Narciso e seu espelho…

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A chamada no portal de notícias era impactante: “Caetano Veloso largou o liberalismo após conhecer Jones Manoel”. Confesso que fiquei intrigado. Quem seria Jones Manoel e que métodos de convencimento teriam sido capazes de fazer um dos grandes ícones do liberalismo brasileiro abandonar suas mais arraigadas crenças? Que segredos estariam agora guardados sob os muitos cabelos brancos na fronte do artista?

Pensei em quantas frases de Caetano a favor do livre mercado, do Estado mínimo e das garantias às liberdades individuais deixariam de ser pronunciadas daqui por diante. Pensei no que seria de Felipe Neto, Greta Thunberg, Chico Buarque e outros liberais em formação vendo seu mestre desertar. Pensei na população brasileira – quase toda adepta do liberalismo – a também se questionar: “por que não? Por que não?”

Não tive outra escolha a não ser assistir àquele vídeo. Li, em seguida, todas as informações que encontrei na tentativa de entender como alguém tão intrinsecamente liberal como Caetano pôde ser cooptado por uma ideologia tão distante de seus valores mais caros. Os argumentos do jovem youtuber teriam sido suficientes ou haveria alguma força estranha no ar?

Descobri que Jones Manoel é um militante comunista do Recife que cresceu com o peito cheio de amores vãos. Seu discurso inovador, capaz de arrastar olhares como um ímã, o transformou em referência para muitos. Humilde, ele se autodeclara um intelectual-marxista-leninista, fã de Che, Fidel, Cuba e Coreia do Norte. Nada poderia ser mais moderno. Seus posicionamentos em relação a Stalin também surpreendem, e sua admiração não o impede de fazer corajosas ressalvas aos pequenos equívocos cometidos. Um verdadeiro bálsamo benigno, um guru, um porto seguro em tempos de trevas.

Convenhamos, diante de tamanha lucidez, não é de se espantar que Caetano tenha aberto sua dura cabeça liberal. Eles, que a princípio se conheceram de forma virtual, tornaram-se grandes amigos. Quando Caetano convidou Jones para seu programa de entrevistas na plataforma Mídia Ninja – a Meca dos liberais brasileiros – a relação se estreitou. Ali, ambos viram, um no outro, o avesso do avesso do avesso do avesso. Ali, diante das câmeras, Caetano se transformou. Ali, tudo ficou claro como o sol sobre a estrada é o sol sobre a estrada é o sol.

Agora, Caetano e Jones são uma só voz. Ambos querem cantar que é pro mundo ficar odara. Ambos querem que os homens parem de exercer seus podres poderes. Ambos querem que todos vivam sem lenço e sem documento, nada no bolso ou nas mãos. Ambos querem que, um dia, o ideal comunista possa ser colocado em prática, e todos possamos cantar juntos nosso novo hino: “Felicidade foi-se embora e a saudade no meu peito ainda mora…”

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A liberdade da ignorância…

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Muitos líderes proferiram frases famosas sobre a liberdade. Churchill, Lincoln, Kennedy, Tancredo, Gandhi e diversos outros, enalteceram a importância da liberdade para o ser humano e para as sociedades. Nenhum deles, entretanto, deixou de reconhecer que os conceitos de liberdade e de responsabilidade sempre estiveram intrinsecamente ligados. Nenhum deles afirmou que toda pessoa é livre para fazer o que lhe der na telha, doa a quem doer.

Afinal, existem leis, regras, normas e códigos de conduta que regem toda e qualquer coletividade. Existe o outro, e os desejos individuais estão sempre subordinados aos limites coletivos. Existem, acima de tudo, as consequências.

Hoje, no Brasil, temos um líder (?!) que acredita que ser livre é se achar no direito de não usar máscaras em ambientes fechados, de não respeitar distanciamentos, de não se vacinar. Temos um líder (??!!) que não se preocupa com as incontáveis vítimas decorrentes da tal “liberdade” por ele defendida. Temos um líder (???!!!) que, não satisfeito em propagar absurdos, faz questão de destacá-los em propagandas oficiais, como se tais absurdos representassem algo digno ou memorável. Temos um líder (????!!!!) que não tem a mínima noção dos conceitos de liberdade, de sociedade, de bem comum, de liderança.

O mundo inteiro conta os dias para a chegada de uma vacina que possa nos trazer de volta a liberdade plena. Enquanto isso, o nosso líder (?????!!!!!) usa toda a sua liberdade de ser imbecil para insuflar outra turma ainda mais imbecil a não se proteger e, principalmente, a não proteger seus semelhantes.

Pelo menos tenho (ainda) a liberdade de poder chamar o nosso líder (??????!!!!!!) de verme, criminoso e filho da puta!

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Um dia na Flique…

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Confesso que o convite me pegou de surpresa e a ficha demorou a cair. Quando caiu, inseguranças que imaginei superadas vieram à tona: teria o que vestir? Saberia me comportar? Que assuntos poderia abordar? Conseguiria disfarçar meu nervosismo?

Chega o dia. O convite era mesmo pra valer. Mal adentro e me deparo com o André e o Helinho diante de uma pintura abstrata na parede. Um filosofa sobre a forma intuitiva oculta no borrão multicor e o outro só quer saber onde está o garçom. Nelson, logo atrás, dá uma sonora gargalhada.

Mais adiante, Cássio e Sonia assistem emocionados a uma ária de Don Giovanni. Fico com a impressão de que a harmonia da ópera foi ofuscada pela suavidade da dupla.

Ao lado deles, Patricia, Fernando e Mentor discutem a viabilidade do equilíbrio psíquico da humanidade. Esforço-me na tentativa de acompanhar a rapidez das argumentações. Desisto. É mais fácil aceitar o primeiro canapé.

No centro da sala, em um patamar elevado de madeira de lei, Eduardo e Carlos sentam-se lado a lado em uma grande escrivaninha. Debruçados sobre uma infinidade de papeis, parecem felizes com os sonhos que se dispõem a realizar.

Na mesa lateral, Daniella e Calu dividem um cappuccino enquanto selecionam fotografias de tirar o fôlego. Penso em me juntar a elas. O papo noite adentro estaria garantido. Decido explorar primeiro todos os cantos daquele recinto, ainda mais fascinante do que imaginara.

De um ponto da sala, vejo simultaneamente cada um daqueles rostos. Um arrepio percorre meu corpo quando meu olhar de admiração percebe o instante de reciprocidade na troca de olhares. Sou cativado pela disponibilidade, pelo acolhimento e pela simplicidade de todos. As obras ali criadas – que já me guiavam de alguma forma – ganham agora novas camadas, novas cores, novas texturas.

Agradeço.

Está na minha hora. Tem muita gente na fila para entrar. Um dia, quem sabe, eu volto…

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Cronologia…

Calendário

Setembro de 2018…

- Cara, você vai votar no mito, não é?
– Se você se refere ao Bolsonaro, não vou não. Acho que temos opções bem melhores.
– Que isso? Ele é o único capaz de tirar o PT. Vai jogar seu voto fora? Os outros candidatos não têm chance alguma.
– Vou votar em quem considero o melhor.
– Ele é o melhor disparado. E os filhos dele? Só gente boa e honesta. Pensa bem. Vai um chocolate aí?

Janeiro de 2019…

- Viu o ministério do homem? É mito ou não é? Guedes, Moro, Mandetta, Pontes, Bebianno, só gente técnica. Acabou o toma-lá-dá-cá e a Lava-Jato vai colocar todos os corruptos na cadeia.
– Pois é, tomara que dê certo. Mas já descobriram irregularidades do filho dele.
– Sabia que ia começar a perseguição. O deputado petista movimentou quarenta vezes mais e ninguém falou nada. Tô tomando um suquinho de laranja, aceita?

Maio de 2019…

- O mito é o melhor presidente da história deste país.
– Você acha mesmo? Achei muito estranha essa história do Bebianno com o tal do zero dois, o Coaf saiu das mãos do Moro e a educação está um desastre. Até o ministro caiu.
– Bebianno era traíra e comunista. Sempre soube disso. E o novo ministro é bom pra cacete. Vai mudar a educação deste país. Pede esse yakissoba aqui, tá ótimo.

Outubro de 2019…

- Você não vai dar o braço a torcer nunca? O Bolsonaro é fera.
– Fera? Recorde de queimadas na Amazônia, briga com os líderes de metade dos países da Europa, briga com aliados e até com o próprio partido.
– E a reforma da previdência?
– Qual? Aquela que o próprio presidente desidratou e que não contempla os militares?
– Tá com saudade da roubalheira do Centrão, né? Você nunca tá satisfeito. Prova este açaí, tá uma delícia.

Janeiro de 2020…

- Este será o melhor ano da nossa história, pode ter certeza. Bolsonaro vai fazer o Brasil deslanchar.
– Ele colocou um PGR que não tem nenhum respaldo da corporação, quis trocar o diretor da PF, a correção do Enem está uma zona, o secretário de cultura parece a reencarnação de Goebbels e o tal de coronavirus promete fazer estragos.
– Você só olha pro lado negativo. E o vírus não me assusta. Temos o melhor ministro da Saúde do mundo. Quer tomar um leite? Tá geladinho.

Maio de 2020…

- O mito tá reeleito. Você viu o vídeo da reunião ministerial?
– Sim. Vi também que os ídolos Moro e Mandetta viraram comunistas, que o Centrão de ladrão passou a aliado, que o comando da PF finalmente foi trocado, que a Lava-Jato virou fumaça e que o presidente não dá a menor bola pra pandemia.
– Não tem que dar bola mesmo pra esse vírus chinês fabricado. Consegui um monte de comprimidos de cloroquina. Quantos você quer?

Agosto de 2020…

- Viu como a popularidade do mito cresceu?
– Vi. Ele fechou a boca, né? Mas a equipe econômica está se desintegrando.
– Ele sabe o que faz. Foi nele que a gente votou, não no Guedes. Olha como ele está sendo recebido no Nordeste.
– Pois é, campanhas pelo país, dinheiro distribuído para a população, governabilidade… Não te lembra alguém não?
– Não tem nada a ver. Pode anotar: em 2022, o mito será eleito novamente.
– Com a oposição que ele tem, infelizmente tenho que concordar com você. Ah, não esquece do seu licorzinho de jerimum, talquei?

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Hoje…

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Hoje, o sorriso tem mais doçura
A troca de olhares tem mais cumplicidade
O som do silêncio tem mais liturgia
As curvas do rio têm mais relevância.

Hoje, a palavra tem mais sensatez
O ícone tem mais reverência
O discurso tem mais emoção
O caminhar de mãos dadas tem mais segredos.

Hoje, o vinho tem mais corpo
A pizza de aliche tem mais simetria
O caldo de capelete tem mais sabor
A laranja sem casca tem mais perfume.

Hoje, o olhar tem mais gratidão
O otimismo tem mais pretextos
O conselho tem mais sapiência
O papo noite adentro tem mais leveza.

Hoje, o ombro tem mais amparo
A dúvida tem mais luz
O perdão tem mais tenacidade
O impulso de amar tem mais infinitude.

Hoje, a vida tem mais mansidão
Os questionamentos têm mais respostas
O ser tem mais onisciência
O bom dia tem mais confiança.

Hoje, a gargalhada tem mais ânimo
O beijo tem mais espontaneidade
O abraço tem mais aconchego
As mãos entrelaçadas têm mais história.

Hoje, o retrato tem mais mobilidade
A voz tem mais ressonância
O dia tem mais luminosidade
O encontro com o mar tem mais plenitude.

Hoje, a lágrima tem mais saudade
Mas o amor tem muito mais vida.

Feliz aniversário, pai!

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Agosto…

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Duas horas depois e a pequena sala de espera continuava bem mais cheia do que recomendavam as autoridades sanitárias. A televisão ligada em uma das paredes exibia um daqueles cultos nos quais o pastor assume o papel de animador de auditório. O som, entretanto, era tão audível quanto um apito canino.

A trilha sonora reinante no ambiente nada tinha a ver com cânticos e sermões. Mesmo abafados pelas máscaras, só se ouviam sons de espirros e tosses acompanhados do fungar de narizes congestionados. Meu silencioso tornozelo inchado me lembrou um monge beneditino em um baile funk.

O painel eletrônico de chamada continuava a negar a minha existência e cheguei a pensar que tivesse cochilado (como se isso fosse possível) quando meu nome fora anunciado. Talvez tenha sofrido um lapso de consciência, como aquele em que quase pedi a uma das atendentes que aumentasse o volume da TV.

Já passava de uma da manhã e eu sofria com dor, sono, fome e uma estranha vontade de ser portador de um aparelho para surdez só com botão de desligar. Não havia como piorar, pensei precipitadamente.

- O senhor está aqui há muito tempo? – perguntou-me um homem que fungava três cadeiras à minha frente.

Não sei dizer se o que mais me irritou no comentário foi a possibilidade de interação com alguém com alto potencial de transmissão viral ou o fato dele ter me chamado de senhor.

- Mais de duas horas – respondi, mantendo meus olhos fixos na TV.

Ele então se levantou e caminhou em minha direção, fazendo com que eu me juntasse às colegas de trabalho do pastor em uma prece pela divina instauração de um perímetro de segurança. A fervorosa oração não surtiu o efeito desejado e ele parou em pé bem ao meu lado.

- Não trouxe minha trena mas garanto que não estamos a um metro e meio de distância um do outro – argumentei com indisfarçável ironia.

- Ah, me perdoe – disse ele se afastando um pouco. Não aguento mais ficar sentado.

Pensei em concordar mas preferi dar de ombros. Ele continuou:

- Eu sabia que ficaria doente.

- Estamos em época de pandemia, não é? – respondi, já arrependido por ter contribuído com o diálogo.

- Sim, mas não é por isso. É que entramos em agosto. Tudo de ruim acontece em agosto.

Fingi que não ouvi. Continuei com os olhos fixos na TV e passei a enxergar sinais de clarividência até nos olhares esbugalhados dos integrantes daquela plateia.

- Mas não imaginei que fosse adoecer tão cedo – ele continuou. O mês mal começou.

O homem aparentava ter uns 35 anos de idade. Já era grande o bastante para não acreditar em asneiras.

- O senhor – me vinguei – tem algum trauma relativo ao mês de agosto?

- Não só eu, né? O mundo inteiro.

Não resisti e revirei meus olhos escancarando toda a minha impaciência. Ele prosseguiu:

- Todas as catástrofes sempre acontecem em agosto.

Aquilo já era demais. Aproveitei que a imagem do emissário de Deus havia sido substituída por um comercial de cerveja de má qualidade e retruquei:

- Curioso, a Primeira Guerra estourou em julho, a Segunda em setembro, a gripe espanhola começou em março, o tsunami da Indonésia aconteceu em dezembro, as torres gêmeas foram destruídas também em setembro, Cristo – a transmissão do culto acabara de ser retomada – foi crucificado em abril e essa maldita pandemia começou no primeiro trimestre do ano. Alguma coisa contra esses meses também?

- O senhor não precisa se exaltar…

- Senhor é o seu avô! Mais uma coisa, o nome agosto é uma homenagem ao imperador cujo reinado marcou o início da Pax Romana, um grande período de paz e prosperidade do Império Romano. Período de paz, não de catástrofes, entendeu?

- Eu estava apenas tentando puxar assunto. Não me dou bem com o mês, só isso. Mas parece que encontrei um defensor ferrenho. O senh… você nasceu em agosto?

- Não, em novembro. E não tenho motivo algum para defender o mês. Só não gosto de ouvir bobagens.

Contrariado e fungando ainda mais, o homem voltou ao seu assento. Menos de um minuto depois o painel eletrônico anunciou em alto e bom som: Fernando Augusto, consultório 2.

Levantei-me rapidamente e lá fui eu, manquitolando, sonolento e faminto. O que mais me incomodava, entretanto, era a imagem do sorrisinho irônico que o homem me dirigiu quando passei ao seu lado…

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Entre irmãos…

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“I miss a lot my brother,
but his dream is coming true.
He will become better than any other,
you don’t have a clue.

My brother will direct
the best film ever made.
With Steven Spielberg he will interact,
like two friends in a bar called Blade.

A movie my brother will make
and the world will watch it.
My brother has limits to brake,
and his dreams can’t be stopped.

I love you Arthur!”

Quando um garoto de 10 anos escreve uma poesia como essa para o irmão que, há onze meses, partiu em busca dos seus sonhos…

Quando um garoto de 10 anos consegue fazer com que seu orgulho supere até mesmo o maior vazio que já experimentou na vida…

Quando um garoto de 10 anos disfarça a dor da saudade por ter plena consciência do quanto a vocação de seu irmão é importante para a sua felicidade…

Quando um garoto de 10 anos é capaz de sentir e demonstrar um amor tão puro, tão intenso, tão verdadeiro e tão abnegado…

Então consigo crer que, quem sabe um dia, o mundo será comandado por pessoas de sorriso desarmado, de coração aberto, de atitudes leais e altruístas, de índole pura, de olhar doce e de caráter forte e bem formado.

Obrigado, meu amorzinho, por me permitir acreditar…

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Toma tento, menino…

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“Toma tento, menino!”

Essa foi, provavelmente, a frase que mais ouvi da minha avó quando ainda era moleque. “Vó, vou continuar tentando”, respondia eu, só para que ela sorrisse e se esquecesse da arte que eu acabara de aprontar. Ela conhecia de cor a artimanha mas sorria mesmo assim. E a nossa cumplicidade crescia.

Minha avó quase não tinha instrução mas sua sabedoria era inata. Era capaz de aprender o que quisesse com extrema facilidade e tinha um vasto conhecimento da língua portuguesa, resultado das inesgotáveis palavras cruzadas que lhe consumiam boa parte das tardes em que estávamos na escola. Pode ser impressão minha, mas acho que o significado da palavra “tento” – no sentido de juízo, prudência, discernimento – ela, de alguma forma, sempre soube.

Ela também dominava, como ninguém, a arte de contar histórias. Trago comigo as imagens de uma árvore cantante, um pássaro falante, um rei reencontrando seus filhos e pedindo perdão ao seu amor. Não me perguntem o enredo completo, mas essas e outras imagens geradas das palavras da minha avó ainda estão carinhosamente gravadas na minha mente.

Estaria mentindo se dissesse que, depois de tanto tempo, ainda me lembro exatamente das nuances de sua voz, mas as inflexões impressas em cada frase me são nítidas. “Toma tento, menino”, por exemplo, tinha sua força concentrada no “menino”, deixando claro a quem se dirigia o corretivo. Ainda assim, é justamente o “tento” que não me sai da memória.

Minha avó faleceu bem antes que eu entrasse na faculdade. Na verdade, não chegou sequer a me ver concluir o ginásio, antigo nome dos quatro últimos anos do ensino fundamental. Mesmo assim, não tenho dúvidas de que suas palavras e seus conselhos tiveram uma grande influência na formação da minha índole e do meu caráter. O “toma tento, menino” continuou reverberando em meus ouvidos por muitos anos. E eu continuei tentando…

Não posso afirmar quais seriam a opiniões da minha avó sobre a atual vida política e social do país e do mundo. Mas não tenho dúvidas de que ela deixaria seus pontos de vista muito claros, pois jamais deixou de se posicionar sobre qualquer assunto. Também não tinha a menor pretensão de agradar alguém. Sempre foi doce e ponderada mas, ciente de suas convicções, não se dava ao trabalho de escondê-las para que fosse aceita pelos outros. Ao mesmo tempo, sempre se mostrou aberta ao diálogo, às argumentações, às visões alheias. Por tudo isso, tenho a impressão de que ela se daria muito bem nos dias de hoje, mesmo certo de que seu espírito inquieto e questionador a faria angariar admiradores com a mesma facilidade com que poderia perdê-los mais tarde, em virtude de suas análises sempre coerentes e incomodamente imparciais.

Consigo até imaginá-la repetindo hoje o seu “toma tento” para muita gente. Gente que se orgulha de ter posições e ideologias muito bem definidas, de preservar suas verdades com afinco, de não se deixar influenciar por opiniões externas. Gente que não percebe que o problema começa quando essas verdades passam a ser intocáveis, quando o contraditório passa a ser visto como ameaça, quando o que se busca são apenas maneiras de corroborar e ratificar pensamentos arraigados e pré-concebidos. Gente que não entende que, dessa forma, perde-se todo o sentido da troca de ideias, como quase sempre acontece naqueles falsos debates da CNN, em que um interlocutor tem que se contrapor ao outro, mesmo que o assunto seja quase consensual. Ao fim do “debate”, aqueles que já se identificavam com A o chamam de vencedor e compartilham apenas os seus pontos de vista. O mesmo acontece com os admiradores de B. E ninguém percebe que, ao fim, cada um falou apenas para a sua casta, e que cada casta se limitou a ouvir e aplaudir seu representante enquanto desmerecia o outro.

Assim, entre uma história e outra, creio que minha avó nos alertaria para os perigos da conformidade e nos diria que perdemos oportunidades preciosas cada vez que entramos em uma imensa biblioteca para buscarmos apenas os livros e autores cujos posicionamentos e ideais coincidam com os nossos. Que deveríamos saber separar nossas opiniões das nossas crenças, pois uma crença não pode ser questionada e uma opinião clama para que seja. Que acreditar é importante, desde que nossas convicções não nos impeçam de entender que sempre haverá outros caminhos, e que estes não são inaceitáveis simplesmente por diferirem daqueles que escolhemos trilhar. Que deveríamos analisar os fatos de forma desarmada, pois só assim um pensamento crítico poderá ser realmente formado. Que deveríamos estar atentos para que fôssemos fiscais de nossas próprias condutas, e jamais trocássemos a inquietude da busca pela acomodação da primeira resposta satisfatória encontrada.

Por fim, ouviríamos o célebre “tomem tento, meninos”. E tudo estaria dito…

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Estágios da vida…

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Vivíamos a segunda metade da década de oitenta quando comecei o meu primeiro estágio como universitário. Como de costume, o Brasil passava por crises e turbulências. Tancredo Neves, primeiro presidente civil em mais de duas décadas, morrera antes de ser empossado. Seu vice, José Sarney, na tentativa de acabar com a inflação galopante, lançara há pouco o famoso Plano Cruzado, com a instituição de uma nova moeda. O plano, como todo e qualquer delírio econômico baseado no congelamento compulsório de preços, foi um enorme fracasso. Durante alguns meses, entretanto, a desesperada população brasileira lhe deu crédito e os supermercados se acostumaram com a presença dos “fiscais do Sarney”, pessoas que abnegadamente passavam seus dias denunciando os empresários exploradores que traíam a República ao remarcar os preços de suas mercadorias. Tarefa que, com o passar dos meses, se tornava cada vez mais fácil, à medida em que os produtos sumiam das prateleiras. E é impressionante como ainda existe gente até hoje capaz de repetir essas mesmas bobagens…

Perdoem-me pela digressão, crises já superadas não são o tema desta reflexão, a menos que eu considere o meu estágio como uma quase crise de identidade. Exagero, é claro, mas as tarefas que eu desempenhava ali eram tão monótonas e tão distantes das que eu almejava realizar como profissional, que cheguei até a pensar em mudar de curso. Meu chefe imediato era um cara legal mas não demonstrava apreço algum à profissão. Não era pra menos, a engenharia civil vivia então seus piores momentos. O pai de um amigo chegou a me perguntar se eu já havia considerado a hipótese de, depois de graduado, ter que vender cachorros-quentes na porta de alguma escola. Diferentemente de hoje, eram tempos em que a frase “engenheiro civil, formado, muito melhor do que você”, só caberia em um programa humorístico ou, quem sabe, em mais uma infeliz propaganda institucional do CREA.

Se meu chefe não demonstrava muito entusiasmo, meu colega de estágio conseguia ser ainda pior. Filho do dono da construtora, ele ingressara no curso de engenharia apenas para – teoricamente – herdar o trabalho do pai. Digo “teoricamente” porque jamais acreditei que alguém em sã consciência pudesse passar o comando de uma empresa a uma pessoa tão limitada. Lembro-me, por exemplo, de uma tarde em que meu colega me perguntou se eu já havia provado carne de soja. Disse-lhe que não, e que também não tinha muito interesse pois eu realmente gostava de saborear carnes de verdade. “Como assim, de verdade?” ele me replicou. Fitei-o por alguns segundos na esperança de que um sorriso brotasse naquele rosto, mas ele permaneceu impassível. Sim, ele achava que soja era um animal. Achava não, tinha certeza. Chegou a rabiscar um quadrúpede qualquer no papel, jurando que aquilo era um filhote de soja. Lembro-me de, pacientemente, ter passado o resto daquela tarde tentando convencê-lo de que, apesar da correlação com as palavras “leite” e “carne”, soja não passava de um vegetal. Talvez tenha nascido ali a minha fleuma, tão utilizada anos mais tarde nas argumentações com petistas e bolsonaristas. Ao final do expediente, meu colega continuou convencido de que eu era um imbecil e eu fui pra casa decidido a sair daquele hospício o mais rapidamente possível, decisão que certamente contribuiu para que eu me tornasse, três anos mais tarde, um engenheiro civil, formado, com um conhecimento muito menor do que qualquer mestre de obras.

Mais de três décadas se passaram e volto a me sentir em um hospício do qual, desta vez, não tenho como escapar. E essa nem é a pior parte. O duro é ter que passar meses a fio explicando que criticar o presidente não é o mesmo que ansiar pela volta da esquerda, que se preocupar com as classes menos favorecidas não é o mesmo que ser socialista, que apoiar a obrigatoriedade do uso de máscaras não é o mesmo que abdicar da minha liberdade de ir e vir, que não seguir as normas do politicamente correto não é o mesmo que ser contra as minorias, que não concordar com a derrubada de estátuas não é o mesmo que ser racista, que exigir um mínimo de coordenação no combate à pandemia não é o mesmo que torcer para que empresários vão à falência, que buscar meios de viabilizar a sobrevivência das empresas não é o mesmo que não se importar com as pessoas que precisam de internação, que criticar pontos de um projeto de lei que fere a liberdade de expressão não é o mesmo que ser a favor da impunidade para as fake news, que se indignar com as milhares de mortes evitáveis não é o mesmo que ceder aos interesses do partido comunista chinês.

Convenhamos, explicar que soja não é animal era muito mais fácil…

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Abraço de filho…

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Tal qual um amanhecer
Daqueles que espalham seu calor sem cautela
Tal qual um entardecer
Daqueles que o sol pintor faz do céu sua tela
Assim é abraço de filho…

Tal qual um café quentinho
Daqueles que esquentam as mãos e aquecem a alma
Tal qual cochilo na rede
Daqueles que a brisa embala e que o sonho acalma
Assim é abraço de filho…

Tal qual uma sinfonia
Daquelas que escutamos pra nos sentirmos bem
Tal qual a vista de um vale
Daquelas que nossos olhos se perdem no além
Assim é abraço de filho…

Tal qual um pingo de orvalho
Daqueles que desenham caminhos na vidraça
Tal qual arroio sereno
Daqueles que murmuram, mesmo com água escassa
Assim é abraço de filho…

Tal qual um olhar perdido
Daqueles que encontram foco somente no céu
Tal qual uma revoada
Daquelas que só às aves cabe o escarcéu
Assim é abraço de filho…

Tal qual longínqua lembrança
Daquelas que deixam corações acelerados
Tal qual uma melodia
Daquelas que nos fazem dançar de braços dados
Assim é abraço de filho…

Tal qual uma epifania
Daquelas que nos fazem rever nossos caminhos
Tal qual cobertor no frio
Daqueles que aquecem os pés dos que estão sozinhos
Assim é abraço de filho…

Tal qual oceano à noite
Daqueles em que a lua vira raia de prata
Tal qual uma queda d’água
Daquelas que formam o flúmen que a terra hidrata
Assim é abraço de filho…

Tal qual comunhão de almas
Daquelas que se identificam, se reconhecem
Tal qual certeza de que
Mesmo de longe, os abraços de filho acontecem
Assim é a vida…

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