O dia seguinte…

O povo brasileiro deu ontem uma verdadeira aula de civilidade, de consciência cívica, de amor ao Brasil! Na maior manifestação popular da história do país não foram registrados confrontos, brigas ou incidentes. O povo saiu às ruas em paz para protestar contra tudo o que acredita estar errado na política brasileira. E o desastroso governo federal e seu partido não foram os únicos a serem lembrados. Cunha, Renan, Alckmin, Bolsonaro, Aécio, foram todos hostilizados, em um inequívoco sinal de que não temos mais lideranças. Mas, acima de tudo, em um inequívoco sinal de maturidade do povo brasileiro. Afinal, não esperamos mais por salvadores da pátria. A responsabilidade de reconstruir o Brasil agora é nossa! Nossa vigilância será constante, nossa atenção será redobrada e nossa paciência será cada vez menor. E os nossos políticos já sabem disso!

Os petistas, entretanto, tentam de todas as formas desmerecer a maior manifestação popular da história (não me canso de escrever isso). Chamam de golpista, de elitista, de massa sendo conduzida pela mídia e pela oposição. Quanta limitação, quantas desculpas para camuflar seus próprios erros. Eles continuam vivendo de acordo com a sua “lógica” e, de acordo com a “lógica” petista, cidadãos de classe média não podem se manifestar, pois possuem planos de saúde, pagam escolas particulares para os seus filhos, não utilizam transporte público e pagam para terem uma segurança privada. Segundo essa “lógica”, esses cidadãos compõem uma classe odiada e apartada da sociedade brasileira, uma espécie de gente que só serve pra pagar a conta mas que não pode abrir a boca. Segundo a “lógica” petista, o conceito de sociedade é bem mais restrito do que se imaginava. Pra eles, hoje, sociedade é o conjunto de pessoas que apoiam incondicionalmente as ações do governo, enquanto os que criticam, ou são golpistas ou possuem varandas gourmet (uma outra espécie de golpista que acha que panela só serve pra fazer barulho). Segundo a “lógica” petista e esquerdista, cidadãos de classe média não gostam do atual governo porque este sempre priorizou os mais pobres. Para eles, os donos das varandas gourmet querem “de volta” os políticos que pretendem entregar o país ao imperialismo americano.

Pois eu ontem reivindiquei meu direito de ir pra rua, mesmo tendo uma varanda gourmet em meu apartamento. E fui pra rua não por golpismo ou por um terceiro turno. Eu fui pra rua e não sou contra a democracia ou as instituições. Eu fui pra rua e não quero a submissão do país aos interesses internacionais. Eu fui pra rua e tenho inteligência e discernimento suficientes para fazer as minhas próprias análises da situação brasileira, independente de ler a Veja ou a Carta Capital, concordar com Arnaldo Jabour ou Jânio de Freitas, assistir ao Jornal Nacional ou ao programa do Paulo Henrique Amorim. Eu fui pra rua não porque pertença a qualquer partido ou apóie qualquer político. Eu fui pra rua porque, mesmo pagando escolas particulares para os meus filhos, eu quero um investimento muito maior em educação. Eu fui pra rua porque, embora pague caro por um plano de saúde, não me conformo em ver pessoas morrendo por falta de atendimento nos corredores dos hospitais do SUS. Eu fui pra rua porque, embora não utilize transporte público, sonho em poder pegar um metrô perto de casa e desembarcar em qualquer lugar da cidade. Eu fui pra rua porque, embora more em um edifício que tenha um sistema de vigilância 24 horas, gostaria de poder ter apenas cercas vivas na frente do meu prédio. Eu fui pra rua porque eu acho fundamental que o governo sinta a insatisfação do povo, e quando eu digo povo me refiro a pessoas de todas as classes, sem distinções e sem preconceitos. Eu fui pra rua para que o governo possa entender que está no caminho errado e que este caminho está levando a todos nós, de todas as classes, a dificuldades que não precisaríamos mais enfrentar. Eu fui pra rua porque eu vivo em um país livre e quero continuar tendo, pelo menos, a liberdade de dizer o que penso, sem ser taxado de vendido, de direitista ou de golpista por quem quer que seja. Eu fui pra rua e não recebi qualquer compensação financeira, nem mesmo uma panela velha mais resistente. Eu fui pra rua porque eu escolhi participar, escolhi fazer a minha parte. Eu fui pra rua porque cansei de ver tanta aberração, tanta incompetência e tanta roubalheira. Eu fui pra rua porque não consigo mais ficar passivamente em casa, criticando e reclamando, enquanto bebo mais uma cerveja e aprecio a vista da minha varanda gourmet!

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