A segregação das virtudes…

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O “Festival Lula Livre” realizado ontem no Rio de Janeiro foi o que dele se esperava: um culto à imagem mística e idealizada de um deus cada vez mais acorrentado às consequências de suas próprias escolhas. Nenhuma reflexão mais aprofundada, nenhuma autocrítica pontual, nenhuma sugestão de novos rumos. Apenas o conhecido vitimismo, a velha transferência de responsabilidades, as mesmas tentativas de se manter viva a imagem distorcida de um preso político impedido de guiar mais uma vez o seu sofrido povo. Esforços que encontram eco apenas no número cada vez menor de militantes seguidores de uma cartilha ditada pelo partido e que se mantém viva graças aos artistas, órgãos de imprensa, jornalistas e políticos engajados com a causa. E são esses ditos formadores de opinião os maiores defensores da autodeclarada posse exclusiva de todas as virtudes. Sim, os petistas e grande parte da esquerda brasileira adoram propagar a ideia de que são os únicos preocupados com as pessoas, com o planeta, com a natureza. Que são os únicos a possuírem verdadeiramente coração e alma. Que são os únicos a zelar pelos pobres, pelas minorias, pelos menos favorecidos. Que são os únicos abertos ao diálogo e que prezam pela liberdade e pela democracia. Como se todos os demais cidadãos, mesmo os que se posicionam mais ao centro do espectro político, simplesmente vivessem imersos em seu próprio egocentrismo.

Com que direito reclamam eles o trono da benevolência? Que tipo de atitude discriminatória e excludente pode vir a preparar pessoas verdadeiramente contrárias ao preconceito e à discriminação? Que conceito de diálogo é esse que joga todo contraditório na vala comum do fascismo e da intolerância? Que liberdade é essa na qual a censura a qualquer antagonista é aplaudida e incentivada? Que democracia é essa em que regimes totalitários são enaltecidos e usados como exemplos de soberania? Bando de hipócritas incapazes de analisarem suas próprias atitudes com um mínimo de isenção. Bando de cegos que se comportam como se escolhidos divinos fossem, ungidos pelo poder e pela força de um líder supremo infalível e onipotente.

Não há benevolência alguma em quem se considera o único bondoso. Não há sensibilidade alguma em quem se julga no direito de determinar os únicos aptos a se emocionar. Não há solidariedade alguma em quem se autoproclama o único disposto a ajudar. Não há coerência alguma na defesa de qualquer fato ou atitude não pelo seu conteúdo, mas simplesmente pelo seu autor. Não pode haver virtude alguma em ações pautadas na hipocrisia.

Enquanto isso, a maioria dos brasileiros, independente de crenças e ideologias, continua se emocionando com a música, com a literatura, com todas as formas de arte, com a natureza. Milhares continuam se levantando todos os dias dispostos a ajudar os muitos desassistidos. A maioria continua se indignando com a corrupção, com a injustiça, com a impunidade. Milhões continuam trabalhando com afinco e honestidade, e outros tantos continuam proporcionando empregos e oportunidades a quem precisa. Alheio às normas ditadas por uma turma barulhenta e cada vez menor, o brasileiro continua sendo um povo como qualquer outro, com mais gente honesta que desonesta, trabalhadora que vagabunda, solidária que egoísta. Um povo, também como qualquer outro, cuja maioria gostaria de ver todos os bandidos e políticos ineptos na cadeia, ao contrário da pequena turma barulhenta que insiste em transformar seus corruptos políticos de estimação em deuses e suas ideologias cegas em seitas. Uma turma que, ao se autodeclarar detentora do monopólio das virtudes, apenas escancara seu próprio universo de segregação, de preconceito, de hipocrisia e de extrema estupidez!

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