Verdades contábeis…

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No banco…

- Bom dia, senhor.

- Bom dia o cacete. Eu quero falar imediatamente com o meu gerente.

- Sente-se, por favor. Já vou chamá-lo.

- Bom dia, em que posso ajudá-lo?

- Recebi essa mensagem informando que minha conta foi encerrada.

- Deixe-me ver. Sim. Foi encerrada porque o senhor passou três cheques sem fundos ontem.

- Impossível. Eu tenho aplicações com resgate automático. Tenho dinheiro mais do que suficiente para cobrir esses cheques.

- Não é o que diz o seu extrato.

- É óbvio que você não está com o extrato correto em mãos.

- Acompanhe comigo, senhor. Foram emitidos três cheques no valor total de R$ 1.005,00. O senhor reconhece a emissão desses cheques?

- Sim, reconheço.

- Pois é, e o senhor também pode verificar que não foi feito nenhum depósito ontem.

- Ontem não. Mas esse extrato está incompleto. Onde estão o saldo e as movimentações anteriores?

- Eles não são importantes.

- Como não são importantes? Tenho mais de trinta mil em aplicações.

- O que o senhor tinha acumulado no passado não interessa.

- Como assim não interessa?

- A nova metodologia prevê que sejam consideradas somente as movimentações diárias, para retratar melhor a sua realidade atual.

- Mas isso é um absurdo. Quem determinou essa aberração?

- A nova metodologia foi definida pelo próprio presidente.

- Pode ter sido determinada até pelo Papa. Fiz depósitos com vocês ao longo de meses e vocês não podem fingir que eles não existiram.

- Não estamos negando nada, senhor. O fato é que eles não importam mais.

- Vocês querem acabar com a minha vida?

- Muito pelo contrário. Estamos pensando no seu bem. O passado já era, o senhor tem que pensar daqui pra frente.

- Mas tudo o que eu poupei não pode ter simplesmente desaparecido.

- Claro que não desapareceu, senhor.

- Não entendi.

- Todas as suas movimentações estão disponíveis para consulta em outros canais. Mas não aqui no banco.

- Mas é aqui que o meu dinheiro está. E não quero apenas fazer consultas. Quero movimentá-lo.

- Sinto muito, mas o senhor não pode fazer nem uma coisa nem outra. Saldos e demais dados só passam a ser considerados oficiais quando informados por nós.

- Isso não vai ficar assim! Não vou permitir que vocês fiquem com o meu dinheiro.

- O senhor está nos ofendendo. Não queremos ficar com o seu dinheiro. Estamos fazendo tudo com muita transparência e apreço pela verdade.

- Ótimo. Então vou sacar tudo agora.

- Sacar o quê, senhor?

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A very good friend…

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- Deixa que eu falo com ele sozinho, talquei? Só me ajuda se eu precisar.

- Hello?

- Hello, brother Trump. Jair here.

- Jar of what? I hope it’s beer.

- O que ele… ah, é brincadeira? Very funny, Trump. Hahahaha. Bolsonaro here, porra.

- I know. Great friend, tremendous job!

- Viu, porra? Isso é que é amigo… Tank you, Trump. I love you two.

- What can I do for you?

- I call because need help here.

- Really? I’ll do whatever it takes to help the tremendous Brazilian people.

- Good. I need – como fala apoio mesmo? Ah, é – support.

- What kind of support?

- Kind é bom, né? Aqui não? Ah, entendi… Trump, I need you say things goods about me.

- I’ve just said. Great friend, tremendous job.

- Yes, yes. But say for the hole word, please.

- You mean the press?

- Ele tá com pressa? Ah… Yes, say for press.

- Man, I can’t help you with that.

- Ele falou que pode, né? Não? Why no, Trump?

- Because Brazil is a terrible example to America and the world. You must change the way you’re dealing with this crisis.

- O que ele disse? Não entendi porra nenhuma… ah… Trump, I change. Bigs changes.

- Really? What have you done?

- I have new minister.

- Another one?

- No, same general. But now I put in the Daily Official and he is minister temporary of true.

- Not good enough. There are so many people dying every day in Brazil.

- Entendi, ele falou das mortes… But die is destiny of the people. So what?

- I know. But you can’t say that anymore. You must at least pretend you care about them.

- Ah, I pretend. I pretend to change time of the divulgation of bad news, Trump. That little presentator of that little TV will not fuck me every night. They will have no fake news to count (porra, meu inglês tá bom pra caralho!).

- Again, not enough. And I’m facing big problems now with the riots.

- With who?

- Well, WHO is also a big problem. I’m pulling out. You should join me.

- Join you? I join you forever. Tank you.

- Bolsonaro, you really are a good friend.

- Yes. Good friend. Now you say things goods about me for press?

- Well, maybe you should call me next month, ok?

- Talquei, Trump. I call. Bye.

- Bye, Javier.

- Jair.

- Jar of what? Hahahaha!

- Hahaha! Não falei, porra? Esse cara me ama!

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Protocolos sinistros…

- Próximo!

- Bom dia. Finalmente, estou há quase duas horas na fila.

- Trouxe o formulário preenchido?

- Sim. Todas as oito páginas.

- Ótimo.

- Não entendo pra que toda essa burocracia. Era tão mais fácil quando a gente podia assinar pela Internet mesmo.

- Temos que ser extremamente cuidadosos nestes dias turbulentos. Tem muita gente se aproveitando da situação.

- Aproveitando pra quê?

- Ué, pra se juntar a nós, é claro. Mas as coisas não são tão simples assim.

- Achei que vocês quisessem angariar o maior número de pessoas possível. O slogan não fala em setenta por cento?

- Sim, mas devemos estar seguros de que os solicitantes estejam realmente alinhados com a nossa pauta.

- Mas a pauta é basicamente não concordar com a forma como o país está sendo conduzido pelo presidente, não é?

- Não, esse é só o primeiro passo. Trouxe seus documentos?

- Sim, de quais você precisa?

- Identidade, CPF, comprovante de residência e celular.

- Aqui estão. O número do meu celular já está no formulário.

- Não falo do número. Estou me referindo ao seu aparelho.

- Como assim? Você quer que eu lhe entregue meu aparelho?

- Não vou ficar com ele. Só preciso checar todas as suas redes sociais. Elas não estão abertas.

- Claro que não. Elas estão abertas somente aos meus amigos.

- Infelizmente, os novos protocolos exigem que tenhamos acesso a todas elas.

- Que novos protocolos?

- Bom, o primeiro é o chamado protocolo Juca Kfouri.

- Hã?

- Faremos uma pesquisa nas suas postagens para verificar se alguma vez você chamou Sérgio Moro de herói.

- Desde quando?

- Desde sempre. Se chamou o Moro de herói é porque você é fascista. E fascistas não passarão e nem assinarão.

- Meu Deus.

- Por falar em Deus, o segundo é o protocolo Luiz Inácio.

- E esse diz o quê?

- Que movimentos suprapartidários são elitistas.

- Não entendi nada.

- É simples. Você é filiado a qual partido?

- Eu? A nenhum, é claro. Isso é necessário?

- Claro que não. Seria bom, mas não somos tão rigorosos assim. Basta que suas postagens provem que você se identifica com o PT, o PSOL, o PCdoB, o PCO ou o PSTU.

- Mas só aí já são cinco partidos.

- É que o Lula não sabe exatamente o que significa suprapartidário.

- Só esses partidos são permitidos?

- Com o PSDB você ainda pode ter alguma chance mas sua assinatura teria que passar antes pelo crivo do nosso conselho de ética.

- Entendo. Mais algum protocolo?

- Sim. Tem o protocolo Ruas sem Donos.

- Ruas sem donos?

- Sim, vamos verificar se você foi favorável às manifestações pró-democracia do último domingo.

- Aquelas que terminaram em confusão?

- Aquelas em que a polícia agrediu os nossos manifestantes pacíficos, você quer dizer.

- Pode ser. E se eu não tiver apoiado nem um lado nem o outro?

- Não ter lado significa, obviamente, que você já escolheu o lado do mal.

- Será que vocês não estão exagerando um pouco?

- Claro que não. Eu ainda nem falei do último protocolo.

- Tem outro?

- Sim. E esse é o mais desafiador de todos. É o protocolo Felipe Neto.

- Jesus!

- Serão analisadas todas as postagens que você não fez.

- Que eu não fiz? Como assim?

- Você não pode ter ficado calado diante das injustiças que ocorreram e que ocorrem diariamente no Brasil e no mundo. Vamos analisar se você não disse nada quando a Marielle foi assassinada, quando Bolsonaro se elegeu, quando a Amazônia foi incendiada, quando negros foram mortos. Por falar nisso, se ontem você não trocou a sua foto de perfil por uma tela preta já pode voltar pra casa.

- Olha, acho que é o melhor que eu faço mesmo. Boa sorte no recrutamento. Vocês vão precisar.

- Lá se vai mais um sem lugar de fala e nenhum senso de coletividade. É impressionante como as pessoas não percebem que esta é a hora da gente se unir…

- Próximo!

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E a velha empáfia persiste…

Não sei quantas vezes já escrevi sobre a superioridade moral da esquerda. Aquela arrogância do bem, que só é digna de ser exercida por seus membros, únicos e verdadeiros guardiões de toda a bondade humana. Eles são os Neos da nossa Matrix e os Potters da nossa Hogwarts. São os escolhidos. Só a eles é concedido o dom de se importarem com os menos favorecidos, com as minorias, com a educação, com a arte, com a música e com a literatura. Ai de você, isentão ou direitista escroto, se ousar ter inclinação para qualquer dessas pautas. Ai de você, principalmente, se ousar ter coração. Pegue o seu banquinho e saia de mansinho. Nada disso é para o seu bico.

Volto a fazer essas observações agora em função dos inúmeros exemplos dessa – digamos – falta de noção, ocorridos nos últimos dias.

Lula ontem se negou a aderir a um movimento suprapartidário de oposição ao governo Bolsonaro porque, entre os signatários, havia gente que se manifestara favoravelmente ao impeachment da Dilma. Sabe como é, ele não se mistura com essa gentalha (não, isso não tem graça nem em comédia mexicana).

Mais cedo, Felipe Neto já havia criticado Neymar por não se posicionar politicamente. Reparem, a crítica ocorreu não por uma postagem, mas pela ausência desta. Agora, o youtuber mais rico do Brasil assumidamente acha que tem o direito de decidir o que deve ser divulgado nas redes sociais de quem ele bem entender. Um verdadeiro democrata. Entre seus próximos empreendimentos milionários, talvez esteja alguma empresa que cuide das postagens políticas alheias. Zero dois deve estar morrendo de medo de perder o emprego.

Líderes da oposição estão preocupados com a repercussão negativa dos confrontos registrados domingo na Paulista. Aqueles nos quais gente que sempre condenou imbecis por se aglomerarem nas ruas, achou que era inteligente fazer o mesmo. Apesar de entenderem que a polícia agiu de forma desigual com os manifestantes pró e contra o presidente, os oposicionistas acham que a “estética da imagem” pode ter passado a ideia de que houve baderna de um lado e ordem do outro. As depredações ocorridas ontem em Curitiba parecem ter reforçado ainda mais esse entendimento. Que surpresa, não? Só mesmo um gênio seria capaz de imaginar que confrontos neste momento poderiam ser benéficos ao presidente.

Outros tiros no pé foram as acusações de nazismo pelos episódios dos copos de leite e da tal bandeira de um partido ultradireitista da Ucrânia. Ambos desmentidos respectivamente pelo “Desafio do Leite” e pelo embaixador ucraniano. Assim, ambos só serviram como exemplos de como a “extrema imprensa persegue Bolsonaro”.

Antes que o apedrejamento comece, entendam: não entro no mérito da questão. Não tenho como afirmar se o leite e a bandeira tiveram ou não inspirações nazistas. O ponto é que não vale a pena se desgastar com algo que não está claro e que ainda pode ser desmentido com verossimilhança. Há centenas de motivos cristalinos para se criticar Bolsonaro e todo o seu entorno. E a cada dia ele mesmo contribui com outros tantos. Esses deveriam ser os alvos.

Há quase dois anos, pouco depois da entrevista de Bolsonaro no Roda Viva, eu escrevi o seguinte comentário: “Se a imprensa brasileira continuar lhe fazendo perguntas imbecis como as feitas no programa de ontem, escancarando um viés ideológico que a maioria da população não suporta mais, essa mesma imprensa só estará ajudando a elegê-lo. O calcanhar-de-aquiles de Bolsonaro não é o fascismo que lhe atribuem. Este, ao contrário, é o seu único ponto forte. A verdadeira fraqueza de Jair Bolsonaro está na sua própria indisfarçável mediocridade. Quem não perceber isso estará apenas contribuindo para conduzi-lo ao Planalto”.

Voltando aos dias atuais, acho que um pouquinho mais de humildade e um bocado mais de inteligência serão muito bem vindos daqui pra frente.

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Manga com leite e outros venenos…

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“Você acabou de comer. Tem que esperar pelo menos uma hora antes de entrar no banho”.

Não sei quantas vezes a minha mãe repetiu essa frase ao longo da minha infância. Bobagem? Pode ser, mas prefiro enxergá-la como uma inocente preocupação de quem sempre acreditou que a união de água e estômago cheio era tão incompatível quanto TV e dever de casa, tão perigosa quanto vento encanado nas costas e tão execrável quanto falar palavrão no almoço de domingo.

O fato é que, durante muito tempo, eu também acreditei. Quantas vezes deixei de almoçar só para não ter que esperar duas horas antes de mergulhar na piscina (nadar é muito mais perigoso que tomar banho, todo mundo sabe disso). E olha que eu não podia nem reclamar. A mãe do meu vizinho Luiz, por exemplo, achava que aprender inglês era tão inútil quanto um ministro na atual pasta da Saúde. A minha tia Sebastiana nunca deixou que meu primo fizesse caretas com medo de que ficasse para sempre com a cara do Cerveró. E a avó do meu amigo Renato dizia que manga com leite era algo quase tão venenoso quanto a língua da Gleisi Hoffmann. Tempos em que as crendices populares eram passadas de geração a geração, e não de whatsapp a whatsapp.

Mas o mundo evoluiu e a ciência mostrou aos pioneiros propagadores de fake news que seus mitos careciam de provas ou, pelo menos, de uma ação orquestrada de bots para se manterem vivos (haja vista o bem sucedido caso de ressurreição dos terraplanistas).

Entretanto, em pleno século XXI, ainda há quem insista em julgar incompatíveis pares de ideias e ações que sequer antagônicas são. Exemplos não faltam. Criticar o governo federal e não ser de esquerda é um deles. Assim como a manga não se dá com o leite, uma crítica ao governo não deveria vir de alguém que não fosse comunista. É imperativo, como se a manga exigisse do leite o monopólio da sua capacidade de envenenamento, deixando atônitos os alérgicos à lactose.

Será que minha mãe também veria incompatibilidades na condenação da forma corporativista e inconstitucional com a qual o Inquérito das Fake News foi instaurado e, ao mesmo tempo, na total repulsa às notícias falsas levianamente divulgadas por tanta gente?

Ou, quem sabe, na defesa da liberdade de expressão irrestrita aliada à indissociável responsabilidade pelo que se diz?

Desde quando a aversão a um grupo de bandidos incompetentes idolatrados por uma horda de fanáticos só pode ser verbalizada por uma horda de fanáticos idólatras de outro grupo de bandidos incompetentes?

E – para encerrar a sessão de perguntas retóricas – será que não aprendemos nada com as experiências dos nossos antepassados?

Curiosamente, os mesmos que se esforçam para normatizar as distorcidas correlações mencionadas, não são capazes de perceber que suas próprias instáveis atitudes divergem ao sabor das ideologias.

Assim, torna-se aceitável que a indignação motivada por uma suposta restrição às liberdades individuais se dê na forma de manifestações que pedem o fim das instituições democráticas e a volta de um regime caracterizado justamente pelo cerceamento da liberdade plena.

Assim, tornam-se corriqueiras as violentas condenações de simples menções a comportamentos autoritários vindas daqueles que sistematicamente enaltecem regimes totalitários e genocidas.

Hoje, muitos chamam todas essas incoerências de hipocrisia. Se vivêssemos outros tempos, alguém certamente diria – com admirável sabedoria – que pau que dá em Chico deveria dar em Francisco, que o pior cego é aquele que não quer ver, que, à noite, todos os gatos são pardos e que, definitivamente, a mentira é como uma bola de neve, quanto mais rola mais engrossa.

Será que ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais?

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Revoluções pós-pandemia…

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Sim, eu sei, você não aguenta mais ler textos sobre como será a vida pós-pandemia, não é? Afinal, ninguém realmente sabe o que irá mudar, qual será o nosso novo normal. Eu tampouco, mas não resisto a fazer algumas especulações a respeito.

Imagino, por exemplo, que alguns donos de restaurantes desistam de seus negócios ao perceberem que ganham mais – além de terem custos e preocupações infinitamente menores – divulgando suas receitas no Instagram. Talvez chefes de escritórios de consultoria, telemarketing, informática e até advocacia optem por incentivar muitos de seus colaboradores a trabalharem em casa. Escolas de idiomas certamente se verão forçadas a abrir aulas online para atender à demanda daqueles que se adaptaram muito bem ao sistema emergencial adotado hoje. Redatores e jornalistas também poderão perfeitamente continuar escrevendo suas matérias do conforto de suas casas. E até sessões de psicanálise poderão ser feitas à distância na maioria das vezes.

As possibilidades são muitas. As certezas, pouquíssimas.

A única certeza que eu tenho é de que haverá uma revolução na escrita brasileira. Na verdade, essa revolução não é consequência direta da pandemia, mas certamente foi antecipada em virtude de suas repercussões.

Repare, não há um único texto escrito hoje cuja mensagem esteja realmente clara a todos. Alguns escritores imputavam esse fato à falta de instrução do nosso povo, ao péssimo ensino público do nosso país. Mas essa possibilidade foi descartada quando se constatou que, entre os que apresentavam a maior incapacidade de compreensão, estavam justamente os mais instruídos. Aqueles que frequentaram as melhores escolas, que se graduaram e que sempre tiveram acesso a uma vasta cultura. Se pessoas tão esclarecidas não conseguem interpretar artigos corriqueiros, certamente a responsabilidade está nas mãos dos autores, não dos leitores. Não há outro caminho, os textos têm que evoluir.

O grau de adaptação a que os novos textos deverão ser submetidos é a grande incógnita do momento. A equipe de especialistas que se debruça diuturnamente sobre o assunto planeja lançar em breve um app que auxilie os leitores a interpretarem textos de forma correta. Basta que o usuário clique na frase mal compreendida para que uma nova janela se abra com longas listas de explanações.

Os especialistas cogitam, inclusive, a possibilidade da contratação de artistas plásticos para que desenhos artísticos ou esquemáticos venham a facilitar a compreensão dos leitores, digamos, menos privilegiados intelectualmente.

Diante do grande sucesso verificado em uma recente reunião ministerial, já se fala também em uma função opcional que transforma expressões sofisticadas em palavrões, bem mais fáceis de serem absorvidos e compreendidos por boa parte do público. Naturalmente, essa função mais avançada do app deverá ser paga à parte.

Cada autor será responsável por fazer as observações que considerar convenientes em suas obras. Assim, textos meus com críticas ao Bolsonaro, por exemplo, terão avisos do tipo:

“não, o autor deste texto não é comunista”;
“não, o autor deste texto não quer de volta as roubalheiras do PT”;
“não, o autor deste texto não acha que apontar os erros do governo vai fazer a esquerda voltar ao poder”;
“não, o autor deste texto não é contra a cloroquina. Ele só é contra um presidente exigir a liberação de um medicamento que não foi aprovado pela sociedade médica de nenhum país do mundo”;
“não, o autor deste texto não vai assinar um documento afirmando que, se contaminado, não aceita ser tratado com cloroquina porque quem define formas de tratamento são os médicos”;
“não, o autor deste texto não vê motivos para moderar seu linguajar pois nunca o fez nos tempos em que o PT estava no governo”;
“sim, o autor deste texto acha no mínimo estranho que o leitor demonstre indignação com ofensas ao presidente depois de aplaudir cada palavra dita na reunião ministerial”;
além de outros mais específicos aos contextos.

A equipe de especialistas promete não parar por aí. A segunda geração do app trará uma função muito mais refinada: o detector de ironias. Mas não se empolgue, em um país como o Brasil, tem que ser um passo de cada vez…

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Uma reunião do caralho…

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Porra, Jair, que reunião do caralho!

Foi exatamente pra isso que eu votei em ti. O Brasil precisava de um cabra macho, que bate na mesa, que mostra quem é o pica grossa do pedaço. Tu deixou a esquerdalhada toda sem rumo. Tomei todas pra comemorar. Tu é foda, Jair.

Só acho que tu não precisava ter disfarçado a questão da PF. Tu tinha que ter mandado o estrume do Moro te obedecer naquela hora, na frente de todo mundo. O povo tá contigo, Jair. Tu não vê que a gente aplaude até quando teu governo fala em prender os bandidos do STF? Pois é, além de colocar aqueles bostas de toga pra correr, tu tinha mesmo é que trocar diretor geral, regional, delegado, a porra da PF toda se fosse preciso.

É tu que manda nesta merda, Jair!

Vai deixar esses bostas perseguirem tua família? Quem eles pensam que são pra falar de rachadinha, de laranja. Laranja é o caralho. Manda os filhos da puta irem atrás da família do Lula, da refinaria da Dilma, do BNDES e do Adélio. Cambada de vagabundos.

Outra coisa, Jair. Acho que tu perdeu tempo pra caralho falando de pandemia. Porra, pra que deixar o bosta do ministro falar por dez minutos com tanta coisa mais importante acontecendo? Todo mundo sabe que só morre velho e doente dessa merda. Todo mundo sabe que o tal do pico da curva já passou. Não fica dando audiência pra esse vírus chinês, deixa isso por conta da Globolixo. Tu já deu cloroquina pros velhos todos, querem mais o que? Além do mais, todo mundo sabe que tudo isso não passa de uma armação comunista. Quanto menos tu falar dessa merda, melhor. Vai por mim.

Agora, tu tem que continuar batendo firme nos governadores. Aqueles filhos da puta que querem acabar com a economia dos estados, falir todas as empresas que pagam impostos, deixar todos os eleitores deles desempregados. E tudo isso pra quê? Só pra te fuder, Jair. Não sei como ainda tem gente que não percebeu isso. Os caras querem implantar o comunismo nas suas barbas. Dá um jeito do povo voltar a trabalhar nem que seja na marra, Jair. Senão tu tá fudido.

Tu tem mesmo é que colocar uma arma na mão de cada cidadão de bem deste país. Aí eu quero ver esses palhaços virem com decreto pra ficar em casa, pra prender gente que tá na rua com a galera. Cadê a nossa liberdade, porra? Semana passada fui na farmácia e o bosta do caixa não me atendeu enquanto eu não coloquei a porra da máscara. Queria ver se ele ia continuar com essa valentia toda se tivesse com o cano de um três-oitão encostado nos cornos dele. Só assim pra essa gente entender o que é democracia.

A extrema imprensa não vai te deixar em paz, Jair. Não dá mais munição pra eles. Não passa informação, não divulga mais porra nenhuma. Eles que se virem com as notícias pra lá. Eles só inventam mesmo. Acaba com a concessão desses bostas e põe o Terça Livre como canal aberto. O povão precisa conhecer jornalismo de verdade. Lembra da frase daquele filósofo: “me dá o controle da mídia e farei de qualquer país um rebanho de porcos”. Não sei quem falou mas só pode ser coisa do Olavão. O cara é foda.

Por último, Jair, fala pros milicos do teu lado ficarem espertos. Se eles não entrarem na jogada, os filhos da puta do congresso e do STF não vão te deixar governar. Parece que só o Augusto Heleno tem culhão pra mandar o cabo e o soldado fazerem o que precisa ser feito. Mas o resto tem que ir na dele, porra. Eles estão com medo de que? Passou da hora de uma intervenção militar pra acabar com essa safadeza. A gente tá aqui fazendo a nossa parte, mandando enfermeiro cheio de mimimi de volta pro hospital, pondo repórter esquerdista pra correr. Fizemos acampamento, passeata, carreata, pedido de AI5 e até agora nada? Não tem como ser mais claro, porra.

Vou ficando por aqui, Jair. Tu provou de vez que é o cara. Já tá reeleito. Deus e o povo estão contigo. Não liga pros comunistas que batem panela e muito menos pros isentões que também não passam de comunistas filhos da puta. Siga em frente com a verdade porque só a verdade vai libertar este país. Bom domingo, capitão!

PS: vi que tu já se acertou com o Centrão e com um monte de gente que não prestava lá atrás. Só tu mesmo pra fazer até bandido se regenerar. Cara, tu é mito pra caralho!

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Receitas mais ou menos médicas…

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No pronto-socorro…

- Um médico! Um médico, por favor!

- Calma senhora, qual é a urgência?

- Minha sogra caiu e está com o pulso inchado. Acho que pode ter torcido ou até fraturado.

- Tente se acalmar. Nossa equipe de ortopedia está entre as melhores da cidade. Sua sogra está no carro?

- Não, ela está em casa ainda.

- Ela está com dificuldades para andar? Podemos mandar uma ambulância buscá-la.

- Não precisa. Ela pode andar sim e eu mesma posso buscá-la. Mas preciso falar com o médico que vai atendê-la primeiro.

- Falar com ele agora? Quando a sua sogra estiver sendo atendida a senhora poderá acompanhar a consulta.

- Mas aí poderá ser tarde demais. Quero falar com ele antes disso.

- Ela sofre de alguma demência? Alguma alergia grave? Requer algum cuidado especial?

- Não, não é nada disso. Só preciso saber se o médico é de esquerda ou de direita.

- Desculpe-me, senhora. Acho que não entendi.

- Olha só, já fui a vários pronto-atendimentos ao longo do dia. E é sempre essa dificuldade. Qual é o problema de se querer saber qual é a orientação política do médico?

- Orientação política? A senhora enlouqueceu? Que importância tem isso? Eu lhe garanto que ele é competente. É isso que importa, não?

- Competência também é importante, mas a orientação política é muito mais.

- Como assim?

- Minha filha, médicos de esquerda deixam seus pacientes morrerem por falta de Cloroquina. Todo mundo sabe disso.

- Cloroquina? A sua sogra sofre de Malária? Está com sintomas de Covid? Achei que ela tivesse machucado o pulso.

- Sim, foi só o pulso mesmo. Mas, se o médico for de esquerda, ele vai interná-la, vai deixá-la morrer sem direito a Cloroquina e ainda vai colocar no laudo que a causa foi o vírus chinês só para aumentar as estatísticas. Não sou boba, minha filha. Sei como as coisas funcionam.

- Senhora, sua sogra não vai morrer. Ela muito provavelmente vai fazer um raio-x do pulso, ter o braço imobilizado ou engessado e voltar pra casa.

- Mas o médico vai receitar Cloroquina pra dor?

- Meu Deus, desde quando Cloroquina serve pra aliviar a dor? Ele vai receitar um analgésico, um anti-inflamatório, e o que mais ele achar necessário. Mas essas são decisões que cabem exclusivamente a ele.

- Eu não trago a minha sogra aqui até que eu tenha certeza de que ele é a favor da Cloroquina.

- Minha senhora, ninguém é a favor ou contra um determinado medicamento. A única coisa que deve ser levada em conta é a sua eficácia. E, como eu disse, essa decisão cabe exclusivamente ao médico.

- Eu quero que minha sogra seja tratada com Cloroquina. Mal não vai fazer. Há dois meses nem precisava de receita pra compra.

- A senhora é médica?

- Não, sou advogada.

- E desde quando acha que tem competência para receitar medicamentos?

- Desde que o Brasil passou a sofrer uma ameaça comunista disfarçada de pandemia. Sou patriota, minha filha. Não vou deixar que meu país vire uma Venezuela. Vai chamar o médico ou não?

- Veja bem, se houvesse um motivo justificável, eu até poderia interromper a consulta do nosso ortopedista e chamá-lo para conversar com a senhora. Mas, pelas razões expostas, só me disponho a chamar um psiquiatra. E com direito a uma camisa de força.

- Já vi que você é de esquerda. Reconheço uma petralhazinha de longe. Não trago a minha sogra aqui de jeito nenhum. Passar bem!

- Só me esclareça antes uma pequena dúvida: quantos hospitais a senhora visitou até agora?

- Mais de dez.

- Nesta época e sem máscara? Bom, já que gosta tanto de Cloroquina, se eu fosse a senhora já começava a tomar uns comprimidos por conta própria.

- Tá louca, minha filha? Sou cardíaca…

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Siglas problemáticas…

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Há muitos anos, em uma escola militar de ensino fundamental…

- Jairzinho, não é possível. Outro zero?

- Como assim, professora? Eu fiz tudo certo.

- Certo? Você errou tudo. Um mês inteiro estudando as siglas e você não decorou nada.

- Eu sei todas, professora. Pode perguntar o que quiser, talquei?

- A prova você já zerou, mas vou lhe dar uma chance de mostrar que sabe alguma coisa. O que significa FGTS?

- Essa é fácil: é o Fundo de Garantia.

- A sigla toda, Jairzinho.

- No tocante a esse Fundo de Garantia daí, ele se refere aos Tenentes e Sargentos.

- Errado. É Fundo de Garantia por Tempo de Serviço. Quer que eu continue?

- Claro, professora. Tô só esquentando.

- ONU.

- Outra muito fácil: Organização das Nações Unidas pelo comunismo.

- Errado. Que fixação é essa com comunismo, Jairzinho?

- Os comunistas é que adoram arrumar uma treta comigo, talquei? Pode mandar outra.

- UFMG.

- Universidade Federal dos Maconheiros e Gays.

- Tudo errado. E vou recomendar aos seus pais que o levem urgentemente a um psicólogo. Essas suas ideias fixas estão a cada dia mais preocupantes.

- Manda mais uma sigla, professora. Agora eu vou acertar.

- Duvido, mas… IBAMA.

- Outra que todo mundo conhece: Índice de Brasileiros que Adoram um Mimimi Ambiental.

- Não vou nem comentar, Jairzinho. É melhor a gente parar por aqui.

- Não, professora. Só mais duas, por favor.

- Está bem. Deixe-me pensar… EUA.

- Estados Unidos da América.

- Olha só. Essa você acertou. Menos mal. Não sabia que você se interessava por países.

- Países? Não, só pelos Estados Unidos mesmo. Sinto que ou eu ou alguém da minha família ainda vai fazer história por lá.

- Pelo que eu conheço de você, Jairzinho, só se for fritando hambúrguer.

- Pode zombar à vontade, professora. A senhora vai ver daqui a alguns anos, talquei? Vai lá, pergunta a última.

- PF.

- Puxa, essa é difícil. Prato Feito?

- Não.

- Ah, lembrei. É Polícia da Família.

- Não, Jairzinho. Nem essa você sabe? É Polícia Federal.

- Ué, não é tudo a mesma coisa?

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Dezenove anos de aplausos…

 

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Meu querido, você certamente não se lembra de quando eu o ensinava a bater palminhas para o seu primeiro aniversário, não é?

Eu me lembro…

Também me lembro da sua primeira gargalhada, dos seus primeiros passos inseguros e cambaleantes, da primeira palavra que você pronunciou: bola – sim, você já foi louco por bola uma vez na vida. Cada novo aprendizado seu sempre foi uma conquista, Arthur. E cada conquista sempre veio acompanhada de muitos sorrisos, de muita emoção e de uma imensa dose de gratidão.

Não sei quantas vezes me deitei ao seu lado enquanto você dormia. Lembro-me de afagar os seus cabelos dourados e descer os dedos acariciando as suas sobrancelhas. Você adorava que eu fizesse isso também antes de dormir. Muitas vezes você suspirava, e a cada suspiro eu agradecia por você existir. Agradecer é, até hoje, a primeira coisa que faço toda vez que o vejo sorrindo.

Sabe? É difícil acreditar que você tenha entrado na minha vida só há dezenove anos. Revejo fotos e lembranças anteriores ao seu nascimento e tenho a nítida sensação de que você sempre esteve comigo, me aguardando em algum lugar. Quem sabe em sonhos ou expectativas. Ou quem sabe naquela ansiedade que antecede um encontro que a gente pressente que está para ocorrer. Só sei que, de alguma forma, eu sempre estive à sua espera.

Você finalmente chegou naquela segunda-feira, 14 de maio de 2001 e, de repente, todas as minhas prioridades de então se tornaram irrelevantes. Poucas horas depois e o meu conceito de amor havia se transformado, assim como os meus objetivos, meus sonhos, minhas metas. Meu mundo era outro, e era muito melhor.

E você cresceu tão rápido, meu filho…

A cada dia, era como se eu me deparasse com alguém diferente. Mais maduro, mais seguro, mais independente. Você superou seus medos, suas inseguranças, suas dúvidas e foi em busca dos seus próprios caminhos. Suas precoces noções de ética, de honestidade e de justiça sempre me impressionaram. Assim como a sua capacidade de se colocar no lugar do outro.

E eu agradecia…

Agradecia à Vida, à sua mãe que sempre conseguiu ler o seu coração como ninguém, aos seus avós com os quais você adquiriu o prazer de sorver sabedoria e doçura, aos seus amigos que desde cedo perceberam o quanto você é único e especial e, mais tarde, ao seu irmão, que tem em você não apenas um exemplo, mas seu maior ídolo.

Você cresceu tanto, meu amor, que o mundo se tornou pequeno. Você voou em busca do seu grande sonho e descobriu vários outros. A sua generosidade e a sua capacidade de fazer amigos lhe trouxeram novos irmãos para a vida. A sua alma iluminada o guiou à sua outra metade. E vocês juntos passaram a brilhar ainda mais intensamente.

E você só tem dezenove anos…

Este é o primeiro aniversário em que não estamos juntos para os nossos muitos beijos e abraços. Estaria mentindo se dissesse que eles não me fazem falta. Fazem sim. Fazem muita. Mas ver você feliz, realizado, querido e amado por tanta gente, talvez transforme este no mais especial dos seus aniversários até agora. Porque este aniversário é todo seu, meu amor. Ele é o resultado das suas escolhas, da sua força, da sua determinação, da sua corajosa decisão de alçar voo.

E o seu voo está apenas começando…

Parabéns, Arthur! Que Deus ilumine e abençoe sempre os seus caminhos. Que você continue voando cada vez mais alto, e que todos os seus sonhos se realizem. Não apenas por você, mas porque seus sonhos fazem um enorme bem ao mundo. Eu estou aqui, pertinho, mesmo de longe. Continuo com minha mão sempre entrelaçada à sua, mesmo à distância. E acabo de perceber que, ao longo dos últimos dezenove anos, foi você quem sempre me ensinou a bater palmas. Meus aplausos são pra você, meu filho!

Te amo, te amo, te amo!

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