O “socialismo” norueguês…

Antes de sair de férias, escutei e li diversas vezes que a Noruega, primeiro dos meus destinos, poderia ser considerada o exemplo mais expressivo de um país socialista que deu certo. Adepto do livre mercado, embarquei ansioso por verificar se essa informação seria mesmo verdadeira. Depois de alguns dias visitando e conhecendo o país escandinavo, cheguei à conclusão de que a Noruega pode ser muitas coisas, menos socialista. E vou começar minha argumentação narrando um fato corriqueiro e que poderia, inclusive, ter me passado despercebido. Fiquei hospedado em quatro hotéis diferentes ao longo da minha viagem pelo país. Em nenhum deles, a apresentação do meu passaporte, o preenchimento de qualquer tipo de ficha cadastral, e nem mesmo o meu cartão de crédito foram solicitados. Exemplo bobo, não é? Mas, nesse exemplo, identifiquei algumas características que, mais tarde pude comprovar, se estendiam a esferas bem mais abrangentes da sociedade norueguesa:

Burocracia quase inexistente! Estamos acostumados, especialmente no Brasil, a lidar com papéis e documentos em quantidades cada vez maiores. Eles nos são solicitados diariamente em todos os campos. Nossos contratos são os mais extensos do mundo e, mesmo assim, não impedem que o nosso país seja o campeão de ações judiciais. Na Noruega, assim como não existe burocracia para que uma pessoa possa se hospedar em um hotel, também não existe nenhuma burocracia para se iniciar um pequeno negócio. Se um norueguês quiser abrir uma livraria hoje, ele pode. Não existem licenças ou permissões a serem solicitadas e aprovadas. Apenas alguns tipos de negócios requerem licenças prévias e, mesmo assim, essas são liberadas, em média, em menos de cinco dias. Com menos burocracia, o cidadão é incentivado a empreender e a gerar empregos.

Liberdade! O governo estabelece poucas regras. Assim como não existem determinações legais para que os hotéis guardem registros de seus hóspedes, o norueguês tem um grau de liberdade entre os mais altos do mundo, em todos os níveis. Sem o “estado vigilante”, a corrupção na Noruega é quase inexistente, as instituições funcionam, e os cidadãos pagam com prazer seus altos impostos, pois recebem de volta, através da adequada aplicação de seus recursos, um sistema educacional qualificado, um sistema de saúde amplo e eficiente, um sistema público de transporte inteligente e integrado, e o ótimo atendimento de um funcionalismo público interessado e com metas a cumprir. Até mesmo a companhia petrolífera e grande parte dos bancos, todos estatais, são geridos com uma visão empresarial, sem ingerências políticas, sem populismo e sem barreiras protecionistas.

Confiança! Foi a característica intrínseca à população norueguesa que mais me marcou. Ela é nítida não apenas nas atitudes dos atendentes dos hotéis, mas no comportamento da população de uma forma geral. O olhar do norueguês transborda confiança. Seu sorriso é desarmado. Por isso, não há catracas na maioria dos metrôs. Não há cobradores na maioria dos trens. E existe um prazer indescritível em se caminhar pelas ruas desertas de madrugada. As pessoas, nitidamente, confiam umas nas outras.

Eu nunca havia visitado um país tão singular como a Noruega. Acredito que é justamente em função dessa singularidade, que muitas pessoas, erroneamente, a classificam como uma nação socialista. Mas os fatores que listei, aliados aos baixos custo e peso do próprio estado, fazem da Noruega um país de livre mercado, no qual o governo é eficiente na sua tarefa de distribuir bem estar social a todos os seus cidadãos. Fazem com que a Noruega seja, na minha opinião, não o exemplo de um país socialista que deu certo, mas o emblemático exemplo de um capitalismo voltado para além do lucro individual. Ciente de que o lucro será sempre muito bem vindo, afinal, é também através dele que seus recursos são obtidos, o estado norueguês o incentiva e o tributa com justiça, para que, através da correta aplicação dos impostos arrecadados, possa propiciar uma alta qualidade de vida a seus habitantes.

Enfim, a Noruega é, no meu ponto de vista, a prova de que realmente existe um meio termo entre o socialismo e o, assim chamado, capitalismo selvagem. E esse meio termo jamais poderá existir em um país em que não imperem a liberdade, o interesse coletivo e a confiança. Combinação extremamente rara, mas altamente benéfica!

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