Lembranças da minha avó…

Como eu disse, escrevo desde muito novo. Mas muitos dos textos daquela época se perderam ao longo dos anos, escritos em cadernos escolares ou em pedaços de papel que não mais existem. Entretanto, há pouco mais de um ano, ao encaixotar documentos para a minha mudança, me deparei com uma pequena coletânea de poemas e textos escritos durante a minha infância e adolescência. Não vou transcrever todos aqui, mesmo porque, a grande maioria deles representa a inocente visão de mundo que aquele garoto tinha na época. Gostaria apenas que dois deles se tornassem públicos, e por razões semelhantes.

O primeiro por descrever meu sentimento em relação à passagem daquela que contribuiu imensamente para a felicidade da minha infância e para a minha formação pessoal e emocional de um modo mais amplo: minha avó materna, cuja morte representou definitivamente a minha primeira grande perda.

O segundo, por exemplificar de forma clara quais foram os valores que essa mulher extraordinária conseguiu transmitir para mim e para os meus irmãos, enquanto tivemos o privilégio do seu convívio.

Ela nos deixou quando eu tinha quase quatorze anos de idade e, no ano seguinte, escrevi o seguinte acróstico:

AMOR VIVO

A dor angustiante da saudade

Vem forte, de repente, sem piedade

Outra vez machucar meu coração.

 

Antiga melodia revivida

Momento tão marcante desta vida

Imagem transmitida pelo tempo

Gota de memória em meu lamento

Amor vivo, saudade e solidão.

 

Mas o contraste forte de um olhar

Unificando a lágrima a rolar

Lança no espaço uma certeza

Herança que ressurge da tristeza.

Então me envolve estranho sentimento

Raro instante de conhecimento.

 

Alento baseado na coragem

Miragem momentânea da passagem

Instante de lição comprometida

Graças pelo amor da despedida

Alma pura, verdade e emoção.

 

Memórias de um passado tão presente

Ainda alimentam minha mente

Embalando a dor de uma paixão.

 

Poucos anos depois, quando tinha por volta de dezessete anos, escrevi o texto a seguir. Ambos os textos estão sendo reproduzidos neste blog para que possam, não apenas homenagear uma mulher de fibra, de coragem, de caráter e de determinação impressionantes, mas também celebrar a importância do seu amor nos meus próprios interesse e motivação para começar a escrever. Por tudo isso, obrigado minha querida e saudosa Vó Bili!

REAL ILUSÃO

Ingenuamente, me ensinaram a ser malicioso. Lição primordial de quem quer vencer.

Puramente, me disseram que eu fosse viril. Pra que todos soubessem que eu era, antes de tudo, um homem.

Serenamente, me previniram do mundo brutal. Para que eu estivesse preparado para a vida.

Confiaram-me também um grande segredo: que eu tivesse atenção e suspeitasse de todas as pessoas à minha volta.

Calmamente, me falaram da disputa diária pela vida. Desta prova pela qual eu teria que passar.

Tranquilamente, me alertaram sobre a violência. O caminho seria sempre responder na mesma moeda.

Sabiamente, me mostraram as distorções da sociedade. Distorções às quais eu teria que me adaptar.

Infantilmente, me explicaram o que é a realidade. Disseram que o sonho e a fantasia não teriam lugar no meu mundo.

E, sem preconceitos, me ensinaram a rotular as pessoas. Aprendi as regras e os nomes que eu deveria seguir.

E lá fui eu pela vida afora, certo de estar bem preparado para ela. Consegui ter tudo o que eu queria, não importando se, para isso, passei ou não por cima de alguém. Mas, por mais que eu imaginasse ter tudo, alguma coisa sempre parecia me faltar. E essa busca continuou durante toda a minha vida…

Mas ela finalmente terminou. Um dia ela teria que terminar! Eu demorei uma vida inteira para conseguir encontrar algo que eu já havia possuído uma vez. E agora eu vejo as coisas claramente. Sei porque eu perdi algo tão simples mas, ao mesmo tempo, tão difícil de ser encontrado.

Foi porque, entre todas as coisas que me ensinaram, se esqueceram de dizer que eu fosse também puro e ingênuo. Calmo, sereno, tranquilo. Que eu confiasse nas pessoas e que não deixasse de lutar pelas coisas nas quais eu acreditasse. Que eu fosse infantil. Que eu nunca deixasse de sonhar. Que a fantasia sempre tivesse lugar no meu coração. E que eu aceitasse as pessoas do jeito que cada um é!

Apenas por isso, eu passei a minha vida inteira procurando por mim mesmo!

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