O jovem e o tempo…

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Olho para o relógio apenas para me certificar de que os ponteiros continuam a se mover de forma frenética. Cansei de lhes pedir que descansassem um pouco, que reduzissem o ritmo. Jamais me deram ouvidos. Tolos, pensam que me enganam. A rotina é a mesma: passam meses fingindo trabalhar mas basta nos ver juntos para que se ponham a correr feito loucos. Sempre que lhes pergunto a razão da pressa, limitam-se a dizer que são ordens do tempo. Por vezes lhes pedi que chamassem seu patrão para que eu pudesse dizer umas poucas e boas a ele, mas o pedido é invariavelmente inútil. Aquele que se julga onipotente se recusa a dar as caras.

Tudo isso, entretanto, deixou de ser relevante. Depois de sofrer com tantos encontros abreviados, o jovem finalmente desvendou os segredos para se driblar o tempo. Cabe a este, agora, fazer bom proveito dos relógios e seus tique-taques irritantes. Contar nossos segundos é uma tarefa que não mais lhes pertence.

Ele começou ensinando o irmão mais novo a desafiar o tempo através do entrelaçamento das mãos. Basta que um minuto mais apressado se faça de engraçadinho para que elas se unam. É o suficiente para que um instante perdure por horas. As mãos entrelaçadas têm o poder de narrar histórias de chegadas ansiadas, de idolatrias recíprocas, de olhos que aprenderam a se reconhecer assim que se viram de longe, pelo vidro de uma sala de parto.

À mãe ele preferiu indicar artifícios mais ostensivos: abraços. Ah, os abraços dele. Não há nada que o tempo abomine mais. Ali ele sabe que não é bem-vindo. Um simples abraço é capaz de durar toda uma vida. É guarida das imagens de uma criança assustada em busca de colo, dos sons dos conselhos de mãe repetidos à exaustão, das lembranças de bênçãos silentes, de lágrimas reprimidas, do cheiro de filho que hoje emana do próprio peito.

Ao pai pragmático que sou, ele deu várias dicas para manter o tempo distante. Doses de “White Russian” irrigando conversas noite adentro, partidas de vôlei de praia seguidas de aplausos de incentivo, olhares diretos capazes de perpassar a retina e enxergar a alma, a segurança de um homem feito ao chamar o outro de papai. Toques, beijos, afagos, sorrisos e lágrimas, todos eternos e imunes ao tempo.

Mesmo com o tempo deixado de fora, é chegado o momento de uma nova despedida. Quanto tempo passamos juntos? Os relógios não fazem ideia. Atônito, o tempo exige das horas uma resposta que o satisfaça. Sem saber o que dizer, elas apontam para o jovem de olhar altivo que caminha sozinho rumo a mais um portão de embarque. O jovem que aprendeu a enganar o tempo. Há lágrimas em seus olhos, mas ele sabe o quanto são efêmeras. A maturidade e a confiança que o consolam, ao contrário, estão cada vez mais presentes. O amor que o guia não tem fim.

E assim, finalmente, o tempo sorri ao perceber que parou para admirá-lo…

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