Pódio da vida…

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A etapa da Copa do Mundo de Ginástica Artística, realizada ontem no Catar, foi palco de mais uma disputa entre Rússia e Ucrânia. Nas barras paralelas, o lugar mais alto do pódio coube ao ucraniano. O russo teve que se contentar com o bronze.

Naquela competição, de nada adiantaram os tanques e as tropas que destroem uma nação soberana. De nada valeram as bombas que – no mesmo instante em que a disputa acontecia – matavam uma mãe e duas crianças que buscavam fugir de sua própria cidade, injustificadamente atacada. De nada serviram as atrocidades de um psicopata decidido a se impor a qualquer custo. Não pela sua própria força, fraco que é. Não pela sua própria liderança, inapta em lidar com o contraditório. Não pela sua própria coragem, farsa forjada por um arsenal bélico que teima em esconder uma face medíocre e covarde.

Naquelas barras paralelas, o embate aconteceu entre dois seres humanos, armados apenas de seus corpos e habilidades. Venceu o melhor. No pódio, o ucraniano ergueu sua medalha, e foi merecidamente ovacionado. Derrotado, o russo ostentou – com orgulho – o símbolo da guerra em seu peito. A letra “Z”, referência à expressão “za pobedu” (para a vitória), tem sido pintada em diversos veículos blindados que invadem e destroem o país do medalhista de ouro. Para o jovem ginasta russo, o “Z” que mina esperanças, que mata inocentes, que coloca em risco a paz mundial vale mais do que o bronze conquistado sem o auxílio dos mísseis lançados pelo exército de seu país.

Tolo ginasta russo, incapaz de compreender que sua verdadeira derrota não acontecera na disputa das barras paralelas. Ele foi vencido ali – no pódio -, ao revelar ao mundo sua subserviência, sua fraqueza de caráter, sua insignificância.

Tolo Vladimir Putin, incapaz de perceber que, mesmo que seus tanques e suas tropas conquistem a Ucrânia, esta é uma guerra que a Rússia já perdeu.

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Novos tempos…

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Março de 2018. Militantes e organizadores de campanha debatem sobre o grau de comprometimento a ser exigido dos novos voluntários. Mesmo animados diante das enormes filas que se formam em frente aos comitês a cada dia, todos sabem que os meses seguintes irão exigir perseverança, disposição e lealdade inabaláveis. O processo de seleção, portanto, deve ser dos mais rigorosos. Buscam-se soldados, não meros simpatizantes. Soldados dispostos a obedecer, sem questionamento, as orientações de seus superiores. Não basta, por exemplo, que os postulantes estejam fartos da incompetência, do aparelhamento, dos assaltos aos cofres públicos verificados nas gestões anteriores. Intolerância e ódio irrestritos são fundamentais para que a empreitada seja vitoriosa.

Depois de muita discussão, decidem começar a triagem pela análise das redes sociais. Quem não compartilha memes chamando Dilma de anta, Lula de molusco cachaceiro, petista de câncer do país, e artista de esquerda caviar é sumariamente descartado. A ausência de fotos em passeatas a favor do impeachment também é pretexto para indeferimento imediato.

A prova seguinte é o culto ao heroísmo. O objetivo é identificar aqueles que só se satisfazem com um salvador da pátria. Um ser onipotente, onipresente e onisciente que, quando parece ter errado, está apenas se antecipando aos problemas que só ele é capaz de enxergar. Odes saudosistas ao período da ditad… da intervenção militar contam pontos preciosos.

Na última etapa da triagem, os interessados respondem a um pequeno questionário para que se possa confirmar a orientação ideológica de cada um. São perguntas de múltipla escolha, básicas, quase protocolares:
“A qual grande inimigo um governo honesto e conservador deverá estar atento? O corrupto Centrão ou o incorruptível exército?”
“Com qual país o Brasil deve buscar estabelecer alinhamentos profícuos e duradouros? Estados Unidos ou Rússia?”
“Qual é o verdadeiro objetivo do bolsa-família nos governos do PT? Assistência aos mais carentes ou compra descarada de votos?”
“O que se espera de um governo de direita no campo da economia? Responsabilidade fiscal, controle de gastos, reformas estruturantes e privatizações, ou gastança desenfreada, criação de estatais, e aumento da dívida pública?”
“Quem é o responsável pela maior operação anticorrupção da história do país? Sérgio Moro ou Dias Toffoli?”
“Inflação sob controle, juros baixos e crescimento sustentável são atribuições de qual esfera governamental? Executivo federal ou governadores e prefeitos?”

Aprovados, milhares de voluntários juntam-se à causa. Forma-se, assim, um exército leal e de muitas alcunhas.

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Março de 2022. A tropa perdeu muitos de seus membros, mas ainda é numerosa. A captação de novos integrantes continua. Não há mais filas, tampouco grandes exigências na triagem dos poucos interessados. Apenas o questionário permanece… mas o gabarito foi alterado.

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Uma história hipotética…

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Um dia, o exército de um hipotético grande país europeu invadiu um de seus vizinhos. Além da fronteira, ambos compartilhavam identidades históricas e culturais. Nenhum tiro foi disparado, e o próprio povo do hipotético país invadido aprovou, por ampla maioria, sua submissão ao invasor. Os demais hipotéticos países europeus deram de ombros, julgando que a anexação era pontual e não lhes dizia respeito. Mas aquele exército não se deu por satisfeito. Pouco tempo depois, marchava sobre outro hipotético país limítrofe, sob a alegação de recuperar territórios cujas populações também compartilhavam afinidades culturais. Apesar da agressão, seus hipotéticos vizinhos europeus evitaram – mais uma vez – contestar com veemência a evidente política expansionista.

Fora da Europa, hipotéticos pensadores da história mundial manifestaram-se sobre aquele momento. Em um hipotético país da América do Sul, por exemplo, grandes cérebros deram suas opiniões. Seu líder – famoso naqueles tempos pela rara habilidade de comer frango com farofa sem o uso de talheres – afirmou que não via problema algum nos conflitos, uma vez que invasores e invadidos falavam a mesma língua. Questionado sobre um possível massacre, respondeu: “Falei por duas horas com o líder do hipotético país europeu, e ele me garantiu que não vai ter nenhum massacre, talquei? Manterei neutralidade no tocante a isso daí.”

Uma ex-governante do hipotético país tupiniquim concordou: “a culpa de tudo isso é do imperialismo internacional, que impôs um tratado humilhante, injusto e desigual ao povo do hipotético país europeu. Eles estão apenas se defendendo”.

Grandes jornalistas e filósofos de todas as ideologias se uniram na contemporização do conflito: o velho Janio escreveu que os imperialistas fecharam ao hipotético país europeu as vias de saída sem guerra. O jovem Jones foi ainda mais enfático ao afirmar que o hipotético país invadido tinha um governo neofascista e estava apenas colhendo o que plantou. Já o quase centenário Alexandre questionou o porquê da vigência do tal tratado, e afirmou que não se deve acuar uma hipotética grande potência.

Parte da opinião pública, influenciada por seus hipotéticos políticos de estimação, passou a tentar se colocar no lugar do líder do hipotético país invasor e entender suas motivações. Os que preferiram se colocar no lugar do hipotético povo invadido foram chamados de ingênuos, alienados e ignorantes em geopolítica. Assim, o líder do hipotético país europeu sentiu-se à vontade para continuar conquistando novos hipotéticos países e aniquilando seus povos. Sua derrota acabou ocorrendo, mas apenas às custas de um imenso sofrimento de toda aquela hipotética humanidade.

Talvez não tenhamos aprendido nada com a história. Mas isso é só uma hipótese…

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Contorcionismo cansativo…

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- USSR, bom dia.

- Uh… acho que liguei errado. Queria falar no QG do Telegram do Mito.

- É aqui mesmo. Trocamos nossa sigla todo mês, sempre de acordo com as prioridades do chefe.

- E o que essa significa?

- “Ustra Será Sempre Reverenciado”. Foi o próprio Messias quem pediu a homenagem. Disse que não para de pensar nesse grande brasileiro desde que esteve com o Putin.

- E a do mês passado, qual era?

- PFIZER – “Por que FIZERam essa merda de vacina pra criança?”

- Ah, entendi.

- Como posso ajudá-lo?

- Eu quero me desfiliar.

- Você tá brincando. Por quê? Não estamos em condições de perder mais ninguém.

- É que eu ando cansado demais.

- Cansado de quê?

- De acompanhar as mudanças. Quando estou começando a decorar todos os argumentos, vocês me pedem pra dizer o contrário.

- Que exagero.

- Exagero? Logo no início vocês me proibiram de falar que os filhos do Lula tinham que estar na cadeia. A gente ainda frequentava Twitter e Whatsapp, lembra?

- É que esse assunto de filho bandido de presidente ficou meio batido.

- Pois é, depois tive que aprender a falar bem do Centrão, a chamar o Moro de comunista, a dizer que a Lava Jato não foi aquilo tudo, a esquecer o apelido de Posto Ipiranga, a sair gritando que eu autorizo (até hoje não sei bem o quê), a…

- Mas as instruções sempre foram enviadas. Era só você seguir.

- Foi o que eu fiz. Mas é muita coisa contraditória pra gente lembrar. Não aguento mais ficar com aquela cara de “ah, é?” quando algum conhecido vem me cobrar coerência. Acabo chamando o cara de petista e saindo de perto pra não passar vergonha.

- Essa solução até que é boa.

- Uma vez ou outra funciona, mas toda hora? Não dá. Já basta o que eu passei na pandemia.

- O que houve?

- Ah, não me diga que já esqueceu. Tinha hora que era pra chamar a Covid de gripezinha, depois passou pra vírus chinês e até o termo “fraudemia” vocês me mandaram usar. Isso fora as máscaras e a vachina do Dória que não serviam pra nada, e as outras vacinas que provocavam trombose, miocardite, Aids e joanete no pé direito. Você tem ideia de como foi difícil decorar a fórmula molecular da cloroquina só pra passar credibilidade?

- E você vai desistir justo agora?

- É que a situação passou dos limites. Eu até defendi a tal viagem pra Rússia, mesmo não engolindo muito bem essa amizade com o maior aliado da China e da Venezuela. Mas não dá pra aceitar esse comportamento.

- Tenho que admitir que tem gente bem fiel ao presidente chateada com essa falta de posicionamento.

- Falta de posicionamento? Não, não é isso que me incomoda.

- E o que é, então?

- É que vocês estão dizendo que a invasão não teria acontecido se os cidadãos ucranianos estivessem armados.

- Sim, pode disparar essa verdade por aí.

- Vocês acham mesmo que os tanques, os mísseis e as tropas russas seriam impedidas por pais de família com um revólver na mão?

- Claro.

- Cara, nem eu consigo ser tão cego assim.

- Já vi que você tá quase virando comunista. É melhor cair fora mesmo antes que contamine os outros.

- Já fui. Só me responde uma curiosidade antes: vocês já sabem qual será a sigla que vão usar no mês que vem?

- OTAN – “Os Tontos Acreditam Nele”…

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Memes bélicos…

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- Alô. Vlad?

- Доброе утро, Bolsonaro.

- O que foi que ele disse? Essa tradutora simultânea tem que ser mais rápida. Bom dia? Bom dia o cacete, Vlad! Você tá querendo me ferrar?

- Você não, Bolsonaro. Quero ferrar o Biden.

- Eu também quero acabar com aquele comunista. Mas não assim. Sabia que você queimou meu filme? Tava cheio de gente acreditando que eu tinha te convencido a não entrar em guerra.

- Nem falamos sobre isso, Bolsonaro. Além do mais, aqueles ucranianos passaram do limite.

- Se eles atacaram primeiro, você tá certo em revidar. Continuo solidário à Rússia.

- Sim, foram eles que começaram.

- Lançaram mísseis, foi?

- Pior. Memes. O último foi insinuando que meu AK47 é menor do que uma pistolinha 9mm.

- Puta merda.

- Do que você me chamou?

- Nada. Não foi com você.

- Ah, bom.

- Sou solidário à Rússia, Vlad. Acho que você foi paciente até demais. Queria poder fazer o mesmo com os comunistas que me enchem o saco todo dia por aqui.

- E por que não faz?

- Porque a oposição e a imprensa não deixam.

- Não sei o que é oposição nem imprensa.

- Por isso sou solidário à Rússia.

- Obrigado, Bolsonaro.

- Mas, Vlad, tem muita gente me pressionando pra fazer uma declaração contrária à sua invasão.

- Mas você não está do nosso lado?

- Sou solidário à Rússia, mas vai pegar muito mal eu apoiar uma ação com muitas mortes. As eleições estão aí.

- Quem disse que vai ter morte? Se nenhum soldado ucraniano tentar impedir nossa invasão, ninguém vai morrer. Claro, não vamos ficar quietos se alguém vier dar uma de engraçadinho.

- Não tinha pensado nisso. Vlad, você é um humanista.

- Eu e Marighella. Posso contar com você, Bolsonaro?

- Claro. Sou solidário à Rússia. Defendemos a existência da família e, principalmente, a crença em Deus.

- Sempre acredite em si mesmo. Esse é o meu lema.

- Como disse o amigo Trump, você é um gênio, Vlad.

- Sou, Bolsonaro. Se precisar de algum conselho sobre como lidar com a… qual é o mesmo o nome?… ah, imprensa, é só me ligar.

- Talquei, Vlad. Boa sorte com aqueles ucranianos comunistas. Quero ver eles fazerem meme com você depois disso.

- Por falar em meme, acabei de receber um que mostra Jesus Cristo decepcionado com você. Ri muito.

- Ah, se o meu exército me obedecesse…

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Biometria…

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Conheci as mãos de minha avó já idosas. Dedos curvados, pele fina e enrugada, unhas por fazer. Nunca foram fortes o bastante para me sustentar. Ao envolverem as minhas, entretanto, suas mãos aqueciam feito cobertor felpudo, mingau de maisena, cantiga de ninar. Não as reconheci ao tocá-las pela última vez. Seu calor se dissipara.

As mãos de minha mãe sempre foram firmes, impetuosas, determinadas. Às vezes, assustavam. Delas vinham as palmadas que findavam travessuras, os movimentos a guiar as primeiras caligrafias, a compressa que me cobria a testa e amainava o ardor da febre. Despedi-me delas muitas vezes, a primeira ainda criança, vendo-as acenar pelo vidro de um portão de embarque. Na derradeira, só as minhas gesticularam um adeus.

“Amigos até nossas mãos empatarem” – repetia meu pai, sempre que chegava em casa. O gesto de sua mão sobreposta à minha estendeu-se pela vida afora. Tornou-se nossa marca registrada, nossa senha secreta de cumplicidade. Suas mãos me instigaram a sonhar, a ousar, a reconhecer texturas e essências. Entrelaçaram-se às minhas no tilintar das taças, nos primeiros choros de criança, nos suspiros quase silentes que musicavam nossos olhares. Guardo – como acalanto – o calor da última vez que se abraçaram.

Descobri que meu coração pulsava no polegar quando, pequenas, suas mãos o envolveram. Redefinia-se meu conceito de amor. Mãos dadas desvendaram os primeiros passos, sossegaram aflições, acalentaram noites em claro. Hoje, sou eu a buscá-las. Cedo, aprenderam a se despedir, também diante de um portão de embarque. Mesmo distantes, nelas repousa meu esteio.

Contemplo minhas próprias mãos. A pele fina – herança de avó – começa a revelar pequenas manchas – heranças de pai. Trazem ainda – herança de mãe – aversão ao desamparo dos ombros. Espero um dia vê-las envelhecidas, engelhadas, cercadas de outras tantas. Que possam contar histórias, ao serem tocadas. Que possam evocar memórias, entre sorrisos e lágrimas. Que possam aquecer novas mãos, mesmo quando uma única centelha de calor lhes restar.

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Legado pra esquecer…

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- Aonde a senhora pensa que vai?

- Ué, ver o ex-presidente, é claro.

- Nome?

- Meu filho, você me conhece. Venho aqui toda semana.

- Seu nome.

- Meu nome? Você deve estar de brincadeira. Fui presidenta disso aqui por quase 6 anos.

- Nunca vi a senhora na vida.

- Ah, já entendi, é pegadinha, né? Pronto, já ri, agora me deixe entrar.

- Só pessoas autorizadas podem passar. O ex-e-próximo-presidente não recebe qualquer uma.

- Olha, você me respeite. Eu não sou qualquer uma. Já fui uma das mulheres mais poderosas do mundo.

- Todo mundo agora vem com esse papinho. Há pouco enxotei daqui um que jurava ter sido o melhor economista de todos os tempos.

- O Guido?

- Não, o Dr. Guido tá lá dentro trabalhando com o chefe. É um gênio das finanças. Tô falando de um que disse ter comprado uma refinaria a preço de banana.

- Nem sei o que é refinaria.

- Claro que não sabe. E já pode ir embora.

- Eu não saio daqui enquanto não for recebida pelo presidente.

- Então serei obrigado a chamar a segurança.

- Não, você vai chamar é a Gleisi, a Maria do Rosário, a Benedita. Elas vão me deixar entrar. Fizemos um pacto de sororidade.

- Essas aí só fazem o que o presidente manda. Sororidade é só da imprensa pra fora.

- Você tá querendo me dizer que foi o próprio presidente quem proibiu a minha entrada?

- A senhora chegou a essa conclusão sozinha? Andou treinando, né?

- Vou ligar pra ele agora mesmo.

- Não adianta, ele não vai atender. Está aguardando o Dr. Geraldo pra uma reunião muito importante.

- Quer dizer que aquele picolé de ch…

- Senhora, aqui não são tolerados insultos aos nossos membros.

- Membros? O cara sempre foi nosso inimigo e tem livre acesso. Eu, que lutei pelo partido, que sofri um golpe, sou barrada.

- Pois é, a vida é injusta mesmo. Agora ponha-se daqui pra fora.

- Isso não vai ficar assim. Vou defender meu legado até o fim.

- Olha, se a senhora ficar quietinha no seu canto, garanto que o presidente saberá reconhecer o seu silêncio mais tarde.

- Ele disse isso?

- Não, é que eu trabalho pra ele desde os tempos do seu Celso. Sei como as coisas funcionam.

- Ah… quando o Geraldo chegar, diga que mandei um beijo, tá bom?

- Pode deixar, senhora. Pode deixar.

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Sem açúcar e sem afeto…

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Chico Buarque afirmou que não vai mais cantar “Com açúcar e com afeto”, música composta a pedido de Nara Leão em 1967. O motivo? A letra fala de uma mulher submissa, permissiva, capaz de perdoar com facilidade as traições e o descaso do companheiro. Assim como a Amélia de Mário Lago (aquela que era mulher de verdade), a personagem imaginada por Chico carece de amor próprio. Sim – pasmem – na década de 60 havia mulheres que viviam relacionamentos abusivos. Ainda bem que elas não existem mais, não é mesmo?

O fato é que a letra – genial e repleta de ironias – levanta uma questão que, infelizmente, nos é corriqueira desde aqueles tempos. Mas não há apologia alguma à submissão feminina. Ao contrário, há críticas. Mesmo assim, Chico Buarque resolveu ceder à pressão do politicamente correto. “As feministas têm razão, vou sempre dar razão às feministas” – afirmou. Dessa forma, Chico mostrou – mais uma vez – que a voz corajosa que ludibriou os censores na ditadura militar não existe mais. Afinal, a mesma voz forte e altiva capaz de desafiar a opressão, o autoritarismo e a censura praticados pela direita é mais submissa que a personagem da canção quando se depara com a opressão, o autoritarismo e a censura oriundos da esquerda. É uma voz seletiva, e vozes seletivas perdem muito – muito mesmo – de sua força, de seu encanto e de sua credibilidade.

Mas eu, que ainda sou fã do artista (não do ser humano), quero me antecipar aos próximos cancelamentos de suas músicas. Se a coitada de “Com açúcar e com afeto” não pode ter vez, o que dizer das “Mulheres de Atenas”? Portanto, aqui vai a minha sugestão para que Chico não deixe de cantar essa obra-prima, agora com a devida correção que os novos tempos merecem:

“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Livres de todo homem, machismo tóxico de Atenas
Cortejadas, não se conformam
Agridem, xingam, imploram
Por duras penas
Desprezadas, não se assustam
Gargalham, bebem, degustam
Farras terrenas, obscenas”

“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Alheias a quaisquer homens, burros de carga de Atenas
Quando eles embarcam, aflitos
Elas celebram aos gritos
Sorriem apenas
E quando eles voltam sedentos
Em busca de seus alentos
Recusas plenas, serenas”

“Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Imunes a todo homem, sombras do orgulho de Atenas
São donas de seus narizes
E pintam de quaisquer matizes
Suas melenas
E quem pensa em persuadi-las
A depilar suas axilas
Terá problemas, centenas.”

Caso o autor aprove a minha sugestão – certamente bem mais adequada ao comportamento das pessoas que menstruam de hoje em dia -, segue também uma pequena amostra do que pode ser feito no caso da outra coitadinha que – em pleno século XXI – ainda rasteja por um homem (argh). Tenho certeza de que “Atrás da porta” ficaria também muito mais digna com as seguintes alterações:

“Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei
Eu te estranhei, e duvidei
Me levantei, me afastei
Comemorei, e me encontrei
E arrumei os meus cabelos
Pra te mostrar que já foste tarde
Até provar que já foste tarde”

Sim, sei que é muita pretensão da minha parte dar sugestões a um dos maiores gênios da MPB. Por isso vou ficando por aqui, antes que comece a pensar sobre qual tipo de flor devemos jogar na empoderada da Geni.

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Odisseia…

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A primeira semana de viagem transcorrera sem atropelos. O embarque em BH e a chegada aos Estados Unidos – hoje em dia bem mais demorados graças aos inúmeros formulários, comprovantes de vacinação e testes de Covid a serem analisados – foram digeridos com maior facilidade que a “refeição” (também conhecida como pãozinho dormido recheado com meia fatia de queijo) servida pela companhia aérea. Aluguel do carro ágil como nunca, e hotel e ingressos fiéis a seus respectivos vouchers prometiam duas semanas livres de perrengues. Como se isso fosse possível…

“Seu voo sofreu alterações. Clique aqui para aprovar o novo itinerário”, dizia o e-mail recebido naquela manhã. Cliquei, temendo me deparar com novas escalas e consequentes acréscimos de pães da véspera. Fui direcionado para outra página: “Não há como executar esta ação por este canal. Entre em contato com nossos operadores”. Os prognósticos não pareciam bons. Liguei. “Todos os nossos operadores estão ocupados. Ligue mais tarde” foi a mensagem ouvida logo após o primeiro toque. Não deveria haver uma fila de espera? Liguei pela segunda vez, alguns minutos depois. A mesma gravação foi ouvida, assim como na terceira, quarta e décima oitava tentativas (essa última já no final da tarde).

Só me restava ir pessoalmente ao escritório da companhia aérea. “Googuei” em busca do endereço e descobri que não havia escritório no centro (por que haveria em uma cidadezinha minúscula e pouco procurada como Orlando?). Acordei na manhã seguinte e fui direto ao aeroporto. Os atendimentos – quaisquer atendimentos – eram feitos nos guichês do check-in. Perguntei a uma das atendentes se havia uma fila separada para quem não estava embarcando naquele momento. “Claro que não”, ela me respondeu, quase tão educadamente quanto Bolsonaro trata a imprensa. Entrei na fila para descobrir que minha volta havia sido antecipada em um dia. “Mas eu já paguei pelo hotel, pelo carro, e não posso perder um dia sequer da companhia do meu filho que mora aqui”, implorei. Sensibilizada, a atendente revirou os olhos e me disse que precisava dar atenção aos demais passageiros da fila. Resignei-me.

Dois dias antes do embarque, um novo e-mail chegou: “Estimado passageiro” – essa delicadeza inicial não podia ser prenúncio de boa coisa – “infelizmente seu voo teve que ser cancelado devido a casos de Covid em nossa tripulação. Para obter mais detalhes, clique aqui”. Cliquei. “Seus dados não foram encontrados. Verifique o número de sua reserva novamente”. Não pensei duas vezes. Entrei no carro e peguei novamente a estrada para o aeroporto, onde encontrei todos os guichês vazios (eram quase 5 da tarde, eles tinham que descansar). Liguei para meu irmão e lhe pedi que tentasse resolver tudo pelo telefone da companhia no Brasil. Só assim consegui saber que minha volta havia sido adiada em 3 dias. Adivinhe quem iria arcar com as novas diárias de hotel?

Chegou o dia do embarque. Eu e a velha conhecida fila nos reencontrávamos.

- Seus testes de Covid não são válidos. Foram feitos há mais de 24 horas da hora do embarque – informou a atendente, assim que pegou nossos documentos.
– Como assim? Fizemos o teste na véspera, como solicitado no site de vocês. Além do mais, a diferença é de menos de uma hora.
– Já falei com meu supervisor. Não podemos fazer nada.
– E o que a gente faz agora?
– Vocês podem fazer o teste aqui no aeroporto mesmo. Custa 65 dólares por pessoa.

Lá fomos nós, correndo feito loucos, para mais uma fila. Cadastros, pagamentos e testes feitos, recebo a ligação do meu filho que havia ficado cuidando das malas junto ao check-in: “pai, eles agora resolveram aceitar os seus testes”. Sabe aquele momento em que você se dá conta de que jogou mais de mil reais na fogueira? Pois é.

Voltamos aos guichês que, àquela altura, me lembravam alvos de um estande de tiros.

- Alguma bagagem extra? – perguntou a prima de Lúcifer.
– Só uma – respondi, entre xingamentos silenciosos.
– São 45 dólares.
– Você vai ter mesmo coragem de me cobrar, depois de ter me feito gastar 195 dólares à toa?
– São 45 dólares, senhor.
– … (pensamentos impublicáveis).

Paguei.

- Onde está o certificado de vacinação da criança? – perguntou-me uma outra atendente, parecidíssima com a menina de “O Exorcista”.
– Ele tem 12 anos. Ainda não tomou a segunda dose.
– Sem certificado ele não pode embarcar.
– Ah, ele vai embarcar sim. Pode ter certeza de que vai.

A possuída me olhou assustada, percebendo o ódio evidente no meu tom de voz. “De 12 anos pra baixo não precisa”, disse uma de suas colegas. “Então tá”, respondeu a emissária do apocalipse. Ninguém checou nada, ninguém se certificou de nada e, no fundo, ninguém sabia de nada.

Embarcamos.

O pão da volta estava particularmente murcho.

Ah, o nome da companhia aérea? Copa Airlines. Viaje por sua conta e risco.

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Férias…

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Trinta dias de conversas, afagos e mãos entrelaçadas chegaram ao fim. Trinta dias de sorrisos desarmados, de toques, de reencontros. Trinta dias repletos de oportunidades para que dois irmãos voltassem a se reconhecer grandes amigos. Trinta dias para que uma mãe voltasse a ser a voz sensata, a palavra amiga, a força capaz de aliviar os corações dos filhos. Trinta dias em que uma família pôde reviver rotinas ausentes há anos: papos triviais em torno da mesa, baldes de pipoca em filmes vistos em casa ou em salas de cinema, jogos de videogame, encontros de amigos, comemorações de Natal, brindes, confidências e recordações. Trinta dias em que pudemos saborear, juntos, novas emoções e descobertas. Lugares surpreendentes foram visitados, lágrimas de alegria foram compartilhadas, sonhos, promessas e ideais – ainda que individuais – passaram a nos ser comuns.

Para mim, os últimos trinta dias foram particularmente inesquecíveis. Pude voltar a ser o pai que busca e leva o filho a seus compromissos, que o aconselha, que percebe as aflições de seu coração apenas pelo semblante. Fui o pai que programa passeios e se satisfaz com os olhares de aprovação que recebe em troca. Fui, principalmente, o pai que se emociona diante dos grandes seres humanos que meus filhos prometem se tornar. Fui o pai que se aproveita da sabedoria de cada um deles, e que – através desta – dispõe-se a rever conceitos e opiniões. Fui o pai que se permite ser guiado, acalentado, protegido. Fui, pela primeira vez, um pouco filho dos meus próprios filhos.

Hoje, diante de mais um portão de embarque, beijos e abraços acompanharam o pranto pelo final desses trinta dias. São lágrimas conhecidas, gotas de ausência que insistem em irrigar os mesmos rostos a cada novo adeus. Todos sabemos que a dor é efêmera, ao contrário da saudade que se avoluma com o tempo. Todos esperamos, portanto, que as próximas despedidas machuquem menos. Mas a próxima insiste em ser a primeira. Pouco importa. Despedidas são tão especiais quanto cada um dos momentos eternos que vivenciamos juntos. Elas nos recordam de nossa própria finitude. Elas nos incentivam a viver intensamente cada instante e, assim, quem sabe um dia, poder afirmar que intensidade e felicidade estão muito mais próximas do que jamais poderíamos ter imaginado.

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