender de onde viemos e pra onde vamos, professora.

- Deus, querida! A gente veio de Deus e volta pra Deus. Essa questão é muito básica. Mais alguém?

- Através da ciência eu procuro entender como muitas coisas funcionam: o clima, as chuvas, os terremotos, os tsunamis…

- Pela vontade de Deus, queridinho! Tudo é regido pela vontade de Deus. Isso também é muito básico. Aqui veremos coisas muito mais complexas. Anotem as matérias que vamos estudar neste semestre: “Astronomia de verdade e a falácia da Terra redonda”, “Como Deus criou o Universo em sete dias”, “Noé e sua influência na fauna do planeta”, “Torre de Babel: como as diversas línguas surgiram”, “Vacinas ou preces? A verdadeira proteção vem sempre de Deus” e “Rock, sexo, aborto e satanismo – o que podemos fazer para evitar o Apocalipse”.

- Professora, não vamos estudar a Teoria da Evolução de Darwin?

- Querido, estamos em uma universidade séria, não trabalhamos com teorias aqui. Só com fatos cientificamente comprovados…

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