O Vasa e o reino de Dilma…

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Em Estocolmo, um antigo navio de guerra é o protagonista de uma curiosa história. À mostra hoje no Vasamuseet, um museu construído especialmente para ele, o navio Vasa naufragou em 1628, em sua viagem inaugural. Depois de passar 333 anos submerso, ele foi retirado do fundo do mar, restaurado, e é hoje uma das embarcações antigas mais bem preservadas de todo o mundo. Praticamente toda ela é original, pois apenas 2% de suas peças não foram encontradas ou recuperadas. É de se impressionar a beleza do navio, assim como todo o riquíssimo acervo histórico que o acompanha. E, nesse acervo, o que mais chama a atenção é a história da sua construção…

O Vasa começou a ser construído em 1626, a pedido do rei Gustavo Adolfo II. Seu desejo era que a embarcação estivesse pronta para enfrentar suas primeiras batalhas o mais rapidamente possível, reforçando a máquina militar sueca que se encontrava em plena expansão no início do século XVII. O rei Gustavo acompanhou e orientou pessoalmente muitos dos detalhes construtivos do navio. Mesmo sem entender nada de engenharia náutica, foi ele quem determinou a altura da embarcação, a largura do deck, e a quantidade de esculturas que fazia questão que adornassem o imponente navio.

Muitos séculos depois, e em um reino muito distante dali, a rainha Dilma determina aos seus subordinados que adotem uma nova matriz econômica para o seu país. Mesmo sem entender nada de economia, são dela as ideias de subsidiar setores específicos da indústria para fomentar o consumo, aumentar a carga tributária das empresas e pessoas físicas, reduzir investimentos em infraestrutura e esquecer os compromissos determinados pela lei de responsabilidade fiscal…

Em 1627, com a construção do Vasa já bem adiantada, o rei Gustavo determina que novos armamentos sejam instalados no navio, transformando-o na mais poderosa embarcação de guerra da época. A combinação de uma quilha alta com um deck estreito já trouxera sérios problemas de estabilidade ao conjunto. Agora, com o peso dos armamentos e das mais de setecentas esculturas, o Vasa não tem mais nenhuma possibilidade de equilíbrio.

Para o reinado Dilma, é dever do estado interferir em todos os setores da sociedade civil. A redução do preço da energia elétrica por decreto, o congelamento do valor dos combustíveis, e o aumento do controle sobre a iniciativa privada, são exemplos de medidas tomadas por ela. Assim, o custo de sustentação do reino aumenta tremendamente. Seu peso, mais ainda…

Vai se aproximando o momento da conclusão do navio Vasa. O ano é 1628 e o rei Gustavo exige do estaleiro a entrega do seu indestrutível navio de combate. Com ele, a guerra contra a Polônia estaria ganha. Os engenheiros navais responsáveis pela construção do Vasa já haviam percebido, há tempos, que o navio não tinha condições de navegar. Mas como dizer isso ao rei? Como admitir que gastos astronômicos, correspondentes a quase dez por cento de toda a riqueza do país, corriam o sério risco de naufragar? O rei detinha o poder supremo, ninguém poderia contrariá-lo.

No reino de Dilma, todos os ministros obedecem à risca as decisões da rainha. Alguns pequenos avisos, outros conselhos sutis, é o ponto máximo que a coragem de seus subordinados consegue atingir. Mas Dilma segue firme no seu propósito de transformar seu reino em uma mera colônia de sua própria casta. Analistas independentes e alheios à nobreza fazem críticas contundentes, mas são invariavelmente acusados de pessimistas e de traidores do reino. A rainha escuta, mas não ouve…

Com as pressões cada vez maiores do rei Gustavo, o Vasa finalmente está pronto para zarpar. Estamos no dia 10 de agosto de 1628, e ele parte para a sua viagem inaugural. Ao passar em frente à Gamla Stan, berço da cidade de Estocolmo, todas as escotilhas se abrem e os canhões são disparados para saudar o momento de glória. As imensas velas são içadas e um vento forte inclina o barco, mas não a ponto de tombá-lo. Uma nova rajada o inclina novamente, e as escotilhas abertas permitem que a água entre facilmente, inundando o Vasa. Em cinco minutos, mais de mil toneladas de madeira e uma fortuna incalculável em dinheiro jazem submersas no Mar Báltico. A primeira brevíssima viagem do Vasa termina com várias mortes e menos de uma milha náutica percorrida. Um fracasso sem precedentes. Ninguém é punido em decorrência do incidente, pois foi o rei quem solicitou e aprovou todos os detalhes. E o rei não pode ser punido, afinal, o rei é o próprio estado.

O lançamento do grande projeto do reinado Dilma já foi feito. A nova nação planejada por ela percorreu suas primeiras quatro milhas náuticas a trancos e barrancos, com inclinações sucessivamente mais fortes. A continuação do percurso previsto ainda depende de uma série de fatores, entre eles a redução urgente do peso da embarcação. As escotilhas estão abertas e a água continua entrando em quantidades cada vez maiores. Quase tão rapidamente quanto o Vasa, o reino de Dilma está naufragando. Ao contrário do rei Gustavo, a rainha Dilma poderia sim ser punida pelas suas ações e omissões. Essa punição depende de um grupo de pessoas eleitas pelos súditos que, dentre outras coisas, têm a função de verificar e cobrar eficiência das medidas impostas pela rainha. Mas a grande maioria desse grupo, animada diante da possibilidade de mais poder e recursos, simplesmente endossa as decisões tomadas por ela e, assim, perde-se sua importante função fiscalizadora. Portanto, tal como ocorreu no tempo do rei Gustavo, à exceção do próprio reino e de seu povo, ninguém será penalizado pelas tolas decisões reais…

Assim caminha o reino de Dilma rumo ao destino que ela mesma traçou. Dilma jamais conheceu a história do Vasa e, portanto, não soube usá-la como experiência própria. Uma lástima, afinal, Dilma e o Vasa têm muito em comum. Ambos criaram enormes expectativas não confirmadas. Ambos prometeram levar seus reinos a posições jamais alcançadas. Ambos esconderam por muito tempo as consequências de suas próprias desastrosas decisões.

Hoje, depois de tantos anos vendo-a modificar os rumos da nação, outrora sólidos, e diante de uma possibilidade cada vez mais remota de punição, só resta ao povo torcer para que Dilma obedeça ao brado repetido em todo o reino: Dilma, vaza!

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