Cenas de uma noite inesquecível…

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Cena 1: o ocaso

Depois de mais de uma semana de chuvas, o sol decidiu que já era hora de reaprender a marcar a silhueta das montanhas. As mesmas montanhas que ajudam a transformar uma cidade bela em maravilhosa. O horizonte abriu o espetáculo. O olhar da criança agradeceu.

Cena 2: os encontros e reencontros

Talvez tenham sido as cores do crepúsculo, que a lagoa tomou emprestadas. Quem sabe a brisa leve que amainou uma temperarura já agradável. Ou teriam sido mesmo as pessoas? Só sei que o clima de harmonia, de amizade e admiração sinceras, de confraternização e de entendimento contagiou a todos que lá estavam. Contagiou a noite que, intrigada, mandou a lua como testemunha.

Cena 3: real e virtual se confundem

As palavras possuem a mágica de nos seduzir e nos aproximar. Concordâncias transformam-se em admiração. Admiração gera engajamento. Engajamento pede por proximidade. Mas o sublime acontece quando tudo isso culmina em abraços acompanhados de agradecimentos do tipo olho-no-olho. Sim, as telas e aplicativos podem ser agregadores, basta que saibamos usá-los.

Cena 4: os corações que tocamos

As verdadeiras amizades não se dissipam com a distância. Ao contrário, cada breve encontro apenas as fortalecem. Assim, toda oportunidade deve ser aproveitada. Cada chance de estar perto não pode ser desprezada. É quando generosidade e gentileza se misturam, nos cobrem de aconchego, e nos fazem um bem danado.

Cena 5: a família

O que dizer de um tio que, prestes a completar 90 anos de idade, veio me benzer com lágrimas de orgulho e alegria? De um primo distante que sempre foi tão próximo quanto um irmão? De um irmão que escolheu a arte como ofício, e que insiste em me chamar de artista? De uma cunhada, linda por fora e por dentro, que acolhe pelo sorriso? Muita gente chama isso de sorte. Prefiro chamar de bênçãos.

Cena 6: a escritora

Ela é a melhor das minhas escolhas. Aquela que me permitiu todas as demais. É a musa que sempre me inspira, é o olhar ao qual recorro para saber se estou na direção correta, é a mão que me apoia e, tantas vezes, enxuga minhas lágrimas. Ela é artista com as mãos e com as palavras, mas sua maior arte está no coração. É minha companheira em tudo e nossos sonhos individuais nos são comuns. Ela está sempre ao meu lado, mesmo quando o verde – sua cor favorita – é a que me envolve. Tudo bem, ela também fica linda de azul.

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Passos no tempo…

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Houve um tempo em que eu aguardava – ansioso – pela sua chegada. Seu colo era fonte de aconchego, suas mãos eram guias para meus passos trôpegos, nossos sorrisos revelavam a cumplicidade que insistíamos em compartilhar.

Houve um tempo em que seus ombros eram minha melhor brincadeira. Neles, eu me sentia mais alto, mais forte, quase invencível. Muitos dos gols históricos que presenciei foram vistos lá de cima. Foi ali também que aprendi a afagar seus cabelos, ainda livres dos primeiros fios brancos. Afagos que se repetiram pela vida afora.

Houve um tempo em que nossas mãos sobrepostas prometiam amizade eterna; em que suas palavras suscitavam reflexões e questionamentos; em que sua confiança em mim era a única esperança de que, um dia, eu não mais duvidaria da minha própria capacidade.

Houve um tempo em que o medo de perdê-lo me dominou; em que amaldiçoei a criptonita que machucava o coração do meu herói imbatível; em que sua presença, tão rotineira, transformou-se em bênção a ser celebrada a cada dia.

Houve um tempo em que me emocionei ao vê-lo sentado no chão da minha sala, ensinando outra criança a brincar; em que admirei sua mão voltar a ser esteio de novos e indecisos passos; em que testemunhei – comovido – seus conselhos lhe abrindo caminhos que eu jamais seria capaz de apontar.

Houve um tempo em que nos acostumamos a ouvir juntos o som do silêncio; em que nossas taças teimavam em se encontrar; em que mergulhar nos seus braços era prenúncio de longas conversas noite adentro; em que o amor era tão explícito que nos bastava um olhar.

Houve um tempo em que você não tinha mais forças para retribuir meus abraços; em que entendeu ter dito todas as palavras que eu precisava ouvir; em que o adeus se tornou inevitável; em que eu jurei fazer tudo que estivesse ao meu alcance para me aproximar da sua grandeza, da sua clarividência, da naturalidade com a qual você tocava os corações das pessoas, do seu dom de ser – tão e simplesmente – inesquecível.

Sei que ainda estou longe de tudo isso, pai. Mas você também me ensinou a não ter pressa, lembra-se? “Um passo de cada vez, filho” – quantas vezes me disse. Pois é assim – a passos bem lentos – que sigo em busca do grande objetivo da minha vida: conseguir me tornar uma fração do ser humano extraordinário que você foi, é, e sempre será.

E hoje, meu querido, meu ídolo, meu pai, um pequeno novo passo foi dado…

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O álbum…

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Ele folheia as páginas esmaecidas pelos anos. Como carícias, seus dedos tocam rostos estranhos de olhos familiares. Detém-se por um momento diante de uma foto. São crianças postadas à frente de um pano claro, provavelmente estendido apenas para gerar contraste. De pé, cinco irmãos circundam a mais nova, sentada em uma cadeira. Não há sorrisos nos semblantes. Tampouco amargor…

– Quem são estes, papai?

– A pequenina é a sua avó. Tinha sete meses de idade.

– Que fofinha! A vovó já foi um bebê?

– Todos fomos, filho.

– E os outros?

– São todos irmãos. Você chegou a conhecer um deles, mas acho que não se lembra. Ele morreu um ano antes dela.

– Qual deles?

– O menor dos três que estão atrás na foto. Chamava-se Hélio. Era meu padrinho.

– Ele parece sério. Será que estava preocupado?

– Pode ser, querido. Pode ser…

O trabalho do fotógrafo estava finalizado. Hélio pegou Nilda no colo antes que ela caísse da cadeira. Prestativo por natureza, era sempre o primeiro a ser convocado para ajudar nas tarefas domésticas. Bilí, a madrasta, ocupava-se cada vez mais com a enfermidade do marido. Hélio sabia o que estava por vir. Conhecera a dor do desenlace bem cedo, quando a mesma tuberculose levou sua mãe. Aos 3 anos de idade, sem conseguir dormir, aninhou-se junto ao corpo inerte que seria velado na manhã seguinte. Encontrara ali seu último acalanto.

Bilí veio para lhe dar o aconchego de que tanto precisava. Sentia a ternura de seus gestos nos passeios de mãos dadas, nas histórias contadas à luz do lampião, na interposição diante da taca de couro cru que brandia das mãos encolerizadas do austero patriarca. Ao ver o pai definhando, culpou-se por rezar com mais fervor pela saúde de Bilí. Deus haveria de entender.

Órfão, Hélio viu-se obrigado a deixar o Serro para estudar em Diamantina. Seu tio paterno, comandante do Terceiro Batalhão da Polícia Militar, tornou-se seu tutor. Com lágrimas nos olhos, despediu-se dos três irmãos menores e daquela que transformara seu próprio nome em sinônimo de mãe. “Deus lhe pague, Bilí” – balbuciou, antes de partir.

– Eles foram amigos a vida toda, papai?

– Sim. Sua avó sempre foi a irmã mais querida, e vice-versa.

– Mas eles não cresceram separados?

– Só por um tempo. Mas a distância nunca é páreo para o amor.

– Tem mais fotos deles juntos?

– Claro. Esta aqui é do casamento dos seus avós. Os dois com a outra irmã, Clélia. Na época, os demais irmãos já tinham falecido.

– E cadê minha bisavó?

– Olha ela aqui, assinando como testemunha.

– Você tem saudade deles, papai?

– …

A igreja estava quase vazia. O noivo e seus pais posavam para as últimas fotos. Hélio, Clélia e Nilda conversavam sobre a cerimônia, o carinho dos amigos, os parentes distantes que há muito não viam. Bilí os observava, com os olhos marejados. Abraçaram-se. De mãos dadas, lembraram-se do dia em que a foto dos irmãos foi tirada. A última antes que a vida cismasse em espalhá-los pelo mundo afora. Sorrindo, despediram-se, mais uma vez.

E cada um se encarregou de construir suas próprias lembranças…

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Quimera…

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“O amor é a compensação da morte” – Arthur Schopenhauer

Meu filho caçula aprendeu a conviver com ausências desde cedo. Dos 4 aos 5 anos, viu-se obrigado a dar adeus à tia, à avó e ao avô que lhe eram mais próximos. De repente, “céu”, “anjos” e “estrelinhas” ganharam significados menos lúdicos em sua mente em formação. “Nunca mais” também.

Uma noite, aos 6 anos de idade, ele me disse:

– Pai, constrói um robô igual a você pra mim?

Ele achava que eu era capaz de construir qualquer coisa, desde uma casa ou um prédio até uma nave espacial.

– Por quê, meu amorzinho? – perguntei.
– Porque eu vou ficar com muita saudade depois que você morrer. Mas, com o robô, eu vou ter sempre você perto de mim.

A emoção não me permitiu respondê-lo naquele momento. Lamentei não saber construir robôs. Lamentei não ter construído robôs iguais aos pais que acabara de perder. Entendi, finalmente, o “nunca mais” que tanto o atormentava. Dei-lhe um beijo no rosto e deitei-me ao seu lado.

Dizem que dormir é um ensaio para a morte. Morri. Foram-se as mãos, ficaram as faces que acariciei. Foi-se o olhar, ficaram os olhos que contemplei. Foram-se os abraços, ficaram os colos que acalentei. Foi-se a dor, ficaram as lágrimas que derramei. Foi-se o coração, ficaram as batidas que reverberei. Foi-se o sorriso, ficaram aqueles que provoquei. Fui-me.

Abri os olhos, como quem desperta para outra vida. Olhei-me no espelho, não me vi. Pouco importava, alguém haveria de me reconhecer em outras feições. Meu corpo leve e sem bagagem parecia flutuar. Nada ouvia, e a tudo estava atento. Nada sabia, e jamais compreendera tanto. Nada sentia, e a plenitude me abraçava. Plenitude que robô algum seria capaz de experimentar. Acordei.

Ao meu lado, um suspiro me sobressaltou. Seu semblante sereno parecia sorrir.

Durma, meu filho. No sono, talvez você entenda que meu legado é não lhe deixar legados. Palavras ditas ou escritas ficarão, mas só se você se dispuser a buscá-las. Caminhos percorridos serão lembrados, mas não lhe caberá segui-los. Faça-os seus. Memórias se dissiparão ao ponto de quase se restringirem às fotos na parede. Não se culpe, não haverá remorsos. O que tiver que ser abordado, falemos hoje. Não há depois nem amanhãs, somente o agora. A finitude existe, meu amor. Dê graças a ela.

Meu robô, querido, caberá a você construir. As instruções estarão nos sonhos…

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Confluência…

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Perco o fôlego. Suor reveste de sal minha pele insossa. Lufadas de incertezas – prontas a me descompassar – esgueiram-se por entre troncos lúgubres. Recolho-me. Relva e brisa dançam à minha frente, alheias à minha existência. Sou um átimo. Respirar é cada vez mais difícil. O ar que exalo recende a melancolia. Minha fugacidade é carente de afagos.

Claridade ofusca. Halos de sensatez centelham, convictos. Como se mede a perícia na vida? Resplandece a razão, abafam-se os temores. Fulgor e insuspeição chispam naquele sorriso. Desanuviada a lucidez, boca desfaz-se em mel. Olhos suscitam metamorfoses. O feitiço é contagioso.

Tarde cai. Anuncia-se o crepúsculo. Fios desenrolam-se pelos corredores de meu dédalo. Escapo por um triz, bafejado pela sorte. O lume pálido aponta a saída. Receio prosseguir, mas a chama inquieta de uma vela ilumina meu olhar. Monções egressas prometem inflar meus pulmões viciados. Seguro o hálito.

Volto-me para a escuridão. Acostumado às cruvianas, conclamo égides a me protegerem do bafo ardente que se aproxima. Inexistem mãos quentes para quem se habituou às geadas. O clarão insiste, certo de sua destreza. Perco-me em seu esplendor. Atmosfera urde – ofegante – a súplica por oxigênio. Alentar é preciso. Suas fagulhas acendem minhas artérias. O medo das queimaduras é perene. Que bons ventos o levem.

Sol e semblante competem pelo prêmio de mais duradouro brilho. Como um farol, perspectivas de cognição despontam no horizonte. Luzeiro se alastra como desabafo reprimido. Só me cabe inspirar. Envolvente, a aura bajula meu corpo nu. Hesito, acuado. Contrariada, a lâmpada ameaça apagar-se para sempre. A decisão é minha. Farto de lampejos, escolho a vida. Renovo-me.

Minuciosa, forma-se a teia que irradia aclaração. Inspiro vestígios, emano fé. Rajadas de serenidade não mais me assustam. Abatem-se dogmas, atentos ao nosso querer. O círio aceso que trago nas mãos só me serve de amuleto. Há muito perdeu a capacidade de criar sombras. Somos dois corpos luminosos, faíscas da eternidade. Madrugada irrompe. Constelações nos alumbram.

Sopro a vela, enfim. A luz não se apaga.

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Influências fora do ar…

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- Alô?

- Puxa, finalmente você atendeu. Tá todo mundo te procurando.

- Procurando?

- Claro, você não apareceu na aula e nem veio almoçar com a turma. Aconteceu alguma coisa?

- Gente, mas a Loló Supino não me avisou.

- Quem é Loló Supino, criatura?

- A blogueira fitness chiquérrima que eu sigo. Aliás, eu e outras milhões de pessoas.

- E desde quando uma blogueira famosa te avisa de alguma coisa?

- Eu acordo com ela me dando aquele bom dia, cheio de energia. Tomo café quando ela chega na academia, e saio pra faculdade quando ela começa a primeira drenagem linfática da manhã. Sempre dá certinho.

- Menina, o Instagram tá fora do ar desde ontem. Não tem nem Loló nem lelé pra contar história hoje.

- Meu Deus. Então eu perdi a hora do almoço? Loló já deve ter preparado aquela salada sem sal, sem lactose, sem agrotóxicos, sem…

- Sem gosto, né? Para de seguir esse povo e sai de casa. Tá quase na hora do seu estágio começar.

- Não posso ir pro estágio antes de ver o look da tarde que sempre combina com as unhas. Aposto que aquela ousada vai de pink hoje.

- Você ouviu o que eu disse? O Instagram está fora do ar. E você não tem grana nem pro esmalte, imagina pra comprar roupa combinando. Acorda.

- Amiga, eu não tenho condições de sair de casa agora. Tô muito abalada.

- Você ainda tem que trabalhar à noite. Vai perder o emprego porque uma riquinha mimada não pôde mostrar a nova cor das sobrancelhas?

- Ela trocou a cor de novo?

- E eu sei lá? Só dei um exemplo tosco qualquer.

- Pois eu só saio pro trabalho quando a Loló chega no consultório do Dr. Waddington – acho que é assim que fala o nome dele. Ela faz um procedimento estético por dia. Hoje vai ser uma limpeza de pele a laser com cromoterapia e filtro UV. Tudo sem glúten, claro.

- Se você tivesse grana e tempo pra fazer procedimento estético diário, também poderia concorrer ao próximo prêmio Nobel de futilidade. Mas você é pobre e tem que ralar. Deu pra entender ou vou precisar desenhar?

- Tá bom, tá bom. Vou mandar um zap pro meu primo pedindo carona.

- O zap também tá fora do… ah, quer saber, deixa que eu pego você aí e te levo pro estágio.

- Ai, brigada. Será que você pode dar uma paradinha naquela concessionária Porsche que fica no caminho? Loló vai trocar de carro hoje e eu queria tanto ver ela de perto.

- Você quer que eu pare o meu Celta 2010 numa concessionária Porsche?

- Amiga, a gente tem que se inspirar em gente que faz.

- Gente que faz o quê? Propaganda de tudo que pagam pra ela usar?

- Pois fique sabendo que ela só divulga o que é bom. Não é pelo dinheiro.

- Ah, claro que não, imagina. Bom, vai se arrumar que eu chego aí em 10 minutos.

- Dá pra chegar em meia hora? Vou fazer uma compressa de pepino que a Loló ensinou que é tiro e queda pra acabar com as olheiras.

- …

- Alô… alô? Grossa, desligou na minha cara. Impressionante a inveja que essa gente tem das minhas amigas. Ai, que bom, o Instagram voltou…

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Alfarrábio…

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Papel de segunda linha, capa com cores desbotadas, recortes mal feitos. A encadernação não primava pelo capricho. As orelhas limitavam-se a pequenas dobras das abas, e nelas não cabiam frases. A lombada carecia de título, a folha de rosto se esquecera do autor. Ninguém pagaria um centavo por aquele exemplar. Entre tantos mais vistosos, leitor algum o escolheria na prateleira da estante. As palavras ali contidas nasceram fadadas ao desapreço. Severino sabia disso quando as escreveu…

PREFÁCIO

“A lembrança da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento, uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo sendo as coisas de rasa importância” – escreveu um tal Guimarães que conhecera entre uma e outra andança. O sentido da frase lhe escapou. Ficou o gosto pela sonoridade e o perfume do fumo de rolo, testemunha do encontro. Jurou um dia ser capaz de escrever bonito assim.

PRÓLOGO

O sertão mineiro era estéril feito gota de esperança. A aridez da terra endurecia até os corações mais úmidos. Se o céu não aprendeu a chorar, não eram os olhos da cabocla que haviam de lhe ensinar. Seus pés descalços marchavam firmes pelo mandiocal adentro. Ao fim da lida, barriga pesava tanto quanto o cesto que lhe servira de guarda-sol. A noite chegou com as primeiras dores. Pelas gretas da taipa, a lua viu quando seu grito cessou e o dele eclodiu. Veio do fogão a lenha o primeiro calor a abraçá-lo.

ENREDO

Fosse por vontade própria, não seguiria os passos trôpegos do matuto adiante. A dívida da guarida não estava quitada, apesar dos anos de labuta. Dádiva, só recebera o nome. Aprendeu – moleque ainda – a encontrar descanso na névoa do tabaco e no doce da cana. Os anos passaram como voo de araçari arisco. Moldado à rotina, cansou-se de questionar a vida. Por não saber rezar, apertou o chapéu de palha contra o peito e pediu a graça de ir-se embora. Deus não lhe deu ouvidos e mandou Ana Quitéria bater em sua porta. Aqueles olhos – famintos de afeto – deram a ele a vontade de ficar.

Partiram juntos em busca de veredas férteis e solos límpidos. Travessos como as crianças, brotaram os ipês-do-cerrado. O trabalho se mantinha, mas o descanso agora tinha goles de tagarelice e tragos de sabedoria. O tempo teimava em ser medido por fatias de queijo e xícaras de café. Cada noite em volta da fogueira deixava o chapéu de palha mais perto do peito. Severino apresentava a gratidão à madrugada. O céu o ensinara a chorar.

EPÍLOGO

O crepúsculo cobria-lhe o olhar. O semblante de Ana Quitéria iluminava seu horizonte. Ao seu lado, filhos e netos fingiam enganar as lágrimas. Páginas de um grande livro lamuriavam, incrédulas diante do ponto final. Quem dera todos pudessem lê-las. Próximo ao ocaso, perguntou a um dos netos pelo chapéu de palha. “Tenho muito a agradecer” – disse-lhe, mãos e chapéu ao peito.

- Algum arrependimento, vovô?

- Só um, querido. Queria ter aprendido a escrever.

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Órbita…

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A vida parece passar devagar aqui em cima. O silêncio é abissal, e a primeira aurora do dia prepara suas cores. O brilho do sol ofusca meus olhos, mas estou imune a seu calor. Sou inalcançável. Vivi o bastante para me ver desafiar o tempo, a matéria e as leis da física que sempre limitaram minha existência. Sinto-me como se nadasse em um oceano sem água. Meus mares estão lá fora e parecem mais azuis à medida em que os primeiros raios despontam no horizonte convexo. Um só instante e percebo que valeram a pena todos os sacrifícios que fiz para estar aqui. O mundo se ilumina diante da minha janela e, maravilhada, vejo que não faço parte dele. Estou livre.

Poucos minutos depois, o ocaso já se faz presente. O sol brinca de pique-esconde com as demais estrelas. Lamento não ter trazido meus disfarces. Agora são as luzes das cidades que dão forma aos continentes entre as sombras. Já estive em todos eles em busca da paz que experimento agora. Cada mala feita carregava uma nova esperança de escapar da solidão que insistia em me receber na volta. Bocas, corpos e suores jamais me saciaram. Não os culpo. Nenhum deles tinha aquele sabor.

A lua se aproxima e seu lume clareia o pequeno compartimento em que me encontro. Lembro-me da noite escura em que corria a esmo em seu encalço. Quisera eu que o luar o tivesse iluminado assim. Estou certa de que não o teria perdido de vista, que o teria obrigado a ficar. Ele sempre me obedecia. Amaldiçoei a lua naquela madrugada. Tantos anos depois, venho até ela para lhe pedir sua bênção final.

O próximo alvorecer deixa claro que a vida se repete, mesmo na estratosfera. Minhas férias do mundo são tão efêmeras quanto quaisquer outras. Quero férias da vida. Um meteoro se inflama ao penetrar a atmosfera à minha frente. Não tenho mais idade para crer em estrelas cadentes, mas meu pedido acompanha o rastro de fogo que desaparece no infinito. Sei que não serei atendida. É tarde demais.

Cresci com a certeza de que o mundo estaria ao meu alcance. Quando se tem dinheiro para comprar até uma viagem pelo espaço, a vida deveria ser bem mais fácil. Por que não foi? Todos os meus bens me parecem agora tão pequenos. Não sei se tenho forças para consumar o que me trouxe até aqui. Quero abrir a escotilha e vagar sem rumo no vazio, com a galáxia a me fitar. Hesito. Sou fraca, afinal. A imagem poderosa e dominadora que adotei sob a gravidade de nada me serve agora. Não há ninguém para temê-la. A hora do retorno está próxima. Sei bem o que me espera lá embaixo.

Outro meteoro se aproxima. Um novo rastro de fogo está prestes a cortar os céus da Terra.

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Papo reto…

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Nos últimos dois anos, muitos dos meus textos foram compartilhados em sites e perfis que defendem a volta de Lula à presidência. Refiro-me, naturalmente, às crônicas que satirizam e denunciam os absurdos praticados pelo atual governo. Sim, concordamos neste ponto: Bolsonaro é um desastre sem precedentes na história do país. A um ano das eleições de 2022, entretanto, acho importante ressaltar também nossas diferenças. Garanto a você, caro leitor petista, que não são poucas.

Sei, por exemplo, que de nada vale o seu apoio quando condeno as manobras para se burlar o teto de gastos, para se prorrogar o pagamento dos precatórios, para se turbinar um novo bolsa-família em pleno ano eleitoral. Lula já declarou ser a favor de tudo isso e, se puder, você irá a ajudá-lo a implodir as contas públicas do país.

Sua aversão à submissão vergonhosa a que figuras como Carla Zambelli e Bia Kicis se submetem é falsa. Gleisi Hoffmann e Maria do Rosário fizeram isso a vida toda e você sempre as aplaudiu.

Sua indignação diante das grosserias, da intolerância e do machismo do atual presidente é seletiva. Quando algum defensor ferrenho do PT age da mesma forma, você o apoia ou – na melhor das hipóteses – finge que não vê.

Seu asco perante os frequentes elogios que Bolsonaro e seus asseclas fazem a ditadores e ditaduras também não se sustenta. Se assim fosse, você não admitiria quaisquer homenagens a alguns dos maiores genocidas da história, tão comuns no dia-a-dia de seu partido.

Sua incredulidade diante de uma massa de fanáticos gritando “eu autorizo”, e pregando o fim das instituições democráticas, tampouco é real. Quando sua turma invade universidades, propriedades privadas e órgãos de imprensa, você é o primeiro a chamar os movimentos de “ocupações democráticas”.

Seu ódio das rachadinhas, desvios e demais indícios de enriquecimento ilícito do presidente é, no mínimo, dissimulado. Sim, porque as fartas provas e condenações do deus Lula de nada valem para você. Cobrar honestidade de um administrador público e adorar um bandido egresso do sistema prisional é muito irracional, para não dizer estúpido.

Seu assombro com os muitos jornalistas que trocaram a credibilidade de suas carreiras pelos likes de uma seita não faz sentido. Há uma legião de “jornalistas” pronta a defender toda e qualquer ação de Lula, e a comandar novamente sua própria rede de fake news. E você vai ajudar a viralizá-las.

Lembre-se, caro militante da estrela vermelha, que vocês criaram esse populismo messiânico que testemunhamos atualmente. O messias que nos governa soube apenas encarnar os anseios de uma claque de cegos sedenta por um populista para chamar de seu. Lembre-se também que nossa concordância de hoje é pontual. Lembre-se, principalmente, que – ao contrário de você – minha postura e meus conceitos permanecerão os mesmos, independente de quem vier a ocupar a presidência em 2023.

Por fim, leitor (ou ex-leitor) petista, jamais se esqueça de que considero você e seus companheiros tão hipócritas, tão incoerentes, tão irresponsáveis e tão obtusos quanto seus irmãos da seita contrária. Meu foco hoje está voltado para o criminoso que ocupa a cadeira de presidente. Mas minha luta é e será sempre contra tudo o que todos vocês representam.

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Limites intransponíveis…

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É inegável que a pandemia tem suscitado novas abordagens filosóficas sobre os papéis de Estado e sociedade. Quase dois anos depois, os limites entre as liberdades individuais e as limitações impostas pelo poder público ainda são alvo de debates acalorados, muitas vezes perigosamente contaminados pelas ideologias inerentes a cada interlocutor. Há pouco a se crescer quando todos os lados buscam tão somente proteger suas verdades. Ao contrário, quando o porta-voz de uma determinada corrente de pensamento mantém-se aberto ao contraditório, seus argumentos ganham legitimidade e relevância. Afinal, pontos de vista divergentes são fontes de crescimento inestimáveis se todos os lados estiverem dispostos a confrontar seus mais arraigados conceitos.

Depois de muitos meses focado na paralisação de grande parte das atividades econômicas do país, o debate da vez é a controversa obrigatoriedade das vacinas. Os tais “passaportes sanitários” têm sido execrados por muitos e aplaudidos por outros tantos. Refiro-me, naturalmente, àqueles que têm consciência da importância da vacinação. Não levarei em conta, aqui, os adeptos de uma teoria da conspiração que enxerga imunizantes como parte de um complô comunista em escala global. A limitada capacidade cognitiva e intelectual desses indivíduos impediria qualquer tentativa de troca de ideias mais produtiva e, para ser franco, não ando com muita paciência para debater com gente que adora usar exceções como exemplos de regras que corroborem suas tresloucadas teses. Portanto, se você é um daqueles que acham que as vacinas são engodos desnecessários e ineficazes, recomendo que interrompa aqui sua leitura e volte a compartilhar seus memes no WhatsApp e no Telegram.

O grande dilema atual, na minha opinião, reside na tênue linha que separa a liberdade individual da coletiva. Somos seres livres, e prezamos por nossos direitos básicos de locomoção, trabalho, expressão, entre muitos outros. Entretanto, vivemos em sociedade, e viver em sociedade pressupõe aceitação tácita de uma série de normas. Enfim, somos independentes, mas há limites para nossa autonomia. Nossas escolhas são soberanas, mas somos responsáveis por suas consequências. Todas versões do velho clichê: “o meu direito termina quando começa o direito do outro”.

Há poucos dias, ao trocar mensagens com uma pessoa contrária à exigência de vacina, deparei-me com o seguinte argumento: “cabe exclusivamente a mim decidir me imunizar, porque é exclusivamente meu o ônus de minha decisão”. Bem, há controvérsias. Não podemos nos esquecer de que é necessário um percentual mínimo de vacinados para que uma imunização em massa seja bem sucedida. Esse percentual pode variar mediante uma série de fatores, mas é imperativo que seja relevante. Portanto, se muitas pessoas usarem o seu direito de não se vacinar, o prejuízo certamente irá recair sobre toda a sociedade. É o que temos assistido em países como os Estados Unidos, onde parcela considerável da população simplesmente não acredita nas vacinas.

Por outro lado, o Estado deveria ter o direito de obrigar alguém a se vacinar, mesmo contra a sua vontade? Não entendo dessa forma, além de considerar essa opção inviável. Meu lado liberal, entretanto, acredita na autorregulação decorrente dos anseios da maioria. Companhias aéreas, estabelecimentos comerciais, escolas e universidades podem exigir comprovantes de imunização. Quem não quiser se vacinar que escolha ir de carro, ou almoçar na calçada, ou frequentar aulas online, ou nem sair mais do Brasil. São as tais consequências decorrentes de cada escolha.

O brasileiro – felizmente – quer se vacinar. Apesar das inúmeras pessoas que fazem de tudo para colocar em dúvida a eficácia da vacinação, e se comprazem em levantar suspeitas infundadas, quase sempre baseadas em mentiras e deturpações. Apesar de um ministro da saúde que busca apenas a manutenção de seu emprego e que, para isso, abre mão de suas aptidões e de sua dignidade. Apesar de um presidente imbecil, leviano, irresponsável, mau-caráter e criminoso, capaz de colocar ideologias retrógradas e disputas políticas à frente da saúde e da vida de seu povo.

Que o brasileiro esteja cada vez mais atento às suas escolhas. Como vivemos em sociedade, nosso futuro depende delas.

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