Canalhices diárias…

Sexta-feira, 20 de setembro, nove e meia da noite…
Dentro de uma Kombi, uma menina de oito anos voltava de um passeio ao lado de sua mãe. Um tiro de fuzil, entretanto, impediu que Ágatha chegasse em casa. Ela morreu na madrugada do dia seguinte, poucas horas após ter dado entrada no hospital.

Sábado, 21 de setembro, dez da manhã…
Marcelo Freixo, Jandira Feghali e Guilherme Boulos vão ao Twitter protestar contra a política de segurança pública do governo do Rio, acusam o governador de assassinato e lançam a hashtag #ACulpaEDoWitzel, que rapidamente alcança os trending topics do dia.

Sábado, 21 de setembro, três e quarenta da tarde…
Na zona norte do Rio, uma dupla de policiais aborda dois suspeitos em uma moto. Durante a abordagem, um dos suspeitos saca sua arma e atira na cabeça do cabo Leandro de Oliveira. O policial morre na hora. Foi o quarto policial carioca assassinado em apenas uma semana.

Segunda-feira, 23 de setembro, duas da tarde…
Em entrevista coletiva, o governador Wilson Witzel lamenta a morte de Ágatha mas reafirma sua confiança na polícia. Ao contrário da agilidade demonstrada logo após a bem sucedida e midiática ação policial que acabou na morte de um sequestrador, desta vez o governador fluminense demorou mais de sessenta horas para se manifestar sobre o ocorrido.

Canalhas!

Canalhas, todos eles! E não só os citados. Canalhas todos que transformam cadáveres em plataformas políticas. Canalhas todos que fingem se importar com a dor das famílias mas, no fundo, torcem para que novos crimes possam continuar endossando suas malditas e malfadadas ideologias. Canalhas todos que se julgam no direito de colocar em perspectiva o fim de uma vida, seja ela qual for. Canalhas todos que são capazes de tratar uma mesma vítima como baixa inexpressiva de uma guerra ou mártir iluminado, dependendo apenas de quais sejam seus asquerosos interesses.

Pessoas inocentes estão sendo aniquiladas todos os dias no Brasil e muita gente só pensa em como lucrar com isso. Mortes são efusivamente comemoradas ou hipocritamente lamentadas em função do número de votos que tal comportamento é capaz de gerar. A vida pouco importa. Pra essa gente, a vida jamais importou.

Uma menina de oito anos foi assassinada. Policiais que cumpriam seu dever foram assassinados. E o que fazem de um modo geral os políticos e a sociedade? Abrem um debate amplo em busca dos melhores caminhos? Buscam opiniões de especialistas das mais diversas áreas e com diferentes pontos de vista? Longe disso. Fazem dos crimes que lhes interessam novas armas para atacar seus adversários. Rotulam as mortes como “ossos do ofício”, “acidentes de trabalho”, “escudos humanos plantados”, “mal necessário” e outras denominações rasas e simplistas que não passam de formas de se desvalorizar ainda mais as vidas que se perderam. Condenam apenas os criminosos que atendam à suas narrativas na mais sórdida das maneiras de se deturpar a verdade. Quase ninguém se coloca verdadeiramente no lugar das esposas ou dos filhos dos policiais, do avô ou da mãe da menina. Muito menos no lugar das vítimas. Se assim o fizessem, jamais admitiriam que qualquer vida perdida fosse relativizada.

Terça-feira, 24 de setembro, cinco para as seis da manhã…
Um novo dia de primavera amanhece no Brasil. Por certo, um novo dia repleto de acontecimentos que serão explorados, distorcidos e moldados para atender aos diferentes discursos dos que pretendem continuar ditando as regras de um povo mais afeito a ruminar do que a raciocinar. Um novo dia em que, infelizmente, mesmo para os não ruminantes, ânsias de vômito precisarão ser controladas…

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