A derradeira semana petista…

A última semana antes da eleição chega ao fim e a campanha petista acumula trapalhadas e desacertos. Mesmo que, publicamente, tenha se mostrado animado com os resultados do Datafolha, que apontou uma pequena diminuição na grande diferença a favor do candidato do PSL, o fato é que o PT tem muito pouco a comemorar.

O discurso de vitimização e a conhecida postura de “coitadinhos honestos sendo ludibriados” foram contrapostos pelas imagens de coletivos circulando com a propaganda do partido na Bahia, em evidente crime eleitoral, pelo resultado do inquérito policial que apontou automutilação no caso da garota supostamente marcada a faca com o símbolo da suástica por apoiadores de Bolsonaro, pela completa ausência de provas ou indícios mais consistentes da bombástica reportagem feita pela Folha na semana passada, pela pesquisa feita pelo Ibope apontando que o percentual de apoiadores que foram influenciados pelas notícias de WhatsApp foi rigorosamente o mesmo para as duas candidaturas, e pela gravíssima acusação feita por Haddad de que o General Mourão, aos dezesseis anos de idade, havia torturado um cantor. Pior ainda, pela sua esquiva em pedir perdão pelo equívoco. “Apenas repliquei a informação de uma pessoa de confiança”, foi a desculpa dada pelo petista. Não é exatamente esse tipo de comportamento que o PT reclama com relação àqueles que espalham fake news?

O fogo amigo continuou causando estragos na candidatura petista. Mano Brown, diante de toda a cúpula do partido, admitiu a derrota, escancarou as falhas e os equívocos de uma esquerda desmantelada e proferiu uma das frases que considero mais relevantes vindas de alguém ligado ao PT: “o que mata a gente é a cegueira e o fanatismo”. O próprio Lula escreveu uma carta na prisão desmerecendo seu poste e evidenciando sua autopercepção de deus injustiçado, condição rechaçada pela maioria dos brasileiros. E, depois de Cid Gomes, seu irmão Ciro deixou o petismo a ver navios ontem, quando saiu do aeroporto sem se posicionar de forma contundente a favor de Haddad, demonstrando que a barca furada atrai cada vez menos gente.

Duas pesquisas realizadas ontem, entre elas aquela que mais se aproximou do resultado das urnas no primeiro turno, apontaram que a diferença entre os dois candidatos não se alterou e se mantém próxima de vinte pontos percentuais.

No campo econômico (ou do desespero, como queiram), Haddad passou a divulgar que suas três primeiras medidas caso eleito serão o aumento do salário mínimo inclusive para os aposentados, aumento de 20% no Bolsa-família e a determinação de que o valor do botijão de gás não poderá passar dos R$ 49,00. Disse também que “já fez as contas”. Aumento de gastos públicos, aumento do rombo da previdência e congelamento de preços. Não poderiam haver exemplos mais claros de como se faz para quebrar de vez um país.

Resta ao PT apenas o consolo de poder explorar as recorrentes bobagens ditas pelos mais diversos membros da campanha adversária, mas que não parecem afetar a intenção de votos mais cristalizada deste pleito. Amanhã veremos quais serão os resultados definitivos que, de uma forma ou de outra, irão mudar a história do Brasil!

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Ligações perigosas…

Segunda-feira, 22 de outubro de 2018, na sede de um dos partidos políticos da capital paulista…

H – Alô, quem fala?
L – Companheiro H? É você?
H – Sim, sou eu, presidente. Que prazer ouvir sua voz novamente. Estava com muitas saudades.
L – Obrigado, companheiro. Mas não posso demorar hoje. Tenho muito pouco tempo de ligação.
H – Achei que o senhor não pudesse fazer ligações de dentro da cela, presidente.
L – O Valdeci me emprestou escondido. Estou passando pra ele tudo o que você deve fazer nesta última semana. Mas algumas coisas eu prefiro falar diretamente.
H – Sou todo ouvidos, presidente. O que o senhor quer me dizer?
L – Seu corno, bexiguento, excomungado, cachorro da moléstia, filho de uma p…
H – Calma presidente, o que foi que eu fiz?
L – O que foi que você fez? Você tá acabando com as minhas chances de sair daqui. Com as minhas chances de mandar neste país de novo!
H – Mas, presidente, eu fiz tudo que o senhor me pediu.
L – Companheiro H, eu te entreguei essa eleição de mão beijada. Uma reportagem de primeira página acusando a campanha do outro jegue de caixa 2. Um escândalo internacional! Você sabe o que eu tive que fazer pra conseguir isso?
H – Imagino, presidente…
L – Imagina nada, companheiro H. Antigamente era só eu estalar os dedos que todo mundo tava pronto pra publicar qualquer merda que eu quisesse. Hoje eu tenho que vender a alma pro diabo pra achar alguém com essa disposição. E, mesmo depois disso tudo, o jegue do outro lado continua disparado na frente.
H – Mas eu fiz tudo o que a gente combinou. Fiz cara de indignado como se nem soubesse o que é caixa 2, disse que estamos perdendo por causa das fake news como se a gente nunca tivesse espalhado notícia falsa, reclamei do pessoal comprado pra mandar mensagens de WhatsApp como se a gente não tivesse uma turma nossa só por conta disso, e até gritei exigindo rapidez do TSE em excluir a candidatura do outro jegue.
L – Gritou, companheiro H? Gritou? Você quando fala alto parece que tá sussurrando. Sua cara de bravo não assusta ninguém, sua voz não convence ninguém, nem pra tomar conta de uma bíblia que ganhou de presente você serve. Você tinha que estar com as veias do pescoço saindo pra fora da pele igual as minhas tão agora! Você é um vexame, companheiro!
H – Mas eu ainda tenho confiança que a candidatura do outro jegue será cassada, presidente. Vamos disputar o segundo turno com o companheiro C!
L – Você ficou louco, companheiro H? Mesmo que isso fosse possível o companheiro C ia acabar com a sua raça. E aquele irmão amalucado dele ainda ia gozar com a nossa cara de novo. Ah, se eu encontro aquele babaca na minha frente não ia sobrar um dente dele pra contar a história. Babaca! Eu não sei mais o que fazer, companheiro. Se eu estivesse aí essa eleição tava no papo! Que vergonha!
H – Não seja pessimista, presidente. Acho que nós conseguimos mudar muitos votos!
L – Só se mudou pro lado do outro jegue. Você não viu como as ruas ficaram lotadas ontem? Ninguém tá nem aí pra reportagem nenhuma. A gente já dançou!
H – Mas as provas da reportagem ainda vão aparecer. O povo vai se convencer de que só estamos perdendo porque a gente tá sendo roubado.
L – Provas? Que provas, companheiro? Eu só consegui a reportagem, prova não é comigo. Desde pequeno que eu nunca fui bom de prova. Aliás, as provas sempre me ferraram.
H – Lamento muito desapontar o senhor, presidente, mas não vou jogar a toalha ainda. O senhor me ensinou que a gente não pode desistir nunca!
L – Companheiro, duvido muito! Já faz tempo que ninguém consegue me fazer dar um sorriso. Nem o Coringão me dá alegria mais. Conseguiu perder pr’aquela desgraça daquele time de Minas, dentro do meu estádio e com VAR e tudo!!
H – Calma presidente…
L – Ô time azul excomungado, metido a besta, filho de uma égua…
H – Por favor, presidente…
L – Meu Deus, companheiro H, o Valdeci enlouqueceu. Ele tá chamando o carcereiro pra mim. Tenho que desligar, tô ferrado!
H – Era o que eu estava tentando lhe avisar, presidente. O Valdeci é cruzeirense…

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Os muros de hipocrisia que nos cercam…

“Eu vejo a vida melhor no futuro,
eu vejo isso por cima de um muro
de hipocrisia que insiste em nos rodear…”

O muro de hipocrisia que insiste em nos rodear está cada vez mais alto. E, à medida em que ganha altura, mais escassas se tornam as chances de que possamos vislumbrar as nossas vidas melhores no futuro. A cada dia, as pessoas embasam suas interpretações dos fatos unicamente pelos seus autores. Como se todos aqueles com quem não simpatizamos fossem literalmente incapazes de proferir sequer uma opinião correta. Como se todos aqueles que admiramos fossem incapazes de errar. Estamos atingindo o limite da irracionalidade. Não podemos fechar os olhos para as atitudes dos nossos ao mesmo tempo em que condenamos comportamentos idênticos dos outros. Assim, quem perde a moral somos nós mesmos. E aqui me incluo. Sei que, muitas vezes, somos hipócritas sem que percebamos. “Foi só desta vez”, “todo mundo erra”, “os outros também fazem”, “é por uma boa causa”. Desculpas como essas são comuns quando avaliamos comportamentos condenáveis de afins. A mesma tolerância é absolutamente inexistente quando analisamos os díspares. Mas o problema maior acontece quando deixamos de refletir sobre as nossas próprias digressões e, assim, passamos a correr o sério risco de que elas se insiram definitivamente no nosso caráter. Nada mais perigoso para que o muro de hipocrisia continue a crescer.

Em tempos de extremismo como o que vivemos hoje, é cada vez mais difícil nos mantermos atentos aos nossos próprios comportamentos. Eu mesmo, embora não me veja representado por nenhuma das duas opções deste segundo turno, tenho que me esforçar para tentar fazer uma análise imparcial da denúncia apresentada pela Folha de São Paulo contra a campanha de Jair Bolsonaro. Não apenas pela falta de evidências contidas na reportagem, mas principalmente pela reação que provocou na campanha adversária. Acho, entretanto, que toda denúncia merece investigações e punições contundentes, caso realmente se comprove o envolvimento dos investigados. Mas não se pode inocentar ou acusar de antemão quem quer que seja e entendo que qualquer postura diferente disso mereça atenção redobrada daquele que se propuser a garantir sua visão límpida acima do famigerado muro da hipocrisia.

Por falar em hipocrisia, a candidatura petista já chegou ao seu veredito: Jair Bolsonaro cometeu crime de caixa 2 e deve ser imediatamente retirado do pleito. Mais ainda, o segundo turno deverá ser disputado entre Haddad e Ciro Gomes porque o candidato antidemocrático e simpático à ditadura só liderou o primeiro turno graças às notícias falsas espalhadas via Whatsapp. Bom, chegamos aqui naquele ponto em que o muro se torna completamente intransponível.

Afinal, pede a inelegibilidade de um candidato o mesmo partido que se recusa a aceitar a inelegibilidade de um político investigado durante anos, condenado em primeira e segunda instâncias, preso e réu em outras cinco ações ainda não julgadas.

Pede a condenação de um candidato com base em uma única reportagem o mesmo partido que não consegue ver provas em mais de duzentas e cinquenta mil páginas de um processo criminal repleto de documentos, de fotos, de testemunhos e de evidências.

Reclama de ser vítima de fake news o mesmo partido que, nas últimas eleições, destruiu as candidaturas adversárias com mentiras mirabolantes elaboradas por marqueteiros pagos com uma fortuna em dinheiro roubado. O mesmo partido que já é alvo de investigação pelo Ministério Público pela criação de uma rede de ativistas digitais, pagos para fazer campanha na internet. O único partido que se recusou a assinar um acordo contra notícias falsas poucos meses antes das eleições.

Cobra a condenação por caixa 2 de um candidato o mesmo partido que, comprovadamente, escondeu bilhões de reais dos gastos de todas as campanhas eleitorais das quais participou, inclusive da última campanha do atual candidato à presidência pelo partido, e pela qual ele também já é investigado.

Chama uma candidatura de antidemocrática e ditatorial o mesmo partido que apoiou, incentivou e financiou ilicitamente, durante mais de uma década, ditaduras consolidadas e diversos governos antidemocráticos pelo mundo afora.

Recusa-se a aceitar o resultado praticamente certo de uma eleição o mesmo partido que coloca a responsabilidade da maior crise da história do Brasil única e exclusivamente nas mãos de uma oposição, igualmente hipócrita, exatamente por esta não ter aceitado o resultado das urnas há quatro anos.

E completando a aula de hipocrisia, comportam-se como indignados, como vítimas, como ultrajados e como puros os membros do mesmo partido que mentiu, que roubou, que destruiu a economia do país, que promoveu a divisão da sociedade brasileira e que até hoje foi incapaz de admitir qualquer erro, qualquer incompetência ou qualquer responsabilidade no caos em que nos encontramos.

Por tudo isso, apesar de estar ciente que um muro de hipocrisia circunda de uma forma geral toda a nossa sociedade, entendo que o hipócrita muro petista impede terminantemente qualquer possibilidade de visão exterior. É o mais opressor de todos os muros, o mais contaminado, o mais arrogante e o mais retrógrado. É o muro onde a hipocrisia já criou raízes, já se inseriu no caráter de seus membros e de sua seita. É o muro que, se não for derrubado desta vez, fará com que este país provavelmente nunca mais consiga enxergar além das imagens de igualdade, de justiça, de prosperidade que, infelizmente, não passarão de cenas fantasiosas projetadas em um muro tão alto, mas tão alto, que até a luz do sol terá dificuldade de suplantar!

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A falácia do voto moral…

A esquerda brasileira, como já se tornou hábito, conclama mais uma vez para si o monopólio das virtudes. Votar em Haddad hoje, dizem eles, é se posicionar a favor da democracia, da liberdade, da decência, da ética. Porque, segundo eles, toda a maldade humana está concentrada na candidatura adversária. Assim, o discurso de ódio do candidato do PSL é responsável direto por toda violência existente hoje no país, levada a cabo pelas figuras fascistas que apoiam um candidato fascista. Segundo eles, portanto, o Brasil é um país hoje com, pelo menos, quarenta e nove milhões de fascistas. Nenhuma análise poderia ser mais rasa, simplista, tola e irreal do que essa.

Tal atitude, como já deixei bem claro, não surgiu agora. Se autoproclamar detentora exclusiva da bondade humana é estratégia que a esquerda utiliza há tempos. Mas o que me surpreende agora é a postura de muitos daqueles que pretendem votar na esquerda não por ideologia, mas apenas por a considerarem uma opção “menos pior”. E me refiro a esses não pelo fato de terem escolhido o caminho oposto ao meu, mas sim por considerarem, talvez influenciados pela própria esquerda, que seus votos são “moralmente superiores” aos votos destinados a Jair Bolsonaro. Não são. Essa é uma postura excludente e arrogante. É como se, de uma hora para outra, eu e todos aqueles que entendem ser o candidato da esquerda a opção mais desastrosa para o país, passássemos a ser coniventes com a violência, a aprovar a perseguição aos negros, a estimular o espancamento de homossexuais. Que bobagem é essa? Se essa premissa fosse verdadeira seria de se supor, em contrapartida, que todos os que pensam em migrar para o PT aprovam os roubos astronômicos aos cofres públicos, os assaltos aos fundos de pensão dos aposentados, o apoio às ditaduras bolivarianas, a irresponsabilidade fiscal e o completo descaso com as contas públicas do país.

Portanto, caros amigos que pretendem votar no candidato petista neste segundo turno, lembrem-se de que não dispomos mais de votos bons e maus. Ambas as opções têm sérios problemas e estão, segundo a minha ótica, longe de serem o melhor caminho para o país. Mesmo assim, votarei de acordo com a minha consciência buscando o que entendo ser o menos prejudicial ao Brasil. Sugiro que façam o mesmo. Sugiro também que, daqui pra frente, antes de acusarem todo autor de alguma agressão ou incidente de “eleitor do coiso”, lembrem-se de chamá-lo, antes de tudo, de criminoso ou imbecil, e de que pessoas assim existem aos montes em ambos os lados. Não é o fato de alguém votar em Bolsonaro ou Haddad que irá determinar sua índole ou seu caráter. Sugiro, finalmente, quando ouvir mais uma vez que a esquerda é o único caminho para a liberdade e a democracia, que você se lembre de Guilherme Boulos incentivando uma multidão em comício a invadir a casa de Jair Bolsonaro; de José de Abreu ofendendo Regina Duarte e afirmando que não respeita “artista que defende fascista”; da garota que havia afirmado ter sido ferida com o símbolo da suástica por três apoiadores de Bolsonaro sob suspeita de automutilação; das testemunhas do assassinato de um professor de capoeira, além do próprio assassino, declarando que a briga que resultou no crime não foi provocada por divergência política, ao contrário do divulgado pela imprensa; das duas deputadas mulheres e do deputado negro mais votados da história do país, eleitos pelo PSL, e que não receberam um único aplauso vindo dos movimentos feminista ou negro; do professor da Universidade Federal da Bahia que foi preso em Salvador após tentar atropelar um homem que vendia camisas de apoio a Bolsonaro.

Se todos esses e muitos outros exemplos não o fizerem perceber que não estamos assistindo a uma luta entre Deus e o demônio, se ainda assim você considerar que existe o “ódio do bem”, talvez o voto mais imoral desta eleição seja exatamente o seu!

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Mudança de planos…

Segunda-feira, 08 de outubro, naquela mesma cela da Polícia Federal de Curitiba…

H – Bom dia, presidente. Como foi sua semana?
L – Tensa, companheiro H, muito tensa. Ainda bem que chegou.
H – Estou aqui, presidente, como em toda segunda, aguardando as instruções da semana.
L – E serão as últimas, companheiro.
H – Últimas? Como assim, presidente? Justo agora que estamos no segundo turno? Não consigo fazer tudo sozinho. Não sou capaz de fazer o povo votar até num jegue como o senhor.
L – Tá me chamando de jegue, companheiro H?
H – De jeito nenhum, presidente. Formulei mal a frase. Quis dizer que só o senhor consegue fazer com que o povo vote até num jegue. Me perdoe por favor.
L – Dessa vez passa, companheiro H. E é claro que vou continuar determinando o que você vai fazer. Mas serão as últimas instruções que te passo pessoalmente. Não quero que você volte mais aqui até o final da campanha.
H – Por que, presidente?
L – Porque não está funcionando. Parece que as pessoas perceberam que você é só um poste.
H – Mas o senhor disse que todo mundo já sabia disso. Que, se o senhor mandasse, o povo iria votar até num jegue… quer dizer, em mim.
L – É verdade, companheiro H. Mas parece que já alcançamos os votos de todos que são capazes de votar num jeg… em você. Estamos no segundo turno e agora precisamos de mais gente.
H – Gente que vota em jegue?
L – Não, companheiro. Gente que não vota no jegue do outro lado.
H – E como a gente faz pra convencê-los a votar no nosso jeg… em mim?
L – Eu tenho que me afastar de você, companheiro. Não quero que você fale mais o meu nome, não quero que me dê mais boa noite nos debates, não quero que diga que eu sou preso político e principalmente não quero que você faça aquele L com a mão que dá uma urucubaca danada.
H – Urucubaca, presidente?
L – Isso mesmo. O companheiro L dançou no Rio, o companheiro S dançou em São Paulo, a companheira D acabou com o nosso dinheiro e dançou em Minas e também em Minas o companheiro P conseguiu perder a vaga no segundo turno prum capiau que parece que saiu agorinha da roça. Fazer L com a mão tá proibido.
H – O que mais, presidente?
L – Chega de bandeira vermelha. Quero só bandeiras do Brasil.
H – Mas presidente, todo mundo sabe que a nossa bandeira é vermelha. É a nossa marca registrada.
L – Eu sei, companheiro. Mas o povo que a gente busca não vota de jeito nenhum em bandeira vermelha. Eles têm uma espécie de reação alérgica, sabe? Só vão votar se a bandeira for verde e amarela. Aliás, muda também a sua logomarca pra essas cores.
H – Igual à do jegue do outro lado?
L – Isso. Igualzinho!
H – Ok.
L – Por último, também muito importante, não faça nenhum tipo de contato, nem por sinal de fumaça, com o companheiro JD.
H – Mas, presidente, eu tinha um jantar marcado com ele hoje mesmo.
L – Cancela! Se perguntarem, diga que não o vê há anos. Aliás, que nem o conhece direito.
H – Mas por que, presidente?
L – Temos que colocar você como um cara da nova ala do partido, mais moderno, menos radical, quase um social-democrata, entende?
H – Tipo um tucano?
L – Isso. Essa gente costuma votar em tucano e não em jegue.
H – Muito bem. Que Fidel nos ajude nessa jornada, presidente.
L – Não, companheiro H!! Fidel não! Deus! Que Deus nos ajude. Repete isso quinhentas vezes na cabeça da companheira M. Eu sei que pra ela é mais difícil.
H – Combinado, presidente. Farei tudo o que o senhor mandou.
L – Mas você vai se lembrar de tudo? Não vai anotar nada?
H – Não se preocupe. Tudo está sendo anotado pelo meu secretário ali na entrada da cela, presidente.
L – Que secretário? Você nunca teve secretário, companheiro H.
H – Contratei o Valdeci…

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Conselhos para quem precisa…

Não preciso repetir aqui quais são as minhas posições políticas, quais são as minhas preferências partidárias e quais são as minhas escolhas a partir de agora. Todas elas estão claras nos inúmeros textos que publico por aqui. O meu voto no segundo turno já foi definido não por afinidade e sim por rejeição a um modelo que acabou com a economia do país, que provocou a maior recessão da história, que promoveu o maior assalto aos cofres públicos de que o mundo tem notícia, que aparelhou o Estado, que levou à falência milhares de empresas, que provocou um dos maiores índices de desemprego já vistos, que acabou com os sonhos e a esperança de milhões de brasileiros e que, mesmo diante de tudo isso, ainda tem a cara de pau de se apresentar como alternativa para colocar o Brasil de volta aos trilhos. Em qualquer situação que este projeto de poder estiver envolvido, estarei do lado oposto.

Dito isso, e no intuito de garantir que o PT se mantenha realmente longe do governo brasileiro, faço algumas observações que considero importantes. A eleição de Jair Bolsonaro está muito próxima. Nunca houve, desde a redemocratização, uma virada de primeiro para o segundo turno, ainda mais com uma votação tão expressiva para o primeiro colocado. A não ser que algo fora do comum aconteça, a não ser que o próprio Bolsonaro faça uma besteira muito grande, ele será eleito o próximo presidente do Brasil. Mas, para garantir que isso aconteça, e diante da postura de inúmeros fãs do “mito” que tenho acompanhado desde ontem, entre eles muitos amigos queridos, faço algumas ponderações aos milhões de militantes de Jair Bolsonaro:

1) Sejam humildes. Arrogância só leva à antipatia. Portanto, não questionem o resultado das urnas. Sair gritando que ele só não foi eleito no primeiro turno devido a uma fraude dá a nítida impressão de que vocês não aceitam o resultado do jogo democrático;
2) Não coloquem a culpa da não vitória nos nordestinos. Haddad ganhou no Nordeste com uma margem bem menor que Lula costumava alcançar. Demonstre solidariedade com o povo mais pobre e sofrido do país. Só assim vocês vão angariar simpatia dos indecisos, daqueles que não seguem as ordens do deus Lula;
3) Da mesma forma, não culpem os eleitores dos outros candidatos da direita. Lembrem-se que todos eles chegaram a ter índices de votação bem maiores do que os conquistados nas urnas. Todos eles perderam milhões de eleitores para o chamado “voto útil” no candidato do PSL. Os que não abandonaram seus candidatos no primeiro turno, o fizeram por se sentirem melhor representados dessa forma. Não há nada de errado nisso. A produção de memes e os questionamentos do tipo “só agora?”, apenas alimentam uma enorme antipatia. Não creio que seja isso que vocês estejam buscando, não é?
4) Mostrem o quanto o PT foi ruim, mostrem os pontos positivos do seu candidato. É só assim, com argumentos, que vocês poderão quebrar a imensa rejeição que ele sofre. Se ele é truculento por natureza, vocês da militância não precisam segui-lo. Conquistem votos na palavra e não no grito;
5) Não espalhem notícias falsas. Denunciem sempre que virem seu candidato sendo alvo de alguma inverdade, mas não repliquem na mesma moeda. No fim, ninguém mais se lembrará de quem começou a guerra de mentiras e a credibilidade terá ido para o espaço. Ninguém precisa lançar mão de mentiras para mostrar os desastres do PT. A realidade já tem argumentos fortes o bastante.

Dizem que se conselho fosse bom ninguém dava de graça, mas acho importante que, pelo menos os seguidores mais conscientes, não se esqueçam que a forma como um militante se comporta tem uma grande influência sobre todos aqueles que podem vir a se unir à causa, seja por afinidade ou seja por rejeição ao lado oposto. Ficam as dicas.

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O nosso dia D…

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E chegamos ao mais importante dos dias para o nosso país. Os brasileiros têm hoje a oportunidade de alterar os rumos de uma nação dividida e à deriva. Alterar não apenas através das eleições majoritárias para presidente e governador mas, principalmente, pela renovação de um congresso que tem se comportado ao longo dos anos como mero balcão de negócios, no qual os interesses individuais se sobrepõem aos interesses do país. Se não mudarmos isso, qualquer governo eleito terá enormes dificuldades para implementar suas ações. Portanto, brasileiros, votem com consciência para todos os cargos. O resultado de hoje irá afetar decisivamente as vidas de todos nós pelos próximos quatro anos.

As eleições de hoje também serão históricas por outras razões. Pela primeira vez o tempo de televisão, motivo de disputas espúrias, de alianças desprovidas de qualquer ideologia ou interesse comum, de promessas de cargos e repasses em um eventual novo governo, de pouco valeu. O candidato que dispôs do maior tempo não chegará a dois dígitos percentuais quando as urnas forem abertas. Um fiasco. Também pela primeira vez, os dois partidos que têm monopolizado a disputa nacional nos últimos vinte e quatro anos, terão a menor votação de suas histórias em um primeiro turno. Enquanto isso, um candidato sem tempo de televisão, sem estrutura partidária, e ausente por mais de um mês da campanha, chega hoje com chances reais de ser eleito no primeiro turno.

Concordando ou não com suas ideias, gostando ou não do candidato, aprovando ou não o seu comportamento, o fato é que Jair Bolsonaro é um fenômeno que deve ser avaliado para que se compreenda quais anseios da sociedade a sua figura incorpora. Chamar cada um de seus eleitores de fascista é uma forma simplista e tola de evitar uma discussão que merece aprofundamento. É uma forma de esconder as origens de um radicalismo que vem crescendo a cada ano. É uma forma conveniente de esquecer o quanto os brasileiros foram, durante muitos anos, levados a uma segregação compulsória entre bons e maus, ricos e pobres, nortistas e sulistas. Bolsonaro é consequência direta de tudo isso e espero que, daqui pra frente, saibamos compreender que o acirramento desta divisão poderá nos trazer personagens cada vez mais extremados e perigosos. Que saibamos, portanto, respeitar o resultado das urnas e nos comprometermos, cada um de nós, a diminuir gradativamente a distância entre dois Brasis que jamais deveriam ter permitido serem postos como inimigos.

Que saibamos ser também, daqui por diante, mais críticos e seletivos com as informações que nos chegam. Mentiras e noticias falsas sempre existiram. Durante a campanha presidencial de 2014, por exemplo, os marqueteiros do PT bombardearam a campanha de Marina Silva com inverdades. Imagens da comida desaparecendo da mesa das pessoas foram associadas à possível eleição da recém-chegada à disputa, logo após a morte de Eduardo Campos. Àquela altura, Marina chegara a ultrapassar Dilma Rousseff na intenção de votos. Poucos meses depois da reeleição petista, a realidade tratou de mostrar quem iria mesmo promover o maior desastre econômico da história do país.

Mas hoje, quatro anos depois, o trabalho concebido e muito bem remunerado dos condenados marqueteiros petistas é feito gratuitamente pelos milhões de usuários das redes sociais. É verdade que ainda existem aqueles que são bem pagos para produzirem memes, editarem filmes, alterarem o contexto de declarações isoladas, distorcerem fatos ou simplesmente inventarem acontecimentos completamente inverídicos. Mas essas mentiras só alcançam seus objetivos quando são disseminadas pelos usuários das redes.

Todos os candidatos, sem exceção, foram alvos de notícias falsas nesta eleição. E o que mais me surpreende é que muitos insistem em divulgar inverdades simplesmente porque os defensores da ideologia oposta também o fazem. Que lógica é essa? Eu fiquei particularmente assustado ontem, quando alertei um amigo que uma notícia postada por ele era falsa. Ele duvidou e eu apresentei os links comprovando a inexistência do fato, sugerindo a ele que apagasse a postagem. Sua resposta foi a seguinte: “Apago não. Fake pra você. Respeito. Verdade absoluta pra mim. Esquerda sempre inconfiável”. Hã? E comportamentos assim se repetem, da mesmíssima forma, tanto com defensores da direita quanto da esquerda. Então eu me pergunto: quando foi que as pessoas enlouqueceram? Mais importante ainda, quando é que vamos nos recuperar dessa insanidade? Espero sinceramente que a data histórica de hoje marque o início dessa cura.

Por fim, espero também que o crescente engajamento visto nos últimos anos continue. Que cada um se preocupe em fiscalizar as ações do seu vereador, do seu deputado, do seu senador. Que cada um cobre do poder público o cumprimento das promessas feitas. Que todos tenham o discernimento de aprovar ou desaprovar propostas e medidas pelo impacto que elas possam vir a causar, e não simplesmente por seus autores. O certo não está sempre do mesmo lado. Que cada um de nós se lembre sempre que o Brasil é muito grande e diverso, e que todos merecem ser assistidos, consultados e, acima de tudo, respeitados. Só assim poderemos fazer do Brasil um país mais justo, mais próspero e muito mais feliz.

Bom voto a todos nós!

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Postes a postos…

Outubro de 2018, em algum lugar do sertão mineiro…

- Companheira Dilma, tem certeza que o comício é agora?
– Claro, companheiro Haddad. Daqui a pouco eles chamam a gente.
– Mas não tem quase ninguém. Os marqueteiros não avisaram o povo da cidade que a gente viria?
– A gente dispensou os marqueteiros aqui em Minas, companheiro.
– Não tem marqueteiro? Quem está fazendo os panfletos, a divulgação, as propagandas?
– Os panfletos estão prontos há muitos meses.
– Mas não tem nem um mês que eu sou candidato.
– Não tem problema. Todos os panfletos estão com o nome e a foto do companheiro Lula.
– E eu?
– Seu nome tá aqui do lado, olha só.
– Nossa… quase não dá pra ver. E eu sou o cabeça da chapa.
– Companheiro, o comício já tá vazio com a foto do Lula, imagine se fosse a sua.
– É verdade, companheira. Mas isso não é ilegal?
– Não se preocupe, quando alguém reclama a gente alega que você não gosta muito de tirar fotos.
– E eles acreditam? Bom, deixa pra lá. Por que vocês dispensaram os marqueteiros?
– Contenção de gastos, companheiro. A situação não está fácil. Você não imagina a saudade que eu sinto dos tempos de Petrobrás.
– Mas companheira Dilma, você sozinha já gastou quase quatro milhões nesta campanha, mais do que a maioria dos candidatos à presidência.
– Companheiro Haddad, em 2014 eu gastei oitocentos milhões. Oitocentos! A verba de hoje mal dá pra pagar meus vôos, meus vestidos, meu cabeleireiro e o salário do Valdeci. Por falar nisso, cadê o Valdeci?
– Fala baixo, companheira. A gente só declarou trezentos e cinquenta milhões em 2014.
– Isso não é mais segredo, companheiro. O Palocci já abriu o bico. Aliás, deve ser por isso que o comício tá tão vazio. Nem o pessoal da CUT vem mais, ainda mais agora sem o imposto sindical. O último carregamento de mortadela até azedou.
– Não desanime, companheira. Nós seremos eleitos. Eu confio na nossa militância.
– Eu também, companheiro Haddad. Eles nunca nos abandonam. Não importa o que a gente faça, não importa o que a polícia descubra, eles estão sempre do nosso lado.
– Eles são demais.
– E tem gente que ainda fala que a burra sou eu…
– O que você disse, companheira?
– Nada companheiro Haddad. Estava só pensando alto. Prepare-se, está quase na hora da gente entrar no palco. Decorou tudo o que o companheiro Lula lhe disse?
– Tá tudo na ponta da língua, companheira. Ainda bem que o público aumentou um pouco.
– Não aumentou não, companheiro. Eles só inflaram os balões vermelhos. Faz uma diferença, né? Vamos lá, chegou a nossa vez.
– Bom dia a todos! Eu, poste Dilma, estou aqui ao lado do poste Haddad. Duas Dilmas. Não, dois Haddads. Não, dois postes…

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Entroncamentos e rotatórias…

Já faz muitos anos que uma estrada vicinal em algum lugar do interior liga uma pequena cidade à rodovia mais próxima. Durante décadas, os viajantes que por ela trafegavam somente podiam tomar o sentido à direita ou à esquerda no entroncamento que unia as duas vias. O que, a princípio, parecia ser uma mera questão de escolha, com o tempo se tornou rotina uma vez que muitos habitantes do lugarejo se recusavam sequer a conhecer a direção oposta. Mais alguns anos se passaram e a população local já classificava seus conterrâneos apenas pela direção que escolhiam. Os que sempre viravam à esquerda, diziam que o caminho adotado era muito mais virtuoso e levava a um local de natureza exuberante, repleta de rios e florestas intocadas e de comunidades felizes abertas a todos, onde as pequenas casas se diferenciavam apenas pelo tom de suas cores vibrantes. Os frequentadores do caminho à direita, por sua vez, falavam do asfalto bem pavimentado, da produtividade dos vastos e irrigados campos agrícolas, das cidades prósperas que se aglomeravam às margens da via e do merecido crescimento individual dos cidadãos daquelas localidades. Com o passar do tempo, a rivalidade se tornou tão acirrada, que os fãs de um dos lados passaram a atacar os adeptos do outro, enquanto escondiam propositadamente as mazelas que testemunhavam ao longo de seus próprios caminhos. Antes que pudessem perceber as consequências dessa segregação, todos já se consideravam inimigos. E assim, entre conflitos e inimizades crescentes, viveram por muitos anos.

Entretanto, há pouco tempo, uma obra inovadora foi realizada no entroncamento: uma rotatória foi construída na junção das duas vias. E além das duas únicas opções de outrora, novas estradas foram criadas a partir da rotatória recém-inaugurada. A cidade ficou em polvorosa. Os habitantes se questionavam se era realmente possível que caminhos intermediários nunca antes percorridos pudessem mesmo existir. Para onde essas estradas poderiam levá-los? Nenhum deles havia experimentado aquela liberdade de escolha antes. Naturalmente, muitos habitantes, cansados daquela dicotomia com a qual aprenderam a lidar, se mostraram dispostos a explorar novas trilhas, a descobrir novas culturas e a conhecer novas localidades, quem sabe, capazes de aliar a prosperidade com a natureza preservada, a liberdade com a inclusão, o esforço individual com a atenção coletiva. E assim partiram em busca de novas perspectivas.

Amedrontadas diante de uma possibilidade real de perderem o protagonismo conquistado, as lideranças das antagônicas castas dominantes se reuniram pela primeira vez. Elas sabiam que estavam agora lutando pela sobrevivência de seus ideais, afinal, haviam passado décadas afirmando a inexistência de quaisquer caminhos alternativos. Exatamente em função disso, cada cidadão daquela cidade tinha sido obrigado a escolher uma direção e a considerá-la como a única válida. Mas agora, diante de novas perspectivas, o papel de inimigo havia mudado de mãos. Um inimigo contra o qual a costumeira radicalização de argumentos perdia força. Os extremos perceberam que, para que um deles pudesse sobreviver, o outro teria que sair fortalecido. Perceberam que eram faces de uma mesma moeda, que estavam irremediavelmente conectados, que a existência de um dependia inteiramente da continuidade do outro. E assim os inimigos históricos decidiram unir suas forças.

A estratégia a ser adotada era muito simples. Antes que alguém se atrevesse a experimentar as novas estradas, cada lado iria se encarregar de convencer seus antigos aliados de que elas não os levariam a lugar algum. Eles iriam argumentar que, enquanto muitos dos seus perdiam seu precioso tempo com novas e inexploradas trilhas, os discípulos do caminho contrário se concentravam na estrada que sempre percorreram, tornando-a mais forte e soberana. Eles iriam afirmar que as rotas alternativas, na verdade, levavam de forma disfarçada à direção oposta que tanto abominavam. Eles iriam declarar que a rotatória tinha sido construída com um único propósito: enfraquecê-los.

E assim fizeram. E assim fazem insistentemente desde que as novas rotas foram inauguradas. Hoje, mesmo com tantas possibilidades, a primeira e a última saídas da rotatória ainda são as mais percorridas. Muitos ainda nem sabem porque insistem em trafegar pelos extremos com tantas opções intermediárias disponíveis. Apenas seguem o fluxo. E aqueles que ainda se atrevem a buscar novos caminhos, aqueles que se recusam a considerar viáveis quaisquer das direções antagônicas, aqueles que percebem o camuflado pacto feito, também são tratados como rivais por ambos os extremos. Nem precisavam. Em breve, a rotatória será transformada novamente no velho entroncamento que uniu as duas vias por tanto tempo. E os planos de construção de uma nova rotatória serão guardados para um futuro no qual, quem sabe, a pobre, velha e atrasada cidade do interior esteja finalmente disposta a buscar caminhos um pouco menos turbulentos, mais tolerantes e bem mais promissores!

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O papel de cada um…

Segunda-feira, 10 de setembro de 2018, em uma das celas da Polícia Federal de Curitiba…

L – Companheiros, chegou o dia mais triste pra mim. Tenho que passar o bastão.
H – Presidente, eu não sei se consigo. Eu não tenho o seu carisma.
L – Não se preocupe companheiro H, o nosso povo vota até em jegue se eu mandar.
D – Companheiros, desculpem o atraso. O banheiro estava sem papel.
L – Taí a prova companheiro.
D – Não entendi. Perdi alguma coisa? Tava naquele papel? Valdeci, cadê o papel?
L – Não companheira D, não perdeu nada. Só continua tentando decorar o que tá no papel.
H – Presidente, sei que o senhor já fez isso antes, mas eu não consegui nem ser reeleito com o seu apoio.
L – É verdade, companheiro H, mas o Brasil da companheira D tava uma porcaria naquele ano.
D – Meu Brasil? Não tô conseguindo anotar. Isso já tá no papel? Valdeci?
H – Mas o Brasil ainda tá uma droga, presidente.
L – Mas agora a gente pode falar que a culpa é do companheiro T.
H – E as pessoas vão acreditar?
L – Companheiro, você não escutou que o povo vota até em jegue?
D – Valdeci, cadê o papel?
H – Mas o senhor se identifica com o povo, presidente. O senhor veio de uma família pobre do interior do Nordeste.
L – Você também companheiro H.
H – Eu, presidente? Sempre fui de classe média. Nasci na capital.
L – Esquece isso, companheiro. Você nasceu pobre, estudou a vida toda em escola pública e só vai em médico do SUS, de preferência cubano.
H – Presidente, ninguém vai acreditar nisso. Só estudei em escola particular, tenho plano de saúde vitalício e internacional.
L – Companheiro H, não seja bobo, o povo vota até em jeg…
D – Valdeci? O papel, Valdeci.
H – O senhor está certo como sempre, presidente. Aliás, tenho algumas sugestões para o nosso programa de governo que eu queria passar pro senhor.
L – Companheiro H, vamos deixar uma coisa bem clara aqui. As propostas são minhas, o governo é meu, você vai lá e só repete o que eu mandar.
H – Mas, presidente, e se eles me perguntarem alguma coisa que eu não saiba?
L – Fala que vai me consultar, é claro!
H – Mas isso não vai dar a impressão de que eu sou só um poste?
L – Hahahaha. Companheiro H, todo mundo já sabe que você é só um poste!
H – Que povo iria votar em um poste que não sabe nada? Que não tem nenhuma opinião própria?
L – O mesmo povo que vota até em j…
D – Valdeci, é a última vez que eu falo, cadê a porra do papel???
H – Obrigado, presidente, estou bem mais confiante. Pode fazer o anúncio da minha candidatura.
L – Mais minha do que sua, companheiro H, mais minha do que sua. Agora, onde está a companheira M, a nossa vice?
H – Ela aproveitou que a campanha ainda não tinha começado e foi pra Nova York fazer umas comprinhas.
L – Fala com o povo que ela foi na ONU pra me defender, defender o Brasil e defender a democracia da Venezuela.
H – Presidente, o povo não vai acreditar nisso!
L – Companheiro H, tenho que te lembrar toda hora em quem o povo vota se eu mandar?
D – Valdeci!!! Cadê o papel???

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