Novos tempos…

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Março de 2018. Militantes e organizadores de campanha debatem sobre o grau de comprometimento a ser exigido dos novos voluntários. Mesmo animados diante das enormes filas que se formam em frente aos comitês a cada dia, todos sabem que os meses seguintes irão exigir perseverança, disposição e lealdade inabaláveis. O processo de seleção, portanto, deve ser dos mais rigorosos. Buscam-se soldados, não meros simpatizantes. Soldados dispostos a obedecer, sem questionamento, as orientações de seus superiores. Não basta, por exemplo, que os postulantes estejam fartos da incompetência, do aparelhamento, dos assaltos aos cofres públicos verificados nas gestões anteriores. Intolerância e ódio irrestritos são fundamentais para que a empreitada seja vitoriosa.

Depois de muita discussão, decidem começar a triagem pela análise das redes sociais. Quem não compartilha memes chamando Dilma de anta, Lula de molusco cachaceiro, petista de câncer do país, e artista de esquerda caviar é sumariamente descartado. A ausência de fotos em passeatas a favor do impeachment também é pretexto para indeferimento imediato.

A prova seguinte é o culto ao heroísmo. O objetivo é identificar aqueles que só se satisfazem com um salvador da pátria. Um ser onipotente, onipresente e onisciente que, quando parece ter errado, está apenas se antecipando aos problemas que só ele é capaz de enxergar. Odes saudosistas ao período da ditad… da intervenção militar contam pontos preciosos.

Na última etapa da triagem, os interessados respondem a um pequeno questionário para que se possa confirmar a orientação ideológica de cada um. São perguntas de múltipla escolha, básicas, quase protocolares:
“A qual grande inimigo um governo honesto e conservador deverá estar atento? O corrupto Centrão ou o incorruptível exército?”
“Com qual país o Brasil deve buscar estabelecer alinhamentos profícuos e duradouros? Estados Unidos ou Rússia?”
“Qual é o verdadeiro objetivo do bolsa-família nos governos do PT? Assistência aos mais carentes ou compra descarada de votos?”
“O que se espera de um governo de direita no campo da economia? Responsabilidade fiscal, controle de gastos, reformas estruturantes e privatizações, ou gastança desenfreada, criação de estatais, e aumento da dívida pública?”
“Quem é o responsável pela maior operação anticorrupção da história do país? Sérgio Moro ou Dias Toffoli?”
“Inflação sob controle, juros baixos e crescimento sustentável são atribuições de qual esfera governamental? Executivo federal ou governadores e prefeitos?”

Aprovados, milhares de voluntários juntam-se à causa. Forma-se, assim, um exército leal e de muitas alcunhas.

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Março de 2022. A tropa perdeu muitos de seus membros, mas ainda é numerosa. A captação de novos integrantes continua. Não há mais filas, tampouco grandes exigências na triagem dos poucos interessados. Apenas o questionário permanece… mas o gabarito foi alterado.

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