Agosto…

Agosto20

Duas horas depois e a pequena sala de espera continuava bem mais cheia do que recomendavam as autoridades sanitárias. A televisão ligada em uma das paredes exibia um daqueles cultos nos quais o pastor assume o papel de animador de auditório. O som, entretanto, era tão audível quanto um apito canino.

A trilha sonora reinante no ambiente nada tinha a ver com cânticos e sermões. Mesmo abafados pelas máscaras, só se ouviam sons de espirros e tosses acompanhados do fungar de narizes congestionados. Meu silencioso tornozelo inchado me lembrou um monge beneditino em um baile funk.

O painel eletrônico de chamada continuava a negar a minha existência e cheguei a pensar que tivesse cochilado (como se isso fosse possível) quando meu nome fora anunciado. Talvez tenha sofrido um lapso de consciência, como aquele em que quase pedi a uma das atendentes que aumentasse o volume da TV.

Já passava de uma da manhã e eu sofria com dor, sono, fome e uma estranha vontade de ser portador de um aparelho para surdez só com botão de desligar. Não havia como piorar, pensei precipitadamente.

- O senhor está aqui há muito tempo? – perguntou-me um homem que fungava três cadeiras à minha frente.

Não sei dizer se o que mais me irritou no comentário foi a possibilidade de interação com alguém com alto potencial de transmissão viral ou o fato dele ter me chamado de senhor.

- Mais de duas horas – respondi, mantendo meus olhos fixos na TV.

Ele então se levantou e caminhou em minha direção, fazendo com que eu me juntasse às colegas de trabalho do pastor em uma prece pela divina instauração de um perímetro de segurança. A fervorosa oração não surtiu o efeito desejado e ele parou em pé bem ao meu lado.

- Não trouxe minha trena mas garanto que não estamos a um metro e meio de distância um do outro – argumentei com indisfarçável ironia.

- Ah, me perdoe – disse ele se afastando um pouco. Não aguento mais ficar sentado.

Pensei em concordar mas preferi dar de ombros. Ele continuou:

- Eu sabia que ficaria doente.

- Estamos em época de pandemia, não é? – respondi, já arrependido por ter contribuído com o diálogo.

- Sim, mas não é por isso. É que entramos em agosto. Tudo de ruim acontece em agosto.

Fingi que não ouvi. Continuei com os olhos fixos na TV e passei a enxergar sinais de clarividência até nos olhares esbugalhados dos integrantes daquela plateia.

- Mas não imaginei que fosse adoecer tão cedo – ele continuou. O mês mal começou.

O homem aparentava ter uns 35 anos de idade. Já era grande o bastante para não acreditar em asneiras.

- O senhor – me vinguei – tem algum trauma relativo ao mês de agosto?

- Não só eu, né? O mundo inteiro.

Não resisti e revirei meus olhos escancarando toda a minha impaciência. Ele prosseguiu:

- Todas as catástrofes sempre acontecem em agosto.

Aquilo já era demais. Aproveitei que a imagem do emissário de Deus havia sido substituída por um comercial de cerveja de má qualidade e retruquei:

- Curioso, a Primeira Guerra estourou em julho, a Segunda em setembro, a gripe espanhola começou em março, o tsunami da Indonésia aconteceu em dezembro, as torres gêmeas foram destruídas também em setembro, Cristo – a transmissão do culto acabara de ser retomada – foi crucificado em abril e essa maldita pandemia começou no primeiro trimestre do ano. Alguma coisa contra esses meses também?

- O senhor não precisa se exaltar…

- Senhor é o seu avô! Mais uma coisa, o nome agosto é uma homenagem ao imperador cujo reinado marcou o início da Pax Romana, um grande período de paz e prosperidade do Império Romano. Período de paz, não de catástrofes, entendeu?

- Eu estava apenas tentando puxar assunto. Não me dou bem com o mês, só isso. Mas parece que encontrei um defensor ferrenho. O senh… você nasceu em agosto?

- Não, em novembro. E não tenho motivo algum para defender o mês. Só não gosto de ouvir bobagens.

Contrariado e fungando ainda mais, o homem voltou ao seu assento. Menos de um minuto depois o painel eletrônico anunciou em alto e bom som: Fernando Augusto, consultório 2.

Levantei-me rapidamente e lá fui eu, manquitolando, sonolento e faminto. O que mais me incomodava, entretanto, era a imagem do sorrisinho irônico que o homem me dirigiu quando passei ao seu lado…

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De irmão para irmão…

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“I miss a lot my brother,
but his dream is coming true.
He will become better than any other,
you don’t have a clue.

My brother will direct
the best film ever made.
With Steven Spielberg he will interact,
like two friends in a bar called Blade.

A movie my brother will make
and the world will watch it.
My brother has limits to brake,
and his dreams can’t be stopped.

I love you Arthur!”

Quando um garoto de 10 anos escreve uma poesia como essa para o irmão que, há onze meses, partiu em busca dos seus sonhos…

Quando um garoto de 10 anos consegue fazer com que seu orgulho supere até mesmo o maior vazio que já experimentou na vida…

Quando um garoto de 10 anos disfarça a dor da saudade por ter plena consciência do quanto a vocação de seu irmão é importante para a sua felicidade…

Quando um garoto de 10 anos é capaz de sentir e demonstrar um amor tão puro, tão intenso, tão verdadeiro e tão abnegado…

Então consigo crer que, quem sabe um dia, o mundo será comandado por pessoas de sorriso desarmado, de coração aberto, de atitudes leais e altruístas, de índole pura, de olhar doce e de caráter forte e bem formado.

Obrigado, meu amorzinho, por me permitir acreditar…

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Toma tento, menino…

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“Toma tento, menino!”

Essa foi, provavelmente, a frase que mais ouvi da minha avó quando ainda era moleque. “Vó, vou continuar tentando”, respondia eu, só para que ela sorrisse e se esquecesse da arte que eu acabara de aprontar. Ela conhecia de cor a artimanha mas sorria mesmo assim. E a nossa cumplicidade crescia.

Minha avó quase não tinha instrução mas sua sabedoria era inata. Era capaz de aprender o que quisesse com extrema facilidade e tinha um vasto conhecimento da língua portuguesa, resultado das inesgotáveis palavras cruzadas que lhe consumiam boa parte das tardes em que estávamos na escola. Pode ser impressão minha, mas acho que o significado da palavra “tento” – no sentido de juízo, prudência, discernimento – ela, de alguma forma, sempre soube.

Ela também dominava, como ninguém, a arte de contar histórias. Trago comigo as imagens de uma árvore cantante, um pássaro falante, um rei reencontrando seus filhos e pedindo perdão ao seu amor. Não me perguntem o enredo completo, mas essas e outras imagens geradas das palavras da minha avó ainda estão carinhosamente gravadas na minha mente.

Estaria mentindo se dissesse que, depois de tanto tempo, ainda me lembro exatamente das nuances de sua voz, mas as inflexões impressas em cada frase me são nítidas. “Toma tento, menino”, por exemplo, tinha sua força concentrada no “menino”, deixando claro a quem se dirigia o corretivo. Ainda assim, é justamente o “tento” que não me sai da memória.

Minha avó faleceu bem antes que eu entrasse na faculdade. Na verdade, não chegou sequer a me ver concluir o ginásio, antigo nome dos quatro últimos anos do ensino fundamental. Mesmo assim, não tenho dúvidas de que suas palavras e seus conselhos tiveram uma grande influência na formação da minha índole e do meu caráter. O “toma tento, menino” continuou reverberando em meus ouvidos por muitos anos. E eu continuei tentando…

Não posso afirmar quais seriam a opiniões da minha avó sobre a atual vida política e social do país e do mundo. Mas não tenho dúvidas de que ela deixaria seus pontos de vista muito claros, pois jamais deixou de se posicionar sobre qualquer assunto. Também não tinha a menor pretensão de agradar alguém. Sempre foi doce e ponderada mas, ciente de suas convicções, não se dava ao trabalho de escondê-las para que fosse aceita pelos outros. Ao mesmo tempo, sempre se mostrou aberta ao diálogo, às argumentações, às visões alheias. Por tudo isso, tenho a impressão de que ela se daria muito bem nos dias de hoje, mesmo certo de que seu espírito inquieto e questionador a faria angariar admiradores com a mesma facilidade com que poderia perdê-los mais tarde, em virtude de suas análises sempre coerentes e incomodamente imparciais.

Consigo até imaginá-la repetindo hoje o seu “toma tento” para muita gente. Gente que se orgulha de ter posições e ideologias muito bem definidas, de preservar suas verdades com afinco, de não se deixar influenciar por opiniões externas. Gente que não percebe que o problema começa quando essas verdades passam a ser intocáveis, quando o contraditório passa a ser visto como ameaça, quando o que se busca são apenas maneiras de corroborar e ratificar pensamentos arraigados e pré-concebidos. Gente que não entende que, dessa forma, perde-se todo o sentido da troca de ideias, como quase sempre acontece naqueles falsos debates da CNN, em que um interlocutor tem que se contrapor ao outro, mesmo que o assunto seja quase consensual. Ao fim do “debate”, aqueles que já se identificavam com A o chamam de vencedor e compartilham apenas os seus pontos de vista. O mesmo acontece com os admiradores de B. E ninguém percebe que, ao fim, cada um falou apenas para a sua casta, e que cada casta se limitou a ouvir e aplaudir seu representante enquanto desmerecia o outro.

Assim, entre uma história e outra, creio que minha avó nos alertaria para os perigos da conformidade e nos diria que perdemos oportunidades preciosas cada vez que entramos em uma imensa biblioteca para buscarmos apenas os livros e autores cujos posicionamentos e ideais coincidam com os nossos. Que deveríamos saber separar nossas opiniões das nossas crenças, pois uma crença não pode ser questionada e uma opinião clama para que seja. Que acreditar é importante, desde que nossas convicções não nos impeçam de entender que sempre haverá outros caminhos, e que estes não são inaceitáveis simplesmente por diferirem daqueles que escolhemos trilhar. Que deveríamos analisar os fatos de forma desarmada, pois só assim um pensamento crítico poderá ser realmente formado. Que deveríamos estar atentos para que fôssemos fiscais de nossas próprias condutas, e jamais trocássemos a inquietude da busca pela acomodação da primeira resposta satisfatória encontrada.

Por fim, ouviríamos o célebre “tomem tento, meninos”. E tudo estaria dito…

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Estágios da vida…

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Vivíamos a segunda metade da década de oitenta quando comecei o meu primeiro estágio como universitário. Como de costume, o Brasil passava por crises e turbulências. Tancredo Neves, primeiro presidente civil em mais de duas décadas, morrera antes de ser empossado. Seu vice, José Sarney, na tentativa de acabar com a inflação galopante, lançara há pouco o famoso Plano Cruzado, com a instituição de uma nova moeda. O plano, como todo e qualquer delírio econômico baseado no congelamento compulsório de preços, foi um enorme fracasso. Durante alguns meses, entretanto, a desesperada população brasileira lhe deu crédito e os supermercados se acostumaram com a presença dos “fiscais do Sarney”, pessoas que abnegadamente passavam seus dias denunciando os empresários exploradores que traíam a República ao remarcar os preços de suas mercadorias. Tarefa que, com o passar dos meses, se tornava cada vez mais fácil, à medida em que os produtos sumiam das prateleiras. E é impressionante como ainda existe gente até hoje capaz de repetir essas mesmas bobagens…

Perdoem-me pela digressão, crises já superadas não são o tema desta reflexão, a menos que eu considere o meu estágio como uma quase crise de identidade. Exagero, é claro, mas as tarefas que eu desempenhava ali eram tão monótonas e tão distantes das que eu almejava realizar como profissional, que cheguei até a pensar em mudar de curso. Meu chefe imediato era um cara legal mas não demonstrava apreço algum à profissão. Não era pra menos, a engenharia civil vivia então seus piores momentos. O pai de um amigo chegou a me perguntar se eu já havia considerado a hipótese de, depois de graduado, ter que vender cachorros-quentes na porta de alguma escola. Diferentemente de hoje, eram tempos em que a frase “engenheiro civil, formado, muito melhor do que você”, só caberia em um programa humorístico ou, quem sabe, em mais uma infeliz propaganda institucional do CREA.

Se meu chefe não demonstrava muito entusiasmo, meu colega de estágio conseguia ser ainda pior. Filho do dono da construtora, ele ingressara no curso de engenharia apenas para – teoricamente – herdar o trabalho do pai. Digo “teoricamente” porque jamais acreditei que alguém em sã consciência pudesse passar o comando de uma empresa a uma pessoa tão limitada. Lembro-me, por exemplo, de uma tarde em que meu colega me perguntou se eu já havia provado carne de soja. Disse-lhe que não, e que também não tinha muito interesse pois eu realmente gostava de saborear carnes de verdade. “Como assim, de verdade?” ele me replicou. Fitei-o por alguns segundos na esperança de que um sorriso brotasse naquele rosto, mas ele permaneceu impassível. Sim, ele achava que soja era um animal. Achava não, tinha certeza. Chegou a rabiscar um quadrúpede qualquer no papel, jurando que aquilo era um filhote de soja. Lembro-me de, pacientemente, ter passado o resto daquela tarde tentando convencê-lo de que, apesar da correlação com as palavras “leite” e “carne”, soja não passava de um vegetal. Talvez tenha nascido ali a minha fleuma, tão utilizada anos mais tarde nas argumentações com petistas e bolsonaristas. Ao final do expediente, meu colega continuou convencido de que eu era um imbecil e eu fui pra casa decidido a sair daquele hospício o mais rapidamente possível, decisão que certamente contribuiu para que eu me tornasse, três anos mais tarde, um engenheiro civil, formado, com um conhecimento muito menor do que qualquer mestre de obras.

Mais de três décadas se passaram e volto a me sentir em um hospício do qual, desta vez, não tenho como escapar. E essa nem é a pior parte. O duro é ter que passar meses a fio explicando que criticar o presidente não é o mesmo que ansiar pela volta da esquerda, que se preocupar com as classes menos favorecidas não é o mesmo que ser socialista, que apoiar a obrigatoriedade do uso de máscaras não é o mesmo que abdicar da minha liberdade de ir e vir, que não seguir as normas do politicamente correto não é o mesmo que ser contra as minorias, que não concordar com a derrubada de estátuas não é o mesmo que ser racista, que exigir um mínimo de coordenação no combate à pandemia não é o mesmo que torcer para que empresários vão à falência, que buscar meios de viabilizar a sobrevivência das empresas não é o mesmo que não se importar com as pessoas que precisam de internação, que criticar pontos de um projeto de lei que fere a liberdade de expressão não é o mesmo que ser a favor da impunidade para as fake news, que se indignar com as milhares de mortes evitáveis não é o mesmo que ceder aos interesses do partido comunista chinês.

Convenhamos, explicar que soja não é animal era muito mais fácil…

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Abraço de filho…

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Tal qual um amanhecer
Daqueles que espalham seu calor sem cautela
Tal qual um entardecer
Daqueles que o sol pintor faz do céu sua tela
Assim é abraço de filho…

Tal qual um café quentinho
Daqueles que esquentam as mãos e aquecem a alma
Tal qual cochilo na rede
Daqueles que a brisa embala e que o sonho acalma
Assim é abraço de filho…

Tal qual uma sinfonia
Daquelas que escutamos pra nos sentirmos bem
Tal qual a vista de um vale
Daquelas que nossos olhos se perdem no além
Assim é abraço de filho…

Tal qual um pingo de orvalho
Daqueles que desenham caminhos na vidraça
Tal qual arroio sereno
Daqueles que murmuram, mesmo com água escassa
Assim é abraço de filho…

Tal qual um olhar perdido
Daqueles que encontram foco somente no céu
Tal qual uma revoada
Daquelas que só às aves cabe o escarcéu
Assim é abraço de filho…

Tal qual longínqua lembrança
Daquelas que deixam corações acelerados
Tal qual uma melodia
Daquelas que nos fazem dançar de braços dados
Assim é abraço de filho…

Tal qual uma epifania
Daquelas que nos fazem rever nossos caminhos
Tal qual cobertor no frio
Daqueles que aquecem os pés dos que estão sozinhos
Assim é abraço de filho…

Tal qual oceano à noite
Daqueles em que a lua vira raia de prata
Tal qual uma queda d’água
Daquelas que formam o flúmen que a terra hidrata
Assim é abraço de filho…

Tal qual comunhão de almas
Daquelas que se identificam, se reconhecem
Tal qual certeza de que
Mesmo de longe, os abraços de filho acontecem
Assim é a vida…

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A República Corporativa do Brasil…

Corporações

Sempre considerei o outono a minha estação favorita. É a estação do bom gosto, como certa vez escrevi. O outono de 2020, entretanto, não deixará saudades. Talvez venha a ser lembrado como o trimestre que não vivemos. Certamente ficará marcado como o outono em que muitos deixaram de viver. O inverno brasileiro começou com mais de um milhão de casos de Covid-19 e mais de 50.000 mortos.

Um terço do ano se passou e não temos sequer um esboço de ações conjuntas de combate à pandemia. União, estados e municípios continuam agindo de forma descoordenada, cada qual respaldado apenas pelas suas próprias crenças – ou pior – pelas suas descrenças. Nesse outono, o país que deveria ser uma república federativa tornou-se oficialmente uma república corporativa. Poderes, entidades e movimentos lutam exclusivamente por seus próprios interesses e não dispomos de lideranças capazes de aglutinar objetivos e estratégias. Estamos à deriva.

A República Corporativa do Brasil não surgiu nos últimos três meses, é claro. O poder legislativo, por exemplo, funciona como uma corporação independente há décadas. Seus votos e apoios são historicamente condicionados aos cargos, às verbas, às contrapartidas. Eleição após eleição, os caciques do congresso se alternam na missão de impor suas condições aos governos. É o chamado poder “e o que eu levo com isso?”. Os interesses do país pouco importam.

O atual governo assumiu o executivo com a promessa de mudança desse histórico. Entretanto, ao invés de se estabelecer uma negociação saudável e legítima entre dois poderes interdependentes, optou-se pelo confronto. Optou-se pela simples demonização da política no momento em que uma nova postura se mostrava finalmente viável. Optou-se por transformar o executivo também em corporação, ainda mais fechada e restrita. Assim, multiplicaram-se medidas protecionistas concedidas a militares (as duas mais recentes em plena pandemia), nomeações e decisões puramente ideológicas e fundamentalistas, descartes sumários daqueles que ousaram divergir – mesmo que pontualmente – da vigente rigidez normativa. Agora, diante do desgaste que a inércia, o descaso e a irresponsabilidade frente ao maior desafio desde a Segunda Guerra provocaram, o executivo resolveu ceder ao corporativismo do legislativo. Como já sabíamos, promessas corporativas jamais resistem aos instintos de sobrevivência.

Por sua vez, progressivamente, o poder judiciário extrapolou suas funções e passou a legislar. Leis passaram a ser interpretadas de acordo com os interesses da ocasião com tamanha frequência que as decisões sucessivamente contraditórias deixaram de surpreender ou de causar indignação. O STF abdicou do seu papel de guardião da Constituição e assumiu o de polícia da sua própria corporação, apoderando-se do direito de censurar, de investigar, de acusar e de julgar casos em que ele próprio se coloca como vítima, numa evidente afronta ao Estado Democrático de Direito.

A sociedade civil aderiu à onda e se dividiu em diversas outras corporações. As duas mais barulhentas adotaram o formato de seita de fanáticos e elevaram seus respectivos líderes à categoria de deuses. Ambas consideram-se opostas mas guardam muito mais semelhanças do que diferenças. Assim, igualam-se na hipocrisia.

Outras menos turbulentas escolheram nomes mais palatáveis, inspiradas no politicamente correto. As corporações “lugar de fala” e “apropriação cultural”, por exemplo, conseguiram a proeza de invalidar opiniões e comportamentos sob a égide da diversidade e da liberdade. Uma incoerência, é claro, mas mascarar incoerências se tornou a especialidade das corporações brasileiras. Quem sabe um dia, quando a corporação das revisões históricas se tornar dominante, parte do que estamos vivendo deixará de nos parecer absurdo.

E assim, corporativamente decadente, segue a nossa República. Cada vez mais dividida, mais polarizada, mais alienada dentro de suas pequenas bolhas espalhadas pelo país. Não tenho dúvidas de que o inverno será testemunha de outras cenas de fanatismo, de contemporização de crimes, de cerceamento das liberdades, de afrontas à Constituição e, infelizmente, de muitas mortes absolutamente evitáveis.

Mas, tudo bem, não é? Ainda nos resta torcer para que não faça frio demais…

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Paraíso brasileiro…

- Mestre, hoje eu sonhei que estava em Shangri-la, o paraíso perdido.

- Fale mais, gafanhoto.

- Ah, Mestre, era uma terra abençoada, cheia de matas densas, cascatas de águas cristalinas, lagos e muito ar puro.

- Gafanhoto, paraíso perdido muito bonito mesmo.

- Sim, mestre. Durante o dia eu andava pelas trilhas entre as colinas, ouvindo o canto dos pássaros, sentindo o perfume das flores.

- Mas por que Gafanhoto certo que sonho era Shangri-la?

- A comunhão, Mestre.

- Comunhão, Gafanhoto?

- Sim, Mestre. Comunhão de tudo. Em Shangri-la não há propriedades. Tudo pertence a todos. Eu podia passar dias no sítio que eu quisesse, dormir no quarto que eu quisesse, entrar na casa que eu quisesse.

- Gafanhoto ainda muito jovem. Sonho não era Shangri-la.

- Não, Mestre?

- Não. Gafanhoto sonhou com Atibaia…

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Missão presidencial…

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No hospital…

- Bom dia.

- Bom dia. Como posso ajudá-lo?

- Eu gostaria de ser atendido.

- Pois não. Vou fazer a sua ficha. O que o senhor está sentindo?

- Não sei dizer. Quando o médico me examinar eu explico melhor.

- Senhor, eu preciso saber qual é o seu problema exatamente para que eu possa encaminhá-lo para o médico adequado.

- Acho que eu estou com Covid.

- O senhor está sentindo dificuldades para respirar?

- Hum… sim. Muita.

- Falando assim não parece.

- Cof, cof, cof… estou com muita tosse também.

- Aham. Mais alguma coisa?

- Febre, tive febre também.

- Febre alta?

- Sim, 38 graus. Não, foi quase 40.

- Mas o senhor parece muito bem disposto agora.

- Não, estou me esforçando para parecer bem. Na verdade estou muito mal. Cof, cof. Por favor, me leve com urgência para a enfermaria.

- Não é assim que as coisas funcionam, senhor. Primeiro um médico virá examiná-lo.

- Eu posso esperar na enfermaria?

- É evidente que não. O senhor vai aguardar em uma sala separada para que não corra o risco de contaminar os outros pacientes.

- Mas a enfermaria tá cheia de gente com Covid, não é?

- Não, senhor. Temos uma ala reservada somente para pacientes com Covid.

- Ótimo. É pra lá que eu quero ir.

- Senhor, só pacientes comprovadamente infectados e que necessitem de internação podem ter acesso a esse setor.

- Mas será que eu não posso dar só uma olhadinha, pra ver se eu gosto?

- Senhor, isso não é um hotel. E não promovemos tours de reconhecimento, principalmente na época que estamos vivendo.

- Olha, quer saber? Eu estou tentando ser educado aqui mas já vi que não funciona. Eu exijo entrar na ala dos infectados com Covid imediatamente.

- O senhor não está sendo educado, só está tentando me fazer de idiota. Além do mais, só pessoas com autorização podem entrar lá. Eu mesma não tenho acesso.

- Mas eu tenho autorização.

- De quem?

- Do presidente, é claro.

- Presidente de onde? Do hospital?

- Presidente do Brasil, engraçadinha. Ele pediu que a gente filmasse todos os hospitais pra provar que está tudo vazio, que os números são falsos, que essa gripezinha só mata velhos e doentes, essas coisas que todas as pessoas de bem já sabem. E você está dificultando tudo só pra não ser desmascarada.

- O presidente está sugerindo que pessoas saudáveis venham aos hospitais em uma época de pandemia para filmar os leitos?

- Sim, ele só pode confiar no povo que o elegeu. Os enfermeiros, os médicos, os prefeitos, os governadores, os antigos ministros, a Globolixo, a Foice de São Paulo e toda a extrema imprensa estão contra ele.

- E o senhor, como gad… como admirador do presidente, topou a tarefa.

- Claro, estou com ele para o que der e vier. Aproveitando, também quero ter acesso aos prontuários pra saber se vocês estão mesmo ministrando cloroquina aos pacientes como o presidente mandou.

- Ah, perfeitamente. Mas antes o senhor vai ter que aguardar um pouco.

- Não tem problema. Estou com tempo. Espero aqui mesmo?

- Não, é melhor o senhor se dirigir àquela porta à direita.

- Aquela? Mas ali está escrito banheiro.

- Pois é, foi a maneira mais educada que encontrei de mandar o senhor à merda!

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A virtude dos imbecis…

Nunca consegui memorizar provérbios ou ditados populares. Quantas vezes já me embaralhei com o cavalo sem dentes, o caolho rei dos cegos, a água que escalda o gato, e qual órgão deve ser apimentado antes de virar refresco. Em muitas dessas ocasiões, os indisfarçáveis olhares de desapontamento que provoquei foram seguidos de um condescendente: “não se preocupe, deu pra entender”. Pudesse eu escolher, teria optado apenas pela celeridade dos olhares.

Existem frases e provérbios, entretanto, que resumem muito bem os meus lemas de vida. Talvez por essa razão, desses eu consigo me lembrar com facilidade. “Não faça com os outros o que não gostaria que fizessem com você”, “olho por olho, e o mundo acabará cego”, “falar é uma necessidade, escutar é uma arte”, além de alguns outros, volta e meia aparecem nas minhas divagações. Um provérbio que tem sido bastante recorrente nos últimos tempos diz que “somente os tolos exigem perfeição, os sábios se contentam com a coerência”.

Ah, a tal da coerência. Nelson Rodrigues a considerava suspeita. Oscar Wilde a chamava de “virtude dos imbecis” – embora tal afirmação sempre possa ser atribuída a seu alter ego, Dorian Gray. Eu a considero um dos valores mais preciosos das relações humanas. Não é pra menos, afinal, a coerência anda cada vez mais escassa.

Talvez por estarem cientes de sua raridade, milhões de pessoas não são capazes de notar a falta que a coerência faz. Dia após dia, seguem aplaudindo e condenando atitudes semelhantes, dependendo apenas de seus autores. Seguem chamando delitos de crimes ou estratégias, de acordo com seus interesses. Seguem contemporizando ou zombando de absurdos, dependendo de quem os proferiu. Seguem chamando de ideológicas as atitudes de seus antagonistas, mesmo incapazes de avaliar suas próprias ideologias. Seguem enganando a si mesmos de tal forma, que sua capacidade de análise se limita a enxergar inimizade em qualquer divergência.

Em tempos de pandemia, com os nervos das pessoas ainda mais à flor da pele, a coerência parece estar sendo definitivamente esquecida. Gostaria de acreditar que se trata de um momento atípico, um ponto fora da curva. Não tenho essa ilusão. Não mais. Temo que a sina do brasileiro seja continuar involuindo. Temo que o destino da coerência no Brasil seja caminhar para a extinção. Temo que a própria palavra coerência adquira um novo significado daqui por diante.

Então não mais chamaremos de incoerentes aqueles que se manifestam contra a corrupção enquanto solicitam indevidamente auxílios do governo. Aqueles que se proclamam livres para recusar as máscaras de pano mas abusam das feitas de hipocrisia na busca dos “culpados” que lhes convêm. Aqueles que bradam por transparência mas aplaudem quando dados são deliberadamente ocultados. Aqueles que, há poucas semanas, empunhavam cartazes contra Maia e o Centrão e agora se calam diante da farra de cargos, ministérios e verbas bilionárias. Aqueles que ainda afirmam estarem salvos pela verdade mas não têm coragem de olhar para as suas próprias imagens corroídas pelo engodo que teimam em esconder, materializando o que Oscar Wilde um dia vaticinou.

Então, finalmente, a coerência terá mesmo se tornado a virtude dos imbecis!

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E o vento continua levando…

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- Rhett, oh, Rhett. Não suporto mais!

- O que aconteceu, Scarlett?

- Não consigo cuidar sozinha desta casa, Rhett.

- Mas Scarlett, sou eu quem cuida da Bonnie, sou eu quem faz a nossa comida, sou eu quem arruma a nossa cozinha e sou eu quem alimenta os nossos cavalos. Fora o meu emprego de fiscal do desmatamento florestal. Por que tudo tem que ser feito com madeira neste país?

- Sim, meu amor, eu sei. Não estou reclamando de você. Você cumpre bem demais o seu papel de homem cis sem lugar de fala do inclusivo século XIX. Mas esta casa é muito grande, Rhett. Só pra limpar aquela escada eu levo três dias.

- Sim, querida. Eu reconheço seu esforço. Não sei como você ainda arruma tempo para trabalhar na sua Uber-carruagem. Você me inspira, Scarlett, assim como todas as pessoas que menstruam.

- Oh, Rhett. Eu o amo tanto. Mas acho que precisamos de ajuda.

- Que tipo de ajuda, Scarlett?

- Precisamos contratar alguém que faça esses serviços domésticos pra gente.

- Scarlett, não posso crer que você queira submeter uma pessoa a tamanha humilhação. Trazer alguém para realizar serviços que são de nossa obrigação é um ultraje, é uma exploração do proletariado, é quase como se desejássemos ter escravos.

- O que são escravos, Rhett?

- Não sei, Scarlett. É só uma palavra que acabo de inventar para expressar a minha indignação diante de tão deplorável situação.

- Mas, Rhett, eu ach…

- Scarlett, você não vê… ah, perdão meu amor, acabo de cometer um abominável manterrupting com você. Conclua seu raciocínio, por favor.

- Que isso não se repita, Rhett.

- Jamais, querida.

- O que eu estava dizendo é que esse ajudante seria muito bem pago, com todos os direitos trabalhistas, inclusive férias remuneradas em Atlanta.

- Scarlett, já não basta sermos esse péssimo exemplo de família branco-heteronormativa em uma sociedade marcada pela diversidade? Não conseguiria sair na rua e encarar todos os meus companheiros da classe trabalhadora.

- Mas, Rhett, oh, Rhett, há muito não temos um tempo só nosso. O que você acha de chamarmos a Nanny para ficar com a Bonnie? Assim nós dois poderíamos passar uma tarde romântica em Tara.

- Sinto muito, Scarlett. Sei que suas intenções são boas, mas esse ato tão simples poderia facilmente ser confundido com racismo, misoginia, gordofobia e opressão patriarcal, tudo junto. Imagine o desastre, minha querida. Se ainda fosse um vídeo, poderíamos tirá-lo de circulação e pedir desculpas à sociedade, mas nossos atos não têm volta.

- O que é um vídeo, Rhett?

- Não ligue para as minhas palavras, Scarlett. Fico muito criativo quando me empolgo.

- Sim, eu sei. Mas qual é a sua sugestão, Rhett?

- Scarlett, temos que nos mudar para uma casa menor.

- Sim, Rhett, sim. Vamos nos mudar. Seremos mais felizes com uma vida mais simples. Amanhã, meu amor, será um novo dia!

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