Meu parceiro…

Já tínhamos deixado dois adversários para trás na fase de grupos. Só a primeira dupla de cada chave se classificava para as quartas de final e não tivemos que suar muito para que a vaga fosse nossa. Ambas as partidas foram fechadas em apenas dois sets, todos sem grandes sobressaltos. Eu começara a jogar há poucos anos, sempre incentivado pelo meu parceiro, bem mais experiente. Em pouco tempo, juntos conseguimos um bom entrosamento que, aliado a uma técnica razoável e um bom fôlego, fazia com que nos destacássemos entre os demais competidores. Mas havia outras boas duplas na disputa e não tardaríamos a encontrá-las.

O início das quartas de final estava marcado para a noite de um dia de semana, terça ou quarta-feira, já não mais me lembro. O torneio em si não tinha relevância alguma, a começar pelo próprio esporte. Naqueles tempos, peteca era um jogo tão popular em Belo Horizonte que seria até admissível que um clube de lazer não tivesse, em suas dependências, quadras de basquete ou de tênis, mas jamais poderiam faltar as quadras de peteca. Assim, disputas como aquela se sucediam com impressionante frequência. No nosso caso, o torneio havia sido organizado pela associação de funcionários de alguma autarquia municipal. Mesmo assim, eu estava nervoso e ansioso, como costumam ficar os jovens de dezenove anos diante de qualquer desafio. Meu parceiro, ao contrário, exibia a calma, a segurança e a mansidão que sempre o caracterizaram. Aos quarenta e sete anos, ele mantinha um físico invejável e boa condição aeróbica, apesar do tabagismo que o acompanhara desde a adolescência.

Mal começou a partida e meu nervosismo se materializou através de erros bobos, que, normalmente, eu não cometia. E a cada novo erro, maior era a minha ansiedade. Meu parceiro pediu tempo pela primeira vez e tentou me tranquilizar. “O jogo não vale nada”, disse-me ele. “A não ser que você se divirta. Aí ele passará a valer alguma coisa”, completou com sabedoria. “Então, vamos nos divertir”. As palavras dele, como de costume, surtiram efeito e quase não erramos mais, fechando o primeiro set de virada.

Veio o segundo e a partida ficou bem mais parelha e equilibrada. Empatados até os últimos pontos, quem abrisse dois de vantagem levaria o set. E estávamos assim empatados quando consegui jogar a peteca no fundo, sobre o adversário à minha frente que não conseguiu alcançá-la. A peteca tocou a quadra pouco antes da linha e comemoramos como nunca. O adversário aquiesceu nitidamente mas seu parceiro gritou: “fora”. Não havia juizes de linha e a visão do árbitro central ficara parcialmente encoberta. Eu, meu parceiro e até o adversário que estava no lance sabíamos que o ponto era nosso, mas o quarto jogador gritava e exigia que ele fosse disputado novamente, pois o juiz não tinha certeza do que marcar. Diante do impasse, meu parceiro aproximou-se da rede e pediu a opinião do adversário que se mantivera calado até então. Este olhou para seu companheiro falastrão, levantou a cabeça sem nos encarar e disse: “foi fora”. Meu parceiro o olhou nos olhos, sorriu ironicamente, e disse ao juiz que o ponto não precisava ser disputado novamente. Eles estavam na frente. Aquilo me deixou possesso! Como era possível que a gente pudesse entregar um ponto de graça sabendo que eles estavam mentindo? Meu parceiro tentou me acalmar mas eu não queria nem olhar para ele. Estava furioso com os que mentiram descaradamente, com o árbitro que não tinha visto o lance e com o meu parceiro que havia permitido a farsa. Na sequência, na primeira oportunidade que tive, tentei cortar com força e raiva mas a peteca morreu na rede. A partida estava empatada.

Fui para o intervalo fulo da vida. Bebi um copo d’água e me sentei em um banco mais afastado da quadra. Meu parceiro caminhou em minha direção com a mesma calma de sempre, colocou sua mão no meu ombro, e me disse com firmeza:
– “Porque você está tão irritado? É só uma partida.”
– “Eu sei”, disse-lhe eu. “Uma partida que agora está empatada porque estamos jogando contra dois babacas.”
– “Sim, é verdade.”
– “É verdade mas foi você quem deixou que eles ganhassem. Mas o ponto era nosso. Você sabe disso.”
– “Sim, eu sei disso e eles também sabem. E eu dei a eles a oportunidade de dizer a verdade.”
– “Mas eles não disseram. Eles mentiram e ganharam o ponto.”
Então ele me disse algo que jamais vou me esquecer:
– “Fernando, sim, eles ganharam o ponto. Mas o ponto é o menos importante aqui. Eles têm consciência de que mentiram. Viu como ele ficou desconcertado? Eles podem ter ganho o ponto, mas perderam todo o resto. Perderam o que realmente importa!”

Queria poder dizer que percebi a profundidade daquelas palavras imediatamente. Queria poder dizer que entendi, naquele momento, o que realmente importava. Queria poder dizer que voltei para a quadra renovado, feliz e que ganhamos a partida com facilidade. Na verdade, eu ainda estava revoltado, ainda estava com raiva e, pela minha instabilidade, o terceiro set também foi perdido. Só bem mais tarde percebi que, naquele dia, não perdemos nada além da partida. E esta não tinha a menor relevância.

Continuamos parceiros na quadra por mais algum tempo e, muito mais importante ainda, continuamos parceiros na vida por muitos e muitos anos. Ele foi, com certeza, o grande parceiro que tive até o dia em que ele partiu para formar outras parcerias em um plano bem mais elevado. Hoje, ainda sonho com o dia no qual jogarei novamente com ele. Quando isso acontecer, sei que ele voltará a me dizer coisas que vou demorar anos até ser capaz de compreender inteiramente. Mas esse é um problema meu. Quem mandou eu escolher um parceiro tão evoluído?

Ah, quase me esqueci de dizer que meu parceiro era também meu pai. Mas isso é apenas mais um detalhe. Um detalhe que não teria a mesma importância se não estivesse sempre acompanhado da parceria. Essa sim, é o que mais importava. Essa sim, me faz uma falta impossível de descrever. Essa sim, não vai terminar jamais.

Feliz dia, parceiro!

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Seguimos sem entender…

Uma família de ingleses visita o Brasil, aluga um carro, sai do Rio em direção ao litoral sul fluminense e entra por engano em uma favela de Angra dos Reis. O motorista para e pergunta a um morador, com o auxílio de mímicas, onde ele poderia comprar água para suas filhas. O morador imediatamente os avisa do perigo que correm e pede que saiam da comunidade o mais rapidamente possível. Os ingleses, que não falam português, são incapazes de entender o alerta do morador e o motorista prossegue seu percurso dentro da favela. A mensagem não compreendida só fica clara quando seu carro é alvejado pelos tiros dos traficantes, e sua mulher baleada no abdômen. Com muita sorte, eles conseguem fugir dali e a esposa sobrevive. Será que, em uma próxima viagem, esses mesmos turistas vão aprender português antes de visitar o Brasil novamente ou, simplesmente, optarão por um país no qual o fato de não conhecerem a língua local jamais possa fazê-los voltar para casa dentro de esquifes?

No final de junho, uma mulher grávida com quase nove meses de gestação foi atingida por uma bala perdida durante um tiroteio na entrada de uma favela da baixada fluminense. A bala perfurou os pulmões de seu bebê, até então absolutamente saudável, e o fez agonizar durante algumas semanas, até que não mais resistiu e morreu. A mãe a quem foi negado o direito de dar à luz seu próprio filho é brasileira, fala português, e sempre soube dos riscos de se viver em um país no qual os chefes do tráfico ditam normas, fazem leis e têm representantes em todas as esferas de governo. Diferentemente dos ingleses, para essa mãe, voltar para casa não faz com que ela se sinta segura. Ao contrário, voltar significa estar ainda mais perto daqueles que destruíram seus sonhos, suas esperanças, sua vida. Mas, que escolha ela tem?

Casos como esses ocorrem dezenas de vezes a cada dia no Brasil. Ocorrem com tanta frequência que nem damos a eles a devida atenção, a merecida repulsa, a justa indignação. Mas as vítimas que falam português, na imensa maioria das vezes, não têm a quem recorrer nem para onde voltar em segurança. O estado que deveria lhes amparar não é capaz de garantir o mínimo necessário para que elas voltem a se sentir em casa, não é capaz de lhes dar sequer a falsa sensação de que tais eventos são esporádicos e jamais voltarão a ocorrer. A maior parte de seus compatriotas apenas se degladia, de acordo com os interesses da ocasião, culpando ou eximindo de culpa o governo, a polícia, o bandido, a sociedade, o sistema ou até a própria vítima. As mesmas atitudes e interesses se repetem na cobertura que as diversas mídias procuram dar aos casos de maior visibilidade. E aqueles poucos que realmente buscam propor soluções para um problema tão crônico são massacrados pelas correntes ideológicas retrógradas, dominadas pela ditadura do “politicamente correto” ou pela truculência do “olho por (muitos) olhos”. Pobre país sem rumo…

Enquanto isso, a vítima que tem a sorte de sobreviver e de voltar pra casa, continua sendo desamparadamente identificada, catalogada e transformada em números estatísticos ou em reportagens de televisão, ao mesmo tempo em que lamenta, cada vez mais, sua capacidade de entender tudo o que os demais brasileiros dizem a seu respeito!

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O brilho de uma só noite…

Há um ano, o Rio de Janeiro vivia um dia único na sua história. Vivia a expectativa da cerimônia de abertura do maior evento de todo o planeta. Há um ano, o mundo inteiro voltava seus olhos para o Brasil. Olhos repletos de desconfianças, de questionamentos, de dúvidas quanto à nossa capacidade de organização, à nossa seriedade, e até à nossa própria índole. Dúvidas absolutamente justificáveis, pois todas as datas, todos os prazos e todos os custos já tinham sido extrapolados. Inúmeras promessas já haviam sido descumpridas e diversos compromissos já tinham sido convenientemente esquecidos. Exatamente por isso, pela perspectiva de um iminente fracasso que pairava no ar, a festa que aconteceu naquela noite causou tanta surpresa e deixou o mundo, literalmente, boquiaberto. Uma festa marcada pela autenticidade, pela consciência da identidade de um povo, pela emoção e pela música. Para quem estava no Maracanã, aquela foi uma noite de profundo êxtase, de júbilo e de completa redenção. Com certeza, uma das noites mais inesquecíveis de toda a minha vida. Talvez tenha sido a primeira vez, depois de muito tempo, em que realmente voltei a sentir orgulho de ser brasileiro. Lamentavelmente, acho que foi também a última…

Um ano depois, e a grande maioria daquelas vibrantes arenas que testemunharam as performances dos maiores monstros sagrados do esporte estão abandonadas. O tão propagado legado olímpico, com raras e honrosas exceções, não passou de pretexto para que diversas quadrilhas pudessem acumular ainda mais dinheiro oriundo da corrupção, das propinas, das falcatruas. A própria cidade do Rio de Janeiro, como, de resto, todo o país, tenta sobreviver hoje à violência, ao desemprego, ao descaso do poder público. Não que estivéssemos melhores um ano atrás. Não estávamos. Mas é sempre triste quando se chega à conclusão de que não evoluímos. Um ano depois, e continuamos sendo governados por um presidente que utiliza todo tipo de mentiras, de chantagem, de subornos, de aliciamento para se manter no poder. Um ano depois, e continuamos sem conseguir vislumbrar a menor perspectiva de mudança real, em qualquer âmbito. Um ano depois, e a certeza de que toda a nossa classe política continua interessada apenas na sua própria sobrevivência continua inalterada. Um ano depois, e a sordidez, o atraso, e a mentalidade tacanha continuam dominando todas as ideologias. Um ano depois, e o sol da meia-noite que inundou de luz o Maracanã, infelizmente, parece não ter forças suficientes para iluminar o futuro do Brasil!

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Arquitetos do atraso…

O Diretório Acadêmico da Escola de Arquitetura da UFMG publicou ontem uma nota coletiva de repúdio ao nome e ao conteúdo de uma das disciplinas optativas do curso de graduação. A disciplina se chama “Casa Grande” e o conteúdo prevê que os estudantes desenvolvam o projeto de uma ampla residência de alto luxo, com cinco suítes, e que comporte quartos e banheiros para oito empregados. Segundo a nota emitida pelo DAEA, ao propor tal tarefa, “o professor estaria incentivando-os a projetarem uma casa grande que incorpora a senzala e reforça os moldes de dominação em pleno século XXI”. Os membros do DAEA também questionam “a quem contempla a construção da grade curricular e a arquitetura fomentada pela universidade na formação dos alunos do curso voltada para uma classe elitista, a qual parte dos graduandos da escola de Arquitetura e Urbanismo da UFMG, pretos, pobres e advindos de escolas públicas, não pertencem. Com essa proposta, o professor Otávio Curtiss reforça os padrões sociais que vão ao encontro das estruturas do Brasil Colônia e fogem da realidade da maioria dos indivíduos que compõem a população brasileira, utilizando a proposta da disciplina para justificar a produção de uma arquitetura racista”.

Leio a nota, releio, respiro, suspiro, conto até dez, e tento encontrar palavras que consigam descrever a minha estupefação diante de tamanho despropósito. Não, não estou me referindo à disciplina, ao professor, ou ao trabalho proposto. Meu assombro é devido a uma nota ridícula, limitada, fora da realidade e, essa sim, profundamente racista. Racista porque, ao fingir proteger o “ultrajado” ocupante das dependências de serviço, simplesmente determina que o trabalho de empregado doméstico não passa de uma atividade inferior, indigna, retrógrada. A absurda comparação dos aposentos atuais com uma senzala apenas demonstra que, para estes alunos, o empregado doméstico não passa de um trabalhador explorado, submisso, quase um escravo com uma cota extra de feijão no almoço.

Que visão deturpada e distorcida é essa? Os empregados domésticos têm direitos e deveres como qualquer outro trabalhador. Têm horários e obrigações a cumprir, devem ter seus direitos trabalhistas respeitados, e exercem uma atividade digna, que exige uma série de qualificações, cada vez mais rigorosas. Atividade que tem sido, ao longo dos anos, cada vez melhor remunerada. Não há nenhum tipo de vergonha, de constrangimento, de desonra em exercer tal função. Tanto que não haveria a necessidade do insuportável “politicamente correto” passar a chamá-los de secretários e secretárias, como se a palavra “empregado” fosse imprópria ou indecorosa. Aliás, hoje, em um país devastado pela incompetência e pela corrupção, milhões de pessoas dariam tudo para que pudessem voltar a serem chamadas de “empregadas”. E a existência, em uma residência, em um apartamento, ou em um estabelecimento comercial, de dependências que lhes dê privacidade e conforto, seja para um descanso entre as tarefas ou para passar a noite, não demonstra qualquer tipo de discriminação, muito pelo contrário.

Diversos outros pontos me chamam a atenção na nota emitida. Primeiro, é preciso lembrar que a disciplina em questão é opcional. Não há obrigatoriedade de cursá-la para se obter o grau em arquitetura. Que direito esses jovens julgam possuir para exigirem que uma matéria, que não é sequer obrigatória, deva ser retirada da grade curricular da instituição? Eu também gostaria de perguntar àqueles que pretendem, um dia, exercer a profissão de arquiteto: quem eles acham que irão contratá-los? Qual é a resposta que planejam dar a um eventual cliente que lhes peçam para fazer o projeto de uma casa com dependência de empregada? Vão se recusar a fazê-lo por questões morais e éticas? Por que? Que ética é essa? Quem eles pensam estar ajudando com isso?

Outra questão é o nome da disciplina. Que importância tem se ela se chama “Casa Grande”, ou “Mansões – primeiros estudos”, ou “Choupana de Rico – módulo 1”? O que importa é que a denominação deixa claro que se trata de uma disciplina que busca ensinar os futuros arquitetos a projetarem residências de alto padrão, como já fizeram grandes nomes como Niemeyer, Frank Lloyd Wright, Le Corbusier e tantos outros. Mas os ilustres aspirantes a arquitetos que assinaram esse despautério acreditam que qualquer conhecimento que contrarie suas ideologias não deve ser ministrado. Não deve e não pode ser ministrado, mesmo àqueles que desejam adquirir o conhecimento e a formação. Que atitude “democrática”, não? Penso que, agindo assim, talvez os signatários dessa lamentável nota de repúdio se sintam como o grande arquiteto do universo, e se julguem superiores a ponto de determinar o que deve ou não ser ensinado em uma universidade pública. E é profundamente lamentável que o universo de cada um deles seja tão tacanho, tão pobre e tão limitado!

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Pelo futuro, um apelo…

Que a nossa classe política está inteiramente desacreditada, todo mundo já sabe. Ninguém, com um mínimo de bom senso, é capaz de se sentir representado pela quase totalidade dos políticos deste país. E a culpa desta total descrença recai sobre os ombros de cada um dos nossos representantes, de todas as esferas do poder público. Não tenho dúvidas de que serão necessárias décadas, se tivermos sorte, até que o número de políticos honestos e bem intencionados supere o número de ladrões eleitos pelo próprio povo. Um processo lento e doloroso que não temos mais como postergar. Afinal, chegamos ao fundo do poço.

Há, entretanto, um outro processo em curso que parece querer minar toda a esperança na futura recuperação deste país. Diferentemente dos políticos, que fazem por merecer todo o seu descrédito, uma outra classe vem sendo sistematicamente atacada, caluniada, difamada e menosprezada injustamente. Refiro-me aos empreendedores. “Ah, os empresários?”, algum caluniador de plantão poderá dizer. “Sim e não”, responderei eu. Explico. Todo empreendedor é empresário, mesmo que gerencie uma empresa que tenha apenas ele próprio como funcionário. Mas nem todo empresário é empreendedor. E exemplos dessa diferenciação não faltam.

Hoje, temos testemunhado histórias e mais histórias de empresários que são, na verdade, meros lobistas. A preocupação destes não é com a eficiência do serviço prestado, ou com a qualidade do produto entregue, nem com a constante busca de maior produtividade e economia das metodologias cotidianas. Eles se preocupam, diariamente, apenas em angariar maior apoio político. Buscam respaldo para que deputados e senadores possam aprovar leis reguladoras que os beneficiem, para que vereadores mantenham distantes deles (e próximos dos concorrentes menores) os órgãos fiscalizadores do município, para que os presidentes e governadores sejam generosos na distribuição de créditos absolutamente inacessíveis aos demais mortais. Para que isso aconteça, eles se esmeram na tarefa de fazer com que todos, absolutamente todos os políticos sejam sempre muito bem recompensados por sua postura “altruísta e desinteressada” para com as grandes empresas do país, exemplos da competência da iniciativa privada e da capacidade de liderança brasileiras.

Claro, um modelo como esse tem prazo de validade e, assim, temos visto ruir, dia após dia, a imagem do empresariado brasileiro. Mas, qual empresariado? Eike, Odebrecht, os irmãos Batista, os donos das grandes empreiteiras, todos agora servem como motes de lições e conclusões deturpadas, distribuídas fartamente por uma corrente ideológica que, ironicamente, apoia o governo que mais difundiu a prática que agora condenam. E o fazem de forma vil, torpe, desleal. Porque colocam, maldosamente, o lobista e o empreendedor no mesmo barco, ambos sob a pecha de “empresário”. Ao assim agirem, passam a considerar o empreendedor um explorador da classe trabalhadora, um bon vivant, um privilegiado que busca apenas formas de lucrar mais enquanto o trabalhador recebe cada vez menos. E isso não é apenas uma inverdade. É uma inverdade que está, literalmente, acabando com o Brasil.

Formadores de opinião tem repetido conceitos arcaicos de demonização do lucro, de divisão de classes, de um conflito de interesses que, no fundo, deveria inexistir. Tenho visto, com preocupante frequência, professores tentando incutir no cérebro de seus alunos os mesmos preceitos corrompidos, generalizando – maldosamente, repito – comportamentos, como se todo empreendedor agisse sempre como os lobistas que não saem das manchetes dos jornais.

Por isso, aqui vai o meu apelo a todos os professores, colunistas, blogueiros, jornalistas, políticos, palestrantes e demais formadores de opinião deste país: parem com isso! Vocês não estão apenas aniquilando as esperanças de um país mais próspero no futuro. Vocês estão, na verdade, amputando os sonhos de milhões de jovens que querem crescer como pessoas, que querem se sentir produtivos, que querem fazer parte de uma mudança pessoal que irá impactar em uma imensa elevação de patamar para todo o Brasil. Empreendedores não são desonestos, não são exploradores, não são pessoas que só visam lucro e mais nada. Empreendedores são cidadãos que se arriscam em busca de um sonho. Um sonho tão importante que, ao se materializar, cria oportunidades para que outras pessoas também o abracem e o adotem, tornando-o comum a todos. Se o sonho de empreender for desencorajado, se o sonho de arriscar tudo o que você tem para que uma ideia saia do papel for rotulado de egoísta, manipulador, e quase maquiavélico, em breve não haverá país, não haverá sociedade, não haverá motivos pelos quais lutarmos. Egoísmo e empreendedorismo são conceitos diametralmente opostos. O egoísta aplica seu dinheiro com o único objetivo de lhe gerar renda. O empreendedor, ao contrário, coloca o que possui e, muitas vezes, até o que não possui em um negócio, correndo o sério risco de perder tudo (principalmente no Brasil), e, assim, passa a gerar empregos, a arrecadar impostos, a fazer a economia girar e, consequentemente, a fazer o país crescer. Não sejam levianos a ponto de separar trabalhadores e empreendedores em bons e maus. Não sejam injustos. Não sejam desagregadores. Todos trabalham muito e todos possuem a capacidade de empreender. Muitos simplesmente não querem, e esse é um direito absolutamente legítimo. Mas não ajudem outros tantos a desistirem dos seus sonhos em nome de uma idelogia tacanha e retrógrada. Ninguém consegue crescer dessa forma. O Brasil, muito menos!

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As dunas subterrâneas…

Volto para o escritório em mais um fim de tarde de sexta-feira. Outra semana de trabalho árduo que ainda não terminou. Trabalho pelo qual sou imensamente grato, pois testemunho, a cada dia, cada vez mais pessoas competentes e capacitadas em busca daquilo que não deveria faltar em qualquer sociedade: oportunidade. No trânsito, nitidamente mais caótico, o rádio é a minha companhia de sempre. Por mais que goste de música, tanta coisa tem acontecido a cada instante que não consigo mais me desvencilhar dos canais de notícias. Assim, passo as duas últimas horas em um carro quase parado ouvindo uma sequência sem fim de nomes, apelidos e valores astronômicos. Nenhum deles na casa dos milhares. Os mais frequentes estão na casa das dezenas de milhões. Valores que, certamente, jamais serei capaz de receber pelo meu trabalho, mesmo que ainda venha a ter uma vida longa e produtiva. Valores que fazem com que o custo da folha de pagamento e dos impostos que quitei hoje pareçam menores que um grão de areia no deserto do Saara. Tanto suor, tanto esforço e tanto trabalho foram necessários para que esse grão pudesse ser conquistado. Na verdade, nos últimos anos, tem sido tão difícil conseguir juntar os grãos de areia que, sinceramente, perdi a capacidade de mensurar o tamanho das dunas.

A descrição dos milhões associada aos nomes de seus beneficiários me causa náuseas. Porque chego à triste conclusão de que o Brasil sempre foi movido a dinheiro, e a muito dinheiro. E não me refiro ao produto de um capitalismo fundamentado na liberdade de empreender, empregar, produzir e gerar riquezas. Ou na legitimidade de se buscar crescimento, prosperidade e bem estar. Afinal, esse capitalismo generoso nunca nos foi permitido por aqui. No Brasil, vale apenas a versão sórdida do capitalismo. Aquele que depende de uma rede de influências, aquele de compadrio, aquele onde poucas e grandes empresas se tornam imensas às custas dos interesses dos homens que controlam o dinheiro público. Pra piorar, a maioria do dinheiro que circula nessas rodas jamais chegou a ser produtivo, jamais chegou a ser tributado, jamais chegou a criar novos postos de trabalho. Foram simplesmente desviados de empresas e bancos públicos que deveriam ter a função de zelar pela correta aplicação de recursos que jamais lhes pertenceram. Desviados para bancar a maior concentração de bandidos de que se tem notícia no mundo moderno. Canalhas, patifes, ladrões da esperança alheia, cafajestes da pior estirpe. E não me refiro apenas aos “políticos” brasileiros, que deturparam uma atividade das mais nobres e a transformaram em sinônimo de obscenidade. Estão nessa também os poucos empresários que se beneficiaram de um sistema podre, em detrimento dos milhões de outros empresários que continuam juntando seus grãozinhos de areia para manterem vivos seus sonhos de vida, e os sonhos de tantos empregados que deles dependem. Milhões de trabalhadores que têm que se contentar com salários ridículos, porque os canalhas lhes tomam a maior parte em forma de impostos e de pseudo garantias. Dinheiro que jamais retorna em bem estar social, mas que nunca falta para o financiamento ilícito de quase a totalidade dos membros que compõem cada um dos poderes desta triste nação.

Chego ao escritório exaurido e desanimado. Pra minha surpresa, continuo a ler diversas manifestações de pessoas que conseguem ainda defender uma parte da corja que os rouba diária e descaradamente. Mas hoje, depois de uma semana tentando juntar alguns grãos de areia, não tenho energia para debater ou argumentar com aqueles que insistem em proteger os donos das grandes dunas, todas subterrâneas, obviamente. Talvez na segunda-feira, depois de um fim de semana de descanso, meu ânimo se recupere. Talvez na segunda-feira, novas listas de nomes, apelidos e milhões sejam lidas nas rádios. Talvez na segunda-feira, outros canalhas passem a ter dificuldade de dormir, com medo de que não venham a usufruir das dunas que juntaram. Talvez na segunda-feira, eu possa acreditar que este país, um dia, poderá vir a ser pródigo em grandes e generosas dunas, visíveis e disponíveis a todos que quiserem realmente crescer, trabalhar e empreender. Talvez na segunda-feira, eu possa voltar a ter, pelo menos, um pouquinho de esperança no Brasil!

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Mais do que um dia das Mães…

Hoje não é um dia qualquer. Já fazia muito tempo que o dia 14 de maio não reunia tantos significados. Há exatos dezesseis anos, uma linda vida, no papel de filho, apresentava a outra linda vida o papel de mãe. Duas almas iluminadas se reencontravam com missões diferentes, mas ambas dispostas a ensinar e aprender mutuamente. E assim têm feito desde então. Por causa do amor da mãe, o filho vem crescendo com uma impressionante noção de ética, de justiça, de caráter. Sua índole é de uma grandeza tal, que é difícil acreditar que ele tenha vindo a este mundo há tão pouco tempo. Por outro lado, seu crescimento tem feito a vida de sua mãe mais completa, mais plena e mais feliz. Cumprindo o que prometeram silentemente quando se reencontraram, ambos aprendem, um com o outro, a cada instante.

Há exatos dezesseis anos, essa mesma linda vida, no papel de neto, apresentava a outra linda vida o papel de avó. Cumprida a grande missão de sua vida como mãe, a agora avó passou a considerar a nova vida como o raio de sol de sua velhice, que nem parecia ter chegado. E aquelas duas almas iluminadas que se reencontravam, aprenderam e ensinaram, uma à outra, enquanto juntas permaneceram. Um aprendizado que cobriu os treze primeiros anos do neto com um carinho, um amor e uma dedicação que só ela era capaz de dar. Exemplos e ensinamentos constantes dos quais ele jamais se esquecerá. O amor do neto, por outro lado, fez dos últimos treze anos de vida da avó, os mais completos, plenos e felizes de sua vida.

Hoje, só me cabe agradecer por todas essas almas iluminadas que fazem parte da minha vida. Eu, que um dia, no papel de filho, também apresentei a uma delas o papel de mãe, sei bem o quanto este papel é primordial na formação de qualquer vida e no crescimento de qualquer alma. Eu, que testemunhei o descobrimento de um amor infinito, testemunho a cada dia a evolução de almas através do maior amor que pode existir, entre uma mãe e seu filho, entre uma avó e seu neto.

Hoje, três gerações de vidas e almas se encontram representadas. Três gerações que me ensinaram e ensinam a viver a cada dia. Três gerações que, na verdade, são a síntese da minha própria vida. Três almas que não se reencontraram por acaso, e sem as quais os meus caminhos não teriam o menor sentido. Hoje, portanto, meu amor, minha gratidão e minha homenagem a essas três almas que, um dia, ao se reencontrarem, deram à minha alma o privilégio de reconhecê-las e de chamá-las, neste plano, de meu filho, minha esposa e minha mãe!

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Reformar é preciso…

Muitos trabalhadores queriam fazer apenas meia hora de almoço para que pudessem sair mais cedo do trabalho, mas a legislação não permitia.

Muitos trabalhadores queriam gozar férias menores ao longo do ano, mas a legislação não permitia.

Muitos trabalhadores queriam ser contratados para trabalhar exclusivamente nos fins de semana, mas a legislação não permitia.

Muitos trabalhadores queriam deixar de pagar um dia de seus salários aos sindicatos por não se sentirem representados, mas a legislação não permitia.

Muitos trabalhadores queriam flexibilizar suas jornadas de trabalho de acordo com suas necessidades e os interesses das empresas, mas a legislação não permitia.

Nesta madrugada, entretanto, foi aprovada na câmara a reforma trabalhista, que passa a permitir todas essas situações, preservando, entretanto, todos os direitos do trabalhador. As férias, o décimo terceiro, o FGTS, a licença maternidade, o seguro desemprego continuam intocáveis. Uma lei que pode diminuir o número de ações em uma justiça do trabalho abarrotada de processos. Afinal, o Brasil é hoje, disparado, o campeão mundial em ações trabalhistas. E uma das principais razões para isso é a litigância de má-fé. Um número absurdo de ações são arquivadas porque o reclamante simplesmente não comparece à audiência, ou desiste dela ao perceber que vai perder a causa. Além de não sofrer consequência alguma, ele pode propor exatamente a mesma ação logo em seguida. E, por incrível que pareça, também pode desistir dela novamente. Quem paga por isso? Quem paga pelo tempo do juiz, do escrivão, de todas as pessoas envolvidas nos processos? Eu, você, todos nós. Com a nova lei, alguns desses abusos passarão a ser coibidos.

Um grande passo foi dado hoje com a aprovação da reforma trabalhista. Apesar de ter sido proposta por um governo corrupto e validada por um parlamento repleto de bandidos, uma série de distorções poderão ser corrigidas e uma relação que se modifica a cada dia poderá ser tratada de uma maneira muito mais moderna e atual. O Brasil não pode ficar preso a conceitos arcaicos em virtude das falsas desculpas de “proteção dos direitos do trabalhador”, propagadas pelos sindicatos interessados muito mais em arrecadar do que em trabalhar em prol dos seus representados. Que esta seja apenas uma das muitas reformas ainda necessárias a um país que busca se tornar minimamente competitivo e viável!

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Uma Norma para a vida…

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Para o pequeno, ele sempre foi muito mais que um tio. É o companheiro de praia e de piscina, é o amigo que o leva para patinar, é o ídolo a quem espera ansioso para aplaudir. Quando ele está no palco comandando a sua orquestra, o pequeno consegue perceber que a batuta é um símbolo do carisma, da seriedade e da competência do seu ídolo. E ele grita, acena, faz questão de dizer a todos que aquele é o seu tio. Assim vai crescendo o pequeno, cercado de amor e de bons exemplos, ouvindo o som dos instrumentos e dos corações que os tocam, compreendendo que a música é muito mais do que uma sucessão de notas. É, na verdade, a única linguagem realmente universal. Uma linguagem que não precisa de tradução, que dispensa intérpretes, que fala diretamente ao coração e à alma de todos.

Pois hoje, o tio virou colega, sem deixar de ser ídolo. Hoje, os dois estão juntos, no palco, lado a lado, e a admiração do pequeno pelo tio ficou ainda maior. Porque um novo e maravilhoso mundo foi apresentado, pelo tio, ao pequeno. Um mundo de gente séria, que trabalha incessantemente para desenvolver e difundir cultura de qualidade, que mostra que a arte é o melhor caminho para a harmonia, para o diálogo e para o desenvolvimento dos povos. Ao longo das últimas semanas, o pequeno pôde compreender que um espetáculo grandioso é sempre resultado de esforço, de dedicação, de talento, de abnegação. Que o sucesso nunca vem por acaso. Lições importantes que nunca sairão da sua memória.

Assim, para o pequeno, Norma será eternamente muito mais do que apenas a ópera da qual jamais se esquecerá. Será a casa de muitos tios e tias, de muitos irmãos, de tanta gente que o ensinou com carinho e atenção especiais. Que privilégio teve o pequeno em participar desta grande família, desta grande comunhão. De um espetáculo com concepção e direção brilhantes, solistas de uma competência impossível de ser descrita em palavras, coro impecável e uma orquestra vibrante e envolvente comandada pelo tio, pelo ídolo, pelo colega.

O pequeno jamais será o mesmo depois desta experiência. E seus pais jamais serão capazes de agradecer suficientemente a todos que participaram deste espetáculo memorável! Bravi!

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Sobre atitudes e escolhas…

Cenário um: você está jogando sua pelada de todo sábado com seus amigos. Aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo, com a partida empatada, o centroavante do seu time recebe a bola na intermediária, deixa os dois zagueiros pra trás, invade a área e, ao driblar o goleiro, tropeça sozinho e cai. O juiz marca pênalti. Ele se levanta sorrindo e diz ao juiz que não houve falta. Todos aplaudem sua atitude, inclusive você e os seus companheiros de clube. Em seguida, saem juntos para tomar uma cerveja.

Cenário dois: você é jogador profissional de um grande time. Aos quarenta e cinco minutos do segundo tempo da finalíssima do campeonato nacional, com a partida empatada, o centroavante do seu time recebe a bola na intermediária, deixa os dois zagueiros pra trás, invade a área e, ao driblar o goleiro, tropeça sozinho e cai. O juiz marca pênalti. Você e o estádio lotado explodem em comemoração, mas ele se levanta e diz ao juiz que não houve falta. O que acontece depois não vem ao caso.

Algumas reflexões sobre os dois cenários:

- se você acha que a atitude do centroavante foi inadequada e demagógica em ambas as situações, você precisa rever seus conceitos de honestidade;

- se você acha que a atitude do centroavante foi adequada no primeiro cenário e estúpida no segundo, você precisa rever seus conceitos de ética;

- se você acha que foi necessária a mesma coragem do centroavante em ambas as situações, você precisa rever seus conceitos de postura frente aos dilemas da vida;

- se você acha que o centroavante seria um mau caráter caso ele não tivesse se manifestado, você precisa rever seus conceitos de ser humano;

- se você acredita piamente que nem hesitaria em se comportar exatamente como o centroavante, e ainda chama de desonestos aqueles que admitem não saber como agiriam, você precisa rever seus conceitos de arrogância;

- uma coisa é certa: quando situações como essas acontecem de verdade, ela faz com que, no mínimo, tenhamos a oportunidade de repensar muitos dos nossos próprios conceitos!

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