Problemas de um plantonista…

IMG-20180708-WA0028

Sede da Polícia Federal de Curitiba, quinze para uma da tarde de um domingo qualquer…

- Alô?… quem?… não me lembro… ah, plantonista, entendi… sim, senhor… sério?… imediatamente senhor… vou mandar soltá-lo, senhor… vamos sentir falta dele aqui, senhor, ele é um ótimo comentarista de futebol… claro, senhor… tenho só que atender uma outra linha, também estou sozinho aqui de plantão, senhor… sim, fique tranquilo, ele será solto daqui a pouco…

- Alô?… boa tarde, doutor… sim senhor… sério?… mas o senhor não estava de férias?… me desculpe, doutor, realmente isso não é da minha conta… pode deixar, vou mantê-lo preso, doutor… não, daqui ele não sai de jeito nenhum… sim, e ninguém entra… pode deixar, doutor, fique tranquilo. Deixe-me só atender a outra linha…

- Alô?… sim senhor… como assim? Acabei de receber a ligação do doutor… ok, vou esquecer que ele me ligou… ok, não repito mais o nome dele, senhor… sim, senhor, fique tranquilo, vou mandar soltá-lo agora. Só tenho que atender uma outra ligação primeiro…

- Alô?… aham… aham… aham… não, doutor, é que estou ficando muito confuso por aqui… mas o senhor fala uma coisa e ele me fala outra… sim, doutor, vou mantê-lo preso… sim… tem uma outra ligação na espera doutor… até logo, doutor…

- Alô?… mas… senh… por fav… será que o senhor poderia gritar um pouco menos?… por que ainda não o soltei? Eu nem consegui sair do telefone até agora, senhor… sim, senhor… vou tentar senhor… ah, meu Deus, tenho mais uma ligação, senhor… mas eu tenho que atender, senhor… sim, se for ele de novo eu prometo que desligo, senhor… até logo, senhor…

- Alô?… sim, doutora… sim, ele me ligou… três vezes… sim, ele também me ligou… mas, doutora, o que eu faço?… tiro o telefone do gancho?… todas as linhas?… até quando?… e se alguém vier pessoalmente?… portas fechadas e linhas ocupadas… entendi, doutora… sim, não atendo mais ligação nenhuma… pode deixar… meu nome, doutora? É Welington, à sua disposição… sim, sou plantonista… não, não vou fazer nenhuma bobagem, pode ficar tranquila… entendo o seu receio, doutora… não, não bebo nada há três dias… não, nunca fui filiado a nenhum partido… sim, fique tranquila… boa tarde para a senhora…

- Welington, grita o carcereiro.

- Diga.

- O senhor Luís Inácio disse que tem um tal de Rogério querendo falar com você no telefone dele.

- E desde quando preso tem telefone?

- Desde que o Dr. Gilmar veio visitá-lo na semana passada…

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Os donos da bola…

Bem, amigos da Rede Globo. Chegamos ao final do décimo terceiro dia da Copa do Mundo da Rússia. O maior evento esportivo do planeta. O mundo inteiro só fala disso, o Brasil todo só fala disso, a Copa do Mundo é o maior barato, amigo! Em São Petersburgo, a Argentina bateu a Nigéria por dois a um num jogo dramático decidido só nos últimos minutos e agora, amigo, quem é que segura a Argentina? A França só empatou com a Dinamarca e será a próxima adversária dos nossos hermanos. Mas quem acha que o grande protagonista do dia foi o Messi, está muito enganado. Sabe quem jogou demais hoje, amigo? Ele mesmo, o Lewandowisk. Não, não foi o atacante polonês. Foi o nosso Lewandowisk, o presidente da segunda turma do STF. O que tá jogando esse garoto é uma barbaridade. Ele e seus dois fiéis escudeiros, Toffoli e Gilmar, já estão sendo chamados de trio infernal. Um ataque com a característica do brasileiro, com aquela malandragem, com aquele jeitinho, com aquela ginga, com aquela malemolência que acaba levando todo mundo na conversa. Como é bonito ver o entrosamento dos três, amigo. Eles jogam por música. Olha, tô pra te dizer que a sintonia de pensamento que eles demonstram nem Pelé, Tostão e Jairzinho conseguiram alcançar. E a bola deles rola mais redonda quando perdem o medo, quando perdem inteiramente a vergonha, quando se esquecem do que lhes resta de pudor, quando jogam livres, leves e soltos. Na segunda turma não tem pra ninguém. Pra cima deles, trio infernal!

Hoje a partida deles foi histórica, absolutamente memorável. Uma goleada que deixou até o Fenômeno de boca aberta aqui do meu lado. Os três começaram arquivando as denúncias contra Fernando Capez. Lembra dele, amigo? Aquele deputado do PSDB acusado de lavagem de dinheiro no caso da máfia das merendas do governo paulista. E sabe com quem o irmão do Capez trabalha? Com o nosso Toffoli. Não tô falando, amigo? Esse trio dá nó em pingo d’água. Vai que é sua, Toffoli!

Logo depois os três entraram tabelando na área e confirmaram a libertação do Milton Lyra, aquele lobista do PMDB e grande parceiro do Renan Calheiros. Aquele que o Gilmar, com toda sua costumeira habilidade verborrágica, já tinha mandado mais cedo pro chuveiro quentinho de casa. Logo na sequência, já na saída de bola, eles emendaram de sem-pulo a anulação de todas as provas contra Gleisi Hoffmann e seu marido obtidas pela Polícia Federal. E ainda falaram que a ação da PF tinha sido um ultrage, um absurdo. Eles não são moleza não, amigo!

No segundo tempo vocês acham que eles diminuíram o ritmo? Ao contrário, foi aí que partiram para a goleada. Em apenas quarenta e cinco minutos de partida, os três libertaram João Cláudio Genu, ex-tesoureiro do PP, condenado a mais de oito anos de prisão e fecharam a partida antológica com um golaço, daqueles que merecem ser eternizados em uma placa, ou pelo menos em uma gravação não autorizada: soltaram José Dirceu, o mentor do mensalão, o gurú do PT, o guerreiro do povo brasileiro, o cara condenado a mais de 30 anos de prisão. Que gol foi esse, amigo? Fachin até tentou impedir a goleada mas os três pareciam um rolo compressor, um ataque imparável, e passaram por cima dele como Romário costumava passar pelos zagueiros adversários. Por falar em Romário, o trio infernal já se prepara para, em breve, poder jogar também ao lado do baixinho.

E você, amigo, acredita que eles ainda saíram cabisbaixos depois de uma atuação dessas? É que eles tinham planejado marcar mais um grande gol ainda hoje. Um gol que iria levar à loucura toda a barulhenta torcida rubro-rubra espalhada pelo país. Mas Fachin conseguiu, pelo menos, postergar essa nova partida para agosto, quando o trio infernal promete fazer o possível e o impossível pra marcar o grande gol do ano, desde já forte candidato ao Prêmio Puskas ou, pelo menos, ao Prêmio CUT. Quem viu a atuação deles hoje, amigo, sabe bem do que eles são capazes.

Por hoje é só, amigos da Rede Globo. E, não se esqueçam, amanhã tem Brasil em campo. Bem, na verdade, amanhã tem seleção brasileira em campo, afinal, o Brasil foi o adversário do trio infernal hoje. E, amigo, vai levar muito tempo pra esse povinho se recuperar da surra que levou!

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

O que determina a lei…

- Boa tarde. Sou do Datafolha. Será que o senhor poderia responder a uma pesquisa sobre as próximas eleições?
– Claro. Pode perguntar.
– Em quem o senhor vai votar para presidente?
– No Frederico Amparo de Vasconcelos.
– Quem é esse?
– Meu pai. Tenho certeza de que ele será um ótimo presidente.
– Ele é filiado a algum partido?
– Não.
– Então ele não pode concorrer.
– Por quê?
– É o que determina a lei.
– Bom, então vou votar no Juscelino.
– Que Juscelino?
– Kubitschek, é claro. Político filiado a um partido.
– Mas ele já morreu.
– Tem que estar vivo pra concorrer, né?
– Claro! É o que determina a lei.
– Entendi. Então acho que vou votar no Obama.
– Que Obama? O ex-presidente americano?
– Sim.
– Ele não pode concorrer.
– E por que não?
– Porque ele não é brasileiro.
– Só brasileiros podem concorrer à presidência?
– É o que determina a lei.
– Puxa, vou votar no Nelson Marchezan Júnior então. Gosto dele.
– O prefeito de Porto Alegre?
– Ele mesmo. Ele está vivo, é brasileiro e é filiado a um partido.
– Sim, mas ele também não pode concorrer.
– Por que não?
– Porque o prazo para desincompatibilização já terminou. Ele teria que ter se afastado do cargo que ocupa.
– Sério?
– É o que determina a lei.
– Puxa, estou sem opções. Não sei em quem vou votar.
– Não sabe… anotado. Vou passar para a pesquisa estimulada agora. Em quem o senhor votaria entre os seguintes nomes: Lula, Marina Silv..
– Peraí, o Lula está na lista de candidatos?
– Sim, claro.
– Mas ele está inelegível. Não é o que determina a lei?
– Sim, mas é que o caso dele é diferente.
– Diferente por quê?
– É que o PT insiste que ele será candidato.
– Mas a lei não permite, não é?
– Não, mas eles dizem que vão registrar a candidatura mesmo assim.
– Eles querem eleger um presidente burlando a lei?
– Bem… é que… qual é o nome do seu pai mesmo?

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Doações para grandes causas…

- Alô?
– Alô, bom dia.
– Bom dia. Com quem gostaria de falar?
– O senhor Fernando está?
– Sou eu, quem fala?
– Eu falo em nome da Sociedade Protetora dos Animais. Gostaria de contar com sua contribuição para que possamos evitar que mais um animal seja extinto.
– Puxa, que trabalho bacana. Como eu poderia colaborar?
– Estamos arrecadando qualquer quantia, senhor. O importante é a participação de todos.
– Tenho um grande apreço pela natureza e posso fazer uma doação sim.
– Agradecemos muito, senhor. Vou anotar os seus dados.
– Perfeitamente, mas antes gostaria de saber mais detalhes. Qual é o animal que está em vias de extinção?
– O tigre de dentes de sabre.
– Acho que deve estar havendo algum engano. O tigre de dentes de sabre está extinto há milhares de anos.
– De forma alguma, senhor. Está vivo e em plena atividade. Mas restam poucos espécimes.
– Minha filha, eu não sou especialista na área, mas você não está se referindo ao tigre errado?
– Não, senhor. É o tigre de dentes de sabre mesmo.
– Bom, não sei se isso é alguma pegadinha mas não tenho nenhum interesse em colaborar com a sua campanha.
– Mas, senhor, por qual motivo?
– Porque não há nada que vocês possam fazer pela espécie. Ela já não existe há muito tempo.
– Onde o senhor leu essa informação?
– Em livros e revistas científicas, em museus, e em vários outros lugares. Aliás, enquanto falávamos aqui dei uma olhada no Google. O tigre está extinto há mais de dez mil anos.
– Não se deixe enganar pelos livros científicos e museus, senhor. Eles são controlados pelo imperialismo americano e querem apenas garantir que o tigre de dentes de sabre seja mesmo extinto. E quanto ao Google, eles só divulgam o que é do interesse imperialista, todo mundo sabe disso.
– Acho que você deve ter bebido. Por que alguém iria querer deliberadamente acabar com uma espécie de tigre, e ainda por cima mentir sobre a sua extinção?
– Os interesses imperialistas são muito abrangentes, senhor. Eles não conhecem limites.
– Seja como for, não me interessa. Não vou dar dinheiro para uma causa totalmente perdida.
– Lamento mas compreendo, senhor. Talvez o senhor queira nos ajudar em uma outra campanha de arrecadação.
– Se for para evitar a extinção dos dinossauros também estou fora.
– Não, senhor. Estamos arrecadando fundos para a campanha presidencial do Lula. O lançamento aconteceu na última sexta-feira e foi um enorme sucesso. Dilma, Gleisi, Lindberg estavam lá e… alô, senhor? Senhor?

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

A justiça de cada um…

Nada mais justo que os caminhoneiros tenham acesso a um combustível mais barato, a valores de pedágio reduzidos, a preços mínimos de frete que cubram suas despesas.

Nada mais justo que alguém que já sustentava sua família aos 15 anos de idade, tenha direito a uma aposentaria integral após 35 anos ininterruptos de trabalho.

Nada mais justo que funcionários públicos concursados tenham estabilidade garantida, bônus cumulativos e valores de aposentadoria diferenciados, pois assim previa a legislação quando contratados.

Nada mais justo que grandes empresas, responsáveis pela geração de milhares de empregos, recebam subsídios para desenvolverem suas atividades com maior segurança.

Nada mais justo que empresas estatais controladas pela União possam ser usadas para controle de preços que venham a beneficiar a população.

Nada mais justo que alunos negros e pardos tenham acesso a cotas em universidades públicas, uma vez que não tiveram isonomia de oportunidades no ensino básico.

Nada mais justo que estudantes usufruam de transporte gratuito para que possam se locomover com facilidade e, assim, diminuir a evasão escolar.

Nada mais justo que dívidas de grandes empresas sejam perdoadas ou flexibilizadas pela União de forma a garantir sua viabilidade financeira e os empregos que delas dependem.

Nada mais justo que moradores de rua invadam imóveis desocupados uma vez que o Estado não é capaz de lhes propiciar moradias com um mínimo de dignidade.

Nada mais justo que médicos cobrem de seus pacientes valores complementares aos seus convênios, pois as cifras pagas por estes não são capazes de cobrir sequer os custos dos profissionais.

Todos os fatos e hipóteses descritos acima, assim como outros tantos, são absolutamente justos. E quanto mais de perto analisarmos qualquer situação, mais justa uma determinada reivindicação irá nos parecer. E essa é justamente a grande distorção que os brasileiros se recusam a avaliar. Poucos se dispõem a fazer uma leitura mais ampla, a olhar com distanciamento para o grande quadro chamado Brasil. Poucos se dispõem a tentar entender que um subsídio pontual, um privilégio concedido, uma exceção às normas vigentes irão gerar, inevitavelmente, impactos e consequências em diversas outras áreas. Poucos se dispõem a reivindicar benefícios abrangentes a todos os setores e classes que compõem a nossa sociedade.

A verdade é que, por aqui, todos buscam soluções para os seus problemas individuais e se lixam para os problemas dos outros. Como se as pretensões dos demais compatriotas, igualmente justas, tivessem menor importância. Como se todas as ações governamentais não estivessem interligadas. Uma população com uma cultura assistencialista arraigada, que espera sempre pela iniciativa do Estado para que seus anseios sejam atendidos. Com uma classe política que, reflexo da sociedade, faz do populismo sua plataforma básica de atuação cotidiana. Com uma classe empresarial dividida entre aqueles que se acostumaram às benesses concedidas pelo governo e aqueles que emprestam todos os seus esforços na manutenção de seus negócios e dos empregos que geram. E estes últimos ainda sofrem uma campanha tacanha que costuma demonizar qualquer iniciativa de empreendedorismo e disseminar a falácia de que empregados e patrões trabalham em campos opostos, como se o crescimento de um não dependesse do sucesso do outro.

Difícil imaginar qual será o primeiro passo para que o Brasil possa sair da grave situação em que se encontra. Mas sei que qualquer mudança de patamar como país deve ser obrigatoriamente precedida de uma mudança de mentalidade de sua população ou, pelo menos, da maior parte dela. Não podemos mais conviver com tantas justas situações pontuais capazes de provocar tamanha injustiça generalizada. E, enquanto não percebermos essa distorção, cada brasileiro continuará a clamar por justiça. A justiça de cada um. Só a justiça de cada um!

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Quando a gente pensa que não tem como piorar…

- Próxima.
– Boa noite. Vim para a audição.
– Veio e já pode voltar.
– Mas vocês não vão sequer me ouvir? Eu tenho muita experiência e sou uma excelente cantora.
– Minha filha, se a gente estivesse procurando uma grande cantora a vaga já estaria preenchida há tempos.
– Deve estar havendo algum engano. Vocês não estão precisando de uma cantora e atriz para um musical sobre Dona Ivone Lara?
– Exatamente.
– E não vão me ouvir?
– Não.
– E por que não?
– Você sabia que Dona Ivone era negra?
– Claro que eu sabia, assim como eu.
– Aí é que está o problema, filhinha. Ela não era negra como você.
– Como assim?
– Vocês estão muito distantes na nossa TOC.
– Que diabos é isso?
– TOC? Ora, Tabela Oficial de Colorismo.
– Continuo não entendendo nada…
– Vou tentar ser mais clara. Se você e D. Ivone fossem madeiras, ela seria um Jacarandá e você no máximo um Ipê. Se vocês fossem granitos, ela seria um São Gabriel e você no máximo um Marrom Imperial. Se vocês fossem frutas, ela seria uma jabuticaba e você no máximo um kiwi. Se vocês…
– Estou confusa, você está falando de tons de pele?
– Claro, minha filha. Como eu estava tentando lhe dizer, na nossa TOC você é no máximo um seis e D. Ivone ficava entre oito e nove. Resumindo, mesmo sendo negra, você é muito mais clara do que ela.
– Não estou acreditando. Vocês estão dando mais importância ao tom da pele negra do que à capacidade artística das pessoas?
– Claro. Não podemos errar na escolha.
– Isso é um absurdo! Vocês já estão errando na escolha! Quem está fazendo essa exigência imbecil?
– Os movimentos negros. Eles inclusive já conseguiram retirar a cantora que havia sido escolhida pelo diretor. E olha que ela era mais negra do que você.
– Os movimentos negros? Tem gente negra discriminando gente negra no Brasil?
– Só nos últimos 500 anos…

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Motivações do liberalismo…

Nunca tivemos um presidente verdadeiramente liberal. Ainda que o governo FHC tenha ficado marcado pela pecha do neoliberalismo, palavra que a esquerda brasileira conseguiu transformar em sinônimo de entreguismo, a verdade é que seu governo jamais abraçou as ideias econômicas liberais de uma forma mais abrangente. Mesmo com privatizações em áreas importantes, com destaque para a Vale e a Telebrás, diversas outras empresas públicas, deficitárias e ineficientes, não tiveram seus processos de privatização sequer cogitados. As reformas tributária e da previdência, fundamentais para a adequação dos gastos públicos, foram postergadas ou feitas parcialmente, mantendo-se os privilégios e distorções. A carga tributária do país saltou de 29% para 36% do PIB, em movimento contrário à doutrina liberal. Apesar de ter criado instrumentos fundamentais para a modernização da gestão pública, principalmente a Lei de Responsabilidade Fiscal, o governo FHC levou anos para adotar o câmbio flutuante, completando o tripé econômico que já contava com as metas de inflação e de superávit fiscal. Tripé este que deu credibilidade e solidez à economia brasileira, até ser completamente destruído no governo Dilma Rousseff.

De lá para cá, temos convivido com governos cada vez mais irresponsáveis, que gastam sistematicamente mais do que arrecadam, que usam as estatais como moeda de troca para apoio de sua base aliada, como cabides de emprego para seus apadrinhados e como fonte de recursos ilícitos oriundos de licitações fraudulentas e corrupção generalizada. Governos populistas que se preocupam apenas em manter e ampliar seus currais eleitorais, através de políticas públicas que não têm como objetivo o desenvolvimento da nação e a capacitação intelectual de seu cidadão. Governos que concedem subsídios aos setores que lhe trazem contrapartidas espúrias, e que repassam o ônus dos frequentes rombos para o restante da sociedade. Governos que têm que lidar com um congresso cada vez mais omisso, corrupto e alheio aos interesses do país, e que aprova leis e matérias não por necessidade ou ideologia, mas sim quando é literalmente comprado através de cargos públicos, postos comissionados, verbas de gabinete e propinas cada vez mais vultosas.

Infelizmente, esse é o retrato do Brasil desde sempre. Chegamos, pois, a uma encruzilhada. Ou realmente mudamos de rota a partir do ano que vem, ou sucumbiremos. O caminho que estamos trilhando leva inevitavelmente ao abismo. Cabe a cada um de nós, portanto, a responsabilidade pela busca de representantes que entendam o cenário caótico em que estamos inseridos, e que tenham ideias e conceitos modernos, pragmáticos e factíveis. Que entendam que nenhum programa de assistência social será melhor do que um emprego estável, que nenhuma lei de cotas será mais eficaz do que uma educação básica de qualidade disponível a todas as crianças e jovens, que nenhum sistema de reajuste salarial será mais apropriado do que uma economia com inflação baixa e contas públicas equilibradas, que nenhum subsídio pontual será mais justo do que uma menor carga tributária sobre todos os setores produtivos, que nenhum programa popular de crédito automotivo irá substituir um sistema de transporte público diversificado e eficiente, que nenhum médico cubano será mais benéfico do que saneamento básico disponível a todos, que nenhuma mensalidade de seguro desemprego será mais valiosa do que um ambiente propício à inovação e ao empreendedorismo.

É hora de entendermos de uma vez por todas que, quanto maior for o tamanho do Estado, menor será a sua capacidade de prover educação, saúde, bem-estar e segurança. É com essa lista de prioridades que qualquer governo deveria trabalhar. É hora também de assumirmos nosso protagonismo, afinal, qualquer recurso que o Estado vier a dispor estará diretamente ligado a tudo que nós, cidadãos, conseguirmos produzir. Não existe fórmula mágica, não existe almoço grátis, e não existe programa social, por mais bem intencionado que seja, que se mantenha sem a geração de riquezas. Qualquer político que propague tais ideias não está sendo somente populista, está mentindo descaradamente.

Considerações e observações feitas, não consigo enxergar um caminho diferente do liberalismo para o Brasil. E por que o liberalismo? Antes de tudo por se tratar de uma linha de pensamento que tem como premissas básicas a liberdade do indivíduo, a identidade do cidadão, a igualdade entre os povos, a tolerância e a isonomia de oportunidades. Por se tratar também de uma corrente ideológica tão singular que sua vertente econômica é sempre relacionada ao pensamento de direita, ao passo que sua vertente comportamental é normalmente abraçada pelos defensores da esquerda. Exatamente em virtude dessa dualidade, muitos consideram o liberalismo oposto ao conservadorismo. Na minha visão, este papel cabe apenas ao totalitarismo.

Durante muitos anos, a esquerda deturpou o pensamento liberal acusando-o de interesseiro, egoísta, indiferente aos pobres e radicalmente contrário à ação social do Estado. Na verdade, nenhuma ideologia econômica produziu tantas riquezas e retirou tanta gente da pobreza quanto o liberalismo. Está na hora de contarmos com orgulho essa história de sucesso. Mais importante ainda, está na hora de escrevermos o seu próximo capítulo, agora em tons verde e amarelo. Que possamos encontrar candidatos, em todos os níveis, que representem e defendam esses anseios!

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

O liberalismo é a única saída…

Não consigo prever qual será o legado da grande crise que estamos vivendo. Tenho lido comentários os mais diversos, quase todos fortemente contaminados pelo viés ideológico de seus autores. De uma forma absolutamente simplista e leviana, direita e esquerda apontam seus respectivos culpados e se satisfazem com suas conclusões. Nada mais triste. Não há legado em uma discussão tão rasa, apenas a continuidade de um sistema vigente há décadas. Sistema que, pela primeira vez, recebe uma contestação forte o suficiente para que se inicie uma discussão bem mais aprofundada por parte de toda a sociedade brasileira. E essa discussão, essa esperança, essa faísca que agora se acende são, na minha opinião, as grandes oportunidades que temos para alterar paradigmas e mudarmos verdadeiramente os rumos do Brasil.

Uma análise profunda sobre o caos que tomou conta do país deve levar em conta vários aspectos, desde os comportamentais e sociológicos até os históricos e econômicos. Apesar de me incomodar imensamente, não vou tentar encontrar razões que expliquem a quase incontrolável tendência do brasileiro em levar vantagem sobre os outros. Essa “cultura do mais esperto” só será superada daqui a muitas gerações, dependendo do que viermos a fazer com a nossa educação daqui por diante. Vou procurar me ater, neste texto, aos aspectos que considero mais factíveis e importantes a curto prazo.

Algumas observações referentes à mencionada “cultura do mais esperto”, entretanto, estão diretamente ligadas às oportunidades prementes que não podem ser perdidas. Afinal, aproveitando-se da situação, muitos estão transformando fatos condenáveis em falsos exemplos do livre mercado, levando inúmeras pessoas, por ingenuidade, a acreditarem que a presença mais forte do Estado é a solução para todos os problemas do país. Esse conceito não poderia ser mais danoso. Há alguns dias, políticos e pessoas mal intencionadas tomaram um posto que dobrou o preço de seus combustíveis neste momento de desabastecimento como exemplo do funcionamento de uma economia liberal. Assim funciona o capitalismo selvagem, disseram eles. Na verdade, todos os envolvidos não passam de “espertos” buscando se aproveitar de um cenário caótico para conseguirem seus torpes objetivos. O empresário quer simplesmente arrecadar muito mais às custas do desespero dos consumidores. Os políticos, por sua vez, buscam recrutar mais e mais ingênuos aliados na disseminação de suas ideias intencionalmente deturpadas.

É fundamental que os brasileiros percebam que tal fato nada tem a ver com o livre mercado. Na verdade, trata-se do exemplo mais próximo do socialismo que vivenciamos nos últimos tempos. Somos um país refém de um único modal de transporte, refém de uma única empresa petrolífera que não tem que se preocupar com concorrentes e refém de um Estado cada vez mais corrupto e ineficiente que encontrou no aumento constante e indiscriminado dos impostos a sua única forma de autossustentação. Agora percebemos que somos também reféns de uma única categoria, com poder de interromper inteiramente o fornecimento de alimentos, produtos e combustíveis, de parar o país e, assim, de escancarar a fraqueza e a incompetência de seus líderes. O que estamos vivenciando hoje é, literalmente, o OPOSTO do liberalismo. Enquanto não entendermos isso, não teremos a menor chance de nos tornarmos uma nação mais competitiva, mais próspera e mais justa.

Perguntam-me se sou a favor ou contra a greve dos caminhoneiros. Depende de qual greve estamos falando. Sou inteiramente a favor da greve de uma classe que trafega em estradas mal conservadas, que paga caro por um combustível de qualidade duvidosa, que busca a redução da absurda carga tributária incidente em todos os produtos e em todos os processos produtivos vigentes no Brasil, que enfrenta a concorrência desleal de empresas amparadas pelas benesses concedidas por um governo que sabe muito bem a quem concedê-las. Mas sou contra a greve de uma classe que engloba pessoas bem mais influentes e poderosas do que os bravos caminhoneiros que rodam pelo país. Uma classe que, assim como tem feito ao longo de décadas, mantém seu lobby cada vez mais ativo e consegue, dessa forma, os subsídios específicos que são arcados pelos demais setores da sociedade civil, as reduções de impostos incidentes exclusivamente sobre a sua atividade, em detrimento de todas as outras, a manutenção de um modal de transporte único em um país continental, com enorme potencial para criação e ampliação de malhas ferroviárias e fluviais.

É exatamente aqui que precisamos estar atentos. Queremos lutar por liberdade ou por privilégios? Por igualdade de direitos e oportunidades ou pela manutenção de um sistema em que muitos pagam pelas regalias de poucos? Por uma economia verdadeiramente liberal ou por um socialismo travestido de capitalismo selvagem? Pela manutenção de um Estado grande, caro e incompetente ou pela redução generalizada da carga tributária do país, o que, na prática, tornaria impossível o velho patrocínio da ineficiência? Por mais uma corriqueira greve pontual ou pela alteração definitiva dos protagonistas da sociedade brasileira?

Que o legado desta imensa crise seja, acima de tudo, uma nova visão sobre o país e sobre os caminhos a serem trilhados. Que tenhamos consciência do poder que temos como sociedade, mesmo diante de um Estado opressor, centralizador e extremamente acomodado. Enfim, que não nos falte o desejo de mudança e, principalmente, a certeza de que qualquer alteração de rumo depende exclusivamente de cada um de nós!

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Acho que já me acostumei…

IMG_8015 (2)

Acho que já me acostumei com a sua ausência. Há muito não tenho mais ímpetos de lhe contar as novidades, de lhe mostrar os novos desenhos do Guilherme, de comentar detalhes do roteiro fabuloso que o Arthur está escrevendo. Há muito não preciso mais reprimir minhas lágrimas ao falar de você, ao vê-la nos inúmeros vídeos felizes que tenho em casa, ao ouvir o som da sua risada contagiante. Há muito perdi o hábito de dividir com você minhas preocupações, minhas aflições, minhas dificuldades. O mesmo vale para as minhas alegrias, minhas viagens, minhas conquistas. Há muito não me vejo mais deitado no seu colo, não reconheço mais minha mão entrelaçada à sua, não espero mais pelo seu beijo a cada vez que me preparo para sair. Acho que já me acostumei com a sua ausência…

O Guilherme está cada vez mais criativo, mãe. Está mais independente, mais espontâneo e ainda mais perspicaz. Temos tido trabalho em controlar sua agressividade mas é uma delícia acompanhar o desenvolvimento de sua índole extraordinariamente honesta e verdadeira. Ele fala muito de você quase todas as noites. Mas acho que já se acostumou com a sua ausência…

Já o Arthur está naquele momento difícil de escolha dos seus caminhos. Ele não tem dúvidas de que quer mesmo cursar cinema mas são tantas decisões a serem tomadas, tantas novas posturas que ele deverá adotar se quiser ver sua vocação materializada. Ele sempre ressalta o seu exemplo de mãe que apoiou incondicionalmente os sonhos dos seus filhos. Mas acho que também já se acostumou com a sua ausência…

Eu e a Dani estamos muito bem, embora já tenhamos percebido que a nossa linda juventude faz parte do passado. Ela está fazendo exames para uma cirurgia de vesícula e eu entrei pela primeira vez em um equipamento de ressonância para avaliação de um persistente incômodo no quadril. Nada sério, não se preocupe. É inevitável lembrarmos do quanto você fazia questão de nos acompanhar em cada consulta. Mas acho que já nos acostumamos com a sua ausência…

A situação do país não mudou muito, mãe. Continuamos sendo governados por bandidos e as perspectivas futuras não são muito alvissareiras. Mesmo assim continuo tentando fazer a minha parte, trabalhando, correndo atrás de novas obras e novos desafios. Não me esqueço da força da sua fé e das suas orações para que meus caminhos fossem mais suaves, para que todos os nós fossem desatados. Mas acho que já me acostumei com a sua ausência…

Voltamos a Paris há pouco mais de duas semanas. Levei a Dani naquela ponte próxima ao Petit Palais, lembra? Mostrei a ela o banco onde você ficou sentada naquela tarde linda e fria enquanto aguardávamos o por do sol. Fomos também a Giverny e a Dani não parava de me lembrar o quanto você teria enlouquecido nos jardins de Monet. Sei que você iria querer reproduzir todas aquelas cores nos canteiros do Canto. Mas acho que já me acostumei com a sua ausência…

Hoje vamos comemorar mais um Dia das Mães. Já é o quarto que passamos sem você. Incrível como o tempo realmente voa. Graças a ele acho que já me acostumei com a sua ausência. Meus olhos úmidos parecem me dizer o contrário, eu sei. Não ligue pra eles, mãe. Talvez eles não consigam se acostumar tão rapidamente quanto eu. Talvez eles não sejam tão fortes. Mas um dia ainda vou conseguir ensiná-los a se acostumar. Acho que eles não sabem que nem é tão difícil assim. Que não é tão difícil se acostumar. Não se preocupe, mãe, meus olhos vão aprender mais cedo ou mais tarde. Afinal, eu já me acostumei, não é? Sim, eu acho que já me acostumei…

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Tanto a dizer…

20170603_174243A

O que falar de alguém que inspira as pessoas a buscarem seus sonhos? Alguém tão seguro dos seus objetivos que faz com que suas escolhas pareçam fáceis, quando, na verdade, foram sempre mais difíceis. Afinal, quantos sonhos se perdem ao longo dos anos? Quantos talentos são frustrados por falta de oportunidades, de incentivo, de autoconfiança? Quantas vezes o pragmatismo prevalece sobre as vocações mais evidentes?

O que falar de alguém que ama tanto o que faz, que contagia a todos com esse amor? Não apenas o público que o assiste mas, principalmente, aqueles que partilham de sua missão de transformar música em emoções. Alguém que conseguiu compreender que a música é a arte de tocar os corações das pessoas. E é assim que cada coração se sente ao vê-lo no palco: tocado, conduzido, arrebatado.

O que falar de alguém que não se satisfaz apenas com seu imenso talento? Alguém que procura melhorar a cada dia, que estuda incessantemente, que está sempre em busca de novos e desafiadores objetivos. Alguém que sabe liderar sem perder a humildade, que valoriza, que incentiva, que cativa e que, exatamente por isso, é sempre respeitado.

O que falar de alguém que transborda generosidade? Alguém que recebeu como herança direta o sorriso franco, o abraço acolhedor, o dom de multiplicar amigos e admiradores, sem qualquer tipo de distinção. Alguém que só poderia ter vindo ao mundo em uma família formada por seres raros, iluminados, que souberam transmitir a ele toda a sabedoria que sempre possuíram.

O que falar de alguém que consegue passar aos meus filhos, desde pequenos, o conceito de arte? Não apenas a definição teórica e abstrata, mas a vivência prática, os sentimentos que, através dela, são despertados, o bálsamo que acompanha sua descoberta. Por causa dele, a arte sempre fez parte de suas vidas.

O que falar de alguém assim? O que dizer a ele hoje, no seu aniversário? Nada do que eu disser será suficiente. Nada do que eu disser será capaz de mostrar a dimensão do meu orgulho, da minha gratidão, da minha admiração e do meu amor. Por isso, excepcionalmente hoje, decidi que não vou dizer nada. Feliz aniversário, meu irmão!

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário