Quando a gente pensa que não tem como piorar…

- Próxima.
– Boa noite. Vim para a audição.
– Veio e já pode voltar.
– Mas vocês não vão sequer me ouvir? Eu tenho muita experiência e sou uma excelente cantora.
– Minha filha, se a gente estivesse procurando uma grande cantora a vaga já estaria preenchida há tempos.
– Deve estar havendo algum engano. Vocês não estão precisando de uma cantora e atriz para um musical sobre Dona Ivone Lara?
– Exatamente.
– E não vão me ouvir?
– Não.
– E por que não?
– Você sabia que Dona Ivone era negra?
– Claro que eu sabia, assim como eu.
– Aí é que está o problema, filhinha. Ela não era negra como você.
– Como assim?
– Vocês estão muito distantes na nossa TOC.
– Que diabos é isso?
– TOC? Ora, Tabela Oficial de Colorismo.
– Continuo sem entender nada…
– Vou tentar ser mais clara. Se você e D. Ivone fossem madeiras, ela seria um Jacarandá e você no máximo um Ipê. Se vocês fossem granitos, ela seria um São Gabriel e você no máximo um Marrom Imperial. Se vocês fossem frutas, ela seria uma jabuticaba e você no máximo um kiwi. Se vocês…
– Estou confusa, você está falando de tons de pele?
– Claro, minha filha. Como eu estava tentando lhe dizer, na nossa TOC você é no máximo um seis e D. Ivone ficava entre oito e nove. Resumindo, mesmo sendo negra, você é muito mais clara do que ela.
– Não estou acreditando. Vocês estão dando mais importância ao tom da pele negra do que à capacidade artística das pessoas?
– Claro. Não podemos errar na escolha.
– Isso é um absurdo! Vocês já estão errando na escolha! Quem está fazendo essa exigência imbecil?
– Os movimentos negros. Eles inclusive já conseguiram retirar a cantora que havia sido escolhida pelo diretor. E olha que ela era mais negra do que você.
– Os movimentos negros? Tem gente negra discriminando gente negra no Brasil?
– Só nos últimos 500 anos…

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Motivações do liberalismo…

Nunca tivemos um presidente verdadeiramente liberal. Ainda que o governo FHC tenha ficado marcado pela pecha do neoliberalismo, palavra que a esquerda brasileira conseguiu transformar em sinônimo de entreguismo, a verdade é que seu governo jamais abraçou as ideias econômicas liberais de uma forma mais abrangente. Mesmo com privatizações em áreas importantes, com destaque para a Vale e a Telebrás, diversas outras empresas públicas, deficitárias e ineficientes, não tiveram seus processos de privatização sequer cogitados. As reformas tributária e da previdência, fundamentais para a adequação dos gastos públicos, foram postergadas ou feitas parcialmente, mantendo-se os privilégios e distorções. A carga tributária do país saltou de 29% para 36% do PIB, em movimento contrário à doutrina liberal. Apesar de ter criado instrumentos fundamentais para a modernização da gestão pública, principalmente a Lei de Responsabilidade Fiscal, o governo FHC levou anos para adotar o câmbio flutuante, completando o tripé econômico que já contava com as metas de inflação e de superávit fiscal. Tripé este que deu credibilidade e solidez à economia brasileira, até ser completamente destruído no governo Dilma Rousseff.

De lá para cá, temos convivido com governos cada vez mais irresponsáveis, que gastam sistematicamente mais do que arrecadam, que usam as estatais como moeda de troca para apoio de sua base aliada, como cabides de emprego para seus apadrinhados e como fonte de recursos ilícitos oriundos de licitações fraudulentas e corrupção generalizada. Governos populistas que se preocupam apenas em manter e ampliar seus currais eleitorais, através de políticas públicas que não têm como objetivo o desenvolvimento da nação e a capacitação intelectual de seu cidadão. Governos que concedem subsídios aos setores que lhe trazem contrapartidas espúrias, e que repassam o ônus dos frequentes rombos para o restante da sociedade. Governos que têm que lidar com um congresso cada vez mais omisso, corrupto e alheio aos interesses do país, e que aprova leis e matérias não por necessidade ou ideologia, mas sim quando é literalmente comprado através de cargos públicos, postos comissionados, verbas de gabinete e propinas cada vez mais vultosas.

Infelizmente, esse é o retrato do Brasil desde sempre. Chegamos, pois, a uma encruzilhada. Ou realmente mudamos de rota a partir do ano que vem, ou sucumbiremos. O caminho que estamos trilhando leva inevitavelmente ao abismo. Cabe a cada um de nós, portanto, a responsabilidade pela busca de representantes que entendam o cenário caótico em que estamos inseridos, e que tenham ideias e conceitos modernos, pragmáticos e factíveis. Que entendam que nenhum programa de assistência social será melhor do que um emprego estável, que nenhuma lei de cotas será mais eficaz do que uma educação básica de qualidade disponível a todas as crianças e jovens, que nenhum sistema de reajuste salarial será mais apropriado do que uma economia com inflação baixa e contas públicas equilibradas, que nenhum subsídio pontual será mais justo do que uma menor carga tributária sobre todos os setores produtivos, que nenhum programa popular de crédito automotivo irá substituir um sistema de transporte público diversificado e eficiente, que nenhum médico cubano será mais benéfico do que saneamento básico disponível a todos, que nenhuma mensalidade de seguro desemprego será mais valiosa do que um ambiente propício à inovação e ao empreendedorismo.

É hora de entendermos de uma vez por todas que, quanto maior for o tamanho do Estado, menor será a sua capacidade de prover educação, saúde, bem-estar e segurança. É com essa lista de prioridades que qualquer governo deveria trabalhar. É hora também de assumirmos nosso protagonismo, afinal, qualquer recurso que o Estado vier a dispor estará diretamente ligado a tudo que nós, cidadãos, conseguirmos produzir. Não existe fórmula mágica, não existe almoço grátis, e não existe programa social, por mais bem intencionado que seja, que se mantenha sem a geração de riquezas. Qualquer político que propague tais ideias não está sendo somente populista, está mentindo descaradamente.

Considerações e observações feitas, não consigo enxergar um caminho diferente do liberalismo para o Brasil. E por que o liberalismo? Antes de tudo por se tratar de uma linha de pensamento que tem como premissas básicas a liberdade do indivíduo, a identidade do cidadão, a igualdade entre os povos, a tolerância e a isonomia de oportunidades. Por se tratar também de uma corrente ideológica tão singular que sua vertente econômica é sempre relacionada ao pensamento de direita, ao passo que sua vertente comportamental é normalmente abraçada pelos defensores da esquerda. Exatamente em virtude dessa dualidade, muitos consideram o liberalismo oposto ao conservadorismo. Na minha visão, esse é um papel que caberia apenas ao totalitarismo.

Durante muitos anos, a esquerda deturpou o pensamento liberal acusando-o de interesseiro, egoísta, indiferente aos pobres e radicalmente contrário à ação social do Estado. Na verdade, nenhuma ideologia econômica produziu tantas riquezas e retirou tanta gente da pobreza quanto o liberalismo. Está na hora de contarmos com orgulho essa história de sucesso. Mais importante ainda, está na hora de escrevermos o seu próximo capítulo, agora em tons verde e amarelo. Que possamos encontrar candidatos, em todos os níveis, que representem e defendam esses anseios!

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O liberalismo é a única saída…

Não consigo prever qual será o legado da grande crise que estamos vivendo. Tenho lido comentários os mais diversos, quase todos fortemente contaminados pelo viés ideológico de seus autores. De uma forma absolutamente simplista e leviana, direita e esquerda apontam seus respectivos culpados e se satisfazem com suas conclusões. Nada mais triste. Não há legado em uma discussão tão rasa, apenas a continuidade de um sistema vigente há décadas. Sistema que, pela primeira vez, recebe uma contestação forte o suficiente para que se inicie uma discussão bem mais aprofundada por parte de toda a sociedade brasileira. E essa discussão, essa esperança, essa faísca que agora se acende são, na minha opinião, as grandes oportunidades que temos para alterar paradigmas e mudarmos verdadeiramente os rumos do Brasil.

Uma análise profunda sobre o caos que tomou conta do país deve levar em conta vários aspectos, desde os comportamentais e sociológicos até os históricos e econômicos. Apesar de me incomodar imensamente, não vou tentar encontrar razões que expliquem a quase incontrolável tendência do brasileiro em levar vantagem sobre os outros. Essa “cultura do mais esperto” só será superada daqui a muitas gerações, dependendo do que viermos a fazer com a nossa educação daqui por diante. Vou procurar me ater, neste texto, aos aspectos que considero mais factíveis e importantes a curto prazo.

Algumas observações referentes à mencionada “cultura do mais esperto”, entretanto, estão diretamente ligadas às oportunidades prementes que não podem ser perdidas. Afinal, aproveitando-se da situação, muitos estão transformando fatos condenáveis em falsos exemplos do livre mercado, levando inúmeras pessoas, por ingenuidade, a acreditarem que a presença mais forte do Estado é a solução para todos os problemas do país. Esse conceito não poderia ser mais danoso. Há alguns dias, políticos e pessoas mal intencionadas tomaram um posto que dobrou o preço de seus combustíveis neste momento de desabastecimento como exemplo do funcionamento de uma economia liberal. Assim funciona o capitalismo selvagem, disseram eles. Na verdade, todos os envolvidos não passam de “espertos” buscando se aproveitar de um cenário caótico para conseguirem seus torpes objetivos. O empresário quer simplesmente arrecadar muito mais às custas do desespero dos consumidores. Os políticos, por sua vez, buscam recrutar mais e mais ingênuos aliados na disseminação de suas ideias intencionalmente deturpadas.

É fundamental que os brasileiros percebam que tal fato nada tem a ver com o livre mercado. Na verdade, trata-se do exemplo mais próximo do socialismo que vivenciamos nos últimos tempos. Somos um país refém de um único modal de transporte, refém de uma única empresa petrolífera que não tem que se preocupar com concorrentes e refém de um Estado cada vez mais corrupto e ineficiente que encontrou no aumento constante e indiscriminado dos impostos a sua única forma de autossustentação. Agora percebemos que somos também reféns de uma única categoria, com poder de interromper inteiramente o fornecimento de alimentos, produtos e combustíveis, de parar o país e, assim, de escancarar a fraqueza e a incompetência de seus líderes. O que estamos vivenciando hoje é, literalmente, o OPOSTO do liberalismo. Enquanto não entendermos isso, não teremos a menor chance de nos tornarmos uma nação mais competitiva, mais próspera e mais justa.

Perguntam-me se sou a favor ou contra a greve dos caminhoneiros. Depende de qual greve estamos falando. Sou inteiramente a favor da greve de uma classe que trafega em estradas mal conservadas, que paga caro por um combustível de qualidade duvidosa, que busca a redução da absurda carga tributária incidente em todos os produtos e em todos os processos produtivos vigentes no Brasil, que enfrenta a concorrência desleal de empresas amparadas pelas benesses concedidas por um governo que sabe muito bem a quem concedê-las. Mas sou contra a greve de uma classe que engloba pessoas bem mais influentes e poderosas do que os bravos caminhoneiros que rodam pelo país. Uma classe que, assim como tem feito ao longo de décadas, mantém seu lobby cada vez mais ativo e consegue, dessa forma, os subsídios específicos que são arcados pelos demais setores da sociedade civil, as reduções de impostos incidentes exclusivamente sobre a sua atividade, em detrimento de todas as outras, a manutenção de um modal de transporte único em um país continental, com enorme potencial para criação e ampliação de malhas ferroviárias e fluviais.

É exatamente aqui que precisamos estar atentos. Queremos lutar por liberdade ou por privilégios? Por igualdade de direitos e oportunidades ou pela manutenção de um sistema em que muitos pagam pelas regalias de poucos? Por uma economia verdadeiramente liberal ou por um socialismo travestido de capitalismo selvagem? Pela manutenção de um Estado grande, caro e incompetente ou pela redução generalizada da carga tributária do país, o que, na prática, tornaria impossível o velho patrocínio da ineficiência? Por mais uma corriqueira greve pontual ou pela alteração definitiva dos protagonistas da sociedade brasileira?

Que o legado desta imensa crise seja, acima de tudo, uma nova visão sobre o país e sobre os caminhos a serem trilhados. Que tenhamos consciência do poder que temos como sociedade, mesmo diante de um Estado opressor, centralizador e extremamente acomodado. Enfim, que não nos falte o desejo de mudança e, principalmente, a certeza de que qualquer alteração de rumo depende exclusivamente de cada um de nós!

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Acho que já me acostumei…

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Acho que já me acostumei com a sua ausência. Há muito não tenho mais ímpetos de lhe contar as novidades, de lhe mostrar os novos desenhos do Guilherme, de comentar detalhes do roteiro fabuloso que o Arthur está escrevendo. Há muito não preciso mais reprimir minhas lágrimas ao falar de você, ao vê-la nos inúmeros vídeos felizes que tenho em casa, ao ouvir o som da sua risada contagiante. Há muito perdi o hábito de dividir com você minhas preocupações, minhas aflições, minhas dificuldades. O mesmo vale para as minhas alegrias, minhas viagens, minhas conquistas. Há muito não me vejo mais deitado no seu colo, não reconheço mais minha mão entrelaçada à sua, não espero mais pelo seu beijo a cada vez que me preparo para sair. Acho que já me acostumei com a sua ausência…

O Guilherme está cada vez mais criativo, mãe. Está mais independente, mais espontâneo e ainda mais perspicaz. Temos tido trabalho em controlar sua agressividade mas é uma delícia acompanhar o desenvolvimento de sua índole extraordinariamente honesta e verdadeira. Ele fala muito de você quase todas as noites. Mas acho que já se acostumou com a sua ausência…

Já o Arthur está naquele momento difícil de escolha dos seus caminhos. Ele não tem dúvidas de que quer mesmo cursar cinema mas são tantas decisões a serem tomadas, tantas novas posturas que ele deverá adotar se quiser ver sua vocação materializada. Ele sempre ressalta o seu exemplo de mãe que apoiou incondicionalmente os sonhos dos seus filhos. Mas acho que também já se acostumou com a sua ausência…

Eu e a Dani estamos muito bem, embora já tenhamos percebido que a nossa linda juventude faz parte do passado. Ela está fazendo exames para uma cirurgia de vesícula e eu entrei pela primeira vez em um equipamento de ressonância para avaliação de um persistente incômodo no quadril. Nada sério, não se preocupe. É inevitável lembrarmos do quanto você fazia questão de nos acompanhar em cada consulta. Mas acho que já nos acostumamos com a sua ausência…

A situação do país não mudou muito, mãe. Continuamos sendo governados por bandidos e as perspectivas futuras não são muito alvissareiras. Mesmo assim continuo tentando fazer a minha parte, trabalhando, correndo atrás de novas obras e novos desafios. Não me esqueço da força da sua fé e das suas orações para que meus caminhos fossem mais suaves, para que todos os nós fossem desatados. Mas acho que já me acostumei com a sua ausência…

Voltamos a Paris há pouco mais de duas semanas. Levei a Dani naquela ponte próxima ao Petit Palais, lembra? Mostrei a ela o banco onde você ficou sentada naquela tarde linda e fria enquanto aguardávamos o por do sol. Fomos também a Giverny e a Dani não parava de me lembrar o quanto você teria enlouquecido nos jardins de Monet. Sei que você iria querer reproduzir todas aquelas cores nos canteiros do Canto. Mas acho que já me acostumei com a sua ausência…

Hoje vamos comemorar mais um Dia das Mães. Já é o quarto que passamos sem você. Incrível como o tempo realmente voa. Graças a ele acho que já me acostumei com a sua ausência. Meus olhos úmidos parecem me dizer o contrário, eu sei. Não ligue pra eles, mãe. Talvez eles não consigam se acostumar tão rapidamente quanto eu. Talvez eles não sejam tão fortes. Mas um dia ainda vou conseguir ensiná-los a se acostumar. Acho que eles não sabem que nem é tão difícil assim. Que não é tão difícil se acostumar. Não se preocupe, mãe, meus olhos vão aprender mais cedo ou mais tarde. Afinal, eu já me acostumei, não é? Sim, eu acho que já me acostumei…

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Tanto a dizer…

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O que falar de alguém que inspira as pessoas a buscarem seus sonhos? Alguém tão seguro dos seus objetivos que faz com que suas escolhas pareçam fáceis, quando, na verdade, foram sempre mais difíceis. Afinal, quantos sonhos se perdem ao longo dos anos? Quantos talentos são frustrados por falta de oportunidades, de incentivo, de autoconfiança? Quantas vezes o pragmatismo prevalece sobre as vocações mais evidentes?

O que falar de alguém que ama tanto o que faz, que contagia a todos com esse amor? Não apenas o público que o assiste mas, principalmente, aqueles que partilham de sua missão de transformar música em emoções. Alguém que conseguiu compreender que a música é a arte de tocar os corações das pessoas. E é assim que cada coração se sente ao vê-lo no palco: tocado, conduzido, arrebatado.

O que falar de alguém que não se satisfaz apenas com seu imenso talento? Alguém que procura melhorar a cada dia, que estuda incessantemente, que está sempre em busca de novos e desafiadores objetivos. Alguém que sabe liderar sem perder a humildade, que valoriza, que incentiva, que cativa e que, exatamente por isso, é sempre respeitado.

O que falar de alguém que transborda generosidade? Alguém que recebeu como herança direta o sorriso franco, o abraço acolhedor, o dom de multiplicar amigos e admiradores, sem qualquer tipo de distinção. Alguém que só poderia ter vindo ao mundo em uma família formada por seres raros, iluminados, que souberam transmitir a ele toda a sabedoria que sempre possuíram.

O que falar de alguém que consegue passar aos meus filhos, desde pequenos, o conceito de arte? Não apenas a definição teórica e abstrata, mas a vivência prática, os sentimentos que, através dela, são despertados, o bálsamo que acompanha sua descoberta. Por causa dele, a arte sempre fez parte de suas vidas.

O que falar de alguém assim? O que dizer a ele hoje, no seu aniversário? Nada do que eu disser será suficiente. Nada do que eu disser será capaz de mostrar a dimensão do meu orgulho, da minha gratidão, da minha admiração e do meu amor. Por isso, excepcionalmente hoje, decidi que não vou dizer nada. Feliz aniversário, meu irmão!

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Impressões de Giverny…

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Deve haver alguma coisa de especial pelas bandas de Giverny. Ou será impressão minha?

Talvez algo mágico que faz com que as flores pareçam ter sido pintadas uma a uma. Não, não pode ser. Flores pintadas não exalam o impressionante perfume que se espalha pelo ar.

Decerto foram as telas que fizeram das flores suas prisioneiras mais cobiçadas. Que transformaram suas rebuscadas formas em impressões tão misteriosas. Que as converteram em sensações.

Se raptadas foram as flores dos canteiros, o que dizer do lago que abriga as ninféias? Mesmo inerte em seu cárcere em forma de pintura, tenho a nítida impressão de que ali posso saciar minha sede.

Assim como os frondosos chorões, tento me debruçar sobre as águas mas a bruma densa me passa a impressão de que o tempo parou. De que o tempo, assim como as flores, é prisioneiro das telas.

Não consigo afastar a impressão de que poderia realmente me banhar naquele lago, sentir o perfume daquelas flores, subir naquela ponte e, dali, contemplar o enevoado nascer do sol.

As impressões estão por toda parte e não consigo mais dissociá-las da realidade. Mas, afinal, o que é a realidade senão uma entre tantas impressões?

Finalmente, fecho meus olhos e mergulho. Melhor ainda, mergulhamos juntos em uma impressionante sensação de paz.

Tenho a impressão de que Monet também já a experimentou um dia…

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As cores do Danúbio…

Ele já nasceu certo de que iria ultrapassar os limites dos seus vales, das suas curvas e do seu leito. Não satisfeito em embalar quem por ele navegava, viu-se transformar em música e passou a desfilar pelos salões que permitira erguer em suas margens. Assim, desde então, faz bailar até quem ainda não o conhece. E quem o ouve de perto, quem dele se aproxima, quem contempla seus reflexos, passa também a reconhecer as notas de seus borbotões, os allegros de suas corredeiras, os adagios de seus remansos. Filho de rio que sou, me encanto com os andamentos perfeitos que seus meandros descrevem.

Desde seu nascedouro, ele teve consciência de que seu destino era seguir em frente.

Seguir, seguir…

As cores em seu percurso explodiram logo cedo, embora seja a negra floresta a guardiã de seu berço.

Nascer, brotar…

Negro também é o mar no qual descansa e onde suas águas emprestam doçura ao sal e ao fel.

Morrer, findar…

Começa sua marcha altiva pelas terras teutônicas como um exército que a várzea invade.

Avança, em paz…

Na Áustria, mais do que rio, se torna valsa. Apesar de suas verdes águas, de outra cor é chamado.

Azul, azul…

E assim também passou a se sentir: um rio azul. Embora tenha sido um vienense quem lhe deu a alcunha, a própria Viena não o acolheu devidamente. Ao contrário, é um mero canal feito pelo homem o responsável por levar suas águas para mais perto dos salões onde é tão apreciado. A música, ali, está mais presente do que o próprio rio. As notas ressoam mais alto que os mirantes. Os acordes são mais ouvidos do que o gorgeio dos pássaros à procura de alimento ao nascer do sol. A audição supera, em muito, a contemplação. Sentindo-se mero coadjuvante, o rio de verdes águas parte em busca de destinos mais acolhedores.
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No percurso pela Eslováquia ele começa a perceber o quanto seu caminho é importante e produtivo. Pequenas aglomerações de casas e antigos castelos se debruçam para admirá-lo. Bratislava chega bem próximo de suas margens mas, assim como Viena, não se volta para ele. Apenas o velho castelo, do alto da colina que o margeia, continua lhe prestando homenagens diárias, em um silente agradecimento que só o rio consegue ouvir. A pequena capital envolve o rio, mas não o abraça. Ainda verde, ele continua seu caminho.
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Em uma última tentativa de se encontrar, o rio se dirige ao sul e conhece os campos da Hungria. Ao adentrar Budapeste, toda a cidade se volta para reverenciá-lo. Ao entardecer, todos os castelos, palácios e edifícios se iluminam para que o rio possa visualizar seu curso mais facilmente. Toda a população da cidade também se dirige às suas margens e o rio consegue perceber o quanto a sua presença é capaz de modificar a vida de toda uma comunidade, de todo um país. Os parques de ambos as lados se tornam mais verdes, os bondes repetem as curvas de suas bordas, as bicicletas apostam corrida com sua correnteza, as pontes se unem e se enfeitam para assistir ao seu desfile. O rio, finalmente, recebe o abraço que tanto aguardara. E assim, envolto em uma felicidade nunca antes experimentada, ele percebe, pela primeira vez, que suas águas mudaram de cor. São agora de um azul intenso, quase mágico. Um azul ainda mais belo do que a célebre valsa que, a partir dali, o Danúbio também começa a cantarolar…
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Conteúdo e forma…

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Existem momentos na vida em que eu daria tudo para não ter dúvidas sobre qual é a frase certa a ser dita, sobre quais palavras podem tocar mais profundamente um pequeno e ansioso coração, sobre qual tom de voz é capaz de exprimir melhor a firmeza e o amor primordiais para que a compreensão seja realmente plena.

Mesmo imerso em incertezas, procuro repetir muitas das palavras que me nortearam e apaziguaram um dia. Ao repeti-las, busco empostar a voz para que, tão somente no meu afã, o tom adotado consiga convocar a doçura que transformava cada frase bem construída em profundo e melodioso aprendizado. Que bobagem! Palavras e maneira de dizê-las continuam únicas e inimitáveis. E apenas ecoam na minha memória como um dialeto para o qual não há tradução ou, pelo menos, como uma língua de dublagem limitada em que o som do amor, tão evidente na versão original, jamais se reproduz.

Queria tanto que ele pudesse estar aqui para demonstrar, mais uma vez, conteúdo e forma. Queria tanto que ele fosse capaz de novamente transmitir tolerância, força e confiança ao pequenino coração. Queria tanto que o toque de suas mãos voltasse a findar o desamparo dos ombros. Queria tanto que sua simples e breve presença transformasse outra vez dúvidas em certezas, questionamentos em afirmações, ríspidos monólogos em suaves duetos de amor.

Existem momentos na vida em que eu daria tudo para que ele estivesse aqui novamente…

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Lula e seus reflexos…

O autoproclamado homem mais honesto do país pode até não ficar muito tempo na cadeia mas, em menos de uma semana, sua prisão já foi suficiente para confirmar expectativas e desmistificar previsões.

Desde a última sexta-feira, como se esperava, o Brasil vem testemunhando demonstrações de fanatismo explícito protagonizadas pelos seguidores do deus Lula. As vigílias em São Bernardo e em Curitiba, as lágrimas derramadas, os choros convulsivos, os escudos humanos que tentaram impedir sua entrega ao cárcere, os discursos inflamados de servos e adoradores, as ofertas de companhia e amparo nas frias masmorras do sul, os mantras repetidos palavra por palavra pelos seguidores de olhos vidrados e, hoje, a inclusão da alcunha “Lula” nos nomes de parlamentares e militantes. Os seis primeiros dias até aqui mostraram ao país que o conhecido estupor dos integrantes da seita realmente não conhece limites.

Por outro lado, onde está a convulsão social vaticinada pelos defensores do preso? Onde estão os corpos dos bravos oponentes abatidos previstos por Gleisi? Onde estão as cinzas de um Brasil incendiado profetizado por Lindberg? Onde está o povo que iria tomar as ruas de Curitiba para retirar seu mártir das garras golpistas da polícia? Onde estão os órgãos internacionais, os países irmãos, os exércitos bolivarianos que não permitiriam que tal atentado à democracia viesse a ocorrer?

A verdade é que o país, com todas as suas mazelas e dificuldades, segue seu rumo, independente da prisão de Lula. O adorado deus de muitos, o demônio personificado de outros tantos, na verdade não passa de mais um para a maioria. A cegueira imposta aos membros da seita é tão restritiva que eles não conseguem perceber o quão desamparados estão. Gritam, exigem, ameaçam, interrompem vias, invadem propriedades, tudo na desesperada tentativa de parecerem mais numerosos e bem mais corajosos. Pagam e transportam manifestantes a cada novo protesto, inflam balões vermelhos que ocupam espaços vazios, incendeiam pneus para que suas altas chamas disfarcem o pequeno número de responsáveis pelos atos. Não permitem, de forma alguma, que o nefasto templo de adoração que construíram seja implodido. Templo que já viu suas fileiras apinhadas de admiradores e hoje sofre com alas inteiramente vazias.

Por tudo isso, não me importa que a vigília lulista continue junto à sede da Polícia Federal em Curitiba, que se preservem os rituais lulitúrgicos em que o rebanho de lulacéfalos repete as palavras desconexas do grão-lulamestre de plantão, que os polulíticos mantenham seu ataque diário ao sistema judiciário do próprio país que pretendem governar, que os jornalulistas multipliquem suas mensagens de Whatsapp e os textos de seus lulogs antifascistas, que os lulartistas continuem compondo canções ou performando novas e inclusivas apresentações lulabstratas, que os pelulegos descarreguem seu estoque de pneus nas vias públicas e, principalmente, que o nome “Lula” passe mesmo a identificar cada um dos membros da seita. Aliás, quem sabe assim, nomes dados aos parcos bois – ou lulas – eles possam finalmente mensurar o número cada vez menor de companheiros ainda dispostos a restringirem voluntariamente a capacidade de seus cérebros!

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A proporção de Lula…

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O seguinte comentário foi postado por um amigo petista: “Vocês nos acusam de idolatrar o Lula mas os obcecados por ele são vocês. Dizem que querem todo corrupto na cadeia mas é só dele que falam. Ouçam o foguetório e o buzinaço pela sua prisão. Isso jamais aconteceria em uma condenação do Aécio, do Temer, do FHC. Lula protagonizou o grande espetáculo desta noite de sábado em todas as mídias. Vocês jamais agiriam assim se o político fosse outro. Tudo isso é prova do quanto Lula está sendo perseguido e injustiçado”.

Aproveito, portanto, essa boa oportunidade para responder ao meu amigo e tentar discorrer sobre essas questões de uma forma mais abrangente.

Sim, caro amigo, somos obcecados pelo Lula. Não soltaríamos mesmo tantos foguetes e nem sairíamos tanto às ruas se o personagem fosse diferente, mesmo que igualmente corrupto. Não faríamos tantos textos no Facebook, nem tão contundentes. Também não ficaríamos tantas horas frente à TV esperando o simples cumprimento de um mandato judicial. Nossas atitudes definitivamente seriam diferentes se os envolvidos fossem outros.

Entretanto, você ainda não entendeu que a razão do nosso comportamento confessamente parcial não é o Lula. A razão, caro amigo, é você. Sim, você e todos os seus companheiros de seita que veneram uma pessoa como se um deus ela fosse. Que não admitem, nem por um milésimo de segundo, a mera possibilidade de que o tal deus tenha praticado qualquer ilícito ao longo de sua vida. Mesmo com seu governo envolvido em esquemas de corrupção bilionários, vocês afirmam categoricamente que ele não tinha conhecimento de nada. Não adiantam as delações, fotografias, documentos, provas, nada. Nada é capaz de mudar sua visão. Como podem seguir alguém tão cegamente, sem pensar, sem raciocinar, quase como zumbis? E quem dera vocês fossem poucos. Não haveria motivos para preocupações. Mas vocês compõem uma parcela considerável da sociedade. Estão muito longe da maioria que propagam ser mas, ainda assim, são barulhentos e numerosos. E sabe o que é pior? Vocês votam. Não, não se trata de preconceito. É um fato. Vocês certamente votariam no Lula novamente se pudessem. Esse é o grande risco, entende?

Apenas para tentar ser o mais claro possível, tomemos como exemplo o Aécio, que considero um corrupto, delinquente, marginal, um bandido profissional. Sei que você concorda comigo. E aqui poderia ser o Temer, o Cunha, o Jucá, qualquer um. Você sabe qual é a chance do Aécio ser eleito presidente? Zero. Você sabe quantas pessoas se colocariam na frente da polícia para tentar impedir uma eventual prisão dele? Zero. Você sabe quantos eleitores o chamariam de injustiçado, de perseguido, de guerreiro do povo brasileiro? Zero. Por isso, meu amigo, torço demais para que o Aécio e todos os demais façam companhia ao Lula o mais rapidamente possível, mas a verdade é que Aécio, por mais mau caráter que seja, não representa um perigo iminente para o país. Você sabe que, quando um grande perigo é afastado, é normal que as pessoas comemorem mais efusivamente do que quando um risco insignificante deixa de existir. É isso que está acontecendo agora. Lula é um grande perigo. E Lula é um grande perigo, caro amigo, simplesmente porque você existe para defendê-lo!

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