E ainda ouço o canto destas águas…


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Eu me lembro como se fosse hoje do dia em que estive aqui pela primeira vez. Poucas eram as trilhas abertas, meros rascunhos das ruas que viriam a cortar, com surpreendente suavidade, a vegetação nativa. Naquele momento, praticamente só se via o verde claro das montanhas, o verde escuro das matas e o verde musgo translúcido das águas do lago. O azul do céu emoldurava a obra notável que a natureza preparara com tanto esmero. Idealizador do lago envolto pelo bosque, o homem cumpria aqui um importante papel na concepção de um verdadeiro oásis. A água, cercada pelas árvores que dançavam ao sabor dos ventos intermitentes, concebia um cenário digno das imagens forjadas nos cérebros daqueles que creem no Paraíso. Se sua superfície plácida envolvia em silêncio e serenidade todos que caminhavam pela trilha que margeia o lago, sua força e sua voz se mostravam imponentes nas belíssimas quedas das cachoeiras. E foi aqui bem perto, na cachoeira que aprendi a chamar de minha, que ouvi pela primeira vez o poderoso e indescritível canto das águas. Desde então, esse é um som que me embala e me acalenta. Viemos aqui em busca de um lugar onde construir um sonho. Saímos com a certeza de que o sonho estava próximo e que um simples mirante voltado para o nascer do sol por detrás da montanha já seria suficiente para que nossos anseios encontrassem pouso.

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Mas aquelas duas almas iluminadas queriam bem mais do que apenas um mirante. Eles queriam seu tão acalentado canto. Um canto tão generoso quanto eles próprios pois deveria ser grande o bastante para que todos ali coubessem. O canto que eles queriam deveria ser um local de encontro, de confraternização, de aconchego, de abraços. O canto que eles queriam deveria ter suas portas constantemente abertas, suas janelas voltadas para o horizonte, suas dependências integradas para que todos experimentassem a dádiva de se viver em comunhão. O canto que eles queriam deveria ser alegre, convidativo, disponível, simples e acolhedor. O canto que eles queriam deveria ser exatamente como eles.

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Coube a mim a responsabilidade de tentar colocar tudo isso no papel, na forma de desenhos e cotas, e, logo em seguida, transformá-los em concreto, tijolos, telhas, esquadrias e acabamentos. Como sempre, generosos eles foram ao conferir tarefa tão importante a alguém sem qualquer experiência, munido apenas de boa vontade e muito amor. Assim, através da bondade deles, nasceu este canto. Assim, aqui também nasceu minha carreira, minha vocação, minha empresa, minhas experiências com a construção de tantos outros sonhos que se materializaram ao longo dos anos. Assim, aqui nasceu grande parte de mim mesmo.

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A noite do Réveillon de 1993, há quase vinte e cinco anos, foi a nossa primeira neste canto recém-construído. E eu não saberia dizer quantos Réveillons aqui passamos, quantos carnavais, quantos feriados, ou quantos fins de semana. Posso afirmar, entretanto, que todos foram inesquecíveis. Todos foram repletos de sorrisos, de tolerância, de amizade, de cumplicidade. Todos foram plenos de amor. Aqui, nossos parentes, nossos amigos e nossas esposas sempre se sentiram em casa. Aqui, meus filhos e meus sobrinhos aprenderam a andar, a nadar, a brincar, a dividir. Um lugar onde nada era proibido mas que nunca conheceu excessos. Um lugar onde todos eram bem-vindos e que, mesmo com tanta gente, jamais vivenciou desarmonia. O canto deles foi, durante quase vinte e dois anos, o mais próximo que vi um lugar terreno chegar do Céu. Aqui, vai ecoar para sempre a profundidade dos conselhos e das palavras ditas por ele em diversos altares, montados no campo de futebol, na churrasqueira, na varanda, ou mesmo quando sentado ao nosso lado, jogando sinuca, fazendo churrasco, ou simplesmente fitando cada um de nós com aquele olhar repleto de doçura. Aqui, a energia dela viverá para sempre em cada árvore, em cada nova orquídea que florescer, em cada fruta que vier a ser saboreada, em cada nova cor que eclodir no seu Bosque dos Anjos. Aqui, viverá para sempre o amor mais lindo que um canto, qualquer canto nos quatro cantos da Terra, jamais testemunhou. Por isso, aqui neste canto, também viverá para sempre parte de mim, parte do que eu sou, parte do que aprendi, parte do que eu vier a me tornar. E, por isso, este canto, hoje e sempre, guardará a plenitude do meu amor e da minha gratidão. O canto deles, o canto nosso, o meu canto, será sempre uma das mais lindas canções que eu levarei na alma.

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Eles se despediram deste canto há pouco mais de três anos. Desde então, voltar aqui nunca mais foi o mesmo e, por isso, voltei tão pouco. Com a ausência deles, o Canto das Águas perdeu boa parte da sua voz, da sua força e da sua magia. Hoje, quem se despede daqui sou eu, e não saberia dizer o que sinto. Por um lado, é como se eu estivesse me despedindo deles novamente, e me despedir deles foi a coisa mais difícil que eu tive que fazer na minha vida até agora. Por outro, eu sei que eles ainda continuam juntos em um canto que é só deles. Caminhando de mãos dadas pelas trilhas de um local pleno, sem ontem e sem amanhã, sem ansiedades e sem aflições. Saber que o canto deles continua me reconforta. Também me reconforta pensar que, quando chegar a hora de reencontrá-los, provavelmente os verei em uma varanda como esta, de frente a um lago tão lindo quanto este, esperando por mim com aqueles olhos inundados de amor. Então, sei que eles me dirão, com a mesma ternura de sempre: “Filho, senta aqui, vem ouvir o som do silêncio com a gente!”

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