Páreo duro…

E chegamos à grande final do concurso “Vergonha Alheia Brasil 2019″. A partir de hoje você vai nos ajudar a eleger a declaração mais infeliz do ano até agora. A disputa está mais acirrada do que nunca. Poucas vezes conseguimos reunir tanta gente competente e criativa capaz de se destacar nos quesitos “isso é sério?”, “não é possível que ele disse isso”, “claro que é piada”, “meu Deus do céu” e o cobiçado “puta que pariu!”.

Ao longo das últimas semanas, nossos jurados trabalharam incessantemente na seleção dos finalistas, tamanha a profusão de asneiras repetidas diariamente por celebridades, jornalistas e pelos nossos representantes de todas as esferas. Exatamente em função dessa enorme quantidade de mer…, quero dizer, de material a ser analisado, excepcionalmente nesta edição foram escolhidos dez competidores que serão submetidos agora a voto popular.

E aqui estão os escolhidos:

1) Olavo de Carvalho – a declaração que garantiu a presença do filósofo na final foi proferida ontem: “Vou investigar, mas me parece verdadeiro pelo contexto: os Beatles eram semi-analfabetos em música. Não sabiam nem tocar violão. Quem compôs as canções foi o Theodor Adorno (fundador da Escola de Frankfurt)”. E acrescentou: “Você tem ideia da porcaria que os Beatles fizeram com o mundo? Os Beatles e outros conjuntos. Todos eles têm ao menos uma canção de celebração do satanás. É satanismo explícito”. Pelo visto o gurú da família Bolsonaro vem com fome de vitória. Entretanto, fosse esta uma competição de palavrões e o troféu já seria dele.

2) Anitta – a funkeira mais famosa do país entra na disputa com a divulgação de um vídeo em que afirma, entre outras preciosidades, que a “agropecuária é um câncer da natureza”. A opinião de Anitta repercutiu tanto que ela até já anunciou que, em breve, irá lançar seu primeiro livro de receitas somente com variações de água de chuva e sopa de pedras.

3) Gleisi Hoffmann – a nossa eterna Narizinho, vencedora do ano passado com sua declaração “Lula livre”, emplacou mais uma pérola histórica ao afirmar que “volta PT é o desejo dos brasileiros para colocar o país no rumo e melhorar a vida da nossa gente”. O tempo passa e ela continua sendo uma candidata fortíssima.

4) Abraham Weintraub – o atual ministro da educação chega forte à disputa com o tuíte: “Os franceses elegeram esse Macrón, porém, nós já elegemos Le Ladrón, que hoje está enjauladón…Ferro no cretino do Macrón, não nos franceses”. O país ficou paraliZado diante de um comentário tão elegante e espirituoso.

5) Dilma Rousseff – a hexacampeã do torneio não poderia ficar de fora. Este ano ela entra no páreo com sua tentativa de criticar a provável privatização dos correios e afirmar que “o governo quer transformá-los em uma grande Amazon”. Quem dera, não é, querida?

6) Marcelo Crivella – foi difícil escolher apenas uma declaração do prefeito do Rio de Janeiro diante de tão vasto repertório. A frustrada tentativa de censura na Bienal, entretanto, conseguiu superar todas as demais. A frase símbolo do ocorrido foi dita pelo chefe da fiscalização da prefeitura encarregada de procurar e recolher qualquer “material impróprio”. Perguntado sobre o que tinha encontrado na Bienal, ele respondeu: “muitos livros”.

7) Glenn Greenwald – o jornalista preferido de onze entre cada dez condenados pela Lava Jato concorre com a seguinte afirmação: “O julgamento de Lula foi produto de um processo cheio de impropriedades e não podemos admitir que ele permaneça em pé. Pelo menos, que Lula tenha um novo julgamento e saia da prisão enquanto esse julgamento transcorre”. Parece que aqui ele terá mais chances de vitória do que no próximo Prêmio Pulitzer.

8) Carlos Bolsonaro – o vereador carioca protagonizou inúmeros momentos de constrangimento ao longo do ano. Sua participação na final foi conquistada graças à sua peculiar forma de escrita que só ele mesmo consegue entender e ao tuíte feito há pouco: “Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos… e se isso acontecer. Só vejo todo dia a roda girando em torno do próprio eixo e os que sempre nos dominaram continuam nos dominando de jeitos diferentes”. O Tonho da Lua reencarnado é um verdadeiro democrata.

9) Eduardo Bolsonaro – o candidato a embaixador concorre com a já histórica frase proferida quando tentava justificar sua indicação: “Já fiz intercâmbio, já fritei hambúrguer lá nos EUA, no frio do Maine, estado que faz divisa com o Canadá”. Se não conseguir a vaga na embaixada americana, zero três promete não perder o posto de funcionário do mês.

10) Jair Bolsonaro – após proferir, em menos de nove meses de governo, centenas de ofensas gratuitas, afirmações constrangedoras, dados incorretos e teorias da conspiração, por pouco nosso presidente não entra na categoria “hors concours”. Entretanto, por decisão unânime de nossos jurados, Jair Bolsonaro chega à final pelo conjunto da obra. Assim cada um fica livre para escolher a frase que mais o tenha feito ansiar por uma afonia crônica, um tratamento de canal ou uma cirurgia de hérnia acompanhados de restrições de fala extremamente duradouras.

Bom voto!

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Notas e letras…

Violão

A imponente porta se abriu com um esforço muito menor do que eu imaginara. Tinha quase três metros de altura e sua largura era o dobro das demais portas daquele casarão. Ainda não sabia o que esperar daquele cômodo prestes a ser desvendado, mas um frio na espinha me dizia que aquela experiência poderia mudar meus parâmetros.

Era um salão enorme e a bruma que escondia boa parte da fachada externa do palacete parecia ter adentrado o cômodo longilíneo. Oito janelas simetricamente posicionadas em ambos os lados emprestavam ao local a solenidade de uma nave. A luz que conseguia vencer a densa neblina, embora difusa, era suficiente para que todo o ambiente se desnudasse. Dois largos degraus ao fundo levavam a uma espécie de altar desprovido de imagens sacras. No centro do patamar elevado, um grande candelabro pendia de um teto ornado com pinturas de instrumentos e notas musicais. Mas o que havia de mais sagrado naquela sala se localizava em cada uma de suas paredes. Estantes com pelo menos quatro metros de altura repletas de novos e antigos livros compunham uma visão quase cinematográfica, como se um filme de época estivesse para ser rodado a qualquer momento naquele cenário. Sob o candelabro, cercada por outras estantes nas laterais e ao fundo, uma mesa de Pinho de Riga fazia as vezes de parlatório. A sobriedade daquele ambiente se contrapunha a uma inequívoca sensação de aconchego.

Atravessei todo o salão vagarosamente, na tentativa de identificar alguns dos títulos e autores das centenas de obras ao longo do caminho. Não consegui, entretanto, vencer a cerimoniosa distância que se espera de todo primeiro encontro. Subi os degraus rumo ao piso elevado e o ranger do assoalho de madeira ecoou pelo ambiente como o badalar dos sinos de uma silenciosa catedral. Dei a volta na mesa, afastei a generosa poltrona revestida com um surrado veludo vermelho e ali me sentei. A visão do lado oposto do cômodo era ainda mais impactante e cheguei a me questionar se era a bruma que entrava pelas frestas das janelas ou se esta nascia naquele ambiente para só então transportar sua misteriosa aura ao exterior. Havia alguma coisa mágica naquele lugar e eu não queria mais sair dali.

Sobre a mesa, repousavam uma pequena caixa de música e um violão. Não ousei tocar no instrumento mas instintivamente abri a caixinha de música. Ouvi as primeiras notas de uma deliciosa valsa quebrarem o silêncio absoluto. De repente, os singelos sons passaram a reverberar em cada estante daquele salão e retornaram à mesa na forma de uma verdadeira orquestra, completa e harmoniosa. Eu não conseguia acreditar no que ouvia. Aquele concerto quase etéreo não poderia ser fruto de meras questões acústicas. Levantei-me da poltrona e me dirigi às estantes. A harmonia do concerto não se perdeu e vi que, oriundos de muitos livros, os sons dos mais diversos instrumentos podiam ser identificados. Violinos, trompetes, oboés, flautas, violões, contrabaixos e até um piano executavam um arranjo primorosamente concebido que completava com maestria o tema melódico performado pela pequena caixa de música sobre a mesa. Tomado pela emoção, tirei diversas obras das prateleiras e percebi que as páginas cantantes eram parte de calhamaços de partituras musicais. Atordoado, coloquei os livros de volta nas estantes e me sentei novamente na poltrona em frente à mesa. Então mantive meus olhos fechados até que a última nota daquela sinfonia foi tocada. E o silêncio voltou a reinar naquela sala.

Não tardou muito e um outro som me retirou do estupor em que mergulhara. Abri os olhos e me deixei ser guiado por um sussurro que parecia vir de uma estante próxima à entrada. Não se tratava mais de música. Eram palavras. Palavras recitadas por uma voz pausada e suave que, à medida em que me aproximava da sua origem, ficavam cada vez mais nítidas. Foi quando ouvi com clareza: “Nenhum homem sábio deixará de se espantar com a cegueira do espírito humano. Ninguém permite que sua propriedade seja invadida, e, havendo discórdia quanto aos limites, por menor que seja, os homens pegam em pedras e armas. No entanto, permitem que outros invadam suas vidas de tal modo que eles próprios conduzem seus invasores a isso. Não se encontra ninguém que queira dividir sua riqueza, mas a vida é distribuída entre muitos. São econômicos na preservação de seu patrimônio, mas desperdiçam o tempo, a única coisa que justificaria a avareza”.

Não hesitei. Tomei o livro de Sêneca nas mãos e o levei comigo. Poucos dias depois voltei para devolvê-lo à sua prateleira e ficar atento ao que a voz pausada e suave me reservava. E assim conheci Goethe, Kant, Sartre, Carlos, Cecília. Assim ouvi Ludwig, Wolfgan, Peter, Heitor, Fabio. Assim ainda os revisito, ouço e sou apresentado a tantos outros. Todos naquela sala. Todos naquele altar…

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Papai está aqui…

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Eu me lembro perfeitamente do dia em que ele me chamou de “pa” pela primeira vez. Ele ainda não passava de um projeto de gente com os olhinhos atentos a tudo.

- Sim, querido, sou eu, o pa. E o pa estará sempre ao seu lado.

Parece que a mensagem foi entendida pois o segundo “pa” deixou de ser um mero balbucio e veio acompanhado de um sorriso sapeca, daqueles que desarmam qualquer carrancudo. Mesmo não sendo carrancudo eu estava sempre pronto para ser desarmado. Mas ele cresceu rapidamente e o “pa” não durou muito.

Logo depois veio o “papai” completo, com todas as suas vogais, principalmente o “i” prolongadamente ressaltado.

- Sim, meu amorzinho, sou eu, o papai. E o papai estará sempre ao seu lado.

E mais uma vez a mensagem foi entendida pois o “papai” perdurou por muitos anos, repetido nas mais diversas entonações: a carinhosa quando nos revíamos à noite, a assustada quando me chamava de madrugada após um pesadelo, a vibrante quando pulava na cama para me acordar de manhã. Mas ele continuou crescendo e o “papai” se tornou demasiadamente infantil.

Então veio o “pai” simples, direto, pragmático, com a discrição com a qual um homem normalmente se dirige ao outro.

- Sim, meu filho, sou eu, seu pai. E estarei sempre ao seu lado.

E mensagem alguma precisava agora ser captada pois aquele “pai” vinha para se tornar definitivo. Dali para frente não deveriam haver mais mudanças. Ele ainda não era propriamente um adulto, mas pai é pai e ponto. Então ele cresceu ainda mais e os limites do seu mundo se expandiram.

E lá fui eu acompanhar o início de sua descoberta desse novo mundo. E aquele homem feito, diante da iminente ausência física dos seus entes queridos, passou a me chamar novamente de “papai”. Não, não era uma tentativa de voltar a se sentir uma criança. Não era um “papai” infantil. Era simplesmente uma sincera e completa declaração de amor inserida em duas sílabas. Era o “papai” mais lindo que jamais ouvi. Um “papai” maduro, recheado de gratidão e admiração, embora ciente de que eu mentira ao longo de toda a sua vida pois há caminhos que só ele pode e deve percorrer.

- Sim, meu amor, sou eu, o papai. Perdão, meu filho. Você não faz ideia do quanto eu queria poder estar sempre ao seu lado…

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Hora de voar…

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Voe, meu filho, voe.

Voe em busca dos seus sonhos. Abra suas asas e descubra o quão alto você é capaz de voar. Olhe para a cordilheira no horizonte e faça da montanha mais distante a sua meta. Voe até lá. O caminho será longo, meu amor. Você enfrentará ventos que sopram na direção contrária, chuvas que molham seu rosto e o impedem de visualizar seu destino, frio e calor extremos que podem fazê-lo querer desistir e regressar. A dúvida, o medo e a saudade também podem lhe trazer lágrimas. Enxugue-as e siga em frente, meu querido. A tristeza, assim como a euforia, fazem parte da viagem. Vivencie-as e cresça com cada uma delas mas não lhes dê demasiada importância. Tenha sempre em mente que ambas são efêmeras.

Aproveite a viagem, meu filho.

Muitas vezes você sentirá vontade de voar mais rápido, no afã de atingir logo seu objetivo. Não tenha pressa, meu querido. Aprecie o relevo e as sombras que o evidenciam, as formações rochosas e suas diferentes texturas, os cursos d’água com suas corredeiras e remansos. Observe que o serpentear dos rios nada mais é do que a forma com a qual estes sempre contornam e suplantam seus obstáculos. Encante-se com o bailar das árvores, atiçadas pela brisa mansa. Repare como seus troncos chegam a vergar frente a ventos intensos, para depois crescerem resilientes. A cada entardecer, pare um instante e admire o reflexo do sol nos mares e lagos. Note como o céu muda de cor, ou como as cores mudam de céu. Esteja aberto para que cada cor invada a sua alma.

Continue voando, meu filho.

Saiba que, quando você alcançar aquela montanha distante, vai poder vislumbrar outra cordilheira no horizonte e iniciar outro voo. Assim é a vida, meu amor. Os objetivos e as metas são importantes. Mas a forma de alcançá-los importa muito mais. Seja paciente sem se acomodar. Seja tolerante sem perder o foco. Aprenda a diferenciar – e isso só se consegue depois de muitos erros – os momentos em que você deve optar por desvios mais longos e menos turbulentos daqueles em que pode encarar de frente as tempestades. Com o tempo, você entenderá que há espaço na vida para a cautela e para os riscos, para escolher bater suas asas com vigor ou simplesmente abri-las e deixar que o próprio vento o conduza.

Esteja sempre pronto a recomeçar, meu filho.

Sim, você inevitavelmente irá cair, mas não dê tanta importância às quedas. Apenas não deixe que a oportunidade de aprender com cada uma delas lhe escape. Erga-se e entenda qual ângulo de voo foi mal calculado, qual rajada de vento foi capaz de alterar sua trajetória, qual mergulho em busca de alimento não foi feito com a velocidade adequada. Desde que as razões das quedas não se repitam, você se levantará invariavelmente mais forte do que quando caiu.

Voe sem bagagem, meu filho.

As mágoas são como uma mala pesada que você carrega nas costas. O perdão, ao contrário, é capaz de lhe proporcionar um voo leve e sereno. Saiba perdoar com facilidade, principalmente a si mesmo. Só assim seus voos alcançarão grandes alturas. Às vezes você terá a sensação de estar voando sozinho, mesmo que faça parte de um bando. Aproveite para aprender com a solidão a se conhecer melhor. Os que voam com você só serão realmente importantes se você mesmo for sempre a sua melhor companhia. Sozinho ou acompanhado, nunca se esqueça de que o voo é seu e de mais ninguém.

Escute seu coração, meu filho.

Você é livre para escolher avançar ou retroceder, continuar ou desistir. Você poderá descansar para repor as energias e esperar o momento certo de alçar novo voo. As escolhas serão sempre suas, jamais as delegue. Lembre-se, não há receitas, não há regras, não há certo e errado, mantenha-se apenas consciente do seu próprio caminho e das suas próprias decisões. Seja sempre fiel aos seus princípios, sejam eles quais forem. Seja coerente com as suas verdades mas não se torne refém delas. Verdades arraigadas e absolutas costumam limitar nossos voos. Seja sempre íntegro e honesto com os outros e consigo mesmo e, acima de tudo, nunca desvie seu olhar ao se mirar no espelho.

Ame, meu filho.

Ame cada momento do seu voo, ame a montanha que aguarda a sua chegada e as muitas pelo caminho, ame os pássaros que o acompanham na jornada. Ame a vida, com todas as suas agruras e alegrias, desafios e prazeres, adversidades e conquistas. Mas sempre comece por amar a si mesmo. Ame porque o amor é a síntese e a razão de tudo. Você pensa que são suas asas que o levam a voar? Não, meu querido, é o seu amor. Jamais se esqueça disso.

Faça do sorriso sua marca, meu filho.

Não guarde seus sorrisos apenas para os momentos de vitória. Você não vai ganhar todas as vezes, não deixe de sorrir por conta disso. Sorria a cada etapa do seu voo. Voe sorrindo. Quando a vitória acontecer, sorria ainda mais entre lágrimas de emoção. Se ela não vier, misture seu pranto aos sorrisos por ter feito o seu melhor. Se precisar de um motivo para sorrir, sorria porque você sabe onde quer chegar. Quando você for mais velho verá que muita gente passa pela vida sem saber sequer que direção seguir.

Conte conosco, meu filho.

Voe para longe do seu ninho, querido. Voe para construir seu próprio ninho, certo de que aquele que você deixou para trás estará sempre pronto para recebê-lo. Com o tempo – e somente com o tempo – você entenderá que os ninhos dos filhos jamais são desfeitos. Por isso, mesmo vazio, o seu ninho estará sempre aqui, silente, em um ansioso compasso de espera. Uma espera carente de abraços, de beijos, de toques mas, ao mesmo tempo, ciente de que as montanhas próximas não correspondem aos seus sonhos e ao seu desejo de alçar voos mais altos. Limitar seus voos seria o mesmo que amputar parte da sua alma. Por isso, meu amor, as lágrimas da saudade que já está machucando muito o seu e os nossos corações serão sempre sobrepujadas pelos sorrisos e pela certeza de que o seu voo nos inspira, nos anima e nos eleva. É hora de voar, Arthur.

Seja feliz, meu filho!

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Só rezando…

Apesar de não ser morador de São Paulo, junto-me agora àqueles que já se preparam para cumprir as determinações da nova, extraordinária e essencial lei proposta por dois deputados do PV e sancionada nesta semana pelo governador João Dória, instituindo no calendário oficial do estado o “dia de oração pelas autoridades da nação”. Afinal, inúmeras são as autoridades merecedoras de nossas preces mensais e, se não nos dispusermos a pensar com antecedência, muitos abnegados servidores do povo podem até ficar de fora, em um ato de injustiça poucas vezes visto em nosso país.

Antes, entretanto, gostaria de dirimir algumas dúvidas a fim de garantir que todas as atribuições previstas sejam por mim cumpridas. Lei é lei e não se discute. Não fica claro no texto aprovado, por exemplo, o conceito de “autoridade da nação”. Devemos orar exclusivamente para políticos da esfera federal? Os nossos preparadíssimos representantes das esferas estadual e municipal devem ser simplesmente abandonados à própria sorte? Líderes do judiciário também deverão ser contemplados? Políticos sem mandato atual, mas outrora grandes líderes tais como Dilma, Temer, FHC, Sarney e tantos outros podem ser discriminados mesmo após terem cumprido com louvor todas as suas incumbências? Políticos presos devem ser esquecidos, o que denotaria evidente insensibilidade quanto às possibilidades de ressocialização? Diante de tantas indefinições, torço para que uma lei complementar seja em breve elaborada e todos os nossos representantes, de ontem e de hoje, possam ser justa e devidamente abençoados.

Até lá, seguirei com meus preparativos livre de quaisquer amarras ou preconceitos. Minhas orações serão para todas, todos e todxs. Não irei restringir minhas preces a Deus, em respeito às crenças de cada autoridade. Elevarei meu pensamento indiscriminadamente também a Buda, Allah, Olorum, Oxalá, Chaves, Marighella e Ustra. E pedirei a eles, sempre que possível de forma republicana e democrática, que intercedam em favor de Dilma, e jamais permitam que ela perca suas inatas perspicácia e capacidade de raciocínio lógico; em favor de Lula, e o mantenham sempre preso às suas convicções, aos seus amigos, à sua cadeia de relações tão engenhosamente interligadas; em favor de Gleisi, e multipliquem sua imensa simpatia, seu brilho próprio e seu grande poder de persuasão; em favor de Aécio, e aumentem ainda mais seu carisma, sua honestidade, sua aspiração diária a grandes feitos; em favor de Temer, e reforcem suas qualidades de lealdade e fidelidade, pois estas certamente levá-lo-ão ao reconhecimento do seu povo; em favor de Bolsonaro, para que ele jamais tenha qualquer problema que o impeça de abrir a boca, seja a retirada de um dente por semana, uma cirurgia nas cordas vocais ou mesmo uma afonia crônica e persistente; e, muito especialmente, em favor de Paulo Guedes, pois sem ele – vamos combinar, né? – não há reza coletiva que possa dar jeito neste país!

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Uma ajuda pra quem precisa…

Você não aguenta mais debater política nas redes sociais? Seu político de estimação está preso, só fala merda ou vive fugindo da PF e você não sabe mais como defendê-lo? Você não tem mais argumentos mas quer manter o seu ponto de vista custe o que custar?

Seus problemas acabaram!

Chegou o “Personal formuleitor de frases feitas Tabajara”! Com ele você irá lacrar em qualquer discussão, mesmo que não tenha razão alguma. Pare de perder seu tempo em busca de raciocínios lógicos, dados bem fundamentados, leis específicas e opiniões abalizadas. Com o “Personal formuleitor de frases feitas Tabajara” você tem opções quase ilimitadas de bordões, expressões e frases lacradoras que irão deixar o seu interlocutor sem ação na próxima vez que ousar desafiá-lo.

São muitas versões à sua escolha. A básica, capitaneada pelos batidos mas sempre clássicos “com (o/a) _______ tudo era muito (pior/melhor)” e “na época (do/da) _______ a Globo (golpista/esquerdista) (não abria a boca/cobrava muito mais)”.

A intermediária, também conhecida como passa-pano, com construções do tipo “_______ é um mal necessário”, “a imprensa não sai da cola (do/da) _______, tem hora que (ele/ela) não aguenta e acaba saindo uma besteirinha” e “(ele/ela) não é (grosso/grossa) e nem idiota, é só (autêntico/autêntica)”.

E a avançada, com sentenças sofisticadas que parecem ter saído de uma tese de doutorado, pra você passar a impressão de que, além de lacrador, é muito inteligente: “informar a sociedade das questões de interesse público e expor transgressões são os princípios que me guiam”, “(ele/ela) ainda não teve acesso a um julgamento idôneo e imparcial” e “sou um julgador estritamente dos fatos, minha consciência não tem ideologia”.

Você nunca mais vai passar aperto quando o seu amigo bem informado aparecer com aquele monte de dados e opiniões que você jamais conseguiu entender. Com o “Personal formuleitor de frases feitas Tabajara”, a lacração está garantida. Você não tem que se preocupar nem com qual frase irá escolher. O “Personal formuleitor de frases feitas Tabajara” escolhe pra você. Na verdade, qualquer frase vai servir, independente do contexto da conversa. É sucesso garantido!

Mas espere, se você comprar até amanhã qualquer uma das versões do “Personal formuleitor de frases feitas Tabajara” vai levar inteiramente grátis a edição comemorativa “Frases para a posteridade” com pérolas como estas: “você é uma pessoa horrível, uma mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia”, “essa bola é um símbolo da nossa evolução. Quando nós criamos uma bola dessas, nós nos transformamos em Homo sapiens ou mulheres sapiens”, “pretendo beneficiar meu filho sim. Se puder dar um filé mignon pra ele eu dou, talquei?” e “(o/a) _______ tá (preso/presa), babaca!”

Na compra da coleção completa você ainda leva, também inteiramente grátis, os óculos escuros de mito, pra já ir (ops) aprendendo a se transformar no seu próprio meme.

Não perca!

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Mais emoções à vista…

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E as emoções já começaram. Começaram na verdade há algum tempo, desde a confirmação de que este seria mesmo o caminho. Continuaram na nossa “viagem do até breve” e nos inúmeros momentos em que um imenso nó na garganta me lembrava que aquela convivência diária seria interrompida sabe-se lá por quanto tempo. Prosseguiram à cada nova tarefa cumprida: visto de estudante, local de moradia, compra de uma passagem só de ida.

Ontem, no encontro promovido pela Zest Consulting, empresa do Bernardo Cozzi, um cara muito fera que realmente vibra e se emociona com o sucesso de cada um dos seus mentorados, nós e outros pais e estudantes que vivemos as mesmas expectativas e ansiedades percebemos o quanto o dia de dizer até breve está próximo. Falamos sobre nossos receios, ouvimos diversos relatos sobre o quanto experiências como esta realmente transformam garotos em homens, e mais uma vez nos emocionamos. Sei que as lágrimas brotarão com enorme frequência nos próximos 20 dias. Não tenho dúvidas, entretanto, de que a alegria por ter feito a escolha certa irá prevalecer.

Obrigado, meu filho, pela linda e emocionante mensagem. Obrigado principalmente por ser o cara amoroso, íntegro, determinado, ético, verdadeiro e muito FODA que você é! Estaremos sempre por perto, mesmo de longe. Estaremos perto até fisicamente se você precisar. Mas agora, meu amor, a bola é sua. E sei que você vai saber o que fazer com ela!

Amo você mais do que tudo na minha vida!

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Questões de prioridade…

Um dia qualquer, há vários séculos, em alguma monarquia pós-medieval recém-implantada…

- Com licença, Majestade. Permita-me cumprimentá-lo pelo estrondoso sucesso de ontem no Parlamento.
– O que houve ontem no Parlamento, Primeiro-Grão?
– Imperador Nazareno, o senhor não acompanhou a votação?
– Não tive tempo, PG. Estava tratando de assuntos mais importantes.
– Mas, Majestade, a lei votada ontem é a mais importante do seu governo até agora. Só com ela nosso reino poderá crescer e gerar riquezas daqui por diante.
– PG, nosso reino vai crescer de qualquer jeito sem aqueles eslavos vermelhuxus que emporcalharam essas terras por décadas.
– Sim, Majestade, mas lembre-se de que foram as promessas de melhoria da vida dos súditos que nos garantiram o apoio popular para a expulsão dos vermelhuxus.
– E como foi a votação?
– A lei foi aprovada por larga margem, Majestade. Agora ninguém mais recebe o bolsa-velhice antes dos 35 anos de idade.
– Ótimo. Acabou a vagabundagem. Mas os meus guardas ficaram fora disso daí, não é PG?
– Claro, Majestade. Como o senhor ordenou.
– Boas notícias. Agora posso voltar aos assuntos que realmente me preocupam.
– Fique à vontade, Majestade.
– PG, tem coisa errada demais nesse reino. Vou precisar de muitos anos pra consertar tudo isso daí.
– Se eu puder ajudar, Majestade.
– São problemas muito complexos, PG. Não acho que você tenha competência pra isso.
– De qualquer forma, estou ao seu dispor.
– Você acredita que o nosso reino cobra diárias de dez moedas de ouro de quem visita a Ilha Fernão de Norius?
– Sim, Majestade. Mas o dinheiro ajuda na preservação da ilha, não é mesmo? Acho que um dia esse negócio de preservação ainda terá grande importância.
– Tá vendo? Você não entende nada, PG. Essa cobrança é absurda. Vou acabar com ela.
– Como quiser, Majestade.
– Outra coisa, você sabia que tem lei proibindo crianças de andarem soltas nas carroças?
– Mas a lei não foi feita pra proteger as crianças?
– Claro que não. Foi feita pelos vermelhuxus pra patrocinar a roubalheira e a pouca vergonha. Vou acabar com ela também.
– Como quiser, Majestade.
– E também vou aprovar uma lei que deixa o súdito comum, o trabalhador, o homem de bem andar com sua própria espada e até sua própria lança.
– Majestade, mas uma lei como essa não deveria ser aprovada pelo Parlamento?
– O Parlamento tá cheio de vermelhuxus disfarçados e enrustidos, PG. Eu decido e pronto.
– A escolha é sua, Majestade.
– Por último, PG, mande chamar meu filho.
– Qual deles? O que está sumido?
– Que estava sumido, você quer dizer. Graças ao Grão Toffolus, ele não tem mais nenhum motivo pra se esconder. Mas quero falar com o meu filho poliglota.
– Agora eu fiquei na dúvida, Majestade.
– O mais novo, PG. Não é possível. O garoto fala cinco idiomas. Vou inclusive nomeá-lo nosso arauto no reino anglo-saxão vizinho.
– Vossa Majestade acha que ele tem qualificações suficientes? É um cargo muito importante.
– Claro que tem, PG. Além de poliglota, ele já caçou e cozinhou muito javali por aquelas bandas. E ainda é amigo dos filhos do Rei Orangeus. Não tem ninguém melhor.
– Vossa Majestade tem consciência de que essa decisão vai provocar muitas críticas, não é?
– Quando recebo críticas dos vermelhuxus é porque estou no caminho certo.
– Mais alguma coisa, Majestade?
– Não, PG. Pode voltar a cuidar das finanças do reino. Deixa que o que é importante eu resolvo.
– Sua percepção de prioridades é realmente assombrosa, Majestade. Volto para comunicá-lo das próximas votações.
– Mas avisa antes, PG. Não posso perder tempo com bobagens, talquei?

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Clientes difíceis…

- Netflix, bom dia.
– Bom dia. Eu gostaria de reativar a minha conta.
– Pois não. O senhor se lembra do seu código do usuário?
– Sim… é 1350.
– Ah, já localizei a sua conta aqui. Vou providenciar sua reativação em poucos minutos.
– Ótimo, mas eu tenho um pedido a fazer antes.
– Perfeitamente, sou toda ouvidos.
– Eu quero reativar só a parte boa.
– Acho que não entendi, senhor.
– Só a parte boa da Netflix, aquela engajada, empoderada, guerreira e que só divulga a verdade.
– Senhor, somos uma empresa de streaming de filmes e séries, não um órgão de imprensa.
– Se a Netflix fosse um órgão de imprensa não teria nenhuma parte boa… a não ser que o Glenn fosse o editor, claro.
– O que eu quero dizer é que nosso compromisso é com o entretenimento de qualidade, não com a “divulgação da verdade”.
– Por isso é que eu quero de volta só a parte do entretenimento de qualidade que retrata a realidade do Brasil e do mundo.
– Senhor, não temos como separar conteúdos. São milhares de filmes, séries, shows e documentários à sua disposição. O senhor só assiste ao que quiser.
– Minha filha, eu não quero abrir a tela inicial e correr o risco de dar de cara com uma chamada de “O Jardim das Aflições”, “O Mecanismo” ou outro arsenal de mentiras patrocinado pela elite cis-branca-golpista-patriarcal deste país.
– Todos os filmes são ficcionais, senhor. Mesmo os documentários são produzidos segundo a perspectiva do diretor. O que é verdade para um pode não ser para o outro.
– Com essa conversinha já senti que você é simpatizante dos golpistas. Aposto que não gostou da aula de história que a Petra Costa deu em “Democracia em Vertigem”.
– Ainda não assisti a nenhum desses que o senhor mencionou. Além do mais não sou crítica de cinema. Minha função aqui é ouvi-lo e saber se o senhor irá ou não reativar a sua assinatura.
– Não vou reativar de jeito nenhum. Fiz bem demais em ter cancelado. Assisto quando o documentário chegar no Mídia Ninja ou no Catraca Livre. Passar bem!

- Netflix, bom dia.
– Bom dia o cacete. Eu quero cancelar minha assinatura agora mesmo. Que merda de empresa é esta?
– Qual é o problema, senhor?
– Este monte de mentiras sobre o impeachment da Dilma travestido de documentário. Como é que vocês têm coragem de disponibilizar um absurdo desses pros seus assinantes? Que vergonha. Vocês são um bando de esquerdopatas, petistas enrustidos, comunistas-caviar. Eu quero que vocês morram.
– Estou quase a ponto de atender ao seu pedido, senhor.
– Ainda por cima é engraçadinha. Quero cancelar minha assinatura agora!
– Em situações normais eu seguiria o protocolo e insistiria para que o senhor não o fizesse. Mas hoje meu dia não está permitindo estripulias. Por favor, qual é o seu código do usuário?
– 1717…

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Amigos…

À primeira vista, alguns podem até nos tomar por uma turma de colegas que se reúne esporadicamente. Outros mais atentos, já de imediato conseguem perceber a verdadeira amizade envolvida. Entretanto, nem mesmo aqueles que apostam que somos irmãos de uma vida toda são capazes de mensurar o amor que nos une. A cada ano juntos, a cada novo encontro, a cada nova viagem, compreendemos o quanto cada um é fundamental na vida do outro. O quanto cada conversa vem acompanhada de uma admiração mútua, o quanto cada brinde traduz o sentimento de que a alegria de um é a alegria de todos, o quanto cada gargalhada sintetiza a autenticidade de um convívio leve e, ao mesmo tempo, absolutamente profundo.

Neste feriado inesquecível, o que ficou evidente é que também os filhos de um são filhos de todos. Porque foi assim que o filho se sentiu. Ele reconheceu o amor de pai e mãe nos olhos de cada um. E é assim que todos os nossos filhos se sentem. É com este exemplo de amizade que eles crescem, cientes da importância de um amigo, certos de que amizade é ainda melhor quando é cuidada, cultivada, nutrida.

Neste feriado inesquecível, o filho teve pais e mães que o levaram para cavalgar, para desbravar trilhas e escalar montanhas, para lhe mostrar pássaros, árvores e estrelas de uma forma que ele nunca vira até então. Pais e mães que o acompanharam nas mais diferentes brincadeiras, que cuidaram para que ele não se sentisse solitário, que deixaram de descansar para que ele não reclamasse de tédio, que cuidaram das suas alergias e joelhos ralados, que o ouviram com toda atenção e disponibilidade. Este é o tipo de carinho que sintetiza a amizade que vivenciamos. É o retrato do que somos quando estamos juntos.

Ao final deste feriado inesquecível, enquanto o filho ainda absorve todas as inúmeras lições de amizade recebidas, eu apenas tento encontrar palavras que possam demonstrar a minha gratidão. Não há como encontrá-las e, claro, obrigado é muito pouco. Amo vocês, meus amigos queridos!

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