Aplauso ao desastre…

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No dia 13 de março de 2016, o Brasil testemunhou as maiores manifestações populares de sua história. Eu estava entre as milhões de pessoas que saíram às ruas para protestar contra a roubalheira, a incompetência, os conchavos, a compra de apoio parlamentar, a impunidade. A massa de gente que invadia praças e avenidas pelo país afora me parecia quase homogênea. Na euforia do momento, julguei estarmos todos do mesmo lado, compartilhando objetivos, planos e indignações. Pensei ter me visto em íntimos olhares estranhos, em contagiantes sorrisos desconhecidos, em familiares vozes insólitas. Parecíamos velhos amigos que se reencontravam depois de longa ausência. Cheguei a pensar que o brasileiro havia mudado. Que jamais perderíamos a nossa recém-descoberta capacidade de ser protagonistas e que nossos valores éticos nos seriam cada vez mais caros. Quanta ingenuidade…

Hoje não reconheço muitos daqueles rostos emocionados que marcharam comigo. Como é possível que a roubalheira, a incompetência, os conchavos, a compra de apoio parlamentar e a impunidade não lhes incomode mais? O que houve com aquela gente destemida que prometia uma nova postura de atenção e cobrança em relação a seus representantes dali por diante? Por onde anda a aversão a tudo que tem nos levado ao fundo do poço ao longo das últimas décadas?

O segundo mês de 2021 começa com o governo cada vez mais unido à mesma corja que juramos expurgar da política nacional. Olho em volta e ouço – estupefato – aplausos às manobras, à compra de votos, à liberação criminosa de emendas no momento em que todos os gastos deveriam estar focados na saúde e na recuperação da economia. E os aplausos vêm daqueles que, há cinco anos, gritavam ao meu lado em busca de seriedade, honestidade e competência.

O fato é que, no Brasil, não importam as ações e sim seus autores. O mesmo argumento falacioso apelidado de “governabilidade” na gestão petista continua sendo usado desavergonhadamente na gestão bolsonarista. O mesmo sistema de compra de votos continua em voga. As fichas sujas continuam valendo apenas para os inimigos. E os aplausos ao novo homem mais honesto do Brasil continuam a ecoar.

Aplaudam, velhos companheiros de caminhada. Aplaudam a eleição de mais um corrupto que, juntos, costumávamos detratar em nossas marchas. Ele estava do outro lado, lembram-se? Aplaudam a criação de novos cargos e de novos ministérios feitos para acomodar a turma mais sedenta de recursos e mais avessa a reformas estruturantes e mecanismos anti-corrupção. Aplaudam o homem que não se preocupa em comprar vacinas, mas não se esquece de comprar apoios. Aplaudam o político que discursa contra a privatização como se fosse um sindicalista, que nomeia para o STF um Gilmar Mendes mais jovem, que usa o poder do Estado para proteger seus filhos e seus apadrinhados. Aplaudam aquele que vocês chamam de “mito”.

Perdão, é inevitável que eu use as aspas. Porque mito de verdade foi o que vivemos cinco anos atrás!

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