O papel de cada um…

Segunda-feira, 10 de setembro de 2018, em uma das celas da Polícia Federal de Curitiba…

L – Companheiros, chegou o dia mais triste pra mim. Tenho que passar o bastão.
H – Presidente, eu não sei se consigo. Eu não tenho o seu carisma.
L – Não se preocupe companheiro H, o nosso povo vota até em jegue se eu mandar.
D – Companheiros, desculpem o atraso. O banheiro estava sem papel.
L – Taí a prova companheiro.
D – Não entendi. Perdi alguma coisa? Tava naquele papel? Valdeci, cadê o papel?
L – Não companheira D, não perdeu nada. Só continua tentando decorar o que tá no papel.
H – Presidente, sei que o senhor já fez isso antes, mas eu não consegui nem ser reeleito com o seu apoio.
L – É verdade, companheiro H, mas o Brasil da companheira D tava uma porcaria naquele ano.
D – Meu Brasil? Não tô conseguindo anotar. Isso já tá no papel? Valdeci?
H – Mas o Brasil ainda tá uma droga, presidente.
L – Mas agora a gente pode falar que a culpa é do companheiro T.
H – E as pessoas vão acreditar?
L – Companheiro, você não escutou que o povo vota até em jegue?
D – Valdeci, cadê o papel?
H – Mas o senhor se identifica com o povo, presidente. O senhor veio de uma família pobre do interior do Nordeste.
L – Você também companheiro H.
H – Eu, presidente? Sempre fui de classe média. Nasci na capital.
L – Esquece isso, companheiro. Você nasceu pobre, estudou a vida toda em escola pública e só vai em médico do SUS, de preferência cubano.
H – Presidente, ninguém vai acreditar nisso. Só estudei em escola particular, tenho plano de saúde vitalício e internacional.
L – Companheiro H, não seja bobo, o povo vota até em jeg…
D – Valdeci? O papel, Valdeci.
H – O senhor está certo como sempre, presidente. Aliás, tenho algumas sugestões para o nosso programa de governo que eu queria passar pro senhor.
L – Companheiro H, vamos deixar uma coisa bem clara aqui. As propostas são minhas, o governo é meu, você vai lá e só repete o que eu mandar.
H – Mas, presidente, e se eles me perguntarem alguma coisa que eu não saiba?
L – Fala que vai me consultar, é claro!
H – Mas isso não vai dar a impressão de que eu sou só um poste?
L – Hahahaha. Companheiro H, todo mundo já sabe que você é só um poste!
H – Que povo iria votar em um poste que não sabe nada? Que não tem nenhuma opinião própria?
L – O mesmo povo que vota até em j…
D – Valdeci, é a última vez que eu falo, cadê a porra do papel???
H – Obrigado, presidente, estou bem mais confiante. Pode fazer o anúncio da minha candidatura.
L – Mais minha do que sua, companheiro H, mais minha do que sua. Agora, onde está a companheira M, a nossa vice?
H – Ela aproveitou que a campanha ainda não tinha começado e foi pra Nova York fazer umas comprinhas.
L – Fala com o povo que ela foi na ONU pra me defender, defender o Brasil e defender a democracia da Venezuela.
H – Presidente, o povo não vai acreditar nisso!
L – Companheiro H, tenho que te lembrar toda hora em quem o povo vota se eu mandar?
D – Valdeci!!! Cadê o papel???

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Indefinições e sonhos…

Não consigo prever qual será o impacto do atentado sofrido ontem por Jair Bolsonaro nos próximos pleitos. Não tenho dúvidas, entretanto, de que uma nova eleição começa agora. Uma eleição com muito mais indefinições que a anterior, que caminhava para um segundo turno entre dois extremos, com provável vitória da esquerda ou centro-esquerda. O atentado à democracia ocorrido ontem poderá provocar uma redução significativa na grande rejeição que o candidato atacado tem junto à população. Na mesma linha, também poderá provocar um aumento da rejeição dos candidatos ligados à esquerda. Se ambos os movimentos ocorrerem, a eleição pode até mesmo vir a ser definida no primeiro turno, possibilidade absolutamente inviável até o início da tarde de ontem. Claro, são apenas hipóteses e conjecturas, e somente as próximas pesquisas poderão indicar uma ou outra direção.

Algumas conclusões, entretanto, já podem ser alcançadas de antemão. A mais importante delas é a de que não vivemos uma democracia plena. Quando a violência assume o protagonismo em um debate eleitoral, quando pessoas comemoram o silêncio imposto a vozes dissonantes, quando a liberdade de expressão é cerceada com truculência, não há que se falar em exercício da democracia. Perdemos o rumo há algum tempo e não temos a menor noção de como encontrá-lo novamente. Vivemos em um país dividido não por ideologias distintas, ideias divergentes ou visões de mundo antagônicas. Vivemos sim em um país de guetos e de gangues inimigas, entrincheiradas e prontas para dispararem umas contra as outras. O disparo de ofensas, de inverdades, de distorções da realidade, de acusações de má índole passou a ser tão rotineiro quanto os tiroteios que se alastram pelo país em progressão geométrica. O debate de ideias não existe há muito e é desalentador perceber que poucos são os dispostos a dialogar, a apresentar argumentos e, principalmente, a escutar o que o outro tem a dizer. Poucos buscam compreender os motivos que o levaram às opiniões e verdades que o caracterizam.

O Brasil é um país de preconceituosos. E não me refiro apenas aos preconceitos clássicos tão exaustivamente debatidos. Falo do preconceito de opiniões, do preconceito de posturas, do preconceito de ideais. Para a maioria dos brasileiros, os autores sempre se sobrepõem às ações. Qualquer manifestação vinda daquele grupo ou indivíduo armazenado na prateleira “não presta” de nossas sectárias consciências individuais é instantaneamente descartada. Nada de bom pode vir dali. O oposto também ocorre e as pessoas passam a validar comportamentos sem sequer se darem ao trabalho de avaliarem suas razões, motivações e consequências. Assim, chegamos ao pobre cenário desprovido de novas trocas de ideias e de abordagens que vivenciamos hoje. Assim, atingimos o grau máximo do preconceito humano: o preconceito de pensamentos.

O Brasil comemora hoje 196 anos de sua independência. Quando estivermos celebrando o bicentenário, o governo do nosso próximo presidente estará se encerrando. Por isso, vou me permitir sonhar com uma realidade um pouco diferente para daqui a quatro anos. Não, que bobagem, sonhos não devem ser limitados. Daqui a quatro anos, anseio encontrar um novo país. Um país mais justo, mais responsável, mais atento, mais participativo, onde o cidadão tenha consciência de sua importância nas mudanças que almeja. Um país mais consciente de suas características e diversidades, mais disposto a debater posicionamentos e sugestões divergentes, mais determinado e seguro de seus rumos. Um país no qual todas as vidas tenham o mesmo valor, no qual qualquer atentado à liberdade provoque as mesmas reações de indignação em todos os segmentos da sociedade, no qual a hipocrisia reinante hoje seja substituída por um olhar mais amplo e mais condescendente. Um país, acima de tudo, mais unido, mais tolerante e mais feliz.

Esse é o meu sonho para os nossos duzentos anos de liberdade. Sim, é só um sonho, eu sei. Mas se não sonharmos primeiro, como poderemos um dia concretizá-lo? Temos que sonhar agora porque a viabilidade desse sonho, ou pelo menos de parte dele, depende inteiramente do que fizermos daqui a exatos 30 dias. Que não fujamos, portanto, à luta. E que o sol da liberdade em raios fúlgidos ilumine os caminhos deste grande país!

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As cinzas que respiramos…

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Fui dormir ontem desolado com o incêndio que consumia o Museu Nacional na Quinta da Boa Vista. O museu mais antigo do país, duzentos anos recém completados. O museu com o quinto maior acervo do mundo, com mais de vinte milhões de peças. O museu de coleções inestimáveis, entre elas a maior biblioteca de antropologia da América Latina, o fóssil humano mais antigo das Américas, múmias egípcias raras e ossadas de dinossauros únicas no território nacional. O museu cuja edificação em si já era uma obra de arte singular, testemunha viva da história do Brasil. Uma perda difícil de ser mensurada. Fiquei pensando nas diversas oportunidades que tive de visitá-lo, e também nas que não tive pois suas portas permaneceram fechadas por muito tempo, por completa falta de recursos. Que tipo de país é este, no qual um milésimo do valor desviado pelos corruptos de todas as esferas teria sido suficiente para se restaurar e manter esse patrimônio por décadas? Triste país sem cultura e sem memória. Triste país vítima do descaso, da corrupção, do atraso. Triste país sem perspectivas.

Acordei hoje com as fotos do que restou de um edifício que contou, durante mais de dois séculos, grande parte da nossa história. Acordei também com as declarações oportunistas e criminosas feitas pelos membros e defensores do partido que governou este país por mais de treze anos. Todas atribuindo aos últimos dois anos de governo a culpa integral pela tragédia de ontem. Que gente sem caráter! Que bando de cafajestes! O museu está abandonado há décadas. Nenhum presidente, antes, durante ou depois do governo petista moveu uma palha na tentativa de preservá-lo. Tivemos uma Copa do Mundo e uma Olimpíada que custaram dezenas de bilhões aos cofres públicos, e nem um centavo foi destinado à restauração ou à manutenção do museu mais importante do país. Mesmo com um fluxo de turistas sem precedentes, ninguém tentou efetivamente implementar uma parceria público-privada para que o museu pudesse receber milhares de turistas do mundo todo, e também do Brasil. Ninguém pensou em promover exposições interativas no museu, financiadas pela mesma Lei Rouanet que cansou de bancar espetáculos de artistas consagrados e bem sucedidos, ou de manifestações de “arte” lacradoras alinhadas com as orientações ideológicas dos responsáveis pela aprovação dos recursos. Ninguém questionou os empréstimos bilionários do BNDES para as grandes empresas brasileiras parceiras dos governos, enquanto a cultura do país agonizava. Ninguém alertou para o descaso com as centenas de outras instituições brasileiras, igualmente valiosas, como, por exemplo, o Museu do Ipiranga em São Paulo, fechado desde 2013 por risco de desabamento. E nesse caso é certo afirmar que, caso um novo desastre venha a acontecer, essa gente será a primeira a apontar seus adversários políticos novamente como os únicos culpados. Gente oportunista, corrupta, mal intencionada, retrato do atraso em que vivemos.

As cinzas que vemos hoje, infelizmente, não são apenas oriundas dos valiosos objetos queimados ontem no Museu Nacional. Elas se somam às cinzas densas que respiramos há décadas, assistindo diária e passivamente a queima dos valores que deveriam fazer parte de qualquer sociedade que se julga civilizada. Honestidade, decência, ética, responsabilidade, civilidade, bom-senso, caráter, hombridade, perseverança, coragem, coerência e retidão ardem em uma imensa fogueira diante de nossos olhos. A cada dia o fogo se alastra com maior força, deixando em cinzas novos e inestimáveis valores. Somente alguns poucos se aventuram a tentar apagá-lo, munidos apenas de algumas gotas de água ou de suor. Um esforço inglório cada vez mais ridicularizado por uma sociedade que já se acostumou com o calor intenso, com o ar poluído, com a claridade cada dia menor, fruto das cinzas que opacam uma luz que um dia, dizem, brilhou sobre o Brasil!

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O risco Bolsonaro…

Podem baixar a guarda, caros amigos bolsonaristas. Apesar do título intencionalmente provocador, a presente reflexão não pretende replicar as acusações de sempre, sejam elas reais, falsas ou exageradas. Tampouco vou falar sobre homofobia, racismo, desigualdade de gênero, machismo, direitos das minorias ou outros temas similares que tanto têm atraído a atenção de seguidores e detratores, e com os quais Jair Bolsonaro aprendeu a lidar com extrema naturalidade e franqueza, despido dos filtros impostos pelo politicamente correto. E esse é mais que seu grande mérito, é também a razão primordial que o tem levado a liderar as intenções de voto até agora. Apesar de considerá-lo totalmente despreparado para ocupar o posto mais importante do país, como já deixei bem claro em outras oportunidades, quero abordar neste texto uma outra questão: a real possibilidade de Jair Bolsonaro se eleger presidente do Brasil.

Estou ciente de que muitos vão me chamar, no mínimo, de imprudente, por estar me arriscando a fazer esta análise poucos dias após o sucesso da participação de Bolsonaro no Jornal Nacional. Realmente não tenho dúvidas de que seu confronto com os âncoras da Globo tenha lhe rendido novos votos e novos seguidores. Ainda assim, não vislumbro a menor possibilidade de que ele possa ser eleito já no primeiro turno, como muitos de seus seguidores afirmam categoricamente e tantos outros trabalham abertamente com esse intuito, inclusive lançando mão de notícias falsas, de teorias da conspiração e de deduções fantasiosas para demoverem os demais eleitores avessos às ideologias da esquerda da ideia de votarem em outros candidatos. E a razão principal na qual me baseio para fazer essa afirmação não está relacionada a dados de pesquisas ou a preferências pessoais. Jair Bolsonaro não será eleito no primeiro turno por uma mera questão matemática. Esta é a eleição com o maior número de candidatos desde 1989. Existem, no mínimo, quatro outros candidatos que concorrem na sua mesma faixa do eleitorado e que, inevitavelmente, irão tirar potenciais votos do candidato do PSL. Não há, portanto, campo para que ele cresça a ponto de atingir mais de 50% dos votos válidos em um cenário como esse. A conta simplesmente não fecha. Além disso – e agora sim entro na seara das perspectivas – é mais do que plausível afirmar que, após o início do horário eleitoral, Alckmin e Haddad irão crescer nas pesquisas, em função da capacidade de penetração de seus partidos na sociedade e do maior tempo de propaganda na TV. Haddad evidentemente está do outro lado do espectro político, mas o crescimento de Alckmim, aliado aos votos que Meirelles, Álvaro Dias e Amoêdo irão receber, inviabiliza inteiramente a eleição de Bolsonaro no primeiro turno.

E aqui abro um parêntesis para uma breve sugestão aos seguidores de Bolsonaro que insistem em propagar falsas notícias: não faz sentido essa tentativa tosca de desmoralização a todo custo das demais candidaturas. Além de não fazer diferença alguma agora, essas atitudes só têm provocado uma antipatia tão grande que poderá se refletir nos votos que o candidato certamente irá precisar em um provável segundo turno, que analisarei a seguir. Portanto, se me permitem um conselho, mudem de estratégia. Concentrem-se em enaltecer e valorizar as qualidades do seu candidato e ressaltar os pontos que entendam ser diferenciais em relação aos adversários dele. Debatam propostas e posturas. Todo debate é construtivo, mas não aqueles baseados em mentiras.

Bem, falando finalmente de segundo turno, e aqui justifico o título deste texto, Jair Bolsonaro tem a maior rejeição entre todos os candidatos. Mesmo aqueles que não acreditam nas pesquisas, certamente conhecem diversas pessoas de sua convivência e com ideologias semelhantes que simplesmente não o suportam. E esse é o grande perigo que sua candidatura sofre. Bolsonaro corre o sério risco de não reunir votos suficientes para derrotar seu adversário, mesmo que este venha do espectro da esquerda. Não é à toa que, nas pesquisas divulgadas até o momento, Bolsonaro não consegue vencer nenhum de seus adversários no segundo turno, com exceção de Haddad. Não estou afirmando aqui que sua eleição no segundo turno seja inviável, diferentemente de sua vitória já no primeiro turno. Mas, hoje, mesmo liderando todas as intenções de voto, não o coloco como o favorito destacado da disputa. Em outubro veremos se meus palpites têm algum fundamento. Façam suas apostas!

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Diferenças muito parecidas…

Eu não tenho dúvidas de que existam petistas altruístas, petistas bem intencionados, petistas que acreditam apoiar o que há de melhor para o Brasil. Mesmo cientes dos erros e defeitos de Lula, eles ainda o vêem como uma saída para um país imerso no marasmo em que se encontra, para que o Brasil volte a crescer e a prosperar, e para que o brasileiro volte a ter orgulho de ter nascido por aqui. Mesmo divergindo inteiramente de suas opiniões, não contesto a motivação de seus princípios, e tampouco a sinceridade de seus anseios.

Mas existe uma grande parte de petistas que se comporta como se pertencessem a uma seita. Para eles, Lula nunca fez nada de errado, simplesmente porque Lula nunca erra. Lula é o iluminado, é o homem que veio resgatar o Brasil das trevas, é a única esperança para um povo carente de um grande líder. Para eles, qualquer crítica feita a Lula é infundada, qualquer indício contra ele é obra de uma imprensa ideológica e partidária. Para seus seguidores mais radicais, Lula representa a única expressão da esquerda e, consequentemente, de todas as virtudes humanas. Quem não está com Lula não pode ser identificado como alguém que abomina as atrocidades e o fascismo da direita. Quem não está com Lula, não passa de um traidor do Brasil e é, portanto, tão inimigo quanto os mais ferrenhos defensores da ideologia oposta. Quem não está com Lula, da mesma forma, não merece qualquer consideração por parte daqueles que se julgam os donos da esquerda, que se julgam os únicos e verdadeiros defensores do Brasil. Infelizmente, com essa grande turma de petistas, não há a menor possibilidade de diálogo.

Bem, essa é a minha opinião. Minha opinião também permanecerá a mesma quando o texto acima for relido trocando-se Lula por Bolsonaro, petistas por bolsonaristas e esquerda por direita. Sei que a maioria dos meus amigos simpatizantes do “mito” se encaixa no primeiro grupo. Peço, entretanto, aos demais eleitores de Jair Bolsonaro que verifiquem se não estão se aproximando perigosamente do segundo. Talvez esse exercício lhes sirva de alerta para que não se tornem um exemplo daquilo que mais abominam!

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Uma escolha preciosa…

Tenho repetido e acredito firmemente que as próximas eleições serão as mais importantes da história do Brasil. Não temos mais nenhuma margem para erros. Se não mudarmos de rumo, iremos perecer como nação, não tenho a menor dúvida. Não podemos correr o risco de eleger alguém que não tenha compromisso com a desburocratização, com a liberdade individual, com o apoio ao empreendedorismo, com a universalização do saneamento básico e da educação de qualidade, com a responsabilidade fiscal e com a segurança pública, entre muitas outras importantes metas. Cada eleitor tem, não apenas o direito, mas o dever de escolher o candidato que melhor represente seus anseios e suas expectativas. Afinal, durante muitas eleições, nossa capacidade de escolha ficou limitada a dois polos não tão opostos como queriam que acreditássemos a princípio. Ficamos presos a nomes que jamais sintetizaram nossos ideais e acabávamos votando em quem acreditávamos ser o menos bandido, o menos incompetente ou o menos estúpido. Hoje, pela primeira vez em quase trinta anos, vislumbramos um cenário diferente. Hoje temos um número de candidatos bem maior e uma polarização muito mais restrita às ideologias do que aos nomes outrora impostos. Hoje, pela primeira vez para a maioria da população, cada eleitor poderá votar em um candidato em quem realmente confie. E isso é precioso.

Entretanto, talvez ainda pelos resquícios das experiências vividas, tenho percebido um movimento no sentido de voltarmos a nos comportar como nas eleições passadas, nas quais as ideologias teoricamente à direita e à esquerda determinavam seus únicos representantes e estes concentravam o recebimento de quase a totalidade dos votos válidos. Como eu disse, nossa escolha era baseada na completa desaprovação da candidatura rejeitada e não na aprovação daquela na qual votamos. Eu me recuso a vivenciar isso novamente, pelo menos enquanto tiver escolha. Eu me recuso a cogitar um “voto útil” no primeiro turno se tenho, pela primeira vez em décadas, um candidato que realmente represente meus ideais. Além do mais, estamos a cinquenta dias das eleições e nenhum cenário está sequer perto de se consolidar. Votar em um candidato com quem não me identifico simplesmente porque ele tem, teoricamente, mais chances de se eleger do que aquele no qual confio é, na minha opinião, um completo despropósito. É como se eu estivesse deliberadamente escolhendo a direção errada tendo absoluta consciência daquela que deveria seguir. E quando falo de certo e errado aqui, refiro-me exclusivamente à minha consciência, às minhas crenças, aos meus anseios. Cada um tem as suas, e quem sou eu para dizer que a minha escolha é a correta. Mas ela é minha, e isso também é absolutamente precioso.

Portanto, eleitor brasileiro, se me permite um conselho, no primeiro turno vote em alguém que realmente mereça sua confiança. Alguém que você considere verdadeiramente capacitado a mudar os rumos de um país à deriva. O momento que estamos vivendo é muito raro. O sistema político brasileiro é podre, viciado e não permite essa pulverização de candidaturas e ideias com frequência. Conheça e divulgue as propostas do seu candidato, defenda seus ideais e jamais o abandone em função de pesquisas ou do receio de candidaturas adversárias. Assim, mesmo que o seu candidato não venha a ser eleito, você irá experimentar a extraordinária sensação de paz por ter trilhado o caminho certo, ainda que menos percorrido. E nada é mais precioso do que isso!

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A celebração de um sorriso…

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Há exatos dezessete anos, três sorrisos se percebiam próximos. Três sorrisos se reconheciam afins, refletidos no sorriso alheio. Os mesmos olhos semicerrados, os mesmos vincos ao redor de queixos e bocas, as mesmas expressões de regozijo, as mesmas vibrações de quem se dispunha a trilhar caminhos recém-descobertos. Dezessete anos atrás, três sorrisos íntimos se saudavam como em um ansiado reencontro.

Ali, uma nova etapa de vida se iniciava para cada um deles. Pela primeira vez, três gerações sorriam mutuamente em um dia de celebração. A primeira celebração de um avô, mais pai a cada dia. A primeira celebração de um pai, ainda tão filho. A primeira celebração de um filho, responsável direto pela admirável injeção de luzes e cores inéditas nos olhares de quem o contemplava. De repente, todos se descobriam aprendizes diante de um universo a ser desvendado. Todos se revelavam exploradores prontos a desbravar novas trilhas. E, apesar dos receios denunciados pelos recorrentes calafrios, apesar das indagações ávidas de pistas confiáveis, todos sorriam. Sorrisos ardilosamente ingênuos, inundados de esperança. Sorrisos receosamente destemidos, armados só de amor.

Ao longo dos anos, os sorrisos ficaram mais sábios e maduros, um deles bem mais que os outros. E, ao longo dos anos, o sorriso experiente tentou passar aos demais sorrisos os ensinamentos que também lhes permitissem sorrir de forma mais leve, sem expectativas de retribuição, sem contrapartidas nem disfarces, sem ansiedades e, consequentemente, sem frustrações. Tentou ensiná-los a sorrir de forma plena e desarmada, assim como ele sorria. Assim como só ele era capaz de sorrir.

Durante muitos anos, as três gerações de sorrisos dividiram experiências mágicas e inesquecíveis, mesmo nos breves momentos em que um ou outro deixou de sorrir. Até que chegou o momento em que os três sorrisos se apagaram completamente. Algum tempo depois, ao retornarem, apenas dois deles seguiram sorrindo. E assim seguem desde então, sorrindo e buscando compreeender os conselhos e os segredos ainda indecifráveis daquele sorriso pleno.

Hoje, em mais um dia de celebração, a lembrança, a imagem e a força do sorriso pleno deixam mais saudosos os demais sorrisos que, mesmo carentes de seu guia, continuam a sorrir mutuamente. Sorriem enquanto caminham, cientes de que cada novo passo os aproxima da plenitude. Sorriem enquanto sonham com o dia, quem sabe, em que um novo sorriso volte a compor, com eles, um trio de gerações. Sorriem enquanto se imaginam sábios o bastante para, finalmente, serem também capazes de sorrir plenamente. Sorriem enquanto anseiam pelo momento em que, findadas suas longas e felizes viagens individuais, possam outra vez sorrir junto ao mais puro, o mais verdadeiro e o mais pleno de todos os sorrisos!

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Roda de imbecis…

Duas coisas me assombraram na entrevista de Bolsonaro no Roda Viva: a primeira é o completo despreparo do candidato, incapaz de apontar um único caminho, uma única proposta, uma única solução, um único momento de lucidez nas pouquíssimas vezes em que foi questionado sobre algum projeto ou ação de governo, ou seja, sobre algum ponto realmente relevante para um postulante ao cargo mais importante do Brasil. Mas o que mais me impressionou foi a completa incompetência de todos os “jornalistas” convidados, que passaram noventa por cento do tempo da entrevista tentando revelar o caráter fascista, homofóbico e racista que atribuem ao entrevistado. Assim, só conseguiram fazer com que ele se sentisse à vontade e pudesse se comportar da forma como mais gosta, repetindo suas frases de efeito e conquistando ainda mais seguidores. Se a imprensa brasileira continuar lhe fazendo perguntas imbecis como as feitas no programa de ontem, escancarando um viés ideológico que a maioria da população não suporta mais, essa mesma imprensa só estará ajudando a elegê-lo. O calcanhar de Aquiles de Bolsonaro não é o fascismo que lhe atribuem. Este, ao contrário, é o seu único ponto forte. A verdadeira fraqueza de Jair Bolsonaro está na sua própria indisfarçável mediocridade. Quem não perceber isso estará apenas contribuindo para conduzi-lo ao Planalto!

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A segregação das virtudes…

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O “Festival Lula Livre” realizado ontem no Rio de Janeiro foi o que dele se esperava: um culto à imagem mística e idealizada de um deus cada vez mais acorrentado às consequências de suas próprias escolhas. Nenhuma reflexão mais aprofundada, nenhuma autocrítica pontual, nenhuma sugestão de novos rumos. Apenas o conhecido vitimismo, a velha transferência de responsabilidades, as mesmas tentativas de se manter viva a imagem distorcida de um preso político impedido de guiar mais uma vez o seu sofrido povo. Esforços que encontram eco apenas no número cada vez menor de militantes seguidores de uma cartilha ditada pelo partido e que se mantém viva graças aos artistas, órgãos de imprensa, jornalistas e políticos engajados com a causa. E são esses ditos formadores de opinião os maiores defensores da autodeclarada posse exclusiva de todas as virtudes. Sim, os petistas e grande parte da esquerda brasileira adoram propagar a ideia de que são os únicos preocupados com as pessoas, com o planeta, com a natureza. Que são os únicos a possuírem verdadeiramente coração e alma. Que são os únicos a zelar pelos pobres, pelas minorias, pelos menos favorecidos. Que são os únicos abertos ao diálogo e que prezam pela liberdade e pela democracia. Como se todos os demais cidadãos, mesmo os que se posicionam mais ao centro do espectro político, simplesmente vivessem imersos em seu próprio egocentrismo.

Com que direito reclamam eles o trono da benevolência? Que tipo de atitude discriminatória e excludente pode vir a preparar pessoas verdadeiramente contrárias ao preconceito e à discriminação? Que conceito de diálogo é esse que joga todo contraditório na vala comum do fascismo e da intolerância? Que liberdade é essa na qual a censura a qualquer antagonista é aplaudida e incentivada? Que democracia é essa em que regimes totalitários são enaltecidos e usados como exemplos de soberania? Bando de hipócritas incapazes de analisarem suas próprias atitudes com um mínimo de isenção. Bando de cegos que se comportam como se escolhidos divinos fossem, ungidos pelo poder e pela força de um líder supremo infalível e onipotente.

Não há benevolência alguma em quem se considera o único bondoso. Não há sensibilidade alguma em quem se julga no direito de determinar os únicos aptos a se emocionar. Não há solidariedade alguma em quem se autoproclama o único disposto a ajudar. Não há coerência alguma na defesa de qualquer fato ou atitude não pelo seu conteúdo, mas simplesmente pelo seu autor. Não pode haver virtude alguma em ações pautadas na hipocrisia.

Enquanto isso, a maioria dos brasileiros, independente de crenças e ideologias, continua se emocionando com a música, com a literatura, com todas as formas de arte, com a natureza. Milhares continuam se levantando todos os dias dispostos a ajudar os muitos desassistidos. A maioria continua se indignando com a corrupção, com a injustiça, com a impunidade. Milhões continuam trabalhando com afinco e honestidade, e outros tantos continuam proporcionando empregos e oportunidades a quem precisa. Alheio às normas ditadas por uma turma barulhenta e cada vez menor, o brasileiro continua sendo um povo como qualquer outro, com mais gente honesta que desonesta, trabalhadora que vagabunda, solidária que egoísta. Um povo, também como qualquer outro, cuja maioria gostaria de ver todos os bandidos e políticos ineptos na cadeia, ao contrário da pequena turma barulhenta que insiste em transformar seus corruptos políticos de estimação em deuses e suas ideologias cegas em seitas. Uma turma que, ao se autodeclarar detentora do monopólio das virtudes, apenas escancara seu próprio universo de segregação, de preconceito, de hipocrisia e de extrema estupidez!

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Problemas de um plantonista…

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Sede da Polícia Federal de Curitiba, quinze para uma da tarde de um domingo qualquer…

- Alô?… quem?… não me lembro… ah, plantonista, entendi… sim, senhor… sério?… imediatamente senhor… vou mandar soltá-lo, senhor… vamos sentir falta dele aqui, senhor, ele é um ótimo comentarista de futebol… claro, senhor… tenho só que atender uma outra linha, também estou sozinho aqui de plantão, senhor… sim, fique tranquilo, ele será solto daqui a pouco…

- Alô?… boa tarde, doutor… sim senhor… sério?… mas o senhor não estava de férias?… me desculpe, doutor, realmente isso não é da minha conta… pode deixar, vou mantê-lo preso, doutor… não, daqui ele não sai de jeito nenhum… sim, e ninguém entra… pode deixar, doutor, fique tranquilo. Deixe-me só atender a outra linha…

- Alô?… sim senhor… como assim? Acabei de receber a ligação do doutor… ok, vou esquecer que ele me ligou… ok, não repito mais o nome dele, senhor… sim, senhor, fique tranquilo, vou mandar soltá-lo agora. Só tenho que atender uma outra ligação primeiro…

- Alô?… aham… aham… aham… não, doutor, é que estou ficando muito confuso por aqui… mas o senhor fala uma coisa e ele me fala outra… sim, doutor, vou mantê-lo preso… sim… tem uma outra ligação na espera doutor… até logo, doutor…

- Alô?… mas… senh… por fav… será que o senhor poderia gritar um pouco menos?… por que ainda não o soltei? Eu nem consegui sair do telefone até agora, senhor… sim, senhor… vou tentar senhor… ah, meu Deus, tenho mais uma ligação, senhor… mas eu tenho que atender, senhor… sim, se for ele de novo eu prometo que desligo, senhor… até logo, senhor…

- Alô?… sim, doutora… sim, ele me ligou… três vezes… sim, ele também me ligou… mas, doutora, o que eu faço?… tiro o telefone do gancho?… todas as linhas?… até quando?… e se alguém vier pessoalmente?… portas fechadas e linhas ocupadas… entendi, doutora… sim, não atendo mais ligação nenhuma… pode deixar… meu nome, doutora? É Welington, à sua disposição… sim, sou plantonista… não, não vou fazer nenhuma bobagem, pode ficar tranquila… entendo o seu receio, doutora… não, não bebo nada há três dias… não, nunca fui filiado a nenhum partido… sim, fique tranquila… boa tarde para a senhora…

- Welington, grita o carcereiro.

- Diga.

- O senhor Luís Inácio disse que tem um tal de Rogério querendo falar com você no telefone dele.

- E desde quando preso tem telefone?

- Desde que o Dr. Gilmar veio visitá-lo na semana passada…

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