Fim de linha…

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Estavam todos reunidos na antessala da casa de repouso dos ex-presidentes (sim, eu sei que não existe casa de repouso para ex-presidentes, mas a crônica é minha e levo os ex-presidentes para onde eu quiser). Ali, todos tinham tempo de sobra para relembrar os momentos de glória, as fases difíceis, as temporadas atrás das grades, a amizade dos poucos colaboradores fiéis, a falsidade dos inúmeros aliados de ocasião (principalmente os de centrão).

Os enfermeiros acostumaram-se a ouvir escabrosos segredos de estado no café da manhã, seguidos de confissões comprometedoras a cada banho de sol. Afinal, ninguém mais tinha motivos para esconder seus malfeitos. Todos os possíveis crimes estavam prescritos e, àquela altura da vida, passar o resto dos dias no asilo ou na cadeia não faria tanta diferença.

As discordâncias ideológicas também perderam o ardor dos tempos áureos. Não era incomum que os interlocutores mais frequentes fossem justamente aqueles que protagonizaram embates acalorados no passado. Exemplo disso era a afinidade entre os dois presidentes que sofreram impeachment, apesar de suas ideologias antagônicas. A improvável amizade solidificou-se ainda mais depois que ambos passaram a ser alvos de chacotas por parte dos campeões de crimes e desvios, orgulhosos por terem mantido seus postos graças a mensalões, nomeações e orçamentos secretos.

Outra conversa recorrente reunia dois famosos na luta contra a inflação. Dono de um comportamento refinado, o único a lograr êxito jamais tripudiou o companheiro, embora – de quando em quando – chamasse sua enfermeira de “fiscala” só para irritar o amigo.

Os hóspedes mais próximos, entretanto, eram os fundadores das duas maiores seitas ainda em atividade naqueles dias. A rivalidade que construíram ao longo dos anos permanecia apenas entre seus milhões de seguidores. Cabia agora aos herdeiros de cada um continuar alimentando as teorias da conspiração que mexiam com as cabecinhas limitadas dos mais incautos. Assim conseguiam manter seus rebanhos motivados, e em constante crescimento. Alheios a tudo isso, ex-mito e ex-homem-mais-honesto passavam as tardes vangloriando-se de suas habilidades em comum. Contavam histórias dos ditadores do passado que tanto admiravam, riam-se dos expedientes usados para driblar as leis eleitorais e de responsabilidade fiscal, relembravam os nomes dos jornalistas e veículos de comunicação que mais odiavam (antes da regulação da imprensa, ainda em vigor), e disputavam qual horda de seguidores era mais fiel em função do número de agressões e assassinatos cometidos ao longo dos anos. Sempre chegavam à conclusão de que tinham sido bem sucedidos em seus intentos, afinal, haviam deixado como herança um país dividido, polarizado, incapaz sequer de cogitar eleger alguém que não pertencesse aos dois clãs.

Do lado de fora dos portões, um pequeno grupo gritava palavras de ordem e empunhava cartazes alertando que políticos deveriam ser cobrados, jamais endeusados. A polícia logo chegou para prendê-los, e a paz voltou a reinar (pelo menos naquela pacata casa de repouso).

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