As opções que não dispomos…

Direita ou esquerda? Como vivemos a época do extremismo, essa é uma pergunta para a qual, atualmente, não se admitem respostas vagas. É um caminho ou outro, sem meio termo. Alguém se identificar com ambas, em vários de seus aspectos e, da mesma forma, discordar de outros tantos, é, para a grande maioria das pessoas hoje, um pecado maior do que considerar Hugo Chaves um democrata (eu sei, foi uma provocação). São dois menus fechados com entrada, prato principal, sobremesa e bebida. Não posso misturar? De forma alguma! Escolha um e engula tudo. E sem reclamar!

Mas será que precisamos mesmo viver assim?

Os termos “direita” e “esquerda” tiveram sua origem na Revolução Francesa, quando os partidários do rei e do clero sentavam-se à direita enquanto os revolucionários sentavam-se à esquerda, na recém criada Assembleia Nacional Constituinte. Desde essa época, convencionou-se dizer que uma posição de “esquerda” referia-se à luta pelos direitos dos trabalhadores e da população menos favorecida, com a participação dos movimentos sociais e minorias. Um posicionamento à “direita” estaria relacionado a uma visão mais conservadora, com a busca da manutenção do poder da elite e a promoção do bem estar individual.

Mas, será que ainda estamos na Idade Moderna? O que é ser de esquerda ou de direita nos dias de hoje? Já fiz essa pergunta a inúmeras pessoas, de todas as ideologias, e não consegui de nenhuma delas sequer uma única resposta coincidente. Cada um tem o seu próprio conceito. Como não poderia deixar de ser, a visão da ideologia à qual elas afirmam pertencer é quase utópica, verdadeira fonte de todas as virtudes. Por outro lado, a imagem da ideologia contrária que elas mesmas descrevem, é praticamente a materialização de todo o mal existente no planeta. Não é preciso ser um especialista em comportamento humano para perceber que, quando atingimos tal patamar de acirramento, alguma coisa está muito errada!

Não faz muito tempo, li em uma publicação feita por um ativista, assumida e orgulhosamente ligado à esquerda, a seguinte definição: “o que é “ser de esquerda”? É ser a favor de uma sociedade que se preocupe com quem tem menos, e não ser contra quem tem mais. É pensar além do próprio umbigo, além da própria classe social. É perceber que criar políticas sociais é algo fundamental. É entender que mulheres, negros e homossexuais não querem “direitos exclusivos”, querem igualdade; é não temê-los. É reconhecer que a mulher manda no próprio corpo. É saber que a vida sexual do outro não é assunto meu (desde que, claro, se tratem de adultos e com consenso). É não acreditar que os direitos das grandes corporações se sobrepõem aos direitos do cidadão.”

Mais ou menos na mesma época, escutei a seguinte definição de um defensor da ideologia oposta: “o que é “ser de direita”? É ser a favor do capitalismo privado de mercado, do liberalismo econômico, do estado mínimo. É ser do Direito, da justiça, e a favor das liberdades individuais. É ser a favor dos valores da família verdadeira, pois ela é a base da nossa sociedade, tanto do ponto de vista moral quando cultural. É ser contra as drogas, contra a liberação destas, e a favor da criminalização do uso, do porte e da venda. É favorecer a submissão total de todas as instituições às normas estabelecidas, sempre com a reta interpretação da lei, sem deturpar o sentido das coisas.”

Como eu disse anteriormente, ainda não consegui ouvir duas opiniões absolutamente coincidentes sobre nenhuma das ideologias. Mas vamos considerar que as definições acima, além de terem sido escritas por pessoas cultas e com alto grau de escolaridade, englobam em boa parte o que cada lado pensa a respeito de si mesmo. E, uma vez que o autor da primeira exposição cometeu o pecado de não opinar mais profundamente sobre o papel do estado e como deve ser a condução da economia no pensamento “esquerdista”, posso dizer que, para a minha própria surpresa, eu me identifico tanto ou até mais com os valores descritos por ele do que com os valores descritos na conceituação de “direita”. Seria eu, então, um esquerdista disfarçado de coxinha?

O problema é que, além dessa, outras diversas perguntas passaram a me atormentar: tomando-se por base a forma como cada lado se autoavalia, os que se dizem esquerdistas acham mesmo que esse nosso governo é de esquerda? E os direitistas pensam realmente que a atual oposição é de direita? Como alguém que se posiciona como defensor de uma ideologia, qualquer que seja, consegue ainda se ver representado pelos políticos desse país? Como alguém pode ainda acreditar que a inclusão social foi conquistada graças aos princípios éticos dos nossos governantes? Como alguém pode ainda imaginar que um eventual governo da oposição vai buscar um estado realmente mínimo, livre e justo? Como todos ainda conseguem encontrar razões e motivos para defender quaisquer dos lados?

O que importa é que, enquanto nós, bobos, buscamos definições para nos encaixar nos nossos próprios rótulos, os ratos da política provam que a única ideologia que realmente lhes interessa é o Poder. E fazem de tudo, absolutamente tudo, para mantê-lo ou conquistá-lo. E, enquanto não modificarmos esse processo, não adianta continuarmos discutindo se somos de “direita” ou de “esquerda”. A única dúvida, se é que ela existe, é se somos palhaços conscientes ou palhaços ingênuos. E sinceramente, hoje em dia, também nessa questão, não sei dizer qual das opções é a menos pior!

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