Juntos…

Sento-me finalmente na poltrona do avião que, assim espero, em pouco mais de onze horas estará pousando no Brasil. Vôo de volta, de final de férias, último refúgio antes dos problemas que deverão ser encarados ao longo dos próximos dias.

Meu ânimo já cambaleante começa a desmoronar quando percebo que, no pequeno espaço entre os meus joelhos e as costas da poltrona à minha frente, cabe apenas um exemplar da revista de bordo. E sem o encarte das ofertas do free shop. Bom, agora não cabe mais pois a passageira da frente resolveu reclinar seu encosto antes mesmo da decolagem. Cogito a hipótese de avisá-la dos procedimentos básicos de segurança mas acabo por deixar a tarefa para a aeromoça sorridente mais próxima.

“Pelo menos estou na janela”, penso eu na vã tentativa de me animar, pouco antes de me lembrar de que o vôo é noturno. Ao meu lado está meu filho mais novo, seguido da minha esposa e do meu primogênito, grandes companheiros de uma viagem inesquecível. O avião decola no horário e o jantar – uma pequena porção de massa com o sabor e a textura de um macarrão instantâneo – é servido com a agilidade de um atendente de fast food. Duas taças (codinome simpático que adotei para os copos plásticos) de vinho não são suficientes para me fazer apagar instantaneamente. A saudade dos “pints” de Guinness já bate forte. Restam ainda quase dez horas de vôo e o primeiro filme está quase no fim. O som dos fones de ouvido é até razoável desde que eu não deixe de pressionar constantemente o plug. Depois de um certo tempo, com meu dedo já dormente, resolvo acompanhar o restante do filme apenas pelas legendas. A ausência de som nunca foi problema para os filmes de Chaplin, por que seria para este? Terminado o filme, só me resta tentar dormir, mas meu filho resolve fazer do meu colo seu travesseiro. Agora não tenho como me mover para a frente e nem para os lados e passo a me condenar por ter reclamado dos metrôs nas horas de pico.

Naquele espaço exíguo, reconheço no piso acarpetado a única forma plana horizontal disponível. Estendo um cobertor junto aos meus pés, ajeito com carinho a esponja que eles chamam de travesseiro e deito ali meu filho. Ele acorda e me pergunta se enlouqueci. “Ainda não”, respondo. Tenho agora um filho esticado no chão e uma cadeira vazia ao meu lado. Claro, não tenho mais onde pisar e jogo minhas pernas para a poltrona desocupada. Minha cabeça está recostada na janela e as turbulências do avião embalam meus pesadelos de cinco minutos de duração. Pouco tempo depois, agora são minhas pernas que estão dormentes. Usando os pés, e surpreso com a minha própria destreza, abro a mesa de refeições em frente à poltrona da minha esposa e apoio minhas pernas ali, torcendo para que o fabricante tenha projetado o sistema de dobradiças para pesos bem maiores do que os 250 gramas de cada refeição. As pontas dos meus pés agora estão pra fora do corredor e meus pesadelos passam a durar não mais do que três minutos, espaço máximo de tempo entre um e outro esbarrão de algum passageiro rumo ao banheiro. Por que será que essa gente não dorme?

Minha esposa e meu filho mais velho não têm melhor sorte e passam a noite entre cochilos esparsos, trechos de filmes mudos, membros dormentes e visões de um avião que parece apenas um ponto imóvel na página de um Atlas (quem tiver menos de 40 anos pode procurar informações a respeito no Google). Ah, se o preço da classe executiva fosse apenas o dobro…

Chegamos finalmente ao Brasil. Meu filho pequeno dormiu bem a noite toda. Quem dera tivéssemos todos no máximo um metro e trinta de altura. Já nós três passamos uma noite de cão, compartilhando um sono nada profundo, raso, superficial. Um sono shallow. De repente, juntos e shallow now passou a fazer um sentido danado pra mim…

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