Palavras…

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Sabe aquela frase ou palavra que, assim que você escuta, seus olhos reviram de impaciência? Pois é, tenho uma lista delas. Minha implicância começou antes do meu primeiro ano de vida. Não tenho lembrança, é claro, mas sou capaz de apostar que “não” foi o primeiro vocábulo a se tornar alvo da minha ira. Mais tarde, as clássicas “hora de dormir”, “já fez o dever de casa?” e “dia de prova” da infância foram, aos poucos, sendo substituídas pelas castradoras “só quando você for mais velho”, “proibido para menores” e “se enxerga, garoto” da adolescência.

As responsabilidades da fase adulta chegaram acompanhadas de critérios de escolha mais elaborados. Mais consciente do mundo à minha volta, passei a prestar atenção no que diziam escritores, personalidades e governantes. A liberdade e a democracia davam sinais claros de vigor no final dos anos 80 e todas as expressões contrárias a esse movimento me aborreciam, assim como as eternas promessas de se acabar com a hiperinflação que assolava o país. O “brasileiras e brasileiros” que abria os discursos de Sarney me irritava tanto quanto o “minha gente” empertigado do Collor. Amaldiçoei a palavra “confisco” e tive esperanças em uma que não conhecia até então: “impeachment”.

E não é que deu certo? Dali por diante, vivemos anos promissores e minha coleção de frases passou por um momento de baixa volatilidade. Sim, a palavra “companheiro” já me importunava e tive que aturá-la bem mais do que gostaria. Mas o pior ainda estava por vir. Mal sabia eu que o mundo se tornaria bem mais chato com o intragável “politicamente correto”, até hoje uma das frases mais abomináveis da minha longa lista. A partir de então, tive que redobrar meus esforços para fingir indiferença ao ouvir as frequentes “apropriação cultural”, “lugar de fala”, “dívida histórica”, entre tantas outras. Minha paciência já estava no fim quando passei a tolerar, por longos seis anos, a palavra “presidenta”. E só não foram oito porque o impeachment voltou a nos socorrer.

Os ares renovados prometiam tempos de descanso para a minha listagem. Ledo engano. Novos contextos mudaram o significado de frases bobas e comuns. Quem diria que “pessoa de bem”, por exemplo, poderia me incomodar tanto? Ou “patriotismo”, “nacionalismo”, “conservadorismo”? Todas expressões triviais que passaram a ter lado, carregadas do mesmo sentimento divisionista e desagregador plantado lá atrás pelo arauto da palavra “companheiro”. Não por acaso, hoje a minha lista de termos irritantes é encabeçada pelo que entendo ser o seu sinônimo mais preciso: “mito”.

E eu só torço para que aquela minha velha palavra amiga dê o ar de sua graça novamente…

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