Caixa de Pandora…

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- Tio, meu aniversário tá chegando?

Roberval não aguentava mais responder à mesma pergunta. “Maldita hora em que aquela tonta da Edilene resolveu fazer uma festa”. Não se conformava com a ideia de gastar tanto só para atender aos caprichos de uma menina de seis anos. Ele e Edilene moravam juntos há apenas alguns meses. O pai de Gabi sumira no mundo pouco antes do seu nascimento, deixando uma mãe traumatizada e uma filha carente.

- Já disse que sim, Gabi. Sua festa é no sábado.
– Falta muito pro sábado?
– Só dois dias. Hoje é quinta.
– Então é amanhã?
– Não. É depois de amanhã.
– Nossa, tá muito longe.

Roberval se controlava para demonstrar uma paciência que não tinha. A paternidade jamais lhe atraíra, talvez em razão da relação conflituosa que vivera com seu pai. Olhou para o relógio na parede. Quase oito da noite e nem sinal de Edilene. Ela avisara que se atrasaria, mas aquilo era demais. A menina tinha tomado banho, jantado e agora se distraía com uma boneca tão feia que o lembrou de uma antiga namorada. A mãe sempre lia para ela antes de dormir. Ele não queria assumir também esse fardo. O futebol estava para começar.

Edilene chegou poucos minutos depois. Roberval a recebeu com cara de poucos amigos.

- Que demora, heim?
– Nem me fale.
– Onde você estava?
– Contratando o animador da festa.
– Ah, não é possível. Não tenho grana pra bancar mais uma frescura.
– Frescura? Você quer passar a festa toda correndo atrás de um bando de meninos?

Ele não respondeu. Sentou-se no sofá e ligou a TV.

- Gabi, meu amor, sabe quem vai animar a sua festa?
– A Elsa?
– Não, querida.
– Cinderela? Moana? Branca de Neve?
– Não. Nenhuma princesa estava disponível. Vou dar uma dica: ele é fofinho, é amigo e adora rolar no chão com as crianças.
– Um cachorro, mamãe?
– Não, querida. Um panda!
– Um panda?! – espantou-se a menina – o que é um panda?
– Um panda?! – gritou Roberval – você quer que eu pague por um panda?
– Roberval, depois a gente conversa. Gabi, panda é uma espécie de urso.
– Mamãe, eu tenho medo de ursos.
– Querida, não é um urso de verdade. Ele é bonzinho, você vai ver.
– Eu queria uma princesa.
– Amor, era o panda ou um gorila igual ao que a gente viu no zoológico.

Chorando, Gabi correu para o quarto e bateu a porta. Roberval soltou uma gargalhada.

- Essa menina tá mais mimada a cada dia. Abre seu olho.
– Deixa que eu me viro com ela.
– Vai cancelar o panda hoje mesmo ou só amanhã?
– Não vou cancelar nada. Além do mais, já tá pago.
– É claro que isso não vai dar certo. Depois não diga que eu não avisei.

O sábado chegou trazendo mais problemas. Logo cedo, Edilene recebeu mensagem do animador dizendo que havia sofrido um acidente, mas que havia providenciado alguém para substitui-lo. À tarde, a aflição veio por conta do atraso do seu cabelereiro. Edilene ligou para casa e pediu que Roberval levasse a aniversariante para o local da festa. Ela os encontraria depois.

Gabi se encantou ao chegar. Balões multicoloridos formavam seu nome na porta. Bolo e decoração em tons rosa chamavam a atenção. Roberval teve que ser firme para que a menina não começasse a comer os doces antes mesmo da festa começar. Roberval recebeu os garçons, a fotógrafa, o animador, e passou-lhes as instruções meticulosas que recebera de Edilene. Os primeiros convidados começaram a chegar em seguida.

Edilene só chegou meia hora depois do início da festa, irritada por não ter tido tempo de tirar fotos antes que a fantasia da menina – assim como sua maquiagem – se desfizessem. No salão, tudo corria bem. Adultos conversando animadamente, bebidas e salgados bem servidos, e crianças encantadas com o animador. O homem vestido de panda contava histórias, promovia gincanas e até arriscava algumas mágicas. Gabi nunca tinha se divertido tanto. De repente, o panda passou a ser seu animal favorito. Roberval teve que dar o braço a torcer. O panda era um sucesso.

Chegou a hora dos parabéns. Radiante, Gabi veio nos ombros do panda. Edilene abriu os braços para recebê-la. Ao ver a mãe, o panda parou. Acostumadas às brincadeiras, as crianças pensaram se tratar de mais uma cena teatral. Mas o panda se manteve imóvel. Roberval foi até ele e retirou a menina de seus ombros. Todos se reuniram em volta da mesa e cantaram parabéns. Meninos e adultos se digladiavam pelos doces, posavam para fotos, e alguns dos convidados começavam a se despedir. O panda permanecia estático, agora com a cabeça baixa.

Terminado o alvoroço, Edilene caminhou em sua direção. Ele recuou. Ela o segurou pela mão.

- Tá tudo bem? Você tá sentindo alguma coisa?

O panda balançou a cabeça, negativamente.

- Olha, eu queria lhe dizer que ficamos muito felizes com o seu trabalho, viu? Nunca vi a Gabi tão feliz em toda a minha vida.

Ele não respondeu. Voltou-se para a menina, ainda na mesa de doces. A máscara não impediu que seus olhares se cruzassem. Ela veio correndo e agarrou-lhe as pernas. Ele se ajoelhou e a envolveu em um longo abraço. Soluçava. O panda então tomou as mãos de Gabi nas suas e lhe disse algo ao pé do ouvido. Em seguida, sem olhar para trás, fugiu em disparada do salão.

Assustada, Edilene perguntou à filha o que o panda havia lhe dito.

- Ele disse: perdão.

A mãe baixou os olhos marejados para que a filha não os notasse.

- O que é perdão, mamãe?
– Não sei, meu amor. Não aprendi.

Naquela noite, bebendo em um bar do centro da cidade, o homem vestido de panda foi visto pela última vez…

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