Só rezando…

Apesar de não ser morador de São Paulo, junto-me agora àqueles que já se preparam para cumprir as determinações da nova, extraordinária e essencial lei proposta por dois deputados do PV e sancionada nesta semana pelo governador João Dória, instituindo no calendário oficial do estado o “dia de oração pelas autoridades da nação”. Afinal, inúmeras são as autoridades merecedoras de nossas preces mensais e, se não nos dispusermos a pensar com antecedência, muitos abnegados servidores do povo podem até ficar de fora, em um ato de injustiça poucas vezes visto em nosso país.

Antes, entretanto, gostaria de dirimir algumas dúvidas a fim de garantir que todas as atribuições previstas sejam por mim cumpridas. Lei é lei e não se discute. Não fica claro no texto aprovado, por exemplo, o conceito de “autoridade da nação”. Devemos orar exclusivamente para políticos da esfera federal? Os nossos preparadíssimos representantes das esferas estadual e municipal devem ser simplesmente abandonados à própria sorte? Líderes do judiciário também deverão ser contemplados? Políticos sem mandato atual, mas outrora grandes líderes tais como Dilma, Temer, FHC, Sarney e tantos outros podem ser discriminados mesmo após terem cumprido com louvor todas as suas incumbências? Políticos presos devem ser esquecidos, o que denotaria evidente insensibilidade quanto às possibilidades de ressocialização? Diante de tantas indefinições, torço para que uma lei complementar seja em breve elaborada e todos os nossos representantes, de ontem e de hoje, possam ser justa e devidamente abençoados.

Até lá, seguirei com meus preparativos livre de quaisquer amarras ou preconceitos. Minhas orações serão para todas, todos e todxs. Não irei restringir minhas preces a Deus, em respeito às crenças de cada autoridade. Elevarei meu pensamento indiscriminadamente também a Buda, Allah, Olorum, Oxalá, Chaves, Marighella e Ustra. E pedirei a eles, sempre que possível de forma republicana e democrática, que intercedam em favor de Dilma, e jamais permitam que ela perca suas inatas perspicácia e capacidade de raciocínio lógico; em favor de Lula, e o mantenham sempre preso às suas convicções, aos seus amigos, à sua cadeia de relações tão engenhosamente interligadas; em favor de Gleisi, e multipliquem sua imensa simpatia, seu brilho próprio e seu grande poder de persuasão; em favor de Aécio, e aumentem ainda mais seu carisma, sua honestidade, sua aspiração diária a grandes feitos; em favor de Temer, e reforcem suas qualidades de lealdade e fidelidade, pois estas certamente levá-lo-ão ao reconhecimento do seu povo; em favor de Bolsonaro, para que ele jamais tenha qualquer problema que o impeça de abrir a boca, seja a retirada de um dente por semana, uma cirurgia nas cordas vocais ou mesmo uma afonia crônica e persistente; e, muito especialmente, em favor de Paulo Guedes, pois sem ele – vamos combinar, né? – não há reza coletiva que possa dar jeito neste país!

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Uma ajuda pra quem precisa…

Você não aguenta mais debater política nas redes sociais? Seu político de estimação está preso, só fala merda ou vive fugindo da PF e você não sabe mais como defendê-lo? Você não tem mais argumentos mas quer manter o seu ponto de vista custe o que custar?

Seus problemas acabaram!

Chegou o “Personal formuleitor de frases feitas Tabajara”! Com ele você irá lacrar em qualquer discussão, mesmo que não tenha razão alguma. Pare de perder seu tempo em busca de raciocínios lógicos, dados bem fundamentados, leis específicas e opiniões abalizadas. Com o “Personal formuleitor de frases feitas Tabajara” você tem opções quase ilimitadas de bordões, expressões e frases lacradoras que irão deixar o seu interlocutor sem ação na próxima vez que ousar desafiá-lo.

São muitas versões à sua escolha. A básica, capitaneada pelos batidos mas sempre clássicos “com (o/a) _______ tudo era muito (pior/melhor)” e “na época (do/da) _______ a Globo (golpista/esquerdista) (não abria a boca/cobrava muito mais)”.

A intermediária, também conhecida como passa-pano, com construções do tipo “_______ é um mal necessário”, “a imprensa não sai da cola (do/da) _______, tem hora que (ele/ela) não aguenta e acaba saindo uma besteirinha” e “(ele/ela) não é (grosso/grossa) e nem idiota, é só (autêntico/autêntica)”.

E a avançada, com sentenças sofisticadas que parecem ter saído de uma tese de doutorado, pra você passar a impressão de que, além de lacrador, é muito inteligente: “informar a sociedade das questões de interesse público e expor transgressões são os princípios que me guiam”, “(ele/ela) ainda não teve acesso a um julgamento idôneo e imparcial” e “sou um julgador estritamente dos fatos, minha consciência não tem ideologia”.

Você nunca mais vai passar aperto quando o seu amigo bem informado aparecer com aquele monte de dados e opiniões que você jamais conseguiu entender. Com o “Personal formuleitor de frases feitas Tabajara”, a lacração está garantida. Você não tem que se preocupar nem com qual frase irá escolher. O “Personal formuleitor de frases feitas Tabajara” escolhe pra você. Na verdade, qualquer frase vai servir, independente do contexto da conversa. É sucesso garantido!

Mas espere, se você comprar até amanhã qualquer uma das versões do “Personal formuleitor de frases feitas Tabajara” vai levar inteiramente grátis a edição comemorativa “Frases para a posteridade” com pérolas como estas: “você é uma pessoa horrível, uma mistura do mal com o atraso e pitadas de psicopatia”, “essa bola é um símbolo da nossa evolução. Quando nós criamos uma bola dessas, nós nos transformamos em Homo sapiens ou mulheres sapiens”, “pretendo beneficiar meu filho sim. Se puder dar um filé mignon pra ele eu dou, talquei?” e “(o/a) _______ tá (preso/presa), babaca!”

Na compra da coleção completa você ainda leva, também inteiramente grátis, os óculos escuros de mito, pra já ir (ops) aprendendo a se transformar no seu próprio meme.

Não perca!

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Mais emoções à vista…

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E as emoções já começaram. Começaram na verdade há algum tempo, desde a confirmação de que este seria mesmo o caminho. Continuaram na nossa “viagem do até breve” e nos inúmeros momentos em que um imenso nó na garganta me lembrava que aquela convivência diária seria interrompida sabe-se lá por quanto tempo. Prosseguiram à cada nova tarefa cumprida: visto de estudante, local de moradia, compra de uma passagem só de ida.

Ontem, no encontro promovido pela Zest Consulting, empresa do Bernardo Cozzi, um cara muito fera que realmente vibra e se emociona com o sucesso de cada um dos seus mentorados, nós e outros pais e estudantes que vivemos as mesmas expectativas e ansiedades percebemos o quanto o dia de dizer até breve está próximo. Falamos sobre nossos receios, ouvimos diversos relatos sobre o quanto experiências como esta realmente transformam garotos em homens, e mais uma vez nos emocionamos. Sei que as lágrimas brotarão com enorme frequência nos próximos 20 dias. Não tenho dúvidas, entretanto, de que a alegria por ter feito a escolha certa irá prevalecer.

Obrigado, meu filho, pela linda e emocionante mensagem. Obrigado principalmente por ser o cara amoroso, íntegro, determinado, ético, verdadeiro e muito FODA que você é! Estaremos sempre por perto, mesmo de longe. Estaremos perto até fisicamente se você precisar. Mas agora, meu amor, a bola é sua. E sei que você vai saber o que fazer com ela!

Amo você mais do que tudo na minha vida!

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Questões de prioridade…

Um dia qualquer, há vários séculos, em alguma monarquia pós-medieval recém-implantada…

- Com licença, Majestade. Permita-me cumprimentá-lo pelo estrondoso sucesso de ontem no Parlamento.
– O que houve ontem no Parlamento, Primeiro-Grão?
– Imperador Nazareno, o senhor não acompanhou a votação?
– Não tive tempo, PG. Estava tratando de assuntos mais importantes.
– Mas, Majestade, a lei votada ontem é a mais importante do seu governo até agora. Só com ela nosso reino poderá crescer e gerar riquezas daqui por diante.
– PG, nosso reino vai crescer de qualquer jeito sem aqueles eslavos vermelhuxus que emporcalharam essas terras por décadas.
– Sim, Majestade, mas lembre-se de que foram as promessas de melhoria da vida dos súditos que nos garantiram o apoio popular para a expulsão dos vermelhuxus.
– E como foi a votação?
– A lei foi aprovada por larga margem, Majestade. Agora ninguém mais recebe o bolsa-velhice antes dos 35 anos de idade.
– Ótimo. Acabou a vagabundagem. Mas os meus guardas ficaram fora disso daí, não é PG?
– Claro, Majestade. Como o senhor ordenou.
– Boas notícias. Agora posso voltar aos assuntos que realmente me preocupam.
– Fique à vontade, Majestade.
– PG, tem coisa errada demais nesse reino. Vou precisar de muitos anos pra consertar tudo isso daí.
– Se eu puder ajudar, Majestade.
– São problemas muito complexos, PG. Não acho que você tenha competência pra isso.
– De qualquer forma, estou ao seu dispor.
– Você acredita que o nosso reino cobra diárias de dez moedas de ouro de quem visita a Ilha Fernão de Norius?
– Sim, Majestade. Mas o dinheiro ajuda na preservação da ilha, não é mesmo? Acho que um dia esse negócio de preservação ainda terá grande importância.
– Tá vendo? Você não entende nada, PG. Essa cobrança é absurda. Vou acabar com ela.
– Como quiser, Majestade.
– Outra coisa, você sabia que tem lei proibindo crianças de andarem soltas nas carroças?
– Mas a lei não foi feita pra proteger as crianças?
– Claro que não. Foi feita pelos vermelhuxus pra patrocinar a roubalheira e a pouca vergonha. Vou acabar com ela também.
– Como quiser, Majestade.
– E também vou aprovar uma lei que deixa o súdito comum, o trabalhador, o homem de bem andar com sua própria espada e até sua própria lança.
– Majestade, mas uma lei como essa não deveria ser aprovada pelo Parlamento?
– O Parlamento tá cheio de vermelhuxus disfarçados e enrustidos, PG. Eu decido e pronto.
– A escolha é sua, Majestade.
– Por último, PG, mande chamar meu filho.
– Qual deles? O que está sumido?
– Que estava sumido, você quer dizer. Graças ao Grão Toffolus, ele não tem mais nenhum motivo pra se esconder. Mas quero falar com o meu filho poliglota.
– Agora eu fiquei na dúvida, Majestade.
– O mais novo, PG. Não é possível. O garoto fala cinco idiomas. Vou inclusive nomeá-lo nosso arauto no reino anglo-saxão vizinho.
– Vossa Majestade acha que ele tem qualificações suficientes? É um cargo muito importante.
– Claro que tem, PG. Além de poliglota, ele já caçou e cozinhou muito javali por aquelas bandas. E ainda é amigo dos filhos do Rei Orangeus. Não tem ninguém melhor.
– Vossa Majestade tem consciência de que essa decisão vai provocar muitas críticas, não é?
– Quando recebo críticas dos vermelhuxus é porque estou no caminho certo.
– Mais alguma coisa, Majestade?
– Não, PG. Pode voltar a cuidar das finanças do reino. Deixa que o que é importante eu resolvo.
– Sua percepção de prioridades é realmente assombrosa, Majestade. Volto para comunicá-lo das próximas votações.
– Mas avisa antes, PG. Não posso perder tempo com bobagens, talquei?

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Clientes difíceis…

- Netflix, bom dia.
– Bom dia. Eu gostaria de reativar a minha conta.
– Pois não. O senhor se lembra do seu código do usuário?
– Sim… é 1350.
– Ah, já localizei a sua conta aqui. Vou providenciar sua reativação em poucos minutos.
– Ótimo, mas eu tenho um pedido a fazer antes.
– Perfeitamente, sou toda ouvidos.
– Eu quero reativar só a parte boa.
– Acho que não entendi, senhor.
– Só a parte boa da Netflix, aquela engajada, empoderada, guerreira e que só divulga a verdade.
– Senhor, somos uma empresa de streaming de filmes e séries, não um órgão de imprensa.
– Se a Netflix fosse um órgão de imprensa não teria nenhuma parte boa… a não ser que o Glenn fosse o editor, claro.
– O que eu quero dizer é que nosso compromisso é com o entretenimento de qualidade, não com a “divulgação da verdade”.
– Por isso é que eu quero de volta só a parte do entretenimento de qualidade que retrata a realidade do Brasil e do mundo.
– Senhor, não temos como separar conteúdos. São milhares de filmes, séries, shows e documentários à sua disposição. O senhor só assiste ao que quiser.
– Minha filha, eu não quero abrir a tela inicial e correr o risco de dar de cara com uma chamada de “O Jardim das Aflições”, “O Mecanismo” ou outro arsenal de mentiras patrocinado pela elite cis-branca-golpista-patriarcal deste país.
– Todos os filmes são ficcionais, senhor. Mesmo os documentários são produzidos segundo a perspectiva do diretor. O que é verdade para um pode não ser para o outro.
– Com essa conversinha já senti que você é simpatizante dos golpistas. Aposto que não gostou da aula de história que a Petra Costa deu em “Democracia em Vertigem”.
– Ainda não assisti a nenhum desses que o senhor mencionou. Além do mais não sou crítica de cinema. Minha função aqui é ouvi-lo e saber se o senhor irá ou não reativar a sua assinatura.
– Não vou reativar de jeito nenhum. Fiz bem demais em ter cancelado. Assisto quando o documentário chegar no Mídia Ninja ou no Catraca Livre. Passar bem!

- Netflix, bom dia.
– Bom dia o cacete. Eu quero cancelar minha assinatura agora mesmo. Que merda de empresa é esta?
– Qual é o problema, senhor?
– Este monte de mentiras sobre o impeachment da Dilma travestido de documentário. Como é que vocês têm coragem de disponibilizar um absurdo desses pros seus assinantes? Que vergonha. Vocês são um bando de esquerdopatas, petistas enrustidos, comunistas-caviar. Eu quero que vocês morram.
– Estou quase a ponto de atender ao seu pedido, senhor.
– Ainda por cima é engraçadinha. Quero cancelar minha assinatura agora!
– Em situações normais eu seguiria o protocolo e insistiria para que o senhor não o fizesse. Mas hoje meu dia não está permitindo estripulias. Por favor, qual é o seu código do usuário?
– 1717…

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Amigos…

À primeira vista, alguns podem até nos tomar por uma turma de colegas que se reúne esporadicamente. Outros mais atentos, já de imediato conseguem perceber a verdadeira amizade envolvida. Entretanto, nem mesmo aqueles que apostam que somos irmãos de uma vida toda são capazes de mensurar o amor que nos une. A cada ano juntos, a cada novo encontro, a cada nova viagem, compreendemos o quanto cada um é fundamental na vida do outro. O quanto cada conversa vem acompanhada de uma admiração mútua, o quanto cada brinde traduz o sentimento de que a alegria de um é a alegria de todos, o quanto cada gargalhada sintetiza a autenticidade de um convívio leve e, ao mesmo tempo, absolutamente profundo.

Neste feriado inesquecível, o que ficou evidente é que também os filhos de um são filhos de todos. Porque foi assim que o filho se sentiu. Ele reconheceu o amor de pai e mãe nos olhos de cada um. E é assim que todos os nossos filhos se sentem. É com este exemplo de amizade que eles crescem, cientes da importância de um amigo, certos de que amizade é ainda melhor quando é cuidada, cultivada, nutrida.

Neste feriado inesquecível, o filho teve pais e mães que o levaram para cavalgar, para desbravar trilhas e escalar montanhas, para lhe mostrar pássaros, árvores e estrelas de uma forma que ele nunca vira até então. Pais e mães que o acompanharam nas mais diferentes brincadeiras, que cuidaram para que ele não se sentisse solitário, que deixaram de descansar para que ele não reclamasse de tédio, que cuidaram das suas alergias e joelhos ralados, que o ouviram com toda atenção e disponibilidade. Este é o tipo de carinho que sintetiza a amizade que vivenciamos. É o retrato do que somos quando estamos juntos.

Ao final deste feriado inesquecível, enquanto o filho ainda absorve todas as inúmeras lições de amizade recebidas, eu apenas tento encontrar palavras que possam demonstrar a minha gratidão. Não há como encontrá-las e, claro, obrigado é muito pouco. Amo vocês, meus amigos queridos!

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Interpretações imorais…

- Oi, amor. Vamos almoçar?
– É melhor você não falar nada, Serginho. Eu descobri tudo.
– Que isso, amor? Do que você está falando?
– Eu sempre desconfiei de você, Serginho. Essa sua carinha de santo nunca me enganou.
– Mas, Marina, eu não fiz nada.
– Nada? Tem certeza? Você tem coragem de dizer que não conhece nenhuma Zara?
– Zara? Não, não conheço.
– Você é muito cara de pau! Eu já sei de tudo, Serginho. Contratei um detetive que hackeou seu celular. Tenho as primeiras mensagens transcritas aqui comigo. E isso é só o começo. Ele ainda vai me mandar muitas mais.
– Você enlouqueceu? Era só me pedir que eu te mostrava minhas mensagens. Não fiz nada de errado e não conheço nenhuma Zara.
– Você não me engana, seu monstro. Tenho a conversa em que você fala dela e de outras pro Renan.
– Que Renan? O que foi meu colega de escritório? Nunca falei de outra coisa com ele a não ser de trabalho. Além do mais já disse que não conheço nenhuma Zara.
– Ah é? Que tal esse trecho aqui?
“Renan, não sei mais o que eu faço. Zara está me deixando louco. Não tô dando conta.”
“Sério? Um mês atrás parecia que não iria dar em nada.”
“O mundo dá voltas.”
“Cuidado pra não atrapalhar seu relacionamento com as outras.”
“Pois é. Como se pudesse me cobrar exclusividade. Não está nem me sobrando tempo pra Marisa.”
– Peraí, Marina. Acho que você realmente enlouqueceu. Eu só estou falando de trabalho aí.
– Trabalho, seu cara de pau?
– Sim, eu era representante comercial até três anos atrás, lembra? Zara é uma rede de lojas.
– E onde é que eu entro na história pra você dizer que não tinha tempo pra mim?
– Desde quando você se chama Marisa?
– É claro que isso foi um erro de digitação, não é, Serginho?
– Marisa é outra rede de lojas, meu amor. Eu vendia pras duas, além de outras mais. Não acredito que você duvidou de mim por causa disso.
– Ah, é? E como você me explica essa parte que vem em seguida?
“Apesar de todas as cobranças e do ciúme eu sou louco por ela.”
“Eu sei. É que o coração não foi feito pra pensar. Também já passei por isso.”
– Tava falando de loja também, Serginho?
– Claro que não. Mas essa conversa eu tive com a minha mãe e há menos de um mês. Não tem nada a ver com a outra. Aliás, eu estava falando de você. Esse hacker que você arrumou tá fazendo tudo parecer errado.
– Conta outra, Serginho.
– Duvida? Confere as datas e os horários pra ver se batem. Esse cara tá colocando as mensagens na ordem que ele quer e você tá caindo na manipulação dele.
– Puxa, meu amor, é verdade, me perdoa.
– Vamos esquecer isso, Marina. Tenho que ir agora. Perdi até o apetite.

- Boa noite, amor. Tá mais calma agora?
– Some daqui, seu canalha.
– Pelo amor de Deus, o que foi desta vez?
– Nunca imaginei que você fosse gay, Serginho!
– Gay, eu?
– Eu descobri tudo e quero o divórcio. Você pode ser feliz com o seu Ermenegildo Zegna!

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Pássaros…

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Jatinga, uma pequena vila com apenas 2500 habitantes localizada no leste da Índia, é palco de um curioso fenômeno todos os anos. Entre os meses de setembro e outubro, a cada entardecer, milhares de pássaros de mais de 40 espécies simplesmente mergulham em direção às luzes e construções da cidade em um verdadeiro suicídio coletivo. Muitos cientistas têm apontado teorias ao longo dos anos, mas nenhum deles até agora chegou a uma conclusão definitiva. Alguns culpam a combinação de altitude, ventos fortes e neblina. Outros apontam as luzes da cidade como a provável causa do problema e uns poucos cientistas ainda consideram possível que a água do local pode ser a responsável pela desorientação das aves. Seja qual for a causa, todos concordam em um ponto: nem todos os pássaros se desorientam a ponto de mergulharem deliberadamente para a morte. A maioria deles apenas segue os líderes do bando e, quando percebem, é tarde demais para se evitar a catástrofe. A maioria simplesmente segue acéfala, cega, incompetente para tomar suas próprias decisões, incapaz de questionar aqueles líderes igualmente acéfalos, igualmente cegos, cujas obtusas condutas só levam ao desastre coletivo.

Não sei por que mas me lembrei desses pássaros estúpidos hoje…

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Muito barulho por nada…

Não estava nos meus planos me manifestar sobre o polêmico caso das mensagens hackeadas, mas tenho lido tantos textos rasos e simplistas (com raras e honrosas exceções) que resolvi deixar de lado os memes e as opiniões alheias para ler a reportagem completa publicada há três dias no site “The Intercept Brasil”. E aqui vão as minhas observações. Para quem não a leu, a reportagem se divide em quatro partes. A primeira é uma espécie de editorial autopromocional intitulado “Como e por que o Intercept está publicando chats privados sobre a Lava Jato e Sérgio Moro”. Há muito o que se comentar sobre essa introdução mas vou deixar para fazê-lo ao final das minhas ponderações.

A segunda e a terceira partes, cujos respectivos títulos são “Procuradores da Lava Jato tramaram em segredo para impedir entrevista de Lula antes das eleições por medo de que ajudasse a eleger o Haddad” e “Deltan Dallagnol duvidava das provas contra Lula e de propina da Petrobras horas antes da denúncia do tríplex”, mostram trechos de mensagens trocadas entre os próprios procuradores. Por mais parciais, tendenciosos e sensacionalistas que sejam os títulos, não há nas mensagens um único indício de que algo ilícito ou antiético tenha ocorrido. Os procuradores apenas trocaram opiniões, pontos de vista e estratégias de apresentação das denúncias. Não há evidências de “trama” alguma na segunda parte, no máximo indignação e revolta. Não há evidências de dúvida quanto “às provas contra Lula” na terceira, apenas cautela para que cada ponto da denúncia estivesse efetivamente caucado em fatos. Sim, as mensagens deixam muito claro que eles detestam Lula e o PT. Sim, eles têm convicção de que Lula e o PT são um desastre para o país. Mas não há uma única falsa evidência plantada, um único depoimento inverídico solicitado, uma única prova de inocência ocultada. Ou seja, não há nada que deponha contra a seriedade dos procuradores. São colegas de uma mesma equipe manifestando suas percepções em um ambiente – assim pensavam – absolutamente privado. Assim como fazem diariamente quase a totalidade dos jornalistas de cada um dos veículos de comunicação deste país. Assim como fazem políticos, magistrados, professores, estudantes e profissionais de todas as áreas quando estão em seus ambientes – repito e enfatizo – privados.

A quarta e última parte da reportagem, a única que efetivamente mostra conversas envolvendo o ex-juiz Sérgio Moro, tem a seguinte chamada: “chats privados revelam colaboração proibida de Sérgio Moro com Deltan Dallagnol na Lava Jato”. E aqui vai uma percepção que tenho não de agora: Sérgio Moro é uma pessoa focada e determinada mas também extremamente vaidosa e competitiva. Ele definitivamente não entra em um jogo para perder. E já mostrou, diversas vezes, que sempre esteve disposto a “ampliar” os limites das suas atribuições como juiz. Entretanto, embora pareça contraditório, não fosse por essa vaidade exacerbada, dificilmente Moro teria tido a coragem de enfrentar as mais poderosas e mais corruptas figuras e corporações do país. Não há amor à pátria puro e simples que justifique tamanho risco. Posto isso, não vi nas conversas divulgadas entre ele e Deltan nada que me parecesse ilícito ou inadequado. Sim, sei perfeitamente que acusador e julgador deveriam se manter distantes mas é público e notório que ambos trabalhavam conjuntamente, tanto que sempre foi consenso entre todos os órgãos de imprensa chamar a ambos de integrantes da força-tarefa da Lava Jato. Também é público e notório que tal distância jamais foi verdadeiramente respeitada no judiciário brasileiro. Mesmo assim, não identifiquei ordens de um que tenham sido seguidas cegamente pelo outro e tampouco submissões tácitas a quaisquer sugestões. Mais uma vez, meras observações feitas em um ambiente privado.

Dizem alguns poucos que tais conversas poderiam levar à nulidade de todas as ações da Lava Jato. Se isso de fato acontecer será o maior retrocesso ocorrido no país desde que Cabral aportou por estas bandas. A Lava Jato conseguiu desmontar o maior esquema de corrupção da história da humanidade. E o fez apresentando provas inquestionáveis, recuperando valores jamais obtidos por nenhuma outra operação policial, levando à cadeia poderosos empresários e políticos até então intocáveis. Além do mais, se tais conversas constituíssem mesmo motivos para a nulidade de todo o processo, quais ministros do STF teriam legitimidade para julgá-lo? Gilmar Mendes e suas conversas mais do que indiscretas com Aécio Neves (legalmente obtidas, diga-se de passagem)? Lewandowski e seu teatro previamente combinado com Renan e o PT no impeachment de Dilma? Marco Aurélio Mello e sua conexão mediúnica com os advogados de Lula, capaz de fazê-los antever sua tresloucada decisão quanto à prisão em segunda instância e impetrarem um complexo pedido de habeas corpus imediatamente após a publicação da liminar? Alexandre de Moraes, Toffoli e suas decisões monocráticas pela volta da censura? Sejamos honestos, exemplos de limites ultrapassados são pródigos no judiciário brasileiro. Lamento apenas que os patriotas hackers não tenham se interessado pelos celulares dessa gente.

No seu editorial de abertura, a reportagem faz críticas ao fato de Moro ter autorizado a divulgação da íntegra dos diálogos do ex-presidente Lula, ao mesmo tempo em que se vangloria pela divulgação atual somente das mensagens “que revelam transgressões ou engodos por parte dos poderosos”. Mais adiante, informa que os envolvidos não foram contatados antes da publicação por receio de que medidas impeditivas fossem tomadas e pelo fato dos documentos “falarem por si”. Termina afirmando que “a transparência é crucial para que o Brasil tenha um entendimento claro do que eles realmente fizeram”.

Pois bem, acho no mínimo curioso que os responsáveis pela reportagem se autoavaliem como éticos e profissionais ao divulgarem mensagens obtidas ilegalmente através da atuação de hackers criminosos. O papel de antiético ficou, nesta deturpada visão, para aquele que autorizou a divulgação de gravações feitas com a devida autorização judicial prévia. Também me causa espanto o fato dos autores da reportagem clamarem por transparência enquanto se promovem às custas de um crime. Se a transparência lhes é realmente tão cara, sugiro que abram eles próprios os sigilos de suas comunicações com os criminosos. Como foram obtidos tais documentos? A que custo? Acho que a transparência neste caso é tão crucial quanto aquela por eles defendida. Por fim, entendo que a bombástica divulgação das mensagens serviu apenas para reforçar a seriedade de uma operação que mudou a história do Brasil. Operação cujos números superlativos – esses sim – falam por si. Serviu também, é claro, para animar os membros da outra turma de criminosos que assaltou os nossos cofres públicos por décadas. Nos tempos de Shakespeare, muito barulho por nada rendia apenas uma ótima história e muitas gargalhadas. Hoje, infelizmente, serve a interesses bem mais soturnos.

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Juntos…

Sento-me finalmente na poltrona do avião que, assim espero, em pouco mais de onze horas estará pousando no Brasil. Vôo de volta, de final de férias, último refúgio antes dos problemas que deverão ser encarados ao longo dos próximos dias.

Meu ânimo já cambaleante começa a desmoronar quando percebo que, no pequeno espaço entre os meus joelhos e as costas da poltrona à minha frente, cabe apenas um exemplar da revista de bordo. E sem o encarte das ofertas do free shop. Bom, agora não cabe mais pois a passageira da frente resolveu reclinar seu encosto antes mesmo da decolagem. Cogito a hipótese de avisá-la dos procedimentos básicos de segurança mas acabo por deixar a tarefa para a aeromoça sorridente mais próxima.

“Pelo menos estou na janela”, penso eu na vã tentativa de me animar, pouco antes de me lembrar de que o vôo é noturno. Ao meu lado está meu filho mais novo, seguido da minha esposa e do meu primogênito, grandes companheiros de uma viagem inesquecível. O avião decola no horário e o jantar – uma pequena porção de massa com o sabor e a textura de um macarrão instantâneo – é servido com a agilidade de um atendente de fast food. Duas taças (codinome simpático que adotei para os copos plásticos) de vinho não são suficientes para me fazer apagar instantaneamente. A saudade dos “pints” de Guinness já bate forte. Restam ainda quase dez horas de vôo e o primeiro filme está quase no fim. O som dos fones de ouvido é até razoável desde que eu não deixe de pressionar constantemente o plug. Depois de um certo tempo, com meu dedo já dormente, resolvo acompanhar o restante do filme apenas pelas legendas. A ausência de som nunca foi problema para os filmes de Chaplin, por que seria para este? Terminado o filme, só me resta tentar dormir, mas meu filho resolve fazer do meu colo seu travesseiro. Agora não tenho como me mover para a frente e nem para os lados e passo a me condenar por ter reclamado dos metrôs nas horas de pico.

Naquele espaço exíguo, reconheço no piso acarpetado a única forma plana horizontal disponível. Estendo um cobertor junto aos meus pés, ajeito com carinho a esponja que eles chamam de travesseiro e deito ali meu filho. Ele acorda e me pergunta se enlouqueci. “Ainda não”, respondo. Tenho agora um filho esticado no chão e uma cadeira vazia ao meu lado. Claro, não tenho mais onde pisar e jogo minhas pernas para a poltrona desocupada. Minha cabeça está recostada na janela e as turbulências do avião embalam meus pesadelos de cinco minutos de duração. Pouco tempo depois, agora são minhas pernas que estão dormentes. Usando os pés, e surpreso com a minha própria destreza, abro a mesa de refeições em frente à poltrona da minha esposa e apoio minhas pernas ali, torcendo para que o fabricante tenha projetado o sistema de dobradiças para pesos bem maiores do que os 250 gramas de cada refeição. As pontas dos meus pés agora estão pra fora do corredor e meus pesadelos passam a durar não mais do que três minutos, espaço máximo de tempo entre um e outro esbarrão de algum passageiro rumo ao banheiro. Por que será que essa gente não dorme?

Minha esposa e meu filho mais velho não têm melhor sorte e passam a noite entre cochilos esparsos, trechos de filmes mudos, membros dormentes e visões de um avião que parece apenas um ponto imóvel na página de um Atlas (quem tiver menos de 40 anos pode procurar informações a respeito no Google). Ah, se o preço da classe executiva fosse apenas o dobro…

Chegamos finalmente ao Brasil. Meu filho pequeno dormiu bem a noite toda. Quem dera tivéssemos todos no máximo um metro e trinta de altura. Já nós três passamos uma noite de cão, compartilhando um sono nada profundo, raso, superficial. Um sono shallow. De repente, juntos e shallow now passou a fazer um sentido danado pra mim…

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