Rasuras…

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Brasília, segunda-feira, 17 de maio de 2021…

- Pessoal, viram a pesquisa que saiu na semana passada? O homem tá uma fera. Não entende por que sua popularidade caiu tanto.

- Mas, chefe. Qual é a prioridade? Tentar melhorar a imagem dele ou treinar o Pazuello?

- Acho que podemos voltar a nos concentrar na imagem. Pazuello decorou o mais importante: o homem não sabia de nada.

- Já ouvi isso em algum lugar.

- O foco agora é aqui. Alguma sugestão?

- Olha, acho que tentamos de tudo.

- Sempre há campo pra novas abordagens. Cadê a lista?

- Que lista, chefe?

- Aquela que fizemos no início do governo, lembram-se? Com todas as ações positivas de comunicação com o eleitorado.

- Ah, é pra já. Mas ela tá toda rasurada.

- Não tem problema. Coloque a primeira página na tela, por favor. As anotações podem nos ajudar a pensar em algo novo…

DIVULGAÇÕES DE UM GRANDE GOVERNO:

    1) Valorizar a família honesta e trabalhadora do presidente.

(Rachadinha, o que é isso?) ✖

(Queiroz dirigia carros) ✖

(Queiroz vendia carros) ✖

(Quem é Queiroz mesmo?) ✖

(Queiroz não teve ajuda pra se esconder) ✖

(Abraços no Toffoli foram institucionais) ✖

(O STF fez justiça ao libertar o Queiroz) ✖

(Flávio Bolsonaro é um excelente corretor de imóveis) ✖

(Deixar o assunto cair no esquecimento) ✔

    2) Ressaltar o fim do toma-lá-dá-cá.

(Aproximação com o Centrão está descartada) ✖

(Aliança com o Centrão está descartada) ✖

(Submissão ao Centrão está descartada) ✖

(O Centrão só sugere. A decisão é do presidente) ✖

(O governo não apoia Arthur Lira) ✖

(O governo pede orações para a eleição de Arthur Lira) ✖

(O Centrão não é tão ruim como dizem) ✖

(Deixar o assunto cair no esquecimento) ✔

    3) Governo liberal rumo às reformas.

(A reforma dos militares será feita nos mesmos moldes) ✖

(A reforma administrativa será a próxima) ✖

(A reforma tributária é que será a próxima) ✖

(As reformas virão na época certa) ✖

(Privatizações de todas as estatais) ✖

(Privatizações de algumas estatais) ✖

(Privatizações de estatais virão na época certa) ✖

(A nova estatal era necessária) ✖

(Deixar o assunto cair no esquecimento) ✔

    4) Combate à corrupção é prioridade.

(O Coaf não é tão importante assim) ✖

(O novo PGR vai manter a Lava Jato) ✖

(Trocar diretor da PF é direito do presidente) ✖

(Moro é herói nacional) ✖

(Moro já foi tarde) ✖

(A Lava Jato já cumpriu seu papel) ✖

(Novo ministro do STF será implacável) ✖

(Voto do novo ministro a favor de Lula é normal) ✖

(Emendas são obrigatórias) ✖

(Emendas para aliados são obrigatórias) ✖

(Tratorão, o que é isso?) ✖

(Deixar o assunto cair no esquecimento) ✔

- A segunda página fala das ações nas áreas de meio-ambiente, educação e saúde. Posso colocar na tela, chefe?

- É… bem… melhor não. Alguém teve alguma ideia?

- Chefe, um passeio de moto sempre me ajuda a esquecer dos problemas…

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Casos de internação…

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- CREDI, bom dia.

- Bom dia. Acho que liguei para o número errado. Queria falar no Fanáticos Anônimos.

- É aqui mesmo, mudamos o nome para Centro de Recuperação de Devotos Irracionais.

- Ah, não sabia.

- O nome anterior estava dificultando as internações. Muitos não se reconheciam como fanáticos.

- Entendi. É sobre isso mesmo que eu queria falar. Preciso internar meu filho.

- Senhora, é importante que ele também esteja disposto a ser ajudado. Não fazemos internações compulsórias.

- Ainda não conversamos sobre essa possibilidade. A lavagem cerebral é tão forte. Mas ele tem demonstrado alguns lampejos de consciência.

- É um bom sinal. Qual é o tipo de fanatismo dele?

- Político. É alucinado pelo presidente. Aplaude tudo que ele faz. Meu filho acha que estamos sob ataque comunista, passa o dia falando mal dos isentões, e não para de compartilhar os vídeos bolsonaristas da Jovem Pan.

- Nossa, a senhora deve estar sofrendo muito.

- Nem me fale. E quando ele resolve ir às manifestações? Enfeita o carro com bandeiras, fotos e cartazes pelo fechamento do STF e a volta do AI5. Morro de vergonha.

- Ele consegue perceber as incoerências?

- Não. Chama a aliança com o Centrão de governabilidade, acha que os filhos do presidente estão sendo perseguidos, e nem considera a hipótese de existência do Tratorão.

- O caso dele parece bem grave. Tem muitos internados aqui com o mesmo perfil.

- Pois é. Não sei mais o que fazer.

- Quais foram os lampejos que a senhora mencionou?

- Bom, ele não gostou quando o presidente indicou o último ministro do Supremo, e quando disse que não entendia a pressa pelas vacinas. Mas foram críticas bem pontuais.

- A senhora pode manter as esperanças. Ainda há resquícios de sanidade no cérebro dele.

- Graças a Deus! Então, quais são os próximos passos?

- Preciso conversar com ele pessoalmente. Pode estar certa de que ele se sentirá acolhido.

- Que bom.

- Pode trazê-lo aqui na próxima segunda?

- Nesta segunda não. Estarei fora preparando as primeiras ações para a campanha do Lula. Temos que começar cedo se quisermos tirar esse genocida do poder.

- A senhora é petista?

- Claro! Somos a única esperança que resta ao Brasil.

- Então a senhora não acha que Lula seja corrupto.

- Claro que não. Qualquer pessoa com um mínimo de inteligência sabe que foi tudo uma conspiração da república de Curitiba com o apoio da imprensa golpista que controla este país.

- E os roubos bilionários, o mensalão, as fraudes fiscais, os…

- Olha só, não vou admitir que você diga mentiras sobre a única administração competente e honesta da nossa história. Podemos voltar a falar do meu filho?

- Claro, a senhora pode trazê-lo na terça?

- Posso sim. Devo levar uma mala com roupas dele?

- Dele e da senhora também.

- As mães dos fanáticos também ficam internadas?

- Só em casos extremos…

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Imprestável…

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O enredo era improvável. A inconfessável índole, exposta e incamuflável, havia de se tornar palatável. Chamaram-na de inabalável. O indubitável logro, ainda que inexplicável, iludiu o influenciável povo. O imponderável se materializava.

Inexorável, o tempo encarregou-se de mostrar a verdade implacável: o mito era indefensável. Insuportável, fez do deboche a sua marca. Irresponsável, tratou com desdém a vida. Intragável, vangloriou-se até de ser incomível.

Era inevitável. O âmago instável, imprestável, muitas vezes inflamável, jamais convencera no papel de imprescindível, inigualável, incorruptível. Hoje, parcela adquirível do inconfiável congresso lhe dá sobrevida. Parte do povo, imutável, ainda o chama de imbatível. Membros de uma seita inquestionável. A maioria, entretanto, considera-o abominável.

Temporariamente inimputável, ele sorri ao se declarar imbrochável e imorrível. O deplorável teatro perdura. A claque – irremediável – aplaude. Prova de que a inacreditável cegueira persiste. Que nosso momento, inimaginável, possa um dia se tornar incrível.

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Ligações maléficas…

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- MIT Telefonia, bom dia.

- Bom dia. Quero falar no setor de cancelamentos.

- Senhor, nossos planos não podem ser cancelados agora. Só no ano que vem.

- Quem disse?

- Consta no contrato que o senhor assinou.

- Quer dizer que eu tenho que conviver com essa porcaria até lá?

- Sim. Mas posso transferi-lo para o setor de reclamações.

- Eu já registrei 38 reclamações, só no último mês. E o serviço não para de piorar.

- O que houve agora?

- Meu telefone deu pra ficar mudo.

- Parou de funcionar?

- Não totalmente. Acontece de vez em quando.

- Então é um problema pontual.

- Um problema pontual muito sério, você há de convir.

- Senhor, aqui na MIT acreditamos que, às vezes, o silêncio pode ser uma bênção.

- Isso é alguma piada? Contratei um serviço por 4 anos, e não estou satisfeito.

- Tem muita gente que está.

- Não sei como. O sinal é péssimo, não faz ligação pras outras operadoras, e a mensalidade tá cada vez mais cara.

- Claro, o senhor perdeu o bônus que vinha na conta.

- Perdi por quê?

- Ué, pelo seu grau de insatisfação. O bônus é concedido apenas aos nossos aliados.

- Aliados? Vocês prestam um serviço público. Todos os clientes deveriam ser tratados da mesma forma.

- Quer deixar registrada mais essa reclamação?

- Nem vou perder meu tempo. Quero é trocar, assim que possível.

- O senhor está com sorte. Estamos direcionando os clientes insatisfeitos para outra operadora. Os novos contratos valeriam a partir de 2023.

- Vocês estão trabalhando pra uma empresa concorrente?!

- Sim, faz parte do nosso plano de fidelização.

- Não entendi nada, mas vou querer sim. Qual é a operadora?

- A Robafone, claro.

- Você deve estar brincando. Fui cliente deles por anos a fio. São ladrões e incompetentes. Vocês são parceiros?

- Diria que nossos métodos de contratação se assemelham bastante.

- Logo vi. Tô fora.

- Então posso deixar registrado que o senhor vai renovar conosco?

- Claro que não! Vou procurar outra operadora no ano que vem.

- Não existe outra, senhor.

- Que bobagem é essa? Existem várias, sem contar as que podem aparecer até lá.

- Todas muito pequenas. Não vão conseguir lhe prestar um bom serviço.

- Olha quem fala. Vocês estão é com medo de que uma empresa realmente preparada e competente tire vocês do mercado, né?

- Imagina. Contamos com a força dos nossos clientes mais fan… fiéis. Posso ajudar em algo mais, senhor?

- Só uma dúvida: esse tal bônus para os aliados constava do contrato?

- …

- Alô?

- …

- Putz, que hora pra ficar mudo…

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Pró-Brasil…

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Eu ainda me lembro de quando o Brasil era chamado de país do futuro. O tempo passou e o apelido parece mais distante a cada dia. Verdade seja dita, o futuro até chegou a esboçar alguns lampejos. Permitimo-nos flertar com responsabilidade fiscal, liberdade individual e coletiva, consciência social, repúdio e combate à corrupção. Acuado, o passado decidiu retomar as rédeas antes que pudéssemos nos empolgar com as peripécias de um futuro petulante e inconveniente. O país do futuro deixou de ser propagado. Que pena. A alcunha continha – pelo menos – a perspectiva de tempos melhores. Aquele “um dia” haveria de chegar… um dia.

Não contente em ser o país do passado, o Brasil tornou-se país do antifuturo. Sim, porque o povo brasileiro caiu na farsa do “anti”, tão difundida nas duas últimas décadas. Começou entrando na onda antineoliberal, apontada então como a fonte de todos os nossos males. Buscamos nosso primeiro anti-herói: aquele que não tinha cultura nem capacitação, que se vangloriava por não ter estudado, que se satisfazia em se colocar como “anti”. Ser “anti” nos bastava. Compramos o engodo. Desmascarada a fraude, a incompetência e a corrupção, o brasileiro aderiu ao antipetismo. Buscamos, então, nosso segundo anti-herói: aquele que não tinha cultura nem capacitação, que se vangloriava por ser rude, indelicado, politicamente incorreto e ignorante, que se satisfazia em se colocar como “anti”. Ser “anti” continuou nos bastando. Compramos o engodo. Desmascarada a fraude, a incompetência e a corrupção, o brasileiro abraça agora o antibolsonarismo.

Hoje, os devotos de nossos anti-heróis – com o valoroso auxílio da imprensa – querem nos fazer acreditar que nossas opções de escolha restringem-se aos dois. Querem nos passar a ideia de que um é a antítese do outro. Querem nos vender o maior dos engodos. Mas Lula e Bolsonaro têm muito mais semelhanças que divergências. Ambos são toscos, despreparados, corruptos, incompetentes e só têm contribuído para a polarização da sociedade brasileira. Lula e Bolsonaro representam tudo o que há de mais pernicioso, de mais podre, de mais arcaico na política. Não por acaso, se retroalimentam. Não por acaso, dependem um do outro. Lula e Bolsonaro são o retrato perfeito do anti-Brasil.

Temos um ano e meio até a nossa próxima escolha. Ser “anti” não pode mais nos bastar. O culto ao “anti” só tem nos levado a um antipaís. Quero voltar a acreditar no Brasil do futuro. Não creio que o futuro tenha desistido de nós. Só temos que aprender a trocar o prefixo.

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Vinte…

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Lembro-me de você com 20 horas. Menos de um dia de vida e seus olhinhos atentos já se esforçavam para reconhecer seu novo ambiente. As vozes que você se acostumara a ouvir ao longo da gestação ganharam feições, sorrisos e olhares apaixonados. Tudo era novidade. Você teve que aprender a respirar, a se alimentar, a não se assustar com a claridade e os ruídos à sua volta. Nós tivemos que aprender a conhecê-lo.

Lembro-me de você com 20 dias. O móbile que girava sobre o seu berço parecia inalcançável. Suas mãozinhas se esticavam, em vão, na tentativa de tocar as estrelas coloridas. Debatiam-se, impacientes, mas você sorria, certo de que acabaria conquistando seus objetivos. Os sorrisos faziam parte de sua rotina. Sempre fizeram. Eu ouvia seus balbucios – cada vez mais firmes – da porta de entrada, assim que anunciava em voz alta a minha chegada: “gostosura de menino lindo e fofo do papai”. Você se empertigava todo, como se fosse preciso me pedir colo. Não era. Quantas vezes dormimos juntos, você sobre o meu peito, o som do meu coração a lhe ninar.

Lembro-me de você com 20 meses. As grades do berço já não eram obstáculo e você se acostumou a vir correndo me abraçar todas as vezes que ouvia o barulho da chave na porta. Passávamos horas assistindo aos seus filmes favoritos, ouvindo as músicas da Xuxa, brincando com os carrinhos que você adorava destruir. Dormir era um custo, mas nenhuma noite em claro nos trouxe arrependimentos.

Durante mais de 18 anos, você sempre esteve por perto, no quarto ao lado, a poucos passos de distância. Seus desafios tornaram-se cada vez maiores, mas seus sonhos cresceram muito mais. Lembro-me de você hipnotizado diante de filmes densos e complexos, muitos até impróprios para a sua idade. Coisas de pais meio relapsos. Lembro-me de você embevecido, ouvindo de seu avô os mais sublimes conselhos, todos em forma de bate-papo. Lembro-me dele me dizendo que não me preocupasse com você, pois jamais conhecera alguém tão jovem com o seu caráter e a sua noção de ética e de justiça. Seu avô – como sempre – estava certo.

Hoje você faz 20 anos, meu filho. Como foi que o tempo passou tão rápido? Há pouco tempo, sua mão se esforçava para envolver meu dedo indicador e isso lhe transmitia segurança. Hoje, quando nos damos as mãos, a mais carente é a minha. Assim como no ano passado, você está a milhares de quilômetros de distância. Mesmo assim, nunca estivemos tão próximos. Nunca falamos tanto em tão poucas vezes. A saudade nos ensina – na marra – a reconhecer o essencial. Nossos olhares nunca disseram tanto e os abraços e beijos que trocamos a cada reencontro são ainda mais especiais e eternos. A distância nos mostra que as coisas corriqueiras são sempre as mais importantes.

Vinte anos se passaram, meu amor, e até hoje eu não sei o que eu fiz na vida para merecer um filho como você. Seu sorriso, sua felicidade e seu amor são os maiores presentes que eu poderia receber. Sua força, sua coragem, sua elegância e sua lisura me inspiram. Você me inspira, Arthur, todos os dias.

Que a vida continue lhe cobrindo de bênçãos, meu filho. Que o seu imenso coração continue lhe abrindo portas. Que as nossas mãos continuem se buscando. E que os nossos silêncios continuem nos dizendo cada vez mais. Obrigado por você existir.

Te amo, te amo, te amo!

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Além das quatro linhas…

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- Cara, há quanto tempo, tudo bem?

- Tudo. E com você?

- Tudo ótimo. Pra onde você está indo com a camisa da seleção?

- Pra manifestação. Você não vai?

- Nem tô sabendo.

- Não é possível. Você sempre foi tão patriota.

- Ainda sou. Me fale dessa manifestação.

- Vamos pra rua dizer pro presidente que ele tem a nossa autorização.

- Autorização pra quê?

- Ué, pra governar.

- Achei que ele tivesse sido autorizado em 2018.

- E quem disse que o congresso e o STF deixam?

- Ah, tá… então a manifestação é pra autorizar o presidente a governar sem o congresso e o STF.

- Isso, mas dentro das quatro linhas da Constituição.

- E você não tem medo de participar de passeatas em plena pandemia?

- Claro que não. Tomo cloroquina e ivermectina toda semana. Tô protegido.

- Mas a imprensa já divulgou vários estudos mostrando que esses medicamentos não funcionam.

- A imprensa é outra que não quer que o presidente governe. Passou da hora desses jornais serem proibidos de circular.

- Ah, tá… então a manifestação é pra autorizar o presidente a impedir que a imprensa o critique.

- Isso, mas dentro das quatro linhas da Constituição.

- Achei que atualmente existissem leis que proibissem a aglomeração de pessoas.

- Leis feitas por comunistas não podem ser obedecidas.

- Os comunistas seriam…?

- Você ainda pergunta? Quem está te impedindo de trabalhar?

- Acho que a pandemia.

- Pandemia é só desculpa. Governadores e prefeitos são os verdadeiros ditadores.

- Ah, tá… então a manifestação é pra autorizar o presidente a obrigar estados e municípios a obedecê-lo.

- Isso, mas dentro das quatro linhas da Constituição.

- Alguma cobrança em relação às vítimas da Covid?

- Claro. Queremos checagem do número inflado de mortes, aplicação compulsória do tratamento precoce, abertura completa de serviços e comércios, liberdade pra quem não quiser usar aquele trapo inútil no rosto.

- E quanto às vacinas?

- Somos democratas. Não acreditamos em fórmulas mágicas sem a devida comprovação científica.

- Ah, tá… então a manifestação é pra autorizar o presidente a tornar o tratamento precoce obrigatório e a não incentivar o uso de máscaras e vacinas.

- Isso, mas dentro das quatro linhas da Constituição.

- Ok. Boa manifestação pra você.

- Você não vai participar? Já sei, virou isentão comunista, né? Aposto que quer o Lula de volta.

- Cara, quero distância tanto de Lula quanto de Bolsonaro. Quem dera os dois apodrecessem abraçados na cadeia.

- Cadeia pro mito? O melhor e mais honesto presidente da história do Brasil? Você está me chamando de imbecil?

- Isso, mas dentro das quatro linhas da Constituição…

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Despertar amargo…

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- Adamastor, meu querido. É um milagre! Você está bem, graças a Deus!

- Madalena, o que aconteceu?

- Você não se lembra de nada, Adamastor?

- A última coisa de que me lembro foi ter votado no segundo turno da eleição.

- Isso. Nós sofremos um acidente na volta pra casa, Adamastor. Você estava em coma há dois anos e meio.

- Não é possível.

- Sim, meu amor. Mas eu sabia que você iria acordar, mais cedo ou mais tarde.

- Madalena, quanta coisa eu devo ter perdido. Me conta tudo. Onde está o Júnior?

- Tá em casa. Ele vem aqui depois. Você ainda não pode se emocionar demais.

- E meus pais? E a empresa?

- Enfermeira, será que não tá na hora de dar um calmante pra ele?

- Não quero calmante nenhum. Me fala, pelo amor de Deus!

- Tá tudo certo. Com seus pais, a empresa, com tudo. Juro.

- Ah, que bom.

- Agora descansa, tá?

- Madalena, só me responde uma coisa. O mito ganhou a eleição, não ganhou?

- …

- Que olhar é esse, Madalena? Não me diga que foi o Haddad.

- Bem, o que houv…

- Ah, não é possível. O país deve estar um caos. Quanto está o dólar?

- Quase seis reais, mas…

- Eu sabia. Eu avisei. São ladrões e incompetentes. Sempre foram.

- Adamastor, na verdade o…

- Aposto que o Centrão controla o governo, né?

- Controla, acontece que…

- Tá vendo? Bolsonaro ia acabar com tudo isso. Com certeza a eleição foi fraudada. Eu avisei sobre as urnas eletrônicas.

- Você precisa se acalmar…

- Acalmar? Como? Quero saber de tudo. Como ficou o último PIB?

- Recessão de 4%, mas você tem que entend…

- Pior que a Dilma? Estamos no fundo do fundo do poço.

- Enfermeira, o calmante, por favor.

- Já falei que não vou tomar calmante nenhum. Privatização de estatais, esquece, né?

- Até agora, nada. Até criaram outras.

- Conheço a corja. A tendência é piorar.

- É o que parece, infelizmente. Mas voc…

- Não mente pra mim, Madalena. A essa altura o Lula tá livre e o Moro virou bandido, não é?

- Como você sabe?

- Jesus! Agora é que essa gente não sai do poder nunca mais. A corrupção venceu.

- Adamastor, se acalme…

- E o Bolsonaro nisso tudo, Madalena? Ele está liderando a oposição, não está? Me diga que ele está lutando por nós.

- Enfermeira, o calmante!

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Pessoas de bem…

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“Seja uma pessoa de bem, filho” – costumava repetir meu pai. Seus conselhos – ditos com serenidade e doçura – ainda ecoam nas minhas memórias. Ele se referia a caráter, ética, honestidade, lealdade, discernimento, generosidade, e outros valores que lhe eram caros. Valores que fizeram parte de sua vida. Valores difundidos através de exemplos, bem mais eloquentes que meras palavras. Cresci disposto a ser como ele, a também me tornar uma pessoa de bem.

Muito tempo se passou. Meu pai se foi. Há mais de ano, o mundo luta para superar a maior pandemia do século. O Brasil – fiel à sua tradição de corrupção e populismo – tornou-se epicentro do contágio. Atentas, as autoproclamadas pessoas de bem preparam-se para sair às ruas. Preciso aproximar-me delas, afinal, são pessoas de bem. Quero também manifestar minha indignação diante do descaso, dos desvios de verbas, do atraso na aquisição de vacinas, da falta de coordenação, da incompetência, do deboche.

As pessoas de bem preferem sair em defesa da família, da democracia, da liberdade, da realização de missas e cultos, do direito de se defender. Valores nobres, sem dúvida. Mas não me junto a elas. Às famílias que essas pessoas de bem aprovam, só é permitido um formato. A democracia que essas pessoas de bem defendem começa com o fechamento de instituições, o cerceamento de opiniões divergentes. A liberdade que essas pessoas de bem propagam promete calar vozes contrárias. Os cultos que essas pessoas de bem promovem trazem mais dores que bálsamos neste momento. O direito à defesa que essas pessoas de bem reivindicam passa pelo acesso indiscriminado às armas, o aplauso à tortura, a justiça feita com as próprias mãos.

Recuso-me a ignorar a irresponsabilidade que se esconde no patriotismo dessas pessoas de bem. Recuso-me a seguir cegamente quem quer que seja. Não sou capaz de relevar a estupidez, a rispidez, o apreço ao conflito. Não consigo enxergar o bem nas ações dessas pessoas de bem.

Sinto, pai, mas não quero mais ser uma pessoa de bem. Não quero que seus netos sejam pessoas de bem. Sei que você me entenderia.

Cresçam, meus filhos, e tornem-se pessoas DO bem. Lutem por liberdade, mas não abram mão do bom senso. Valorizem a democracia, mas não se esqueçam da amplitude de seu significado. Defendam a família como a união do amor e lembrem-se de que amor não se julga. Sejam livres para expressar credos, crenças e convicções, mas respeitem as escolhas alheias. Saibam dizer, mas aprendam a ouvir primeiro. Atentem às verdades de cada um, por mais distantes que estejam das suas. Coloquem-se no lugar do outro. Valorizem a coerência, a gentileza, o diálogo. Encontrem sua própria voz. Não se calem.

Que o bem seja uma meta, meus filhos. Jamais se contentem com a alcunha.

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Deus espera…

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Quem me acompanha sabe que sempre uso o humor e o sarcasmo para denunciar os absurdos que vivenciamos todos os dias no Brasil. É a minha maneira de dizer o que penso, de condenar posturas hipócritas e contraditórias, de alertar para comportamentos que considero inaceitáveis. Nunca tive receio de externar minhas opiniões, de ser voz dissonante. Ao mesmo tempo, jamais tive apreço por verdades absolutas. O debate me motiva, as opiniões contrárias me atentam para outras possibilidades, a visão do outro – com frequência – ajusta a minha.

Mas tudo tem limite.

Vejam a celeuma em torno da proibição de cultos e celebrações, em discussão pelo pleno do STF. Quem, em sã consciência, pode ser favorável à liberação de uma atividade evidentemente não essencial no momento mais grave da pandemia? Bolsonaro enviou sua tropa jurídica ao Supremo, seus “jornalistas” e ex-jornalistas-em-atividade à imprensa, sua claque de fanáticos ao Twitter. Todos incumbidos de defender a “liberdade religiosa do brasileiro”.

Tenham santíssima paciência.

A proibição é temporária e se dá por questões sanitárias. Temos mais de 3 mil mortes diárias, o sistema de saúde está em colapso, há filas nos hospitais de todas as regiões do país. Não é possível que as pessoas continuem se recusando a enxergar isso. Nenhuma religião está sendo censurada e nem há campanhas diabólicas para que Deus seja esquecido. O fato é que concentrações de pessoas devem ser evitadas neste momento. “Ah, mas o baile funk da periferia continua” – denuncie, então, toda aglomeração clandestina. “Ah, mas as igrejas respeitam o distanciamento” – algumas tem estrutura e espaço para isso, mas a maioria não. “Ah, mas os ônibus vivem lotados” – sim, e a solução é aumentar o número de passageiros em circulação? “Ah, o presidente só está defendendo o nosso direito de ir e vir” – não, o objetivo de Bolsonaro é atender aos interesses de seus guetos eleitorais. “Ah, mas os fiéis sentem-se melhor quando vão a cultos e missas” – as celebrações online estão aí exatamente para suprir essa carência.

Estamos vivendo tempos complicados. Vamos focar nossas energias em questões realmente importantes, que mereçam ser debatidas. Saibamos reconhecer e condenar as atitudes populistas e demagógicas, as birrinhas ideológicas, as cortinas de fumaça que nos afastam dos verdadeiros problemas. Como dizia minha avó: “muito ajuda quem pouco atrapalha”. Convenhamos, o que não falta neste país é gente disposta a atrapalhar!

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