A implosão do bom-senso…

Não foi apenas o Rio Doce que deixou de existir. Não foram apenas as centenas de vítimas em Mariana e Paris que perderam suas vidas. Não é apenas a esperança de milhares de refugiados que cessa a cada dia. E não são apenas as inúmeras crianças africanas que, diariamente, morrem em decorrência da fome e da ausência de condições básicas de vida. O bom-senso também morreu.

O bom-senso morreu no Brasil e morreu também em todo o mundo. E, por mais terríveis que sejam todas as mortes que testemunhamos a cada instante, a morte do bom-senso é a mais preocupante delas. Porque a morte do bom-senso é prenúncio da continuação e do aumento de todas as demais mortes. Com a morte do bom-senso, morrem também as esperanças de que o mundo possa aprender com os próprios erros, possa se reconstruir, possa se reinventar. Com a morte do bom-senso, cessam as expectativas de que o ser humano possa se tornar mais consciente do quão humano ele deixa de ser a cada dia. Com a morte do bom-senso, desaparece também a noção de que o equilíbrio está no meio, e não nos extremos.

Acho que não tem mais volta. Acho que, daqui por diante, estaremos condenados a ouvir pra sempre as pessoas dizerem que é legítimo matar em nome de um deus. Ou que o deus de um é muito melhor que o deus do outro. Que a única solução para o terrorismo seria jogar uma bomba atômica no Oriente Médio e acabar com tudo. Ou que o melhor a fazer é debater, civilizadamente, sentados em uma mesa junto com os homens-bomba. Que todos os muçulmanos são terroristas e assassinos. Ou que a bondade e a índole de um povo se medem pelo quanto esse povo acredita no seu próprio deus. Que não importam os genocídios da África, pois não passam de povos menos civilizados. Ou que não devemos lamentar os ataques a uma sociedade desenvolvida, pois ela está, simplesmente, colhendo o que plantou. Que deveria caber apenas ao mercado a tarefa de selecionar as boas e as más empresas. Ou que as únicas empresas responsáveis pelos desastres ambientais no mundo são as privatizadas. Que uma tragédia no primeiro mundo tem muito mais valor e, portanto, deve ser muito mais noticiada, do que uma hecatombe em qualquer outra parte do planeta. Ou que qualquer brasileiro que se comova com essa tragédia, não passa de um demagogo virando as costas para os problemas do seu próprio país. Que uma família só pode existir a partir da união entre um homem e uma mulher, mesmo que não se amem. Ou que nenhuma criança seja tratada como menino ou menina até que possa decidir a qual gênero quer pertencer. Que a solução para um governo corrupto e incompetente é a instauração de uma ditadura militar. Ou que qualquer manifestação contrária a um governo eleito democraticamente não passa de uma tentativa de golpe. Que a vida é só uma luta do começo ao fim. Ou que, pela vida, não vale a pena lutar…

É impressionante como as pessoas, hoje em dia, conseguem transformar qualquer acontecimento, por mais lamentável que seja, em justificativa para as suas próprias linhas de pensamento, para as suas próprias ideologias. Ninguém busca entender e analisar todos os ângulos e aspectos de um evento, mas apenas aqueles que lhes convém, apenas aqueles que, na sua visão, endossam suas próprias verdades. Enaltecem um lado e se esquecem do outro. Enaltecem um lado e execram todos os outros. Como se só um lado existisse realmente. E, assim fazendo, enganam a si mesmos, matam o equilíbrio, aniquilam o bom-senso.

O bom-senso morreu. Pois que Deus, Alá, Cristo, Buda, Oxalá ou a própria consciência humana, possam encontrar, rapidamente, uma forma de trazê-lo de volta. Está ficando impossível viver sem ele!

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