O sábio e o insano…

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Muitos dizem que as fotografias são incapazes de nos transportar ao instante em que foram tiradas. Que são meros registros de momentos vividos, absolutamente indisponíveis, ainda que vívidos. Não posso deixar de concordar que talvez isso seja verdadeiro para a maioria delas. Mas não para todas…

Algumas imagens definitivamente são capazes de me fazer voltar no tempo. São aquelas que vêm acompanhadas de vozes, de sensações, de perfumes. São aquelas que fazem meus dedos sentirem novamente a textura da pele que tocavam, que trazem nitidamente aos meus ouvidos o som das gargalhadas daqueles que me cercavam, que me permitem sentir as vibrações dos corações que batiam junto ao meu. E, quando tenho a oportunidade de voltar aos mesmos lugares onde alguns dos vívidos momentos foram vivenciados, esses ganham vida novamente e as sensações afloram de uma maneira incontrolável, sobrepondo imagens que embaralham a minha mente, e misturam passado e presente. Provavelmente me mostrando, quem sabe, que ambos não passem de diferentes faces de uma mesma moeda, ou diferentes notas de uma mesma melodia. É, algumas imagens definitivamente são capazes de me mostrar o quão longo é o caminho, e o quão curto é o tempo que dispomos para percorrê-lo…

Agora mesmo, ao me deparar com a imagem da primeira fotografia, é impossível não me lembrar da segunda, tirada há pouco mais de seis anos. Ambas retratam membros da mesma família se divertindo. Ambas têm como fundo o mesmo desafio a ser vencido, fácil para uns, difícil para outros, intransponível para a maioria. Ambas abrigam gerações diferentes unidas pelo mesmo amor. Quantas semelhanças… e quantas diferenças.

Na imagem de ontem, o sábio tinha cabelos quase brancos. Ainda que conservasse um corpo atlético para a sua idade, as limitações que seu coração físico lhe impusera eram evidentes. Ao seu lado, dois aprendizes. Duas gerações que cresciam sob a luz dos conselhos e dos exemplos do sábio. Dentre os três, só um encarara o desafio insano retratado ao fundo, provocando a admiração dos outros dois. Admiração pela superação do medo, pela coragem de se jogar no novo, no inexplorado, no misterioso. Não desconfiava o sábio, entretanto, que, com ele ao meu lado, até um mergulho no desconhecido sempre me pareceu seguro.

Na imagem de hoje, não há mais sábios retratados. Há sim, duas sementes plantadas que crescem e prometem desabrochar em bondade, tolerância, sabedoria e amor. Agora, é a vez daquele menino que há seis anos considerava intransponível o desafio, de deixar de lado suas incertezas e perceber que ele também tem a inata capacidade de tomar suas decisões e de seguir em frente. E quem se admira com isso, somos todos nós. É o pequeno que testemunha seu ídolo e irmão lhe mostrando que os desafios da vida podem ser superados. Sou eu que o vejo cada vez mais confiante na sua própria capacidade. E é o sábio que, lá da outra face da moeda, sorri e se emociona com cada passo dado por aquele garoto que ajudou a guiar e que teve, desde muito cedo, a clarividência de perceber que a generosidade e a doçura do sábio sempre foram as suas grandes e verdadeiras fontes de admiração.

O louco mergulho do outrora menino trouxe alegria e confiança a ele e a todos os demais retratados. Mas caberá sempre a ele escolher as experiências que quiser ou não viver, os desafios que decidir ou não enfrentar, os penhascos que resolver ou não escalar, os caminhos que optar ou não percorrer. Ele já aprendeu com o sábio que, mais importante que as próprias escolhas, são os princípios e os ideais que as motivam. Que, enquanto for fiel a si mesmo, sempre haverá razões pelas quais se orgulhar.

Quanto a mim, mesmo depois de seis anos, continuo me jogando lá de cima. Não com a capacidade de vivenciar cada milésimo de segundo como se fosse o último. Não com a plenitude que existe no mergulho de um rio ao se encontrar com o mar. Não com a lucidez que o sábio de cabelos brancos demonstrava diante de cada desafio. Talvez, quem sabe, ainda possa vir a alcançar essa iluminação algum dia antes de partir. Enquanto isso, olho para todos os rostos fotografados nas felizes imagens, e continuo certo de que, ali, o único insano ainda sou eu!

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