AD10S…

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O tango é passional, dramático, visceral. Seu ritmo ardente pede letras que falem de amores e desencontros, paixões e revoltas, vigor e morte. Assim também é o argentino. Efêmero apaixonado infindo, rebelde em sua própria euforia, beato de ídolos e crenças. Eterno órfão em busca de seus guias. Simples, em quatro linhas cabem seus anseios. Caótico, devoto de quem lhe fez sorrir, mesmo que ainda chore. Altivo, máculas abstratas não abalam ícones incontestes.

Seus heróis já tiveram muitos nomes: Carlos, Eva, Jorge, Diego. Um deles ainda há de virar santo. Apenas um se tornou deus.

“Basta de carreras, se acabo la timba
Un final reñido ya no vuelvo a ver
Pero si algún pingo llega a ser fija el domingo
Yo me juego entero
Qué le voy a hacer”

“Volver con la frente marchita
Las nieves del tiempo platearon mi sien
Sentir que es un soplo la vida
Que veinte años no es nada
Que febril la mirada, errante en las sombras
Te busca y te nombra
Vivir con el alma aferrada
A un dulce recuerdo
Que lloro otra vez”

E o brasileiro, tão afeito a idolatrias trôpegas quanto o argentino, deixa hoje a rivalidade de lado e conclama o poeta a falar por ele:

“Pelo prazer de chorar e pelo “estamos aí”
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague.”

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Revelação traumática…

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- Filho, venha aqui. Precisamos ter uma conversa séria.
– O que foi, pai?
– Eu e sua mãe não temos sido totalmente honestos com você.
– Pai, tô ficando assustado.
– A gente não podia te contar a verdade. Você ainda era muito novo pra entender.
– Pai, pelo amor de Deus, fala logo.
– Antes eu quero que você entenda que nós dois te amamos muito. Nada vai mudar isso.
– Eu juro que entendo, mas eu tô quase em pânico aqui.
– Paula, pega um copo de água com açúcar pra ele.
– Gente, eu não quero beber nada. Só quero saber o que está acontecendo.
– Tá bom, querido. Olha só… Sabe?…
– Pai, desembucha de uma vez.
– Você é fruto de uma reprodução heterossexual.
– Ah, meu Deus. Não acredito.
– Calma, filho.
– Como você quer que eu fique calmo?
– Eu sei que é um choque. Senta aqui, respira. Paula, pega um saco de papel. É mais uma daquelas crises de ansiedade.
– Não quero saco de papel nenhum. Quero saber toda a verdade agora.
– A gente vai te contar, filho.
– Reprodução heterossexual entre quem?
– Bem… é… entre mim e sua mãe.
– Ah, vocês querem acabar com a minha vida.
– Filho, não diga isso. Nós éramos muito jovens.
– Juventude nenhuma justifica isso.
– Eu sei, querido. Não foi fácil pra gente esconder essa mácula de todo mundo.
– Quantas vezes me disseram que eu era a sua cara, lembra? Você dizia que isso era impossível.
– Perdão, filho. Nós não queríamos mentir pra você.
– Mas mentiram! Tantas opções, pai. Tantas opções.
– Sabemos disso, filho.
– Eu podia ter nascido de barriga de aluguel, de fertilização de todos os tipos, de bancos de óvulos e de sêmen. Podia até ter sido adotado.
– A gente queria que tivesse sido algo assim, mas não foi.
– Como é que eu vou olhar pros meus amigos agora? Eu sou uma aberração.
– Não, claro que não. Você é lindo.
– Acho que não sei mais quem eu sou.
– Calma, tudo vai passar.
– Só falta você me dizer agora que não é gay e que o casamento de vocês não é de fachada.
– Paula, o saco de papel e a água com açúcar. Rápido!

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Sussurros à meia-luz…

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As imagens me vêm em preto e branco: os guetos, os cômodos acanhados, os ambientes lúgubres, os sons difusos, os rostos acostumados a driblar os olhares alheios. As vozes vagam no escuro, como se temessem ser vistas. Sussurros. Sussurros de desesperança.
– Não, não quero. Não era pra acontecer.
– Mas aconteceu.
– Não vou levar adiante. O ventre é meu.
– Não diga isso.
– Digo sim. Olhe pra nós. Isso é vida?
– Não vai ser sempre assim.
– Quem garante?
– Não há garantias. Quem vier precisa apenas de uma chance.

Vejo o sol nascer entre muitas nuvens. De um quarto à meia-luz, ouço seu primeiro choro. Cessa a dor, a aflição não sara. A porta se abre e, ainda na penumbra, ele a encontra dormindo. Beija-lhe a testa, suspira e fecha os olhos em oração. É uma bênção. O lume pálido da manhã dá lugar à névoa da tarde.
– Ela é linda, não é?
– Tão linda quanto o entardecer.
– …
– Não chore.
– Promete de novo.
– Prometo.

Ouço a algazarra que ecoa por entre as sombras do pátio. Noto os desenhos em grafite que adornam as paredes desbotadas. Não fossem pelos quadros-negros e as mochilas penduradas, as salas sem carteiras passariam por depósitos abandonados. A luz não se atreve a romper o bloqueio de tábuas desalinhadas que cobrem as janelas em pedaços. A escuridão predomina.
– Era esse o seu plano?
– Claro que não.
– Eu bem que avisei.
– Se arrependeu?
– Tenho medo de pensar que sim.
– Ela não vai ficar aqui por muito tempo.
– Estou cansada dos seus sonhos.
– Eu não me esqueço do que prometi.
– Você e suas promessas.
– Dê uma chance.
– A você?
– A ela…

A brisa da manhã sopra mansa. Acompanho a movimentação das pessoas que chegam pouco a pouco. Tímidas, sussurram entre si sem saber o que esperar e como agir. Acuadas pelo próprio protagonismo, ressentem-se da presença de uma pequena multidão postada no outro lado da rua. Trajes brancos, cartazes brancos, mentes em branco. Gritos de guerra são repetidos. Gritos sombrios proferidos por bocas alvas. Gritos de quem jamais teve motivos para gritar. Os gritos cessam quando o alvoroço em frente ao grande edifício branco se inicia. Agora é a vez dos sussurros se avolumarem. Sussurram os brados sufocados, os choros contidos, as lágrimas guardadas. Sussurra a esperança.
– Não consigo ver.
– Por que não?
– Está tudo tão claro.
– O sol está forte.
– Ah, lá está ela.
– Sim. Linda como o amanhecer.
– Por que está toda cercada?
– Ela não está cercada. Ela é o centro.
– Centro das atenções?
– Não, hoje ela é o centro do mundo.

As cenas em preto e branco se apagam. Ainda me resta a fotografia. E a consciência.

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Home office…

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Toc, toc, toc, toc…

- Regineide, assim não é possível! O Hardisson não para de bater na nossa porta. Já falei que você tem que distrair o menino enquanto a gente trabalha.
– Mas, dona Shânia, Hardinho tava comigo o tempo todo. Olha ele aqui, com o fone pra não ouvir nada. Tem certeza de que não era a senhora batendo a cabeça na parede de novo?
– Claro que não, Regineide. Bato a cabeça na parede há um tempão, vê se eu ia confundir os sons. Cadê a Annette?
– Tá apagada. Ela sempre dorme quando o seu Bimba começa a gritar. Deve ser o ritmo, né?
– Já te falei mil vezes pra não chamar o Carlão de Bimba. Nome artístico é só do quarto pra dentro.
– Por falar nisso, dona Shânia, será que não tá na hora da senhora e o seu Carlão voltarem a trabalhar num estúdio? Os meninos estão crescendo. Annettinha ainda é quase um bebê mas o Hardinho tá cada vez mais desconfiado que vocês não são dubladores de animes.
– Tá louca, Regineide? Você não sabe que o setor artístico foi o mais afetado nesta pandemia? Cadê a verba? Além do mais, nos desenhos que o Hardinho assiste tem muito mais gritaria.
– Dona Shânia, o menino ouve a barulhada e depois vem me pedir pra contar a história que vocês estão dublando. Já inventei um monte de personagens pra tentar disfarçar. Tem anime Cadete, anime Baqueta, anime Cocota. O anime Pirralho é o que mais aparece na trama.
– Tô gostando de ver.
– Mas ele não é bobo. E minha criatividade tem limite. Isso não vai terminar bem.
– Aqui em casa tudo sempre termina bem. Vamos tentar ser mais contidos, Regineide. Mas é difícil. A arte toma conta da gente quando a câmera começa a gravar.
– Ah, eu sei. Sou eu que tenho que limpar toda aquela arte depois.
– Você não entende nada de cinema. Seu trabalho é continuar enrolando as crianças.
– Quando estão só vocês dois no quarto ainda vai. O duro – desculpe o trocadilho – é quando aparece um monte de gente. Semana passada tava um entra-e-sai danado.
– Regineide, o entra-e-sai ali não vai parar nunca.
– Mas eu não sei o que dizer pro Hardinho.
– Improvisa. Fala que é reunião de condomínio.
– E eu já não disse? Outro dia ele viu uma moça pelada aqui na sala e eu falei que o síndico agora manda tirar a roupa de quem faz barulho. É por isso que agora ele só anda de meia.
– Depois a gente fala sobre isso, Regineide. Tenho que me concentrar pra conseguir voltar pro personagem.
– A senhora é uma ótima atriz, dona Shânia. Fico impressionada com a sua dedicação e a sua entrega.
– Eu sei que poucos nascem com esse dom artístico. Deixa eu ir que o Carlão já tá me gritando.

Toc, toc, toc…

- Olha o barulho aí de novo. Quem será que tá fazendo isso?
– Ah, é o seu Eduardo, vizinho aqui de cima, reclamando. Mas os gritos de vocês só incomodam quando não estão tocando “Evidências” lá em baixo.
– Me avisa se ele bater no piso de novo. Vou abrir uma reclamação no livro do condomínio. Se tem uma coisa que me tira do sério é gente sem noção.

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O lago…

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Ainda estávamos na estrada quando ele avistou o lago pela primeira vez. Não disse uma palavra. Seguimos em silêncio até um platô no alto da colina. O sol brilhava forte mas não era capaz de amainar o frio do inverno. Descemos do carro e ele caminhou até a mureta de pedra que servia de guarda-corpo. Lá parou para admirar aquela superfície azul cercada de montanhas e pequenas vilas. Eu estava ao seu lado e notei quando uma lágrima correu pelo seu rosto. Seu pensamento o sequestrara. Ele não estava mais ali…

Era uma cidade como tantas outras espalhadas pelo interior de Minas. Apenas as ruas e avenidas principais recebiam calçamento. As demais, com sorte, tinham mais terra que buracos. A rua de terra batida que ele percorria tinha sido danificada pelas recentes chuvas. Caminhava em ziguezague, na tentativa de se desviar das poças de lama. Não tinha mais do que quatorze anos de idade e estava prestes a deixar aquele lugar para sempre.

O salário que seu pai recebia como operário de fábrica mal dava para abastecer a casa. Sua mãe, sisuda como sempre, reclamava da labuta diária com a mesma frequência com que rezava o terço. Ainda assim, ele se afligia diante da perspectiva de ter que se virar sozinho. A capital seria a oportunidade de ampliar seus horizontes.

Com os sapatos encharcados, ele parou em frente ao portão de sua madrinha, a quem visitava todas as semanas. Era um sobrado quase tão simples quanto o dele, mas lá ele recebia um pouco do carinho maternal que lhe faltava em casa. Além do mais, sua madrinha tinha um rádio e, desde cedo, ele percebera que a música era capaz de deixar qualquer ambiente bem mais acolhedor.

Bateu palmas anunciando sua chegada e foi recebido com o sorriso de sempre. Deixou os sapatos na soleira da porta e entrou. Como de costume, o rádio estava ligado e o perfume da broa de fubá ainda quente se espalhava pela casa. Ele se sentia bem ali.

Sentaram-se junto ao fogão a lenha e dividiram alegrias e aflições. Entre uma conversa e outra, sua atenção se voltou para o som que vinha da sala. Era um solo de piano. Como ele amava aquele instrumento. A madrinha percebeu seu enlevo e permaneceu em silêncio até que a melodia terminasse.

- Essa música é linda, não é? – disse-lhe ao final.
– Nunca ouvi nada parecido. Qual é o nome?
– Se chama “Le Lac de Come”.
– O que é isso?
– É um lago que fica muito longe, fora do Brasil. Não sei direito onde.
– Se a música inspirada nele é tão bonita assim, como será esse lago?
– Não sei, querido. Um dia você vai descobrir.

“Le Lac de Come” tocava alto em suas lembranças. Eu quase podia ouvir seus acordes, envolto no silêncio daquele lugar. Nossas mãos se buscaram e se entrelaçaram. Não sei quanto tempo permanecemos assim. Provavelmente até que as notas finais ressoassem. Então ele se voltou para mim, me deu um beijo cheio de gratidão e disse num sorriso:

- Filho, o lago é tão lindo quanto a música!

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Abraços…

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Mais um ano se passou. É o segundo aniversário em que parte dos parabéns vem de muito longe. Parece bobagem mas a saudade bate ainda mais forte em dias festivos como os de hoje. Bate aqui, bate acolá.

O amor transborda de tal forma que as palavras lhe faltam e as frases me escapam. Restam apenas dois olhares que se sustentam. Olhares que só existem por se perceberem reflexos da mesma veneração. Dois rostos que acompanham o sorriso refletido ser banhado. Pai e filho cientes do que representam um para o outro.

Quem dera o “até amanhã” viesse em forma de um beijo. O “eu te amo” fosse dito envolto em abraços. Meu reino por um abraço. Aquele abraço, ar que me falta há quase oito meses. Aquele beijo, nicotina para a minha face viciada. A lágrima que escorre aqui molha a tela do lado de lá. O sorriso que vem de lá provoca o riso que eclode aqui. O amor é como uma onda que não se espalha. Apenas vem e vai indefinidamente, aumentando em frequência e intensidade a cada volta.

A ligação termina. A conexão não se desfaz. A família está completa.

É hora de dormir. Boa noite, filho. Obrigado pelo abraço!

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The last call…

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- Não, não preciso de tradutor não. Só me ajuda se eu pedir, talquei?… Hello, Trump? Bolsonaro here.

- What do you want? I’m not in a good mood right now.

- Mood é lama, né? Não? Ah… I know, Trump. You very sad.

- I’m more than sad, I’m pissed.

- Ele disse que quer fazer… Ah, entendi… I am bitched two, Trump. You lose, I lose.

- You have always been a good friend, Bolsonaro. But now you’re on your own.

- Não entendi porra nenhuma… Ah, tô sozinho, né?… I’m lonely but I’m hard in the fall, Trump.

- I know, but be careful about 2022. Don’t let them steal your votes.

- No, no steal. I make votes in paper again.

- That’s not a good idea, you fool. Unless you could burn the illegal ones.

- Puta que pariu, pra que que eu te pago pra me dar aula? Não entendo nada. Ah, queimar, entendi… Good idea Trump. I burn the red votes.

- I wish I could do the same with those blue mail votes.

- I still think you win, Trump. I never play the towel.

- It’s good to know that you are by my side, Bolsonaro. I’m very disappointed in the world leaders. They don’t seem to like me at all.

- Desisto, traduz essa pra mim. Ainda bem que eu não vou querer falar com o tal de Biden… ah, ele tá desapontado… Trump, I am with you always. You my idol.

- Thank you, Bolsonaro. But beware. You have a lot of enemies.

- Yes, I know, Trump. Enemies in newspapers and in Globogarbage.

- I hope you can win again next time. But it’s not going to be easy.

- Don’t worry. Now I have big center with me.

- I heard about that. If you trust them. Bye, Bolsonaro.

- Wait, Trump. I have a… como fala neta mesmo?… new granddaugther. Her name is for you.

- Really? What is her name?

- Georgia… Trump? Trump? Por que será que ele desligou, porra?

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Negócios indecentes…

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- Boa noite.

- Tem horário marcado?

- Sim. Agendei por telefone. Quanto é a hora?

- Depende.

- Depende do que?

- Das suas escolhas, é claro.

- Não sabia que eu podia escolher.

- Desde que possa pagar…

- Nunca escolhi antes.

- Você tá bem crescidinho pra ser marinheiro de primeira viagem.

- Acho que isso não é problema seu.

- Relaxa. Cada um tem seu momento.

- Andei na linha o quanto pude.

- É o que todos dizem.

- Mas a gente acaba se rendendo a novas experiências.

- É a vida. Então, vai escolher ou não?

- Assim, sem analisar direito?

- Pode analisar o quanto quiser. Só não encosta.

- Fica frio.

- Posso saber o que você está buscando?

- Um pouco de tudo. Sem preconceitos.

- Versatilidade, né?

- Por aí.

- Veio ao lugar certo.

- Aquela ali no fundo parece bem… digamos… adequada.

- E não é que você tem um olho bom?

- Não sou tão inexperiente assim.

- Tô vendo. Mas é das nossas horas mais caras.

- Se estivesse preocupado com grana, não viria.

- Bom saber. Mas, já que você está começando, sugiro algo como esta daqui.

- Parece interessante.

- E é. Também é vistosa e não tem a impulsividade da outra.

- Mas será que a performance é a mesma?

- São perfis diferentes. Esta é especialista em preliminares, aquela já chega botando pra quebrar.

- Ainda estou na dúvida.

- É melhor começar mais leve. Além do mais, você vai acabar experimentando todas elas.

- Ok. Me convenceu.

- Ótimo.

- Vocês aceitam cartão?

- Tá louco? Só dinheiro vivo.

- E se eu não ficar satisfeito?

- Sem chance. Pra você ter uma ideia, somos os mais requisitados do Planalto.

- Disso aquele pessoal entende.

- E como. Clientes antigos. Alguns até abriram filiais nossas por lá.

- Vocês têm algum cômodo preparado?

- Aqui em cima. Privacidade total.

- Capricha, heim? Quero virar freguês.

- O objetivo é esse. Nossa carteira de clientes não para de crescer.

- Vamos em frente. Qual é o valor?

- Depende de onde você vai querer divulgá-la.

- Hum… acho que vou começar pelo Twitter, WhatsApp e Facebook.

- Pega o combo “Full fake news”. O YouTube e o Instagram vêm de brinde.

- Ok. Combinado. Sem rastreamentos, né?

- Claro. Essa é a nossa marca registrada. Vai sair pra vereador?

- Não. Deputado. Daqui a dois anos ainda.

- Você está no caminho certo. O Brasil precisa de gente que pense lá na frente…

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O grito…

20201027_114718Você já gritou do alto de uma montanha?

Experimente, é libertador. Sua voz se apresenta e o eco corre para lhe fazer companhia. As ondas sonoras se propagam em direção ao horizonte e você quase é capaz de tocá-las. São as pequenas vibrações que abrem passagem pelas nuvens que ameaçavam detê-las.

Diante do seu grito, até o vento se assusta e segura o ar que soprava até então. As águas que caem nas encostas trocam o rugido pelo sussurro do spray que sobe ao invés de cair. Os pássaros abrem as asas em sinal de aprovação e reverência. Enquanto o eco é ouvido, a natureza se cala. E assiste.

Um sopro mais forte em seguida é sinal de que o vento quer intimidá-lo. Não se deixe impressionar. Ventos não são muito afeitos a desafios. Deixe-o em paz. Agradeça ao sol por sua discrição e ao rio por sua timidez. Ambas são efêmeras, mera gentileza de quem anseia por dissonâncias.

Sua voz e seu novo amigo eco modificaram cada átomo daquele lugar. A montanha jamais se esquecerá. Você também não.

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Lógico…

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- Você viu? O presidente disse que não vai mais comprar a vacina chinesa.
– Lógico.
– Você concorda com isso?
– Lógico.
– Disse que não vai comprar vacinas que não tiverem sido aprovadas.
– Lógico.
– Ok. Mas ele já comprou a vacina de Oxford, que também está na mesma fase de testes.
– Lógico.
– Como lógico? Ele fez o contrário do que afirmou. Justifica agir assim só porque essa vacina tem tecnologia chinesa?
– Lógico.
– Muita gente pode morrer por causa dessa birrinha ideológica. Você acha isso certo?
– Lógico.
– Nenhuma vacina, chinesa ou inglesa, será distribuída sem a aprovação da Anvisa e do Ministério da Saúde. Mesmo assim você concorda com o presidente?
– Lógico.
– Mas, se a vacinação será feita somente após a aprovação, não faz sentido dizer que o povo será cobaia, faz?
– Lógico.
– Espera um pouco. Você está me dizendo que acha que ele está zelando pelo povo e defendendo a ciência?
– Lógico.
– Receitar cloroquina, que não tem comprovação científica, e descartar uma vacina, mesmo após a sua comprovação, é zelar pelo povo?
– Lógico.
– Daqui a pouco você vai me dizer que ninguém deveria tomar vacina alguma.
– Lógico.
– Estamos no meio de uma pandemia e você acha que o presidente deve continuar incentivando a população a não se vacinar?
– Lógico.
– Cara, é difícil de acreditar.
– Em quê?
– Na sua falta de lógica…

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