A mesa ao lado…

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A felicidade da mesa ao lado contagiava todo o restaurante. Apenas três pessoas a ocupavam, mas parecia ter muito mais gente, tamanha era a alegria das gargalhadas que ecoavam pelo salão. De um lado da mesa, um filho que levava seus pais a uma inesquecível viagem pela Europa. Do outro, os pais felizes por poderem apresentar, ao filho, o restaurante que já conheciam em Lisboa. Naquela noite, eram eles os guias da viagem. E, por mais evidente que fosse o orgulho por se perceberem exercendo uma função que não mais lhes cabia, entendiam eles que, àquela altura da vida, bastava-lhes desfrutar da companhia daqueles que um dia guiaram. Acho que não perceberam, entretanto, que o papel de guia exercido pelo filho, se restringia apenas aos mapas e idiomas. Nitidamente, o filho ainda buscava no semblante de sua mãe, a mesma segurança que sempre sentira quando criança. Ele ainda ansiava ouvir de seu pai, os mesmos conselhos sensatos que sempre o apaziguaram desde tenra idade. Os guias continuavam os mesmos. O aprendiz também. O aluno crescera em tamanho, mas tinha plena consciência de que muito pouco sabia. Tinha plena consciência de que, para que um dia viesse a se sentir também um guia, muito ainda teria que aprender e evoluir. Tinha plena consciência de que reconhecia nos seus pais, cada vez com maior clareza, a materialização do amor pleno, e essa era a razão pela qual jamais deixaria de considerá-los seus grandes e verdadeiros guias na vida.

Durante toda a noite, fiquei escutando as conversas vindas da mesa ao lado. E pude perceber que a idolatria daquele filho por seus pais era mais do que justificável. O olhar de sua mãe transmitia uma bondade tão grande, que era difícil não se emocionar ao vê-la sorrindo. E, quando o seu pai também sorria, parecia que todo o restaurante se iluminava instantaneamente. A beleza e a profundidade das palavras ditas por ele faziam com que todas as outras mesas ficassem em silêncio apenas para poder ouvi-lo também. Diante de tanta sabedoria, o olhar do filho era de constante agradecimento por estar vivenciando aquele momento. Os pais, da mesma forma, agradeciam a Deus pela oportunidade de tantos brindes, de tantos sorrisos, de tanto amor. Foram horas inesquecíveis proporcionadas por uma mesa repleta de harmonia, afeto e cumplicidade.

O atendimento do restaurante estava totalmente comprometido. Os garçons deixavam de servir suas mesas apenas para ficarem mais próximos da mesa ao lado. Cada um deles queria saborear as palavras ditas, partilhar dos sorrisos, dividir suas próprias histórias, se emocionar com as experiências de vida tão ricas e tão verdadeiras. Da posição em que me encontrava, eu podia ver de frente o rosto daquele pai. Pode ter sido apenas impressão minha, mas a clareza daquele olhar era tão genuína, que senti meu próprio olhar capturado, preso àquela imagem inebriante, entregue diante de duas janelas abertas para a alma mais pura que alguém poderia ter. Aquele olhar me dizia, com uma nitidez tão grande, coisas que ainda não consegui descrever em palavras. Mas não importam as palavras, importa sim o que eu sinto quando fecho meus olhos e ainda vejo os dele. O quanto percebo a força e a dimensão do seu espírito.

Na mesa ao lado, os brindes eram feitos com vinho nacional. Assim, eu e minha esposa pedimos também uma garrafa, para que pudéssemos brindar junto a eles. A mesa ao lado era extremamente generosa e compartilhava de bom grado seus brindes com os das mesas vizinhas. Por fim, muitos se juntaram naqueles brindes, naquela noite, naquele restaurante em Lisboa, para sempre marcado pela alegria da mesa ao lado. Ao final da noite, os três pediram a conta e saíram caminhando, de mãos dadas, em direção à Praça do Rossio. Pararam em um bar para que pudessem provar uma ginjinha “com elas” e seguiram seu caminho, sempre sorrindo.

Com a mesa ao lado vazia, o restaurante se tornou imediatamente triste e sombrio. Pude então perceber que toda a alegria daquele salão vinha apenas daquela mesa. Atordoados, eu e minha esposa nem terminamos nosso vinho e saímos também em direção ao Rossio. Procuramos pela praça, pelas ruelas, pelas calçadas de pedra portuguesa, mas não mais encontramos a abençoada família da mesa ao lado. Uma angústia profunda nos arrebatou. Queríamos sentir, mais uma vez, toda a plenitude que emanava tão naturalmente daqueles seres iluminados. Os inesquecíveis momentos no restaurante nos foram bastantes. Mas, egoístas, gostaríamos sempre que eles durassem um pouco mais. Mesmo assim, por maior e mais dolorosa que tenha sido a sensação de vazio por não mais poder vê-los, estou certo de que seguiram seu caminho felizes e em paz.

Através das muitas histórias que ouvi naquela noite, sei que hoje, 21 de outubro, é o dia do aniversário de oitenta anos daquela mãe de sorriso doce e olhar bondoso. Sei também que aquele filho e seus irmãos sonhavam poder fazer uma grande festa em sua homenagem. Uma grande celebração a uma jornada extraordinária, que sempre buscou tocar os corações de todos, até mesmo daqueles que, como eu, tiveram um dia o privilégio de se sentarem, apenas por algumas horas, em uma mesa ao seu lado. Por isso, em agradecimento por aqueles instantes eternos, farei hoje uma oração e um novo brinde, especialmente dedicados a ela. Vou pedir a Deus que continue iluminando aquele olhar e aquele sorriso. Que Ele permita que toda aquela maravilhosa energia possa ser repartida a todos que um dia a fizeram sorrir. Que Ele faça com que a alegria que contagiou aquele restaurante possa, cada vez mais, ser multiplicada e distribuída, retornando também a ela. Que Ele conceda àquela mãe, toda a paz, serenidade e mansidão do Universo. Que ela possa sempre caminhar de mãos dadas junto ao amor de sua vida, como vi naquela noite memorável em Lisboa! Que Ele continue abençoando a luz daqueles dois grandes guias que, um dia, sem perceberem, mudaram inteiramente a minha vida, apenas pelo fato de terem se sentado em uma mesa ao meu lado…

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