A festa que Rosa impediu…

O senador anfitrião foi o primeiro a chegar. Inquieto, excitado e com uma fome quase incontrolável, dirigiu-se à mesa de comida mineira que aguardava os convidados da noite. Ele passara os últimos dias alternando reuniões exaustivas com sessões de meditação auto-induzida, feitas na companhia de alguns de seus amigos mais próximos. Agora ele desejava apenas relaxar e celebrar com companheiros de longa data, boa música, bebidas caras e, claro, várias outras sessões de meditação. Tinha trabalhado arduamente para ver o dia de hoje finalmente materializado e, depois de muito tempo, voltava a sentir orgulho de si mesmo. Há pelo menos dois anos ninguém o via sorrir daquela forma. Finalizado o segundo prato de feijão tropeiro com lombo suíno, virou-se para o maître:

- Alguém deu alguma notícia?

- Estão todos chegando, senador. O senhor já quer que eu providencie a champagne?

- Sim, imediatamente.

Logo depois, a porta principal se abriu e um enorme alarido de vozes e gargalhadas ecoou pelo salão. Evidentemente radiantes com o desenrolar dos acontecimentos do dia, os convidados iniciaram a noite com um brinde regado a Don Perignon safra 2014. Geraldo, Gleisi, Farias, Serra, Renan e Fernando se confraternizavam como se fossem amigos que se reencontravam depois de anos.

Michel, evidentemente, foi o último a chegar. Aplaudido de pé, agradeceu a todos indistintamente, mas piscou discretamente para Romero que acabou por perder o terno momento de cumplicidade, pois já deixara a champagne de lado e iniciava uma nova incursão pelos sabores de um Chivas 18 anos.

Em um canto da sala, o grupo de Marcelo, Leo, Joesley e outros grandes empresários voltava a se reunir. Mais importante ainda, falavam em voz alta, adotavam um tom altivo, deixavam de lado os ultrajantes sussurros que se tornaram regra nos últimos quatro ou cinco anos. Regalias de quem não tinha mais nada a esconder.

Naquele momento, o anfitrião chamou a atenção de todos para um anúncio importante:

- Senhores, por favor. Acabo de falar por telefone com Sérgio, Eduardo e Antônio. Eles estão emocionados pelo fato da justiça, finalmente, ter sido feita e prometem que estarão pessoalmente conosco na próxima celebração.

A turba rompeu em calorosos aplausos, entremeados pelos elogios à resistência que os três demonstraram diante das calúnias e humilhações sofridas nos últimos anos. Que dia memorável!

Antes das oito da noite as luzes foram reduzidas e um grande telão desceu em local visível a todos. Começava o esperado discurso comandado pelos dois membros do grupo que não puderam estar presentes naquela celebração. Ambos apareceram diante de uma multidão eufórica. Milhares de pessoas portando camisas e bandeiras vermelhas choravam compulsivamente assistindo ao emocionado discurso de um Luís leve e solto, sempre ao lado de sua inseparável companheira. Sua voz estava mais grave do que nunca e, em seu carismático discurso, os nomes de muitos daqueles que acompanhavam pelo telão foram mencionados, sempre seguidos dos adjetivos “golpista”, “fascista” e “coxinha”. Nesses momentos, o barulho das gargalhadas no salão repleto conseguia abafar inclusive o som dos gritos estridentes vindos dos milhares presentes ao comício.

O orgulhoso anfitrião não conseguia se conter de tanta felicidade. Pouco depois, virou-se ele para o maître:

- A minha encomenda especial já chegou?

- Sim, senhor. As duas toneladas de mortadela italiana fatiada estão no caminhão frigorífico.

- Excelente. Quero que ela seja distribuída agora aos manifestantes presentes ao comício dos nossos companheiros. Não preciso dizer que ninguém pode saber quem a estará oferecendo, não é?

- Certamente que não, senhor. Mais alguma coisa?

- Sim. Mande meu motorista me apanhar na saída em dez minutos.

- O senhor não vai ficar até o final da festa?

- Não posso. Tenho um jantar marcado com um velho e querido amigo na primeira classe do próximo vôo para Lisboa.

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O mecanismo…

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Aécio Neves é um cafajeste corrupto que iria enterrar a Lava Jato caso tivesse vencido as eleições de 2014. Foi a reeleição de Dilma Rousseff que permitiu que a operação tivesse sequência e continuasse prendendo tanta gente importante. O impeachment de Dilma foi um golpe arquitetado pelo Aécio, em conjunto com o Temer e que contou com a parcialidade da grande mídia brasileira. Seu objetivo principal sempre foi o fim da Lava Jato. Fernando Henrique Cardoso foi eleito com recursos oriundos de propina das empreiteiras que superfaturavam obras públicas. E Sérgio Moro é um juiz cuja característica mais marcante é a sua indisfarçável vaidade.

As impressões e afirmações acima foram feitas na série da Netflix “O Mecanismo”, cujos oito episódios da primeira temporada acabei de assistir nesta madrugada, em uma maratona de quase sete horas. Na verdade, os nomes dos personagens são outros na série, até para nos lembrar que, embora baseada em fatos reais, trata-se de uma produção fictícia. Aliás, quase todos os nomes foram alterados, inclusive os das instituições. Os únicos nomes mantidos foram o da operação, que continua sendo chamada de Lava Jato, e o do país, que continua sendo chamado de Brasil, numa clara indicação do que realmente importa para os produtores.

Mas o que mais me impressiona é que, mesmo com tantas afirmações e conclusões alinhadas ao pensamento de petistas e simpatizantes, a maior parte deles continua trabalhando para a proibição de veiculação da série, em mais um hipócrita arroubo de censura seletiva. Dilma, Lula, senadores, deputados, artistas e militantes do partido já se manifestaram com ameaças e convocações de boicote. E os manifestantes ainda têm a audácia de admitir que só assistiram a trechos da produção. Como fantoches treinados, concentram suas críticas na frase do Jucá que sai da boca do Lula. Pois tenho uma novidade para vocês, meus queridos: não é o Lula quem diz isso na série. É um personagem fictício chamado Higino.

Evidentemente, petistas e afins se revoltaram ao reconhecerem seu imaculado partido e seus sacrossantos membros envolvidos em um mecanismo que domina o país em todos os seus níveis. Como se o mecanismo pudesse funcionar sem a participação deles. Como se toda a engrenagem que superfatura preços, arrecada recursos, alimenta campanhas e elege governantes pudesse acontecer se os deuses do partido não tivessem a menor ideia de sua existência. Quem acredita nisso tem mesmo que criticar uma série fictícia que se aproxima da realidade. Afinal, já vivem em um mundo de ficção construído por outros diretores e roteiristas, bem mais criativos e melhor remunerados.

Portanto, tenho um conselho para vocês, caros petistas e simpatizantes: antes de continuarem a se comportar como fantoches, assistam à série. É ótima, é bem feita, tem excelentes atores, tem personagens muito bem construídos apesar dos comentários dos críticos “imparciais” que recomendaram aos seus leitores o cancelamento de suas assinaturas da Netflix. Além disso, tem um ótimo roteiro que MISTURA verdade e ficção. Por isso, antes de criticarem, assistam, avaliem, concordem, discordem, mas, acima de tudo, pensem por si próprios. Bem, perdoem-me pelo exagero, sei que agora estou pedindo demais!

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As dúvidas de Rosângela…

A diretora da escola entra na sala e pede licença para falar com uma das alunas.
– Rosângela, você pode vir à minha sala por um instante?
Assustada, a aluna de 14 anos de idade acompanha a diretora até o quinto andar da instituição. Assim que entram na sala, e antes mesmo de se sentarem, a diretora faz a primeira pergunta com evidente ansiedade:
– Então, querida, já se decidiu?
Na semana anterior, Rosângela havia sido nomeada pelos seus colegas como a representante da escola em um debate muito importante. A Prefeitura havia solicitado que os alunos, através de seus representantes, definissem se as diretorias das escolas municipais deveriam passar a ser eleitas pelos próprios alunos, ou se continuariam a ser indicadas pelo poder público, como era de praxe. Mas os representantes deveriam respeitar todas a Lei Orgânica do Município, cujas cláusulas não poderiam, de forma alguma, ser descumpridas. O município era pequeno, com apenas onze escolas municipais em funcionamento. A diretora sabia, àquela altura, que os outros dez representantes já tinham decidido seus votos. E eram cinco votos a favor da eleição direta e cinco contrários. O voto de Rosângela iria selar o destino de muitas pessoas. A própria diretora, que sempre fora amiga dos políticos da região, nunca se importara com a qualidade do ensino na sua escola, ou com a lisura de seus atos administrativos. Saía prefeito e entrava prefeito, seu cargo de diretora estava sempre garantido. E, por isso, a pressão sobre Rosângela aumentava a cada instante.
– Ainda não, D. Luíza – Rosângela sussurrou baixinho – tenho muitas dúvidas ainda.
– Vou ajudá-la a esclarecer todas elas, querida. Primeiro, você sabe que a Lei Orgânica não permite esse tipo de eleição, não é? Há uma cláusula que diz claramente que a indicação deve vir do prefeito.
– Sim, senhora, eu sei. Mas essa cláusula não é tão clara assim. Ela diz que a indicação deve vir da autoridade máxima do município. Quase todo mundo interpreta que essa autoridade é o prefeito, mas eu não estou totalmente convencida. Será que a autoridade máxima do município não é o povo? Afinal, foi o povo que elegeu o prefeito.
– Que bobagem, querida! Isso não tem cabimento. A eleição já passou. A maior autoridade só pode ser o prefeito.
– Pois é, já olhei por esse lado também. Por isso é que estou com tantas dúvidas. Acho que uma eleição direta, de pessoas que a gente conhece de perto, que a gente sabe que vai dirigir a escola com critério e cuidado, seria muito boa para a nossa escola e para todos os alunos.
– Não interessa o que poderia ser. A lei não pode ser modificada. Além do mais, você está dizendo que eu não sou uma boa diretora, menina?
– Não, não disse isso de forma alguma, D. Luiza – respondeu Rosângela, mais assustada do que nunca.
Neste momento, o coordenador do ensino fundamental que ouvia a conversa da sala ao lado, decide entrar na sala da diretora.
– Com licença, D. Luíza. Acho que seria adequado que eu também acompanhasse a reunião, a senhora não acha?
A diretora abaixa a cabeça e não responde.
– Boa tarde, Rosângela. Tudo bem por aí?
– Acho que sim – balbucia a garota, aliviada pela presença de alguém em quem confiava.
– Eu estava ouvindo a conversa e queria lhe dizer uma coisa muito importante.
– O que?
– A decisão, seja ela qual for, tem que ser sua, tem que ser baseada exclusivamente na sua consciência.
– Obrigada, sr. Sérgio.
– Pelo que ouvi, para você não há dúvida alguma sobre o que é o mais justo, não é?
– Exato. Se não houvesse a questão da Lei Orgânica não teria dúvidas de que a eleição direta seria muito mais benéfica para o município.
– E você também diz que a cláusula da Lei poderia ser interpretada de formas diferentes, não é?
– Sim, mas não tenho certeza disso.
– Mas essa é uma decisão que você vai ter que tomar. Ela é sua e de mais ninguém. Neste momento, você tem que decidir o que é mais importante para você, Rosa.
Ela gostava quando ele a chamava de Rosa.
– Rosa, o destino da nossa escola e do nosso município está em suas mãos! Qual será o seu voto, Rosa?

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O dia da felicidade…

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Vinte de março! O que ainda falta ser descoberto sobre o dia de hoje? A cada ano, novos simbolismos são adicionados a uma data que sempre foi a mais especial da minha vida. Afinal, este dia marca o nascimento da luz que viria, um dia, iluminar os meus caminhos. Que viria adicionar cores a um mundo dominado pelos tons pastel. Que viria acrescentar temperos a uma existência carente de emoções arrebatadoras. Que viria dar confiança e vigor aos passos costumeiramente hesitantes do início da caminhada. Que viria repartir sonhos, sorrisos, lágrimas e objetivos, transformando-os em berços de novos significados. Que viria dividir comigo a dádiva da formação de novas vidas, novas trilhas, novos passos. Que viria dar sentido, estabelecer rotas, indicar direções. Que viria fundar polos de alegria, união e amizade à sua volta. Que viria brilhar incondicionalmente e, assim, também fazer brilhar quem com ela estivesse.

Em anos passados, já tive a oportunidade de mostrar o quanto o dia de hoje é especial até para o sol, que neste momento ilumina a todos com o mesmo brilho e com a mesma intensidade. Já dissertei sobre como o dia de hoje marca o início da minha estação favorita, reconhecida pelas temperaturas mais amenas, pela elegância das posturas e dos olhares, pelos vinhos mais encorpados. Já agradeci à Vida pelo meu sonho de mulher ter se tornado realidade nesta data.

Pois não é que acabo de descobrir que, desde 2013, hoje é celebrado o Dia Internacional da Felicidade? Segundo a ONU, a comemoração tem o objetivo de promover a felicidade entre os povos do mundo, evitando os conflitos sociais, étnicos ou qualquer outro tipo de comportamento que ponha em risco a paz e o bem-estar das sociedades. A escolha da data não poderia ter sido mais apropriada mas, ONU, convenhamos, vocês só descobriram isso em 2013? Eu sempre soube…

Fiquei pensando sobre os muitos outros valores que também poderiam ser comemorados no dia de hoje. O Dia da Alegria seria perfeito, mas momentos alegres são efêmeros, mesmo que frequentes, e a força dela é perene. O Dia da Justiça seria outro muito adequado, mas, paradoxalmente, seria cometida a injustiça de se deixar de fora a disponibilidade, a lealdade, a ternura. O Dia da Inteligência cairia como uma luva, mas, muito restritivo ao brilhantismo do cérebro, acabaria por relegar a segundo plano os valores do coração, a bondade, a generosidade, a grandeza do caráter. Não, o valor símbolo do dia de hoje teria mesmo que ser amplo, imensurável, completo em si, assim como a felicidade. Assim como a felicidade plena que só ela é capaz de irradiar.

A verdade é que, não fosse hoje o Dia da Felicidade, este só poderia ser chamado de Dia do Amor. E é. Sempre foi. E eu também sempre soube. A ONU apenas ainda não descobriu…

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Sonhos de B a Y…

Quase instantaneamente após a ocorrência de mais um crime bárbaro no triste cotidiano do país, as primeiras sentenças já foram proferidas no tribunal do abecedário. Enquanto a maioria das turmas apenas lamenta e aguarda as investigações, turmas A e Z apontam, sem nenhum constrangimento, os autores da execução.

Os membros da primeira colocam a culpa na própria vítima e nos bandidos que, segundo eles, ela defendia. Mulher de traficante, eleita com campanha patrocinada por gangues, apenas colheu o que plantou. Quem trabalha com criminosos, não poderia ter mesmo outro fim. Foi morta pelos mesmos marginais que, por tantas vezes, ela chamou de vítimas da sociedade, de merecedores de uma segunda chance, de gente explorada por um sistema capitalista injusto e cruel. No final, a maior vítima acabou sendo ela mesma. Nada mais justo.

Os membros da turma Z, ao contrário, já decidiram que ela foi morta pela polícia opressora que só mata mulheres, negros, pobres e homossexuais. Foi morta inclusive com a conivência do exército que chegou há pouco e já mostrou a que veio. Gente que mata com prazer, no intuito de manter a sociedade oligarca vigente no país nos últimos 500 anos. Foi morta porque sempre denunciou a perseguição que uma classe apartada da sociedade sempre sofreu. Sua morte demonstra de maneira cristalina o quanto é necessário o fim da polícia racista que impede a existência de um estado de direito verdadeiramente justo. E sua figura agora alcançou a alcunha de mártir de uma revolução que não pode mais ser postergada.

Sentenças proferidas, turmas A e Z aguardam com ansiedade as investigações e alardeiam quaisquer pequenos indícios que indiquem uma direção ou outra. Indícios que podem ser absolutamente falsos, afinal, para elas, justeza e coerência não têm a menor importância neste caso. Aliás, têm em algum?

Como sempre acontece, caso as investigações oficiais caminhem para uma teoria ou outra, mesmo que moderadamente, o arsenal de comemorações já está preparado. Quem “vencer” esta batalha já tem sua estratégia preparada. Um arsenal de links, memes, textos e dados celebrando a “vitória” já está sendo montado. Ao “perdedor”, caberá também a preparação de outro arsenal, que irá envolver denúncias da parcialidade das apurações, ataques às reputações dos investigadores ou, em última instância, esquecimento voluntário de uma vítima que não mais se presta à causa. A verdade, aqui, é o que menos importa.

E, enquanto isso, no abecedário, as turmas de todas as demais letras sonham com o dia em que todas as palavras poderão ser escritas sem as letras A e Z. Será que é sonhar demais?

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Trans formação…

Na fila do caixa do supermercado, pai e filha aguardam sua vez…

- Papai, olha só que moça alta e forte ali de costas no outro caixa.

- Já lhe disse que é feio ficar falando dos outros.

- Mas, pai, ela é muito grande.

- Filha, com certeza aquela moça é, na verdade, um rapaz.

- Um rapaz? Ele está fantasiado de mulher?

- Não é fantasia. É que ele não quer mais ser um rapaz. Ele quer ser uma mulher.

Neste momento, uma jovem que ouvia a conversa não se contém e diz:

- O senhor não tem vergonha de dar uma explicação machista e misógina como essa para sua própria filha?

- Machista e misógina? Que bobagem é essa?

- O que é misógina, papai?

- Depois, filhinha.

- Ela não é um rapaz. Ela nunca foi um rapaz. E também não “quer” ser uma mulher. Ela sempre foi uma mulher guerreira e empoderada que nasceu no corpo errado.

- Pois, que eu saiba, esse corpo errado é masculino, não?

- O que é empoderada, papai?

- Mais tarde, filha.

- Eu tenho nojo de homens como você. Aliás, eu tenho nojo dos homens.

- Olha aqui seu projeto de dirigente da UNE, eu acho que todo mundo deve buscar ser feliz da forma que quiser. Não me interessa se ela é trans, cis ou o escambau. Só respondi a pergunta da minha filha.

- O que é trans, cis e escambau, papai?

- Agora não, querida.

- Nada disso, seu retrógrado filhote da ditadura. Você está tentando implantar no cérebro desta pobre menina conceitos deturpados oriundos de uma sociedade branca, ultrapassada, conservadora, oligarca e patriarcal.

- Pai, o que é oligarca e patr…

- Agora não, já disse!

- Muito pelo contrário, ô cruzamento de Márcia Tiburi com Gleisi Hoffmann. Estou dando à minha filha o direito de pensar por si própria, e não se ater a conceitos ditados pela cartilha do politicamente correto insuportável que tira a liberdade individual de cada um e a coloca nas mãos de um grupinho que dita regras com a mesma facilidade com que defeca em praça pública.

- Discurso de bolsominion, como sempre. Eu sabia. Sei reconhecer um fascista a quilômetros de distância.

- O que é fascista, papai?

- Filha, quantas vezes tenho que diz…

- Rubens? – interrompe a moça grande e forte aproximando-se do incrédulo trio – há quantos anos. Você está ótimo. Que bom te rever. Até a próxima.

A discussão termina e todos se entreolham estupefatos.

- Você conhece o rapaz, papai?

- Verônica – balbucia o pálido pai – minha primeira namorada na adolescência. Ela cresceu, né?

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O quadro…

- Que quadro magnífico, não acha?

- Muito bonito. Mesmo não sendo fã de arte abstrata, gosto das cores e do movimento das pinceladas.

- Meu caro, não se trata de arte abstrata. É bastante evidente o quadro que o pintor quis retratar.

- E parece que conseguiu, não é? Porque estamos diante de um quadro.

- Estou me referindo a quadro no sentido de paisagem, de cenário.

- Ah, tá…

- Repare nos tons. Note como o azul do céu se debruça sobre o verde da relva. E os pequenos pontos escuros formam um quadro nítido.

- Não é todo o conjunto que forma o quadro?

- Estou falando sobre o quadro de pessoas reunidas, aquele grupo de alunos ao lado da escola, entendeu?

- Não estou vendo nem a escola, quanto mais o “quadro” de alunos.

- E o quadro vazio diz tudo…

- Quadro vazio? Eu posso não estar vendo a escola mas este quadro tem tinta de cima a baixo.

- Meu incauto amigo, me refiro à lousa dentro da sala de aula, ao quadro-negro, vazio e danificado como na maioria das escolas do país.

- Ah, tá…

- E nem poderia ser diferente, o pintor sempre fez parte do quadro…

- Ah, vai me dizer agora que um dos pontinhos escuros é o pintor.

- Meu Deus, não. O que eu quero dizer é que o pintor sempre pertenceu ao quadro de artistas engajados que usam seu talento para denunciar as injustiças sociais no Brasil.

- Ah, tá…

- É o tipo de quadro que me emociona…

- Você está falando agora do quadro de artistas, do quadro de alunos, do quadro-negro, do quadro cenário ou desta porcaria de quadro cheio de tinta misturada?

- Estou falando do quadro Brasil, tão bem retratado neste quadro.

- Ah, tá…

- Este quadro reflete de forma perfeita todas as mazelas que temos sofrido.

- Reflete, é? O quadro virou espelho agora?

- Os quadros sempre foram espelhos de suas épocas, você deveria saber disso.

- Ah, tá…

- Você não se preocupa com este quadro?

- Deveria? Acho que ele está bem guardado aqui na galeria.

- Como é difícil conversar com gente inculta. Estou falando do triste quadro atual do país.

- Ah, tá…

- E o pior é que o quadro tende a piorar ainda mais.

- Ah, agora eu concordo inteiramente com você. Tenho até uma sugestão pra lhe dar.

- Verdade? Qual?

- Vai procurar aquela que o pariu no quadro de putas mais próximo!

- Ah, tá…

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Entrevista presidencial…

- Boa noite, presidente. Podemos começar a entrevista?

- Podemos sim, Monica. É um prazer recebê-la, querida.

- O prazer é todo meu, presidente. Bem, começo perguntando se é dificil conviver diariamente com tanta pressão.

- Ah, um inferno! Nenhum ser humano foi tão perseguido neste país quanto eu. Mas não vou me matar nem fugir do Brasil. Vou brigar até o fim.

– E quanto à sua candidatura?

- Não abro mão dela, querida. Meu nome estará na urna eletrônica no final do ano, custe o que custar.

- Mas, presidente, tem muita gente que aposta que essa candidatura não vai se concretizar…

- Na verdade, tem gente que torce porque sabe que eu vou ganhar novamente. Mas ninguém vai me fazer desistir. Já mudei este país uma vez e sei que posso ajudar a mudá-lo novamente.

- Mesmo com todos os escândalos de corrupção que ocorreram em seu governo?

- Querida, você tem filhos? Sabe o que cada um deles está fazendo agora? Pois é. Eu também não tinha como controlar isso. São muitos cargos indicados por muitos partidos.

- Sinto um certo arrependimento com a formação da sua base aliada, presidente…

- Só me arrependo de não ter percebido quantas pessoas desleais estavam à minha volta, querida. Principalmente aquele que vivia dizendo que jamais me abandonaria.

– O Palocci, presidente?

– Não, Monica. O Lula, é claro!

- O Lula? Achei que ele fosse seu amigo de verdade, presidente.

- Já passei da fase de fingir companheirismo, querida. Ele nunca gostou de mim. Só me elegeu para que eu guardasse o lugar dele no Planalto. Ainda bem que não deixei. Depois da eleição me deixou sozinha com os pepinos todos. Deve ter ficado cuidando do instituto, do sítio, do triplex, sei lá. E ainda colocou aquele vampiro como meu vice duas vezes. Uma pessoa que faz isso pode ser meu amigo? Não, aquilo ali não presta. Mas ele vai passar a ver o sol nascer quadrado muito em breve. É um calhorda, um filho da p…

- Bom, acho que está na hora de encerrar a nossa entrevista, presidente.

- Mas eu ainda não falei das minhas propostas para o senado. Vou incentivar as pesquisas para estocagem de vento, vou propor a criação do dia nacional das vítimas de golpe, vou inaugurar o memorial da mandioca…

- É, pelo visto a senhora continua workalcoolic como sempre. Boa noite, presidente!

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O Carnaval 2018 informa…

Muita atenção, senhoras e senhores. Informamos que, por falta de jurados, o nosso grande concurso de fantasias não será mais realizado neste Carnaval. Havíamos convidado oito dos mais proeminentes nomes da cultura brasileira atual. Entretanto, ao verem as fantasias inscritas na disputa, todos eles se recusaram a participar.

Como não poderia deixar de ser, a filósofa Márcia Kiporri foi a primeira a sair correndo da raia. Ela alegou que a fantasia de “Rei Arthur” era vilipendiosa pois o ente lendário não passa de um ser abjeto de formação subjetiva. Um embusteiro que, usando como metáfora uma espada que só ele é capaz de carregar, representa ardilosamente toda a opressão característica do patriarcado ocidental capitalista. Tentamos explicar a ela que a fantasia, na verdade, era do “Pequeno Príncipe” mas ela se recusou a ouvir e disse, através de mímicas, que não conversava com fascistas.

A segunda celebridade a desistir foi o mais novo e aplaudido intelectual brasileiro, Alexandre Chacota. Segundo ele, a fantasia de “Soldadinho de Chumbo” era uma representação boba e infantil da única instituição que merece a nossa inteira confiança nos dias de hoje: o exército brasileiro. Informamos a ele que a fantasia era baseada em um conto de Hans Christian Andersen mas ele nos disse que não estava a par das novas produções do mercado erótico já fazia algum tempo.

Já o deputado Jean Bullying afirmou que a fantasia “Branca de Neve e os Sete Anões” era evidentemente racista. Não apenas pelo nome duplamente albugíneo da única mulher presente mas pelo fato de, em grupo de sete homens, nenhum deles ser negro, nenhum deles ser gay, nenhum deles ser trans, nenhum deles ser pobre, nenhum deles ser portador de deficiência (ser anão não é deficiência, seu preconceituoso), nenhum deles ser refugiado e nenhum deles ser fã de Pabllo Vittar. Tentamos dissuadi-lo da desistência mas, como resposta, ele cuspiu em um dos nossos produtores e, antes de sair, gritou em alto e bom som: “canalhas!”

O famoso cantor Caetano Meloso também não deixou de se posicionar. O motivo da desistência foi uma fantasia intitulada “Álcool e tabagismo, os grandes males da atualidade”. Segundo ele, a fantasia poderia passar a falsa ideia de que o consumo de baseados, enquanto expressão legítima da representatividade humana no contexto do autoconhecimento coletivo, pode ser prejudicial a alguém. Coincidentemente, seu grande amigo, Chico Lularque, também saiu por discordar da mesma peça. O motivo alegado por este, entretanto, era de que a fantasia trazia a imagem de uma garrafa de cachaça, numa clara e inaceitável referência ao seu ídolo, o ex-homem mais honesto, Luís Sicário da Silva.

O “web influencer” Kim Katafora foi o próximo. Ele se recusou a participar da competição por causa da criativa fantasia “Eva em um Paraíso sem Adão”, curiosamente a única que mereceu elogios rasgados de Márcia Kiporri. Segundo Kim, Eva e a cobra sozinhas no Paraíso representavam uma distorção esquerdopata do tradicional conceito de família além de materializarem uma evidente apologia à zoofilia.

Já o ativista Guilherme Tolos afirmou que a fantasia de “Juiz Moro” era um acinte. Um juíz que protagonizou o maior golpe dado contra a democracia brasileira não era digno de ser lembrado em qualquer manifestação popular. Tentamos alertá-lo que, na realidade, se tratava de uma fantasia histórica sobre a “Raiz dos Mouros”, mas ele já tinha saído para ocupar o Sambódromo.

E, por último, o grande gênio moderno Gilberto Esquerdein, editor do site Babaca Livre, se recusou a ser jurado do concurso porque nenhuma das fantasias concorrentes era de super-herói, de unicórnio ou de plantas, as únicas que ele recomenda, permite e respeita!

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Aflições do Uber…

Alguém me disse hoje que os motoristas de Uber dão notas aos passageiros.
– Você se confundiu – disse-lhe eu. Nós é que damos notas aos motoristas ao final da viagem.
– Sim – ele concordou. Mas o motorista também avalia e dá nota a cada solicitante. A média das suas notas fica disponível no perfil do seu aplicativo.

Meu coração gelou. Aquilo me parecia inconcebível. Recusei-me a acreditar que tivesse andado sub judice por anos a fio. Como não me dei conta? Por que não fui comunicado? Não posso concordar com uma avaliação imposta, antidemocrática, quase fascista, sem que eu esteja a par dos termos do julgamento. Se tivessem me informado devidamente, teria tido a chance de, pelo menos, tomar um banho antes de entrar nos domínios do avaliador ou, quem sabe, levar alguns copinhos de água gelada como cortesia, ou me inteirar das propostas de leis restritivas aos aplicativos e criticá-las com maior veemência nas conversas ao longo dos diversos itinerários. Quantos pontos preciosos deixei de ganhar.

Tentei me lembrar de cada uma de minhas viagens. Impossível, eu sei. Será que fiquei em silêncio na maior parte do tempo, dando a chance ao meu antagonista de me julgar orgulhoso ou prepotente? Ou, quem sabe, será que falei demais ao celular, dando todas as oportunidades do mundo para que ele me avaliasse pelo meu tom de voz, minha gargalhada muito alta, ou meu olhar de impaciência ao atender uma ligação? O fato é que eu não estava preparado. Todo mundo tem o direito de se preparar antes de se submeter a qualquer avaliação. Não gostava de provas surpresas nem quando estava na escola. Um pesadelo como esse não poderia se repetir na vida adulta.

Não, não é justo que eu sofra toda esta angústia. Não é justo que a situação não tenha ficado clara para ambas as partes. Eu e o motorista estivemos, durante todo esse tempo, em posições flagrantemente desiguais. Afinal, ele sempre soube que estava sob a minha avaliação. Ele teve a chance de limpar o carro, de escolher a trilha musical que iria ser tocada, de se atualizar sobre os assuntos mais comentados no dia, de esconder embaixo do banco a flâmula do seu time de futebol para não correr o risco de ofender um rival logo de cara. Eu não sabia de nada. E agora começo a me martirizar tentando me lembrar se já peguei um Uber vestindo a camisa do meu time. Minha nota pode ter despencado por conta disso…

Bom, não adianta mais lamentar. As notas foram dadas e só posso chorar pelas oportunidades perdidas. Por todas as chances que tive de não ser eu mesmo. E a vida passa tão rápido…

Abro o aplicativo com as mãos trêmulas. Leio a tradicional pergunta “para onde” e penso: “para o diabo que o carregue”. Busco me acalmar e abro o menu no canto superior esquerdo da tela. Vejo meu nome em letras grandes. A nota está logo abaixo mas tento desviar o meu olhar. Tarde demais, lá está ela: 4,9.

Não consigo conter uma lágrima de alívio. Foram muitas emoções para um só dia. Abro a geladeira e pego uma cerveja para tentar relaxar. Antes de fechá-la, entretanto, coloco dez garrafinhas de água mineral para gelar…

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