As cinzas que respiramos…

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Fui dormir ontem desolado com o incêndio que consumia o Museu Nacional na Quinta da Boa Vista. O museu mais antigo do país, duzentos anos recém completados. O museu com o quinto maior acervo do mundo, com mais de vinte milhões de peças. O museu de coleções inestimáveis, entre elas a maior biblioteca de antropologia da América Latina, o fóssil humano mais antigo das Américas, múmias egípcias raras e ossadas de dinossauros únicas no território nacional. O museu cuja edificação em si já era uma obra de arte singular, testemunha viva da história do Brasil. Uma perda difícil de ser mensurada. Fiquei pensando nas diversas oportunidades que tive de visitá-lo, e também nas que não tive pois suas portas permaneceram fechadas por muito tempo, por completa falta de recursos. Que tipo de país é este, no qual um milésimo do valor desviado pelos corruptos de todas as esferas teria sido suficiente para se restaurar e manter esse patrimônio por décadas? Triste país sem cultura e sem memória. Triste país vítima do descaso, da corrupção, do atraso. Triste país sem perspectivas.

Acordei hoje com as fotos do que restou de um edifício que contou, durante mais de dois séculos, grande parte da nossa história. Acordei também com as declarações oportunistas e criminosas feitas pelos membros e defensores do partido que governou este país por mais de treze anos. Todas atribuindo aos últimos dois anos de governo a culpa integral pela tragédia de ontem. Que gente sem caráter! Que bando de cafajestes! O museu está abandonado há décadas. Nenhum presidente, antes, durante ou depois do governo petista moveu uma palha na tentativa de preservá-lo. Tivemos uma Copa do Mundo e uma Olimpíada que custaram dezenas de bilhões aos cofres públicos, e nem um centavo foi destinado à restauração ou à manutenção do museu mais importante do país. Mesmo com um fluxo de turistas sem precedentes, ninguém tentou efetivamente implementar uma parceria público-privada para que o museu pudesse receber milhares de turistas do mundo todo, e também do Brasil. Ninguém pensou em promover exposições interativas no museu, financiadas pela mesma Lei Rouanet que cansou de bancar espetáculos de artistas consagrados e bem sucedidos, ou de manifestações de “arte” lacradoras alinhadas com as orientações ideológicas dos responsáveis pela aprovação dos recursos. Ninguém questionou os empréstimos bilionários do BNDES para as grandes empresas brasileiras parceiras dos governos, enquanto a cultura do país agonizava. Ninguém alertou para o descaso com as centenas de outras instituições brasileiras, igualmente valiosas, como, por exemplo, o Museu do Ipiranga em São Paulo, fechado desde 2013 por risco de desabamento. E nesse caso é certo afirmar que, caso um novo desastre venha a acontecer, essa gente será a primeira a apontar seus adversários políticos novamente como os únicos culpados. Gente oportunista, corrupta, mal intencionada, retrato do atraso em que vivemos.

As cinzas que vemos hoje, infelizmente, não são apenas oriundas dos valiosos objetos queimados ontem no Museu Nacional. Elas se somam às cinzas densas que respiramos há décadas, assistindo diária e passivamente a queima dos valores que deveriam fazer parte de qualquer sociedade que se julga civilizada. Honestidade, decência, ética, responsabilidade, civilidade, bom-senso, caráter, hombridade, perseverança, coragem, coerência e retidão ardem em uma imensa fogueira diante de nossos olhos. A cada dia o fogo se alastra com maior força, deixando em cinzas novos e inestimáveis valores. Somente alguns poucos se aventuram a tentar apagá-lo, munidos apenas de algumas gotas de água ou de suor. Um esforço inglório cada vez mais ridicularizado por uma sociedade que já se acostumou com o calor intenso, com o ar poluído, com a claridade cada dia menor, fruto das cinzas que opacam uma luz que um dia, dizem, brilhou sobre o Brasil!

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2 respostas a As cinzas que respiramos…

  1. Ibraim Netto disse:

    É Fernando, a nossa única solução é usar estes acontecimentos para educar fortemente as novas gerações e colocar antídotos em seu sangue, renovar valores e princípios para que façam diferente da nossa geração. Que dia triste.
    Parabéns pelo seu texto. Abração, Ibraim.

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