Clientes difíceis…

- Netflix, bom dia.
– Bom dia. Eu gostaria de reativar a minha conta.
– Pois não. O senhor se lembra do seu código do usuário?
– Sim… é 1350.
– Ah, já localizei a sua conta aqui. Vou providenciar sua reativação em poucos minutos.
– Ótimo, mas eu tenho um pedido a fazer antes.
– Perfeitamente, sou toda ouvidos.
– Eu quero reativar só a parte boa.
– Acho que não entendi, senhor.
– Só a parte boa da Netflix, aquela engajada, empoderada, guerreira e que só divulga a verdade.
– Senhor, somos uma empresa de streaming de filmes e séries, não um órgão de imprensa.
– Se a Netflix fosse um órgão de imprensa não teria nenhuma parte boa… a não ser que o Glenn fosse o editor, claro.
– O que eu quero dizer é que nosso compromisso é com o entretenimento de qualidade, não com a “divulgação da verdade”.
– Por isso é que eu quero de volta só a parte do entretenimento de qualidade que retrata a realidade do Brasil e do mundo.
– Senhor, não temos como separar conteúdos. São milhares de filmes, séries, shows e documentários à sua disposição. O senhor só assiste ao que quiser.
– Minha filha, eu não quero abrir a tela inicial e correr o risco de dar de cara com uma chamada de “O Jardim das Aflições”, “O Mecanismo” ou outro arsenal de mentiras patrocinado pela elite cis-branca-golpista-patriarcal deste país.
– Todos os filmes são ficcionais, senhor. Mesmo os documentários são produzidos segundo a perspectiva do diretor. O que é verdade para um pode não ser para o outro.
– Com essa conversinha já senti que você é simpatizante dos golpistas. Aposto que não gostou da aula de história que a Petra Costa deu em “Democracia em Vertigem”.
– Ainda não assisti a nenhum desses que o senhor mencionou. Além do mais não sou crítica de cinema. Minha função aqui é ouvi-lo e saber se o senhor irá ou não reativar a sua assinatura.
– Não vou reativar de jeito nenhum. Fiz bem demais em ter cancelado. Assisto quando o documentário chegar no Mídia Ninja ou no Catraca Livre. Passar bem!

- Netflix, bom dia.
– Bom dia o cacete. Eu quero cancelar minha assinatura agora mesmo. Que merda de empresa é esta?
– Qual é o problema, senhor?
– Este monte de mentiras sobre o impeachment da Dilma travestido de documentário. Como é que vocês têm coragem de disponibilizar um absurdo desses pros seus assinantes? Que vergonha. Vocês são um bando de esquerdopatas, petistas enrustidos, comunistas-caviar. Eu quero que vocês morram.
– Estou quase a ponto de atender ao seu pedido, senhor.
– Ainda por cima é engraçadinha. Quero cancelar minha assinatura agora!
– Em situações normais eu seguiria o protocolo e insistiria para que o senhor não o fizesse. Mas hoje meu dia não está permitindo estripulias. Por favor, qual é o seu código do usuário?
– 1717…

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Amigos…

20190628_100728

À primeira vista, alguns podem até nos tomar por uma turma de colegas que se reúne esporadicamente. Outros mais atentos, já de imediato conseguem perceber a verdadeira amizade envolvida. Entretanto, nem mesmo aqueles que apostam que somos irmãos de uma vida toda são capazes de mensurar o amor que nos une. A cada ano juntos, a cada novo encontro, a cada nova viagem, compreendemos o quanto cada um é fundamental na vida do outro. O quanto cada conversa vem acompanhada de uma admiração mútua, o quanto cada brinde traduz o sentimento de que a alegria de um é a alegria de todos, o quanto cada gargalhada sintetiza a autenticidade de um convívio leve e, ao mesmo tempo, absolutamente profundo.

Neste feriado inesquecível, o que ficou evidente é que também os filhos de um são filhos de todos. Porque foi assim que o filho se sentiu. Ele reconheceu o amor de pai e mãe nos olhos de cada um. E é assim que todos os nossos filhos se sentem. É com este exemplo de amizade que eles crescem, cientes da importância de um amigo, certos de que amizade é ainda melhor quando é cuidada, cultivada, nutrida.

Neste feriado inesquecível, o filho teve pais e mães que o levaram para cavalgar, para desbravar trilhas e escalar montanhas, para lhe mostrar pássaros, árvores e estrelas de uma forma que ele nunca vira até então. Pais e mães que o acompanharam nas mais diferentes brincadeiras, que cuidaram para que ele não se sentisse solitário, que deixaram de descansar para que ele não reclamasse de tédio, que cuidaram das suas alergias e joelhos ralados, que o ouviram com toda atenção e disponibilidade. Este é o tipo de carinho que sintetiza a amizade que vivenciamos. É o retrato do que somos quando estamos juntos.

Ao final deste feriado inesquecível, enquanto o filho ainda absorve todas as inúmeras lições de amizade recebidas, eu apenas tento encontrar palavras que possam demonstrar a minha gratidão. Não há como encontrá-las e, claro, obrigado é muito pouco. Amo vocês, meus amigos queridos!

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Interpretações imorais…

- Oi, amor. Vamos almoçar?
– É melhor você não falar nada, Serginho. Eu descobri tudo.
– Que isso, amor? Do que você está falando?
– Eu sempre desconfiei de você, Serginho. Essa sua carinha de santo nunca me enganou.
– Mas, Marina, eu não fiz nada.
– Nada? Tem certeza? Você tem coragem de dizer que não conhece nenhuma Zara?
– Zara? Não, não conheço.
– Você é muito cara de pau! Eu já sei de tudo, Serginho. Contratei um detetive que hackeou seu celular. Tenho as primeiras mensagens transcritas aqui comigo. E isso é só o começo. Ele ainda vai me mandar muitas mais.
– Você enlouqueceu? Era só me pedir que eu te mostrava minhas mensagens. Não fiz nada de errado e não conheço nenhuma Zara.
– Você não me engana, seu monstro. Tenho a conversa em que você fala dela e de outras pro Renan.
– Que Renan? O que foi meu colega de escritório? Nunca falei de outra coisa com ele a não ser de trabalho. Além do mais já disse que não conheço nenhuma Zara.
– Ah é? Que tal esse trecho aqui?
“Renan, não sei mais o que eu faço. Zara está me deixando louco. Não tô dando conta.”
“Sério? Um mês atrás parecia que não iria dar em nada.”
“O mundo dá voltas.”
“Cuidado pra não atrapalhar seu relacionamento com as outras.”
“Pois é. Como se pudesse me cobrar exclusividade. Não está nem me sobrando tempo pra Marisa.”
– Peraí, Marina. Acho que você realmente enlouqueceu. Eu só estou falando de trabalho aí.
– Trabalho, seu cara de pau?
– Sim, eu era representante comercial até três anos atrás, lembra? Zara é uma rede de lojas.
– E onde é que eu entro na história pra você dizer que não tinha tempo pra mim?
– Desde quando você se chama Marisa?
– É claro que isso foi um erro de digitação, não é, Serginho?
– Marisa é outra rede de lojas, meu amor. Eu vendia pras duas, além de outras mais. Não acredito que você duvidou de mim por causa disso.
– Ah, é? E como você me explica essa parte que vem em seguida?
“Apesar de todas as cobranças e do ciúme eu sou louco por ela.”
“Eu sei. É que o coração não foi feito pra pensar. Também já passei por isso.”
– Tava falando de loja também, Serginho?
– Claro que não. Mas essa conversa eu tive com a minha mãe e há menos de um mês. Não tem nada a ver com a outra. Aliás, eu estava falando de você. Esse hacker que você arrumou tá fazendo tudo parecer errado.
– Conta outra, Serginho.
– Duvida? Confere as datas e os horários pra ver se batem. Esse cara tá colocando as mensagens na ordem que ele quer e você tá caindo na manipulação dele.
– Puxa, meu amor, é verdade, me perdoa.
– Vamos esquecer isso, Marina. Tenho que ir agora. Perdi até o apetite.

- Boa noite, amor. Tá mais calma agora?
– Some daqui, seu canalha.
– Pelo amor de Deus, o que foi desta vez?
– Nunca imaginei que você fosse gay, Serginho!
– Gay, eu?
– Eu descobri tudo e quero o divórcio. Você pode ser feliz com o seu Ermenegildo Zegna!

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Pássaros…

images.jpeg

Jatinga, uma pequena vila com apenas 2500 habitantes localizada no leste da Índia, é palco de um curioso fenômeno todos os anos. Entre os meses de setembro e outubro, a cada entardecer, milhares de pássaros de mais de 40 espécies simplesmente mergulham em direção às luzes e construções da cidade em um verdadeiro suicídio coletivo. Muitos cientistas têm apontado teorias ao longo dos anos, mas nenhum deles até agora chegou a uma conclusão definitiva. Alguns culpam a combinação de altitude, ventos fortes e neblina. Outros apontam as luzes da cidade como a provável causa do problema e uns poucos cientistas ainda consideram possível que a água do local pode ser a responsável pela desorientação das aves. Seja qual for a causa, todos concordam em um ponto: nem todos os pássaros se desorientam a ponto de mergulharem deliberadamente para a morte. A maioria deles apenas segue os líderes do bando e, quando percebem, é tarde demais para se evitar a catástrofe. A maioria simplesmente segue acéfala, cega, incompetente para tomar suas próprias decisões, incapaz de questionar aqueles líderes igualmente acéfalos, igualmente cegos, cujas obtusas condutas só levam ao desastre coletivo.

Não sei por que mas me lembrei desses pássaros estúpidos hoje…

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Muito barulho por nada…

Não estava nos meus planos me manifestar sobre o polêmico caso das mensagens hackeadas, mas tenho lido tantos textos rasos e simplistas (com raras e honrosas exceções) que resolvi deixar de lado os memes e as opiniões alheias para ler a reportagem completa publicada há três dias no site “The Intercept Brasil”. E aqui vão as minhas observações. Para quem não a leu, a reportagem se divide em quatro partes. A primeira é uma espécie de editorial autopromocional intitulado “Como e por que o Intercept está publicando chats privados sobre a Lava Jato e Sérgio Moro”. Há muito o que se comentar sobre essa introdução mas vou deixar para fazê-lo ao final das minhas ponderações.

A segunda e a terceira partes, cujos respectivos títulos são “Procuradores da Lava Jato tramaram em segredo para impedir entrevista de Lula antes das eleições por medo de que ajudasse a eleger o Haddad” e “Deltan Dallagnol duvidava das provas contra Lula e de propina da Petrobras horas antes da denúncia do tríplex”, mostram trechos de mensagens trocadas entre os próprios procuradores. Por mais parciais, tendenciosos e sensacionalistas que sejam os títulos, não há nas mensagens um único indício de que algo ilícito ou antiético tenha ocorrido. Os procuradores apenas trocaram opiniões, pontos de vista e estratégias de apresentação das denúncias. Não há evidências de “trama” alguma na segunda parte, no máximo indignação e revolta. Não há evidências de dúvida quanto “às provas contra Lula” na terceira, apenas cautela para que cada ponto da denúncia estivesse efetivamente caucado em fatos. Sim, as mensagens deixam muito claro que eles detestam Lula e o PT. Sim, eles têm convicção de que Lula e o PT são um desastre para o país. Mas não há uma única falsa evidência plantada, um único depoimento inverídico solicitado, uma única prova de inocência ocultada. Ou seja, não há nada que deponha contra a seriedade dos procuradores. São colegas de uma mesma equipe manifestando suas percepções em um ambiente – assim pensavam – absolutamente privado. Assim como fazem diariamente quase a totalidade dos jornalistas de cada um dos veículos de comunicação deste país. Assim como fazem políticos, magistrados, professores, estudantes e profissionais de todas as áreas quando estão em seus ambientes – repito e enfatizo – privados.

A quarta e última parte da reportagem, a única que efetivamente mostra conversas envolvendo o ex-juiz Sérgio Moro, tem a seguinte chamada: “chats privados revelam colaboração proibida de Sérgio Moro com Deltan Dallagnol na Lava Jato”. E aqui vai uma percepção que tenho não de agora: Sérgio Moro é uma pessoa focada e determinada mas também extremamente vaidosa e competitiva. Ele definitivamente não entra em um jogo para perder. E já mostrou, diversas vezes, que sempre esteve disposto a “ampliar” os limites das suas atribuições como juiz. Entretanto, embora pareça contraditório, não fosse por essa vaidade exacerbada, dificilmente Moro teria tido a coragem de enfrentar as mais poderosas e mais corruptas figuras e corporações do país. Não há amor à pátria puro e simples que justifique tamanho risco. Posto isso, não vi nas conversas divulgadas entre ele e Deltan nada que me parecesse ilícito ou inadequado. Sim, sei perfeitamente que acusador e julgador deveriam se manter distantes mas é público e notório que ambos trabalhavam conjuntamente, tanto que sempre foi consenso entre todos os órgãos de imprensa chamar a ambos de integrantes da força-tarefa da Lava Jato. Também é público e notório que tal distância jamais foi verdadeiramente respeitada no judiciário brasileiro. Mesmo assim, não identifiquei ordens de um que tenham sido seguidas cegamente pelo outro e tampouco submissões tácitas a quaisquer sugestões. Mais uma vez, meras observações feitas em um ambiente privado.

Dizem alguns poucos que tais conversas poderiam levar à nulidade de todas as ações da Lava Jato. Se isso de fato acontecer será o maior retrocesso ocorrido no país desde que Cabral aportou por estas bandas. A Lava Jato conseguiu desmontar o maior esquema de corrupção da história da humanidade. E o fez apresentando provas inquestionáveis, recuperando valores jamais obtidos por nenhuma outra operação policial, levando à cadeia poderosos empresários e políticos até então intocáveis. Além do mais, se tais conversas constituíssem mesmo motivos para a nulidade de todo o processo, quais ministros do STF teriam legitimidade para julgá-lo? Gilmar Mendes e suas conversas mais do que indiscretas com Aécio Neves (legalmente obtidas, diga-se de passagem)? Lewandowski e seu teatro previamente combinado com Renan e o PT no impeachment de Dilma? Marco Aurélio Mello e sua conexão mediúnica com os advogados de Lula, capaz de fazê-los antever sua tresloucada decisão quanto à prisão em segunda instância e impetrarem um complexo pedido de habeas corpus imediatamente após a publicação da liminar? Alexandre de Moraes, Toffoli e suas decisões monocráticas pela volta da censura? Sejamos honestos, exemplos de limites ultrapassados são pródigos no judiciário brasileiro. Lamento apenas que os patriotas hackers não tenham se interessado pelos celulares dessa gente.

No seu editorial de abertura, a reportagem faz críticas ao fato de Moro ter autorizado a divulgação da íntegra dos diálogos do ex-presidente Lula, ao mesmo tempo em que se vangloria pela divulgação atual somente das mensagens “que revelam transgressões ou engodos por parte dos poderosos”. Mais adiante, informa que os envolvidos não foram contatados antes da publicação por receio de que medidas impeditivas fossem tomadas e pelo fato dos documentos “falarem por si”. Termina afirmando que “a transparência é crucial para que o Brasil tenha um entendimento claro do que eles realmente fizeram”.

Pois bem, acho no mínimo curioso que os responsáveis pela reportagem se autoavaliem como éticos e profissionais ao divulgarem mensagens obtidas ilegalmente através da atuação de hackers criminosos. O papel de antiético ficou, nesta deturpada visão, para aquele que autorizou a divulgação de gravações feitas com a devida autorização judicial prévia. Também me causa espanto o fato dos autores da reportagem clamarem por transparência enquanto se promovem às custas de um crime. Se a transparência lhes é realmente tão cara, sugiro que abram eles próprios os sigilos de suas comunicações com os criminosos. Como foram obtidos tais documentos? A que custo? Acho que a transparência neste caso é tão crucial quanto aquela por eles defendida. Por fim, entendo que a bombástica divulgação das mensagens serviu apenas para reforçar a seriedade de uma operação que mudou a história do Brasil. Operação cujos números superlativos – esses sim – falam por si. Serviu também, é claro, para animar os membros da outra turma de criminosos que assaltou os nossos cofres públicos por décadas. Nos tempos de Shakespeare, muito barulho por nada rendia apenas uma ótima história e muitas gargalhadas. Hoje, infelizmente, serve a interesses bem mais soturnos.

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Juntos…

Sento-me finalmente na poltrona do avião que, assim espero, em pouco mais de onze horas estará pousando no Brasil. Vôo de volta, de final de férias, último refúgio antes dos problemas que deverão ser encarados ao longo dos próximos dias.

Meu ânimo já cambaleante começa a desmoronar quando percebo que, no pequeno espaço entre os meus joelhos e as costas da poltrona à minha frente, cabe apenas um exemplar da revista de bordo. E sem o encarte das ofertas do free shop. Bom, agora não cabe mais pois a passageira da frente resolveu reclinar seu encosto antes mesmo da decolagem. Cogito a hipótese de avisá-la dos procedimentos básicos de segurança mas acabo por deixar a tarefa para a aeromoça sorridente mais próxima.

“Pelo menos estou na janela”, penso eu na vã tentativa de me animar, pouco antes de me lembrar de que o vôo é noturno. Ao meu lado está meu filho mais novo, seguido da minha esposa e do meu primogênito, grandes companheiros de uma viagem inesquecível. O avião decola no horário e o jantar – uma pequena porção de massa com o sabor e a textura de um macarrão instantâneo – é servido com a agilidade de um atendente de fast food. Duas taças (codinome simpático que adotei para os copos plásticos) de vinho não são suficientes para me fazer apagar instantaneamente. A saudade dos “pints” de Guinness já bate forte. Restam ainda quase dez horas de vôo e o primeiro filme está quase no fim. O som dos fones de ouvido é até razoável desde que eu não deixe de pressionar constantemente o plug. Depois de um certo tempo, com meu dedo já dormente, resolvo acompanhar o restante do filme apenas pelas legendas. A ausência de som nunca foi problema para os filmes de Chaplin, por que seria para este? Terminado o filme, só me resta tentar dormir, mas meu filho resolve fazer do meu colo seu travesseiro. Agora não tenho como me mover para a frente e nem para os lados e passo a me condenar por ter reclamado dos metrôs nas horas de pico.

Naquele espaço exíguo, reconheço no piso acarpetado a única forma plana horizontal disponível. Estendo um cobertor junto aos meus pés, ajeito com carinho a esponja que eles chamam de travesseiro e deito ali meu filho. Ele acorda e me pergunta se enlouqueci. “Ainda não”, respondo. Tenho agora um filho esticado no chão e uma cadeira vazia ao meu lado. Claro, não tenho mais onde pisar e jogo minhas pernas para a poltrona desocupada. Minha cabeça está recostada na janela e as turbulências do avião embalam meus pesadelos de cinco minutos de duração. Pouco tempo depois, agora são minhas pernas que estão dormentes. Usando os pés, e surpreso com a minha própria destreza, abro a mesa de refeições em frente à poltrona da minha esposa e apoio minhas pernas ali, torcendo para que o fabricante tenha projetado o sistema de dobradiças para pesos bem maiores do que os 250 gramas de cada refeição. As pontas dos meus pés agora estão pra fora do corredor e meus pesadelos passam a durar não mais do que três minutos, espaço máximo de tempo entre um e outro esbarrão de algum passageiro rumo ao banheiro. Por que será que essa gente não dorme?

Minha esposa e meu filho mais velho não têm melhor sorte e passam a noite entre cochilos esparsos, trechos de filmes mudos, membros dormentes e visões de um avião que parece apenas um ponto imóvel na página de um Atlas (quem tiver menos de 40 anos pode procurar informações a respeito no Google). Ah, se o preço da classe executiva fosse apenas o dobro…

Chegamos finalmente ao Brasil. Meu filho pequeno dormiu bem a noite toda. Quem dera tivéssemos todos no máximo um metro e trinta de altura. Já nós três passamos uma noite de cão, compartilhando um sono nada profundo, raso, superficial. Um sono shallow. De repente, juntos e shallow now passou a fazer um sentido danado pra mim…

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

E a maioridade chegou…

20190514_043544

Meu querido, há exatos 18 anos você vinha ao mundo. Há exatos 18 anos você chegava e transformava inteiramente as nossas vidas. Todas as nossas prioridades foram revistas, os nossos sonhos foram alterados e todos os nossos objetivos passaram a incluir você. Agradecendo e tentando conter as nossas expectativas, naquela noite eu deixava registrado, em um cartão entregue à sua mãe assim que ela voltou para o quarto, o que eu e ela entendíamos ser o nosso papel na sua formação:
“Que nós saibamos dar sem esperar nada em troca. Que saibamos respeitar o nosso filho como o ser humano livre e único que ele é. Que possamos orientá-lo sabendo escutar, adverti-lo sabendo perdoar, questioná-lo sabendo confiar. Que sejamos amigos e confidentes sem que percamos a autoridade inerente à condição de pais. Mas que fiquemos atentos para que essa autoridade seja exercida apenas com base no amor. Que não tenhamos expectativas quanto ao caminho dele, exatamente porque o caminho é só dele e de mais ninguém. Que saibamos não cobrar dele a realização dos nossos sonhos, e sim que possamos apoiá-lo na conquista pessoal dos objetivos que ele determinar. Que tenhamos paciência sem perder a firmeza. Que saibamos dizer sim e não com a mesma naturalidade e o mesmo carinho. Que possamos olhar nos olhos dele e sempre conseguir enxergar sua alma. Que sejamos guias, pais, amigos e companheiros e que, como tais, consigamos ajudá-lo a SER. E peço também ao Criador, Dani, em meio a tantas bênçãos, que o nosso filho possa nos perdoar pelos incontáveis erros que iremos cometer ao longo de nossas vidas, mas que, apesar desses erros, ele seja acima de tudo muito feliz”!

Estou ciente de que nem sempre conseguimos alcançar as nossas próprias metas, meu filho. Afinal, assim como previ, erramos bem mais do que gostaríamos. Mas hoje, meu amor, dezoito anos depois, percebo que qualquer expectativa que pudéssemos ter a seu respeito estaria incorreta. Porque nem nos meus sonhos mais otimistas de pai, poderia imaginar ter um ser humano tão espetacular quanto você como filho. Sua elegância, Arthur, sua ética inabalável, sua sede de justiça, sua extraordinária capacidade de discernimento, sua facilidade para expor suas ideias, seu bom senso, sua generosidade, sua coragem para escolher os caminhos certos, sempre mais difíceis, sua doçura, sua inesgotável capacidade de amar. Jamais seríamos capazes de idealizar alguém tão íntegro e tão verdadeiro.

Por isso, hoje só tenho a agradecer. Agradecer a Deus, à Vida, à sua mãe que sempre soube enxergá-lo muito além das aparências, às suas avós que lhe cobriram de amor enquanto estiveram por perto, ao seu avô Doce que sempre percebeu sua alma antiga (assim como a dele), e que tanto contribuiu para a formação do seu caráter, ao seu avô Lauro que tem em você o grande amigo da sua vida, ao seu irmão, tão desejado por você, e que o enxerga como o grande modelo a ser seguido, aos seus padrinhos e seus tios e tias de sangue e de alma que sempre o orientaram nas suas escolhas, aos amigos que você conquistou. Puxa, é tanta gente boa que fez parte da sua vida até agora… Quero agradecer principalmente a você, Arthur, pela oportunidade única de ter nos escolhido como pais, pela honra de sermos seus primeiros guias por aqui, por nos ter permitido aprender tanto com você.

Você já é um homem, meu amor, e os seus desafios estão só começando. Peço a Deus que você tenha sempre serenidade e paz de espírito para superá-los. Que você tenha confiança e perseverança na busca dos seus sonhos e objetivos. E que você jamais se esqueça de que estaremos sempre do seu lado para ajudá-lo em tudo o que precisar. Seja sempre muito feliz. Amo você acima de tudo!

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Uma casa em Londres…

20190511_071331

Eu ainda era praticamente um garoto quando estive aqui pela primeira vez. A primeira vez tanto tempo longe de casa. A primeira vez tendo que me virar sem a tutela dos meus pais. A primeira vez realmente ciente de que teria que arcar com as consequências das minhas próprias decisões. A primeira vez do outro lado do oceano, hoje quase equivalente a uma temporada em Marte. Outros tempos em que a tecnologia da comunicação se restringia a telefonemas ocasionais tão absurdamente caros que o protagonismo das cartas permanecia intocável, principalmente para aqueles detalhes do cotidiano que poderiam perfeitamente aguardar uma ou duas semanas para serem compartilhados.

Eu me lembro como se fosse hoje do dia em que cheguei aqui, do dia em coloquei os pés pela primeira vez nesta casa e senti seu aroma inconfundível. Ainda não sou capaz de descrevê-lo mas, desde então, passei a associá-lo à liberdade, ao desejo de romper barreiras, à ânsia de se descobrir o mundo e, principalmente, ao amor. Porque amor foi o resumo de tudo o que eu vivi nesta casa durante os meses que aqui passei. Marley e Pedro fizeram com que eu, Marius e Silvio percebêssemos as alegrias e as agruras de se lutar pelos seus objetivos e ir em busca dos seus sonhos. E o fizeram com tanta naturalidade e com tanto carinho que esta passou a ser também a nossa casa, e por isso assim a chamo desde então. Talvez nem mesmo eles tenham a noção do quanto estar aqui foi importante para a formação do meu caráter, para a maneira com a qual passei a encarar meus próprios sonhos e objetivos.

Volto aqui depois de tanto tempo para mostrar à casa o que aprendi com ela. Volto para expor a concretização de muitos dos sonhos que aqui acalentei. Volto para dizer à minha família que parte da minha alma sempre estará aqui, como uma horcrux do bem, ligada intrinsicamente a esta casa e a esta cidade. Volto para comemorar o aniversário do meu filho, que se aproxima agora da idade que eu tinha quando aqui cheguei, e que sabe que em breve terá pela frente, na busca dos seus sonhos, outras casas e cidades para também chamar de suas. Volto, principalmente, para agradecer. Agradecer a esta cidade, às pessoas maravilhosas que aqui me receberam e me acompanharam, à Vida. É sempre muito bom voltar pra casa!

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Ópera com sotaque mineiro…

20190420_200451

Não é de hoje que considero a ópera como a mais nobre das manifestações artísticas teatrais. Faço essa colocação sem nenhum menosprezo a qualquer outra, aliás, muito pelo contrário. A ópera é particularmente especial justamente porque é ali que todos os demais gêneros se encontram. E se encontram de uma forma absolutamente harmoniosa, fluida, entrelaçada, evidenciando a relevância de cada um. Em uma produção operística, teatro, música, dança e canto se unem e se multiplicam. Todos são protagonistas. O canto lírico, por exemplo, é sempre mais emocionante em uma ópera pois cada nota cantada está indissociavelmente ligada à carga dramática de seu contexto. Já a orquestra deve ser sempre mais precisa pois a potência de um não pode sobrepujar a delicadeza do outro. A direção cênica de uma ópera é muito mais desafiadora, uma vez que a autenticidade da cena não pode ser perdida em momento algum, mesmo quando as mesmas palavras são repetidas inúmeras vezes, quando a duração do solo musical entre duas falas ocupa um tempo bem maior que o razoável para qualquer diálogo, ou quando coro e solistas cantam simultaneamente inúmeras frases distintas que devem ser inteiramente compreendidas. Iluminação, cenografia e figurinos são igualmente primordiais para que o espetáculo possa levar o espectador aos diversos ambientes propostos, concedendo agilidade e verossimilhança ao conjunto e, consequentemente, à história. E o maestro deve ter consciência de que seu papel, em uma ópera, é muito mais relevante do que apenas reger sua orquestra. Ele é o grande responsável pela justa distribuição de protagonismos. É ele quem deve ser generoso o bastante para permitir que todos brilhem, para que cada um se torne inesquecível. A ópera é, portanto, na minha visão, o mais belo, completo, justo e democrático de todos os gêneros teatrais.

Que bom que, em Belo Horizonte, há hoje tantas pessoas competentes ainda mais apaixonadas por ópera do que eu. O trabalho desenvolvido pela Fundação Clóvis Salgado nos últimos anos é algo realmente impressionante. Uma casa que, mesmo dispondo de recursos financeiros mais escassos a cada ano, tem conseguido produzir títulos com uma qualidade que, sem nenhum exagero, não fica devendo a muitas produções feitas por grandes e famosos teatros de ópera pelo mundo afora. Lucia di Lammermoor em 2015, Romeu e Julieta e O Guarani em 2016, Norma (eleita a melhor produção do ano no Brasil pela crítica especializada) e Porgy and Bess em 2017, La Traviata (também eleita a melhor produção do ano no país) e O Holandês Errante (primeira ópera de Wagner encenada em Minas Gerais) em 2018. Mais do que o número de títulos (que, diga-se de passagem, tinha tudo para ser bem maior caso houvesse maiores recursos disponíveis), o que chama a atenção é a qualidade dos diretores, solistas, cenógrafos, figurinistas e iluminadores que desfilaram seus talentos pelo palco do Grande Teatro nos últimos anos. Chama ainda mais a atenção a competência e o nível de excelência atingido pelo Coral Lírico e pela Orquestra Sinfônica de Minas Gerais, em um trabalho primoroso comandado pelo maestro Silvio Viegas e pela diretora artística Claudia Malta, incansáveis em sua luta pela difusão da cultura em Minas Gerais.

Chegamos em 2019 e a FCS apresenta sua nova produção: O Elixir do Amor, de Gaetano Donizetti. A montagem atual não poderia ser mais surpreendente. O genial (não existe outra palavra para definir esse diretor) Pablo Maritano transporta uma história que originalmente se passa em uma aldeia italiana do século XVIII para dentro de uma escola de ensino médio. E o resultado é absolutamente brilhante. A história flui com naturalidade e a performance cênica e vocal dos solistas é impecável. Carla Cottini e Santiago Martínez estão perfeitos, Homero Velho está impagável como o valentão Belcore, e Homero Pérez-Miranda e Fabíola Protzner completam um elenco afinadíssimo de grandes vozes. O Coral Lírico está sensacional e particularmente inserido entre os alunos da escola. Iluminação, cenários e figurinos totalmente integrados com a proposta completam mais uma produção mágica, deliciosa e imperdível. Claro, a Orquestra Sinfônica de Minas Gerais consegue entregar mais uma performance formidável, conduzida pelas competentes e experientes mãos do maestro Silvio Viegas, sem dúvida um dos melhores regentes de ópera hoje no Brasil. Mais uma vez uma produção mineira feita com talento, criatividade e competência, reforça meu amor por uma arte que está mais viva a cada ano. Que bom, afinal, ópera é bom demais da conta, sô!

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário

Fontes confiáveis…

Uma tarde de fim de semana em um barzinho, daqueles em que as mesas estão tão próximas umas das outras que o responsável pela contratação dos garçons corre o sério risco de ser acusado de gordofobia, pode ser extremamente educativa nos dias de hoje. Não há melhor lugar para se obter a retrospectiva da semana. Retrospectiva dos acontecimentos? Claro que não, isso seria enfadonho demais. Lá se ouve, em primeiríssima mão, a retrospectiva das interpretações ideológicas dos fatos, das variações dos fatos e das variações imaginárias baseadas nas variações dos fatos. Esqueça os memes recebidos nos seus grupos de WhatsApp, as notícias tomadas como verdadeiras por um leitor menos atento do Sensacionalista ou os vídeos nos quais, dependendo do editor, ambos interlocutores ostentam no final os ambicionados óculos escuros da vitória. O resumo que recebemos nessas mesas é muito mais completo e abrangente, e sua audição ainda vem acompanhada de cervejas geladas e porções de picanha com batatas fritas. Nenhum jornal pode ser páreo para uma concorrência tão desleal.

Minha experiência de hoje foi absolutamente enriquecedora. À minha esquerda, um grupo de jovens começou condenando energicamente o grande responsável pelo incêndio da Notre Dame: o capitalismo.
– Essa ganância da elite católico-branca-burguesa-patriarcal só poderia resultar em um desastre como esse, disse um deles.
Um segundo concordou:
– Sabem quanto custava a entrada para a igreja? Pra onde ia todo aquele dinheiro?

Enquanto isso, à minha direita, dois amigos também já haviam encontrado os culpados pelo mesmo desastre.
– Os muçulmanos colocaram fogo na Notre Dame e vão colocar fogo em todos os símbolos cristãos de Paris e do mundo, disse energicamente o primeiro.
O segundo ficou curioso:
– Já prenderam os culpados?
– Ainda não, mas não adianta prender. Os muçulmanos devem ser todos crucificados em praça pública. A única solução é a gente acabar com esse povo violento que só quer destruir o Ocidente.
– Também acho, concordou o pacífico amigo.

A censura imposta pelo STF foi o próximo tópico da retrospectiva.
– Sou totalmente a favor da liberdade de expressão, mas aquele site golpista cansou de espalhar notícias falsas nos últimos anos e ninguém fez nada. Acho que eles tinham que fechar aquele antro, disse ao grupo um dos jovens.
– Sem contar as mentiras que espalharam para que Lula fosse preso, completou um outro. Canalhas!

- Liberdade de expressão é sagrada, disse por sua vez um dos amigos na outra mesa. Temos que convocar o soldado e o cabo e fechar de vez aquela joça.
– Bons tempos eram aqueles em que esses imbecis não podiam abrir a boca sem prestar continência antes, completou o segundo.

E assim, atento às acuradas informações de um lado e de outro, mais uma agradável tarde se passou. Muitos outros assuntos foram abordados. Fiquei sabendo, por exemplo, que Bolsonaro demitiu o ministro da educação com razão porque este havia se recusado a mandar embora treze mil militantes petistas disfarçados de professores. Que Maduro escreveu uma carta histórica para o presidente do senado, mostrando a grandeza de sua luta pela manutenção da democracia na América Latina. Que a intervenção de Bolsonaro na Petrobrás é altamente benéfica à empresa e ao país, ao contrário das intervenções da Dilma. Que Danilo Gentili merece apodrecer na prisão por mentiras e calúnias, ao contrário de Gregório Duvivier que só fala verdades. Ufa, quanta informação relevante que a Globo não mostrou.

Antes de sair do bar, já deixei reservado meu lugar para a próxima semana. É muito importante me manter bem informado nesses dias turbulentos e fontes confiáveis são cada vez mais difíceis de serem encontradas. Ainda bem que os tempos são outros e todo mundo já sabe que não se pode confiar em tevês, revistas e jornais. Eles só sabem espalhar fake news…

Publicado em Sem categoria | Deixar um comentário