Cancelamentos…

No consultório psiquiátrico…

- Doutor, o senhor tem que me ajudar. Tem meses que não consigo dormir mais do que duas horas por noite.

- A sua dificuldade é para pegar no sono?

- Não, doutor. Durmo com facilidade. Mas tenho pesadelos horríveis e acordo logo depois.

- Que tipo de pesadelos?

- Eles variam bastante, mas o final é sempre o mesmo.

- E o que acontece no final?

- Eu sou cancelado, doutor!

- Não entendi o que é cancelado no seu sonho. Sua inscrição, sua matrícula, seu CPF?

- Não, doutor. Eu mesmo é que sou cancelado?

- É normal sonharmos com situações impossíveis.

- Mas esse é justamente o meu medo, doutor: ser cancelado na vida real.

- Meu caro, nenhuma pessoa pode ser cancelada.

- Doutor, em que mundo o senhor vive? Pessoas são canceladas a todo instante.

- Que bobagem. O que faria uma pessoa ser cancelada?

- Aí é que está, doutor. Basta ter opinião própria sobre algum assunto. E muitas vezes ela nem precisa fazer nada. Tudo é imprevisível demais. Não consigo conviver com esse medo. Por favor, eu só lhe peço que me receite um sonífero bem forte.

- Olha só, não sou do tipo que prescreve remédios para dormir logo de cara. Vamos buscar uma solução mais saudável, mudar sua rotina. Você gosta de música?

- Só MPB, doutor.

- Ótimo, antes de dormir escute meia hora de música pra relaxar. Sugiro Chico, Caetano, Gil…

- Não posso, doutor. Todos eles foram cancelados.

- Cancelados por quem?

- Pela direita.

- Bom, então ouça alguém mais antigo. Gosta de Raul Seixas?

- Também foi cancelado, doutor. Só que pela esquerda.

- Mas Raul sempre foi de esquerda.

- Pois é, para o senhor ver o risco que todo mundo está correndo.

- Esquece a música, tenta ler um livro antes de dormir. Gosto dos livros do Karnal, do Cortella e do Pondé.

- Cancelado, cancelado e cancelado.

- Não é possível. Por quem?

- Ah, esquerda e direita disputam o cancelamento desses três à tapa. Depende do dia, do que dizem e de quem saiu na foto com eles.

- Tá bom. Esquece o livro. Assista a um bom filme antes de dormir. Vai te fazer pensar em outras coisas. Você assina a Netflix?

- Foi cancelada, doutor.

- Então reative a sua assinatura.

- Não foi a minha assinatura. O canal foi cancelado.

- Por quê?

- Bom, entre outras coisas por chamar o impeachment da Dilma de golpe e por chamar o PT de corrupto.

- Mas esses motivos são antagonistas.

- Bem lembrado. O Antagonista já nasceu cancelado por um lado e agora está pelos dois. Se juntou a todos os outros jornais que estão na categoria “hors concours” do cancelamento.

- Ninguém foi “descancelado” até hoje?

- Impossível, doutor. Quando um lado “descancela” alguém, o outro o cancela imediatamente.

- Olha, você está falando só de gente famosa, de grandes empresas. Nós, pessoas comuns, não corremos nenhum risco de cancelamento.

- Doutor, o senhor já ouviu falar de Lucas, Tulla, Everton, Hadson?

- Não, nunca.

- Pois é, todos cancelados. Estou lhe dizendo, não vai sobrar ninguém.

- É, meu caro, acho que só rezando mesmo.

- Doutor, eu sou católico e nesta semana até o Papa foi cancelado.

- Aqui está a sua receita. Tem três soníferos aí. Tome todos juntos. Um só não vai fazer efeito algum…

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Volta às aulas…

E o primeiro mês de 2020 chegou ao fim. Um mês repleto de ameaças de conflitos internacionais, verdadeiros – e reais – conflitos familiares, recordes de chuvas e de mortes quebrados, contaminações letais descobertas – algumas no outro lado do mundo e outras no bar da esquina – e perdas de ídolos de forma abrupta.

Como toda circunstância desafiadora, o mês de janeiro deixou também muitos ensinamentos. Descobrimos que rios não deveriam ser confinados, que um simples vírus tem o poder de abalar toda a economia mundial, que processos produtivos sempre podem ser aperfeiçoados, que a tecnologia jamais será mais forte do que a Natureza e que tradições quebradas dão sempre mais notícia.

Mas janeiro deixou também outros tipos de ensinamentos. Não bastassem os trágicos eventos ocorridos no mês, o Brasil recebeu aulas de hipocrisia, de populismo, de atraso, de preconceito, de empáfia, de grosseria e de incompetência ministradas pelos mais diversos professores. Verdadeiros especialistas, nossos mestres estiveram particularmente inspirados no início do ano.

A aula de populismo avançado foi dada pelo prefeito de Belo Horizonte. Depois de três anos deixando de investir quase 70% dos recursos destinados à prevenção das recorrentes inundações, Alexandre Kalil afirmou que a chuva que provocou tantos prejuízos aos moradores da cidade foi uma resposta aos empresários gananciosos da construção civil. “Chegou na casa deles, no bairro chique e luxuoso”, afirmou o prefeito. Sendo ele mesmo um empresário da construção civil e também morador de um dos locais destruídos pela força das águas, tenho que admitir que o prefeito talvez tenha razão.

Damares Alves foi a responsável pela aula de retorno ao século passado ao insistir na campanha pela abstinência sexual dos adolescentes no intuito de se evitar a gravidez precoce. Se a ideia surtir efeito, o próximo passo provavelmente será sugerir às pessoas que não andem de carro para que os acidentes de trânsito diminuam, e que parem de ouvir rock para que a droga, o sexo, a indústria do aborto e o satanismo deixem de existir.

Uma manifestação em especial abriu espaço para duas aulas. O militante de esquerda e ex-auto-proclamado-presidente-do-país (também ator nas horas vagas) José de Abreu, proferiu ofensas machistas, misóginas e preconceituosas contra uma colega de profissão em uma das mais torpes aulas de grosseria dos últimos tempos. Por sua vez, quase nenhuma voz da esquerda se levantou para defender a mulher ou condenar o macho escroto, ministrando assim uma das mais eloquentes aulas de hipocrisia do início do ano.

O episódio do discurso de inspiração nazista feito pelo ex-Secretário de Cultura também deixou lições de hipocrisia. De um lado por afirmar que o “coitado” foi vítima de uma armação (como se fosse possível convencer alguém inocente a proferir um discurso no modo Hannibal Lecter). E de outro por manifestar tamanha (e justa) indignação num dia, enquanto homenageia um monstro genocida no outro.

Weintraub continuou dando aulas de incompetência ao minimizar os erros na correção de milhares de provas do Enem e ao chamá-los de “inconsistências”, “probleminhas já resolvidos” e “bom era na época do PT, né?”. As várias ações judiciais que pedem a revisão das provas ainda hão de fazê-lo encontrar novas denominações.

E ontem, no último dia do mês, Tati Bernardi publicou um texto que é uma verdadeira aula de empáfia afirmando que… ah, quer saber? Tati quem, mesmo?

Seja bem-vindo, fevereiro. As aulas já começaram…

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Evolução em risco…

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E no primeiro dia de aula…

- Bom dia, aluninhos queridos.

- Bom dia, professora.

- Todos animadinhos pra começar o ano?

- Sim, professora.

- Ah, que bom. Amo ver essa carinha de felicidade nas minhas crianças. Todos se sentaram nas cadeirinhas marcadas com seus nomezinhos?

- Sim, professora.

- Assim é que eu gosto de ver. Menininhos de um lado, uma fila vazia no meio e menininhas do outro. Qualquer descuido e a nossa sagrada abstinência sexual pode ir por água abaixo, não é mesmo?

- Sim, professora.

- Só você aí na segunda fila, queridinha, é que parece estar no lugar errado.

- Mas meu nome está escrito aqui e eu sou menino, professora.

- E está usando brinquinhos, cabelinhos longos e coloridos e tem as unhas pintadas? Não, não, querido. Sente-se aqui na primeira cadeira do meio, bem pertinho de mim. Já tenho muitas abstinências com que me preocupar.

- Sim, professora.

- Turma, quem gosta de ciências?

- Nós gostamos, professora.

- Eu sabia. Senão vocês não estariam aqui, não é mesmo? Alguém por favor me diga por que escolheu estudar ciências?

- Eu gosto da ciência porque ela me ajuda a entender de onde viemos e pra onde vamos, professora.

- Deus, querida! A gente veio de Deus e volta pra Deus. Essa questão é muito básica. Mais alguém?

- Através da ciência eu procuro entender como muitas coisas funcionam: o clima, as chuvas, os terremotos, os tsunamis…

- Pela vontade de Deus, queridinho! Tudo é regido pela vontade de Deus. Isso também é muito básico, aqui veremos coisas muito mais complexas. Anotem as matérias que vamos estudar neste semestre: “Astronomia de verdade e a falácia da Terra redonda”, “Como Deus criou o Universo em sete dias”, “Noé e sua influência na fauna do planeta”, “Torre de Babel: como as diversas línguas surgiram”, “Vacinas ou preces? A verdadeira proteção vem sempre de Deus” e “Rock, sexo, aborto e satanismo – o que podemos fazer para evitar o Apocalipse”.

- Professora, não vamos estudar a Teoria da Evolução de Darwin?

- Querido, estamos em uma universidade séria, não trabalhamos com teorias aqui. Só com fatos cientificamente comprovados…

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Vespeiros de ano novo…

Minha mãe sempre me ensinou a manter distância dos vespeiros. “Não mexe com quem tá quieto”, dizia ela. Claro, isso foi bem antes do tempo das redes sociais. Naquela época era fácil manter distância da vizinha barraqueira, do padeiro falastrão e do doido que passava o dia oferecendo lotes no Céu a preços de ocasião. Hoje ninguém mais fica quieto, todo mundo opina sobre tudo e os vespeiros passaram a exercer sobre mim um enorme poder de sedução. Por isso aqui vou eu, mais uma vez, me embrenhar nesse ninho:

- não gostava do Glenn Greenwald. Gostava do Sérgio Moro. Greenwald afirmou que os diálogos divulgados de Moro comprovam ilicitudes. O Ministério Público afirmou que os diálogos divulgados de Greenwald comprovam ilicitudes. Vi comportamentos inadequados em ambos os casos. Não vi ilicitudes. Continuo não gostando do Greenwald. Continuo gostando do Moro…

- o nazistinha com mania de perseguição satânica foi defenestrado e vai morar fora do país. É um alívio. Pena que ainda permaneçam por aqui tantos outros adoradores de genocidas com mania de perseguição divina…

- Regina Duarte foi convidada a assumir a Secretaria de Cultura. Conheço Porcina, Malu, a marmiteira que ficou rica (qual era o nome dela mesmo?) e algumas outras. Não conheço a Regina. Mas que ela é bem melhor que o nazistinha eu não tenho dúvidas…

- Greta Thunberg disse, em Davos, que diminuir as emissões de carbono é insuficiente, temos que zerá-las imediatamente. Foi aplaudida. Paulo Guedes disse, no mesmo fórum, que o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza. Foi massacrado. Utopia por utopia, fico com aquela que não leva a humanidade de volta à Idade da Pedra…

- Abraham Weintraub se gabou no ano passado de ter feito o melhor Enem da história. Deu nota 10 a uma prova que ele mesmo não tinha finalizado. Não é de hoje que o nosso ministro anda errando nas correções…

- um lado faz piada com vítima de assassinato, o outro quer símbolos cortados à faca na testa de quem pensa de forma diferente. Não é à toa que a psicologia é considerada a profissão do momento…

- um dos filhos do Príncipe Charles anunciou que vai deixar a família real e se mudar para o Canadá. Torço para que isso se torne uma tendência e que outros filhos de outros governantes também façam o mesmo…

- não assisto a nada referente ao BBB. O último vencedor de que me lembro era um sujeito que tinha apelido de Alemão. Se você assiste, bom divertimento…

- “Democracia em Vertigem” vai concorrer ao Oscar. Estou torcendo para que ganhe. E que a Dilma esteja lá. E que suba no palco. E que discurse… em inglês…

Está na hora de ir embora pois já estou sentindo as ferroadas.

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Juntos…

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Juntos!

Assim encerramos mais um ano e iniciamos o seguinte.

Juntos como não estivemos durante alguns meses de 2019.

Juntos como não estaremos na maior parte de 2020.

Mas isso não importa.

2019 nos mostrou que estarmos juntos não tem nada a ver com a proximidade física.

Na verdade, neste ano aprendemos que a distância pode até nos aproximar.

E ela nos aproximou.

Nossos olhares nunca guardaram tanto significado nem foram tão duradouros.

Mesmo quando nossas palavras se tornaram desnecessárias, jamais nos falamos tanto.

Nossa admiração mútua, sempre presente, jamais havia alcançado tamanho grau de intensidade e de devoção.

Sentimentos corriqueiros e pequenas atitudes adquiriram um inédito senso de importância e passaram a ser compartilhados com uma frequência muito maior.

Aprendemos a nos ouvir com mais atenção e a valorizar ainda mais os nossos sorrisos.

Nossas dúvidas e incertezas não mais se camuflaram e se dissiparam mais facilmente.

Assim, próximos ou distantes, estivemos juntos como nunca no ano que hoje se encerra.

Assim, próximos ou distantes, estaremos ainda mais juntos no ano que se inicia.

Porque nem mesmo o tempo e a distância são capazes de afastar o que, em essência, só pode existir em comunhão.

Por tudo isso, sou especialmente grato ao ano de 2019.

O ano que me mostrou, na prática, que não há nada mais importante e mais poderoso do que o amor.

O ano que me relembrou das pontes que continuam interligando continentes.

O ano em que meu filho se tornou meu ídolo.

Que 2020 venha repleto de paz, de harmonia, de crescimento, de sucesso, de amizade, de encontros, de sorrisos e especialmente de gratidão.

Gratidão por estarmos juntos.

Gratidão por sermos cada vez mais próximos.

Gratidão pela consciência da importância de cada abraço, de cada beijo, de cada afago.

Gratidão pela plena compreensão de que só o aqui e o agora realmente importam.

Gratidão pela Vida.

Um 2020 abençoado a todos!!

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As pontes de amor e seus legados…

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Os tempos eram outros. As formas de comunicação praticamente se restringiam às cartas e aos telefones fixos e seus custos astronômicos. Não havia ligação gratuita e imediata para qualquer parte do planeta. Também não havia tecnologia que permitisse às pessoas ficarem “on line” e as redes de televisão pagavam verdadeiras fortunas para que suas transmissões pudessem ostentar a tarja “ao vivo” na parte inferior da tela. Assim, o mundo acabara de testemunhar a queda de um muro em Berlim. Assim, a última seleção alemã acrescida de um ponto cardeal fora vista erguendo a Copa de 1990. Assim, acompanhávamos a poderosa União Soviética se desintegrando diante dos nossos olhos. Tempos em que meros mortais não podiam ser rastreados. Tempos, portanto, bem mais propícios para que uma viagem surpresa pudesse ser feita com a devida discrição.

Dirigindo meu carro em direção a Ouro Preto, custava-me acreditar que partira de Londres apenas algumas horas antes. Minha volta ao Brasil só deveria acontecer dali a dois meses e ninguém poderia imaginar que o desejo de passar o ano novo em família seria capaz de me fazer cruzar o oceano duas vezes em um intervalo de quatro dias. Aquela com quem me casaria sete anos depois foi a primeira “vítima” da minha aparição, tão improvável que a deixara em dúvida se o autor da surpresa era alguém de carne e osso ou uma alma penada que dela se despedia ao som da trilha sonora de “Ghost”.

O hotel em Ouro Preto possuía chalés espalhados pelo terreno e, poucos minutos após a minha chegada, já me encontrava escondido no andar superior de um deles. Lembro-me perfeitamente do meu coração palpitar ao ouvir as vozes dos meus pais se aproximando da porta de entrada. Com meus pais e meus irmãos no andar térreo – entre eles, o que fora meu cúmplice em toda a história – meu plano começava a ser colocado em prática.

Minha futura esposa os chamara com o argumento de que leria uma carta minha, recebida naquele dia, com instruções expressas para que fosse entregue a eles antes do ano novo. A carta era breve e falava basicamente do amor que nos unia e do quanto sempre foi importante estarmos juntos nas festas de fim de ano. Falava também de um sonho. O sonho de que uma ponte de amor entre Londres e o Brasil iria me permitir estar com eles na noite daquele Réveillon.

Desta vez, entretanto, minha aparição não deveria ser tão dramática. Eu não poderia correr o risco de ser confundido com um fantasma por alguém cujo coração já inspirava cuidados. Por isso, encerrei a carta com uma dica que me pareceu definitiva. Ao ouvi-la, meus pais certamente entenderiam que eu estava por perto. E assim aguardei, ansioso, que as últimas frases escritas naquele papel fossem pronunciadas: “…mas foi só um sonho… ou será que não foi? Só há uma maneira de vocês descobrirem: me chamem! Quem sabe eu não estou aí? Quem sabe eu não estou no andar de cima?”

Praticamente não houve intervalo de tempo até que eu ouvisse a voz da minha mãe, embargada pela emoção, gritar a plenos pulmões:
– Fernaandooo!
Ela sabe – pensei eu – todos eles sabem. Então gritei de volta:
– Ooiêêê – e desci rapidamente aqueles degraus.

As expressões que encontrei ali embaixo, entretanto, foram muito diferentes das que imaginara. Estavam todos estupefatos. Não, eles não tinham a menor ideia de que eu voltara. Minha dica infalível não valera de nada. Meu pai se aproximou de mim e parou por um momento, como se certificasse de que aquela pessoa era realmente eu, antes de mergulhar nos meus braços. Minha mãe, quase em choque, repetia frases desconexas e me abraçava em prantos. Meus irmãos se juntaram a eles naquele abraço e aquele Réveillon se tornou o mais especial que trago na lembrança. Mais tarde, quis saber da minha mãe o porquê do seu grito, mesmo estando certa de que eu me encontrava a milhares de quilômetros dali. Sua resposta, desde então, faz parte da minha alma:
– Ora, filho, porque você me pediu!

Como filho, aqueles foram alguns dos momentos mais marcantes e mais gratificantes de toda a minha vida. E hoje, como pai, percebo o quanto a minha surpresa deixou marcas profundas nos corações daqueles que passaram suas vidas ensinando ao mundo a arte de construir pontes de amor. Queria apenas que eles fossem capazes de construir mais uma agora…

Hoje, é a minha vez de fazer o papel de cúmplice, para que meu filho possa vivenciar a emoção indescritível que experimentei há quase vinte e nove anos. Hoje, é a vez da minha esposa gritar o nome dele e chorar de alegria pela sua volta inesperada. E hoje, em algum lugar deste universo, sei que dois dos maiores construtores de pontes de amor que por aqui passaram estão sorrindo, felizes com o legado que deixaram!

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Vagas natalinas…

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- Bom dia, vim para o Natal deste ano.

- O nome do senhor, por favor?

- Jesus Cristo.

- Sim, mas qual deles?

- Não entendi.

- Estou me referindo às suas experiências como Jesus, seu currículo, onde o senhor nasceu…

- Nasci em Nazaré, é claro.

- O senhor poderia aguardar naquela sala junto com os outros candidatos?

- Outros candidatos? Candidatos a que?

- À vaga de Jesus Cristo, naturalmente.

- Mas eu sou Jesus Cristo.

- Querido, todos ali também são.

- Deus do céu!

- Perdão, as vagas para Deus do céu ainda não foram abertas.

- É só força de expressão. Mas deve estar havendo algum engano. Eu sou único.

- Que veio de Nazaré, pelo menos até agora, o senhor é o único mesmo. Ainda assim a concorrência está muito acirrada.

- Tem quantos candidatos?

- Deixe-me ver. Até agora tem dez, incluindo o senhor.

- Dez? Virgem santa!

- As vagas pra virgem santa já foram preenchidas. Se bem que a virgindade não foi usada nem como critério de desempate.

- Deixa pra lá. É que eu nunca tive que passar por uma seleção deste tipo antes.

- Os Natais estão acompanhando a diversidade do mundo moderno. Todos querem se sentir representados.

- Diversidade? Não estou entendendo mais nada.

- Vieram candidatos de todas as épocas e de todas as manifestações artísticas. Está vendo aquele baixinho de cabelo curto e sem barba?

- Sim.

- É o mais velho que apareceu por aqui. Veio do século IV depois de… bom, do senhor. Essas representações foram banidas a partir do século VI, quando o cristianismo adotou a imagem de Cristo com barba e cabelos compridos.

- E ele quer ser Jesus neste Natal, dezessete séculos depois?

- Tem gente que acha que aquela é a verdadeira imagem de Cristo.

- E aquele ali todo coberto com um pano preto?

- Aquele é do carnaval de 1989. Criação de Joãosinho Trinta. Foi censurado pela igreja do Rio de Janeiro.

- Censurado? Por quê?

- Porque mostrava Cristo vestido como mendigo.

- E o que há de mal nisso?

- Não sei lhe dizer, senhor. Mas outros ali também enfrentaram problemas do tipo.

- Quais?

- Bom, os dois Cristos americanos são de filmes condenados pelo Vaticano, aquele com vários braços estava em uma exposição que foi fechada no ano passado, os representados por pessoas negras e homossexuais foram perseguidos e aquele do fundo foi proibido por ser considerado “humano demais”.

- Não acredito.

- O último a chegar antes do senhor foi o Cristo que estava no filme de um grupo de humoristas. Muita gente está tentando tirar o filme do ar porque aquele Jesus foi seduzido por um Lúcifer gay.

- Todas essas versões minhas foram censuradas de alguma forma?

- Parece que sim.

- Mas nenhuma delas sou eu de verdade. As pessoas não entendem isso?

- Elas dizem que estão zelando pela sua imagem.

- Elas deveriam se preocupar mais com a minha palavra.

- Elas alegam que a sua palavra também está sendo deturpada.

- Sempre transmiti uma mensagem de paz e tolerância. E é bom que o meu nome esteja sendo usado para reflexões e questionamentos, para que uma pessoa possa sorrir ou simplesmente para que alguém se sinta representado. Muito melhor do que usá-lo para justificar conflitos e guerras.

- Muitos consideram algumas manifestações ofensivas à fé das pessoas.

- A verdadeira fé não deveria se importar com manifestações artísticas e opiniões alheias. Nunca exigi que todos cressem em mim.

- Bom, vou acompanhar o senhor até a sala.

- Não é necessário. Estou de saída.

- Por quê? Não vai mais participar da seleção? Acho que o senhor iria ganhar de lavada.

- Não preciso mais, filha. Já vi que estou muito bem representado.

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Conceitos deturpados…

O português é reconhecidamente uma língua complexa por suas variações verbais, temporais e de gênero quanto a substantivos, adjetivos e pronomes. É também uma língua, assim como tantas outras, repleta de palavras formais e sofisticadas. Por isso, em um país com escolaridade tão baixa quanto o Brasil, não é de se espantar que a maioria das pessoas ignore o significado de grande parte delas.

Existem muitas palavras, entretanto, sobre as quais não paira – ou, pelo menos, não deveria pairar – nenhuma dúvida. Ninguém deveria, por exemplo, se autoproclamar democrata num dia e defender ditaduras no outro. Ou condenar a censura numa situação para, minutos depois, aplaudir a apreensão de livros. Ou ainda exigir respeito no trato com seus interlocutores enquanto se permite sorrir quando alguém é xingado de égua sarnenta e desdentada. Atitudes como essas são tomadas apenas quando seus autores desconhecem o verdadeiro significado de palavras tais como democracia, liberdade e compostura.

Hoje, existe outra palavra ainda mais corriqueira que tem sido frequentemente usada de forma leviana: oposto. Sim, o mesmo que contrário, inverso, contraditório. Para os dois grupos mais barulhentos da atual sociedade brasileira, basta-lhes a alcunha de “opostos”. Como se um comportamento contrário a A fizesse de Z a opção correta, e vice-versa. Não faz! E o pior é que ambos não percebem que estão longe de serem realmente antagônicos. Na verdade, o entendimento que esses grupos têm de muitas das palavras da língua portuguesa é deturpado e assustadoramente semelhante.

Para A e Z, por exemplo, o oposto de ditadura é a “autocracia do bem”, não a democracia. O oposto de mentira é a visão ideológica do fato, não a verdade. O oposto de injustiça é a idolatria cega, não a lisura. O oposto de preconceito é a seletividade, nunca a igualdade. O oposto de cerceamento de opinião é a liberdade de elogios, não de críticas. O oposto de submissão é a libertinagem, não a inconformidade. O oposto de incompetência é a contemporização, não a eficiência. O oposto do politicamente correto é a truculência, não a ponderação. O oposto de erro pontual é a generalização, nunca a correção de rota. O oposto de estupidez é a própria estupidez duplicada, jamais a sabedoria.

Vivemos tempos em que a ignorância é tão comum que passou a ser tratada com desdém. Tempos em que ofensas passaram a ser usadas como argumentos, com direito a réplicas, tréplicas, memes, aplausos e troféus em forma de óculos escuros. Tempos em que o populismo justificou e banalizou até as agressões físicas de parte a parte. Tempos em que grosseria e ausência de bom senso se tornaram qualidades a serem destacadas nos currículos. Resultado de duas décadas de exemplos vindos de criminosos portadores de complexos de superioridade, pessoas com severas e irreversíveis deficiências cognitivas e fundamentalistas lunáticos com manias de perseguição. Todos glorificados, ungidos e santificados por aqueles que também desconhecem o conceito de civismo.

Enquanto isso, a maioria silenciosa da população brasileira continua torcendo para que A e Z consigam adquirir um conhecimento um pouco mais amplo da língua portuguesa. Mesmo que isso não seja capaz de alterar seus já viciados comportamentos, poderá servir para que, pelo menos, estes passem a ser chamados daquilo que realmente são, sem atenuantes ou disfarces. Quem sabe assim, com um mínimo de autenticidade, adoradores de A e de Z possam perceber que, durante muito tempo, estiveram simplesmente se mirando no espelho!

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Critérios técnicos…

- Bom dia, presidente. Aqui estão os currículos que o senhor me pediu que avaliasse. Também fiz a primeira entrevista com muitos dos candidatos.
– Vê lá se você não selecionou alguém despreparado, talquei? Faço questão que meus subordinados sejam todos técnicos e competentes.
– Procurei fazer o meu melhor, senhor. Analisei suas qualificações, suas formações acadêmicas, suas experiências na área e em cargos de liderança, suas…
– Talquei, talquei. Tudo muito bonitinho mas o que eu quero saber é se você pesquisou a vida pessoal, as publicações nas redes sociais, os comentários feitos nos perfis dos outros, essas coisas realmente importantes.
– Claro, como o senhor me pediu. Na verdade, muitos candidatos foram descartados de cara quando perguntei se assinavam algum jornal. Os que assinavam a Folha e o Globo eu mandei que fossem conduzidos coercitivamente pelos nossos seguranças.
– Excelente! Mas tem muito currículo aqui. Não tenho paciência pra ler tudo isso. Quais você recomenda?
– Eu gostei muito de alguns deles, senhor. Este aqui por exemplo, chamou uma atriz famosa de “sórdida” e “mentirosa”.
– Atriz de direita ou comunista?
– Bom, de direita ela não é…
– Então é comunista. Já gostei do cara. Separa o currículo dele aí pra mim. Quem mais?
– Tem um outro aqui que só tem foto com a camisa da seleção brasileira, participou de todas as manifestações contra o PT e só chama o Lula de molusco ladrão.
– Tem que analisar mais a fundo esse daí. Tem um monte de gente que era assim no passado e agora virou comunista igual aqueles babacas do MBL e do Antagonista.
– Mas este continua tirando foto fazendo arminha com as mãos e só faz compras na Havan.
– Então é de confiança. Separa o currículo dele também.
– A foto de perfil deste outro aqui é o número 17 desde o ano passado.
– E ele não alterou nas últimas semanas?
– Não, senhor.
– Tá fora. Pode rasgar o currículo desse daí. Não, melhor queimar mesmo.
– Sim, senhor. Já este outro aqui é excelente. Briga com todo mundo que reclama do senhor, a citação inicial do perfil dele é “bandido bom é bandido morto”, parou de seguir o Frota e a Joice Hasselmann e já declarou que o Ustra é a inspiração da vida dele.
– Muito bom!
– Mas tem um pequeno problema, senhor.
– O que foi?
– Quando perguntei se tinha algum hobby, ele me disse que era fã das músicas – e só das músicas – do Chico Buarque.
– COMUNISTA! Tira esse currículo daí e manda desinfetar a minha mesa. Umas coisas absurdas dessas você nem precisa trazer pra mim.
– Desculpe-me, senhor.
– Mais algum?
– Bom, tem um aqui que eu não entrevistei e estou com medo de ter um perfil falso.
– Por quê?
– Ele é negro e diz que a escravidão foi benéfica para os descendentes dos escravos, que o racismo no Brasil é nutella e que a negrada daqui reclama porque é imbecil e desinformada pela esquerda. Também chamou uma ativista americana de nojenta, baranga e mocreia e disse que torce para que um branco prenda um preto militante por racismo.
– Não é possível. Esse aí parece bom demais pra ser verdade.
– Foi exatamente o que eu pensei, senhor.
– Confirma lá se esse gênio existe. Se existir, merece até um ministério. É bom o Weintraub ficar esperto. Não é fácil mas tô quase encontrando gente mais qualificada do que ele…

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Silogismos e sofismas…

Ainda restavam mais de três séculos para que Jesus Cristo viesse ao mundo quando o filósofo grego Aristóteles desenvolveu um modelo de raciocínio baseado na ideia da dedução. O modelo, que ficou conhecido por silogismo, é composto em sua forma mais simples de duas premissas que, interligadas, geram uma conclusão lógica. “Os homens são mortais. João é homem. Logo, João é mortal” é o mais básico dos exemplos.

Desde os tempos de Aristóteles, o silogismo tem sido usado com cada vez maior frequência. Entretanto, nos conturbados dias atuais, o modelo aristotélico tem perdido justamente o seu componente mais importante: a lógica. Como não poderia deixar de ser, alijado de lógica, não cabe mais no modelo o conceito de raciocínio e suas deduções variam livremente de acordo com a ideologia de quem o propuser. Entretanto, quando a ausência de lógica é proposital e visa apenas atender aos interesses e narrativas de seus porta-vozes, o silogismo se transforma definitivamente em sofisma.

O exemplo mais recente vem do Chile. De repente, o país mais desenvolvido da América Latina, o que detém o maior PIB per capita, o maior IDH, o maior índice de liberdade econômica, inflação controlada, dívida pública na faixa de 25% do PIB (enquanto a nossa está em 80%), crescimento anual na casa dos 4% e muitos outros índices de primeiro mundo passou a ser tratado pelos atuais sofistas brasileiros como amostra do que não se deve almejar. Segundo eles, as manifestações populares estão desnudando a “verdadeira face” do Chile e os números ruins que o país ainda apresenta – principalmente relacionados à desigualdade social e aos baixos valores de aposentadoria – passaram a ser os únicos repetidamente alardeados, sempre com indisfarçável cinismo.

É evidente que o Chile tem problemas. Qual país não os tem? É também evidente que esses problemas devem ser analisados para que não se repitam os mesmos erros. Mas condenar uma trajetória construída ao longo de décadas com a ajuda de muitos governos de centro, de direita e de esquerda é, no mínimo, tratar um assunto complexo com uma superficialidade digna de juntos e shallow now.

Muitos fatores têm provocado as grandes e legítimas manifestações populares: baixos valores de aposentadoria (decorrentes muito mais das alíquotas inferiores às mínimas necessárias do que da forma de capitalização em si), altos valores cobrados por serviços que, na minha visão, deveriam ser providos pelo Estado (dar condições para se gerar riquezas é apenas o primeiro passo do processo), manutenção de privilégios em diversas classes e corporações, inabilidade e truculência do governo para lidar com as reivindicações da população, além de muitos outros.

Para os nossos sofistas de plantão, entretanto, o culpado é apenas um: o liberalismo. O Chile está caminhando para o precipício graças à mesma filosofia que o atual governo brasileiro quer implantar por aqui. Cuidado! O Chile é o Brasil de amanhã. Meu Deus, só posso torcer para que estejam certos. Afinal, foi o liberalismo que permitiu ao Chile alcançar os invejáveis índices atuais mesmo inserido em um continente dominado pela irresponsabilidade fiscal, pelo populismo, pelo corporativismo, pelo assistencialismo e pela corrupção.

Assim, nossos sofistas de ocasião seguem repetindo suas teorias vazias de lógica e cheias de intenções espúrias:

“O povo chileno está revoltado. O Chile é um país liberal. Logo, não há nada pior do que o liberalismo na face da Terra.”

ou

“Protestos são formas de se demonstrar insatisfações. O povo chileno está protestando. Logo, quero ver alguém reclamar da Venezuela agora.”

Quanta honestidade intelectual. O Chile é a bola da vez mas quem dera os nossos sofistas se limitassem a filosofar sobre os problemas chilenos. Infelizmente somos um país muito rico em conclusões desconexas. Temos sofistas ministros, por exemplo, que acham lógico vir a público insinuar que o navio de uma organização que defende causas ambientais não passa de um petroleiro disfarçado cuja missão é despejar milhares de toneladas de óleo nos mares e praias de seus adversários políticos.

Outros dos nossos sofistas ministros conseguem passar horas apresentando razões para justificar posições contrárias às defendidas por eles mesmos em recentes casos absolutamente idênticos.

Temos sofistas governantes que consideram razoável e coerente a desmoralização, o isolamento e o linchamento público de todos aqueles que têm visões, mesmo que pontuais, diferentes das deles.

Temos, enfim, sofistas pais e sofistas filhos, sofistas presos e sofistas soltos, sofistas de imprensa e sofistas de Twitter, sofistas de direita e sofistas de esquerda. Temos, acima de tudo, sofistas que usam seu limitado poder de persuasão para recrutarem suas claques de seguidores e, pelo menos por algum tempo, verem seus silogismos sofísticos reverberados nos cérebros daqueles que, insofismavelmente, não conseguem filosofar por conta própria.

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